Alonso Ortiz foi um humanista do pré-renascimento espanhol, nascido em Villarrobledo, na província de Albacete, entre 1450 e 1460303. Estudou direito canónico e civil na Universidade de Salamanca e em 1467, sendo já bacharel em decretos, foi designado pároco de Nombela, em Toledo304. No entanto, continuou os seus estudos em Salamanca, onde se doutorou. Mudou-se mais tarde para Toledo, desenvolvendo a sua carreira eclesiástica dentro do círculo do arcebispo de Toledo, Alfonso Carrillo305. Depois de não ter conseguido aceder ao posto de cónego da catedral da cidade, por o cabido o ter atribuído a Juan de Morales, Alonso Ortiz decidiu defender os seus direitos perante os tribunais de Roma, acabando por ganhar a disputa306. Desta feita, tornou-se cónego da Catedral de Toledo em 1478, cargo que exerceu até à sua morte em
302 Sá, De princesa…, p. 149.
303 Giovanni María Bertini, “Un Diálogo humanístico sobre la educación del príncipe don Juan”, Fernando el Católico y la cultura
de su tiempo. V Congreso de Historia de la Corona de Aragón, Zaragoza, Institución Fernando el Católico, 1961, p. 41.
304 González Rolán, Baños Baños, Suárez-Somonte, El Humanismo Cristiano…, p. CVII.
305 O círculo de Alfonso Carrillo de Acuña foi um dos importantes círculos literários castelhanos. O seu grupo “contaba con escritores de la talla de Gómez Manrique, con letrados y creadores seglares, la mayoría de origen converso, como Juan Álvarez Gato, Pero Guillén, Antón de Montoro, Rodrigo de Cota, Juan Poeta, Juan de Valladolid, con algunos clérigos humanistas como Juan de Mazuela y Alfonso Ortiz en su época juvenil, y algún que otro intelectual procedente del círculo de Santillana como Pedro Díaz de Toledo y Martín de Ávila”. Este grupo defendia o regresso aos “antigos” (ao mundo greco-romano e o medieval cristão), assim como uma renovação cultural, espiritual, artística e social, dentro de uma nova consciência de comunidade nacional
(González Rolán, Baños Baños, Suárez-Somonte, El Humanismo Cristiano…., pp. XXXVI-XXXVII).
306 Pablo García Castillo, “Los nuevos tratados de educación: el Liber de educatione de Alonso de Ortiz. El humanismo salmantino
de los siglos XV—XVI”, in Cirilo Flórez Miguel, Maximiliano Hernández Marcos, Roberto Albares Albares (eds.), La primera escuela
77
1507307. De acordo com Pablo García Castillo “esta estancia de cinco años en Roma, de 1473 a 1478, unida a un probable viaje anterior fue decisiva en la formación intelectual de Ortiz, el cual no sólo entró en contacto con algunos de los más destacados humanistas italianos, sino que pudo conseguir algunos de los libros que enriquecieron su extraordinaria biblioteca”308, que seria doada em testamento à Universidade de Salamanca.
Para além de ter vivido cerca de trinta anos em Toledo, e dos seus anos de formação em Salamanca e Roma, é provável que tivesse também estanciado algum tempo em Sevilha, cidade onde publicou, em 1493, os seus famosos Cinco Tratados (dentro dos quais se insere o tratado em análise), e onde foi seu mecenas o então arcebispo de Sevilha (mais tarde primaz de Toledo e cardeal) Pedro González de Mendoza309.
Além de cónego, foi núncio apostólico e capelão da rainha Isabel310. Ainda que González Rolán defenda que Alonso Ortiz nunca pertenceu ao círculo mais próximo dos Réis Católicos311 (devido à sua ligação com Alfonso Carrillo, que apoiara Joana a Beltraneja durante a guerra de Sucessão), Bertini afirma que “Ortiz pertence, claramente, al ambiente de la corte de los Reyes Católicos”312 e que "sus relaciones con los Reyes Católicos fueron muy frecuentes”313. Além disso, a mesma autora lembra que os Reis Católicos também passaram largas temporadas em Toledo314, cidade onde Ortiz viveu grande parte da sua vida enquanto cónego, e que o facto de ter sido próximo de Carrillo, González de Mendonça e Cisneros, também lhe teria conferido prestígio junto dos mesmos315. García Castillo defende também uma grande proximidade entre os Reis Católicos e Ortiz, “como lo demuestra el contenido y la dedicatoria de algunas de sus obras y especialmente el tratado que escribió para la educación del príncipe Juan, que probablemente fue un encargo de la misma reina Isabel, que impulsó este movimiento renacentista que renovó la educación y la formación de los jóvenes””316.
307 González Rolán, Baños Baños, Suárez-Somonte, El Humanismo Cristiano…, p. CVII.
308 Garcia Castillo,“Los nuevos tratados”, p. 38.
309 Bertini,“Un Diálogo humanístico…”, p. 41; Garcia Castillo, “Los nuevos tratados…”, p. 38.
310 González Rolán, Baños Baños, Suárez-Somonte, El Humanismo Cristiano..., p. CVIII.
311 González Rolán, Baños Baños, Suárez-Somonte, El Humanismo Cristiano..., p. CVIII. 312 Bertini, “Un Diálogo humanístico…”, p. 38.
313 Bertini, “Un Diálogo humanístico…”, p. 42.
314 Toledo, na segunda metade do século XV, vivia uma vida cultural de certo nível, residindo aí as mais ilustres famílias do reino e saindo dai os melhores cavaleiros para a corte dos Reis Católicos (Bertini, “Un Diálogo humanístico…”, p. 43).
315 Bertini, “Un Diálogo humanístico…”, p. 41.
78
As obras de Ortiz revelam o seu perfil humanista, nelas se registando uma plena harmonização entre o pensamento clássico-pagão e o pensamento cristão317. Foi o caso do tratado consolatório dirigido à princesa D. Isabel pela morte do príncipe D. Afonso, falecido dois anos antes, em 1491. O facto de ter sido escrito em 1493 revela o luto profundo da princesa apesar da passagem dos anos, e a necessidade de lhe trazer alguma consolação, mesmo por parte da Igreja castelhana.