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D. Jorge da Costa, também conhecido como Cardeal Alpedrinha, foi, nas palavras de Fortunato de Almeida, “um dos prelados mais notáveis da Igreja Católica nos fins do século XV e princípios do XVI”291. Nascido em Alpedrinha, Fundão, em 1406, no seio de uma família humilde, alcançou na corte de Afonso V “grande influência pelo prestígio que lhe resultava da sua extraordinária perspicácia e seguro critério” 292.
Ingressou no Hospital-Seminário de S. Paulo em Lisboa, mais tarde convento de Santo Elói, através do seu tio-avô materno Frei João Rodrigues, reitor do convento, onde estudou latim, filosofia e teologia293. Capelão de Santo Elói e arcipreste de Santarém, foi nomeado mestre da infanta D. Catarina, irmã de D. Afonso V, e educador da infanta D. Joana, tornando-se mais tarde confessor das mesmas294. O próprio Afonso V acabaria por o nomear também nesta função, tendo D. Jorge da Costa como seu conselheiro predileto. Além disso, desempenhou as funções de embaixador de Afonso V em algumas negociações matrimoniais, acompanhou-o nas suas expedições em África, e assegurou o governo do reino durante as suas ausências. Em 1463, foi nomeado bispo de Évora pelo rei, e no ano seguinte passou para o arcebispado de Lisboa295. Em 1476, com o empenho de Afonso V, o papa Sisto IV elevou-o a cardeal do título dos Santos Mártires Marcelo e Pedro296. Foi também eleito governador da Universidade de Lisboa em 1479, ligando-se à cultura do Renascimento297.
As boas relações existentes entre o Afonso V e o cardeal, não se registavam com D. João II, com quem manteria uma relação de inimizade já desde a época em que este era príncipe. Depois de um conhecido episódio ocorrido na ponte de Alpiarça, relatado por Garcia de Resende, onde o rei ameaçou atirar D. Jorge da ponte e afogá-lo, D. Jorge da Costa fugiu para Roma, de onde nunca mais voltou. Instalou-se na cidade a 14 de junho de 1480, tendo alcançado na cúria
291 Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, vol. I, direção de Damião Peres, Porto, Portucalense Editora, 1967, p.
485.
292 Almeida, História da Igreja…, p. 486.
293 Mendonça, D. Jorge da Costa…, pp. 19-24, Dias, “Cartas de consolação…”, p. 299.
294 Mendonça, D. Jorge da Costa…, p. 25. 295 Mendonça, D. Jorge da Costa…, pp. 31-46. 296 Almeida, História da Igreja…, p. 486.
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papal “a mesma fortuna que lograra na corte de D. Afonso V, sendo muito bem recebido por Sisto IV e igualmente estimado e considerado por Inocêncio VIII, Alexandre VI e Júlio II”298.
Apesar de se encontrar longe, D. Jorge acompanhava de perto a política portuguesa. Aquando da crise sucessória causada pela morte do príncipe D. Afonso, o Cardeal Alpedrinha apoiou a rainha, por quem tinha grande estima, em detrimento das pretensões do monarca. De facto, logo após este infortúnio, D. João II apressou-se a tentar legitimar o seu filho bastardo D. Jorge, atitude que desagradou profundamente a D. Leonor. A rainha, que apoiava o seu irmão D. Manuel para suceder no trono, conseguiu o apoio de D. Jorge da Costa, bem como o dos Reis Católicos, ambos influentes junto do papa valenciano Alexandre VI. Como se sabe, D. Leonor acabaria por fazer vingar as suas pretensões pouco tempo antes da morte de D. João II em 1495.
Apesar de tomar uma posição contrária à de D. João II no que toca à legitimação do filho bastardo deste, Manuel Mendonça afirma que a visão política do cardeal coincidia com a do monarca, apoiando as suas pretensões expansionistas e de difusão da cristandade299. Também Fortunato de Almeida afirmou que D. Jorge da Costa foi decisivo na cúria romana em muitos assuntos que respeitavam a Portugal, entre os quais a expedição enviada por D. Afonso V, sob o comando de D. Garcia de Meneses, bispo de Évora, em socorro de Itália contra os Turcos; a dispensa para D. Manuel poder casar com a irmã de sua primeira mulher e para autorizar os casamentos dos cavaleiros das ordens militares (sem embargo do voto solene de castidade, que se lhes comutou em castidade conjugal); a concessão da bula da cruzada contra os Mouros e a demarcação dos descobrimentos e conquistas entre Portugal e Castela, através da sua intervenção nas negociações do Tratado de Tordesilhas300.
D. Jorge da Costa foi um dos mais ricos príncipes da Igreja, acumulando vários benefícios e dignidades eclesiásticas ao longo da vida. Faleceu em Roma, a 19 de setembro de 1508, aos 102 anos de idade, tendo sido sepultado na capela de Santa Catarina da Igreja de Santa Maria do Popolo301.
As cartas consolatórias que D. Jorge da Costa escreveu por ocasião da morte do príncipe D. Afonso revelam bem a sua proximidade relativamente aos assuntos do reino, os seus litígios com D. João II e a sua boa relação com a rainha. Nestas cartas consolatórias, o cardeal
298 Almeida, História da Igreja…, p. 486. 299 Mendonça, D. Jorge da Costa…, p. 44. 300 Almeida, História da Igreja…, p. 486. 301 Almeida, História da Igreja…, pp. 486-487.
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procurou mostrando o seu profundo pesar pela morte do príncipe e consolar a sua família mais direta, nomeadamente os seus pais, D. João e D. Leonor, e a jovem viúva D. Isabel. No entanto, a carta dirigida ao monarca é especial, tanto no seu no seu conteúdo como no seu tamanho, se comparado com o das outras duas cartas. O Cardeal aproveitou a ocasião para lançar algumas farpas ao monarca, escrevendo uma carta muito pessoal, que só se compreende se tivermos presente as más relações entre os dois. No geral, todas as suas cartas “incluem os lugares- comuns da religião cristã sobre a precariedade da vida terrena, a transitoriedade da carne e a perenidade da alma”302, como iremos ver no capítulo seguinte.