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Styring og kontroll i virksomheten

In document Årsrapport 2018 (sider 30-34)

Mål 3: God tilgjengelighet ved valg

IV. Styring og kontroll i virksomheten

Longe das visões idílicas dos postais ilustrados onde as vaquinhas surgem em pastos ladeados por sebes de hortênsias com o mar ao fundo, aquilo que me atrai e sempre me atraiu nos Açores é a sua dimensão telúrica e marítima, a rudeza delicada da vegetação natural e o sentido de pertença a um lugar, onde se encontram as raízes e também as pessoas mais ou menos familiares. Quando a porta do avião se abre o bafo húmido é que me faz sentir que cheguei, e olhando em volta, seja em que ilha for, a luz é mais branca e os contornos menos nítidos do que no continente, como se as próprias ilhas estivessem a pairar no ar. Depois há a imutabilidade da viagem para casa, que seja em que ilha for é acompanhada de um sentimento de reconhecimento, como se o tempo e o espaço tivessem parado entre a última viagem e esta, e os fios da acção se tivessem de novo a recompor, um pouco como numa peça de teatro onde os intervenientes voltam à cena. Esse reconhecimento é praticamente igual e bastante harmonioso em todas as ilhas, excepto em São Miguel, onde a aceleração do crescimento urbano induz, por vezes, a sensações de desconforto e estranheza, que se esbatem contudo quando se voltam a encontrar as paisagens mais integradas.

A dimensão telúrica é muito presente nos primeiros dias de reencontro com as ilhas e nunca se esbate, mesmo que estes se transformem em anos. Nos primeiros dias é como se umas raízes fossem lançadas a partir dos pés e se agarrassem firmemente à terra e a consciência dessas raízes é muito real, mesmo quando se está a andar em zonas urbanas, e especialmente ao pé do mar. Sinto-me lentamente a integrar naquela sociedade e simultaneamente a transformar numa parte da vegetação natural daquela paisagem, um pouco como uma pessoa que faz fotossíntese ou uma planta que fala. Os alimentos dessa planta são a luz coada pelas nuvens, a humidade do ar e o sentir do mar, das rochas negras e do verde das outras plantas, essas sim reais.

A dimensão telúrica expressa-se na atracção dos olhos pelas rochas de basalto negro que entram mar adentro e na sempre renovada atenção que pretende descobrir as suas irregularidades, apreciar as diferenças de forma e o seu ritmo - ou a sua ausência de ritmo - e encontrar os lugares onde a vegetação costeira já conseguiu encontrar condições suficientes para se instalar. Para além desta escala de pormenor, em que se procuram mundos microcósmicos sob os nossos pés, é também nas grandes formas de relevo que a consciência da terra se encontra: nos vulcões, especialmente os mais recentes, nas grandes caldeiras e nas rochas que pela sua forma e cor configuram elementos de destaque na paisagem. As zonas costeiras ou alvo de intensa erosão são especialmente ricas nestas rochas, a água essa grande modeladora encarrega-se disso. A relação entre a terra e o mar é particularmente importante nestas paisagens, porque é nas zonas costeiras que o dinamismo é maior e mais constante, tanto em termos naturais como humanos. A acção depende muitas vezes do clima, especialmente para quem está de férias ou trabalha ao ar livre. Será que amanhã é possível visitar a Caldeira? Quando será a melhor altura para as plantações? A sociabilidade e a cultura reflectem essa importância do clima, seja nas conversas quotidianas e de circunstância seja nos reencontros mais fraternos. Quando se fala do que se passou ao longo do ano fala-se no tempo: “ tivemos aí uns meses terríveis mas agora está melhor” ou “não se podia sair de casa tanta era a

6 Os diversos significados atribuídos a um lugar ou paisagem são alvo de pesquisa recente. No artigo citado abordam-se sete dimensões

do significado do lugar: identidade individual; identidade familiar; auto-eficácia (capacidade do lugar permitir actividades como o recreio); auto-expressão (capacidade do lugar permitir exprimir aquilo que se é); identidade comunitária; significado económico e significado ecológico. SMITH, J. et al op. cit. p. 361.

179 chuva, agora respira-se” ou “ este inverno foi difícil, vamos agora ver se o Verão ajuda”. Até na música se fala das “Ilhas de Bruma”. Aquilo que para mim é mais difícil quando lá moro não é tanto a chuva mas sim a falta de sol, nas alturas dos nevoeiros de Junho, quando já se pede sol e praia e a bruma teima em instalar- se para ficar durante semanas seguidas. Contudo esta é também uma época de certo modo mágica, uma vez que os nevoeiros sem vento emprestam a tudo um ar de encanto e de mistério que evoca tempos passados e lendas de ilhas que surgem no meio das brumas. A variabilidade das condições atmosféricas é algo que é muito presente nas vivências individuais e o seu efeito é bastante intenso na paisagem.

A relação com a terra é intensa em todas as ilhas mas nota-se especialmente naquelas de onde provêem os meus antepassados, Faial e Pico, ou onde mantenho alguma família como São Miguel e São Jorge. Estas não são no entanto as ilhas que mais me espantam pela sua beleza, a ponto de ficar pasmada: aqui os lugares cabem a duas ilhas situadas em extremos opostos do arquipélago, as Flores e Santa Maria. Para mim as Flores são uma “overdose” de Açores, um concentrado de “espírito do lugar” que, de tão forte, inebria. Lembro-me que na altura em que lá estive não conseguia dormir de noite, na aldeia da Coada, porque o apelo aos sentidos que toda aquela paisagem emanava eram tão intensos que me impediam de descansar, e além disso seria um desperdício dormir quando se podia estar a ouvir as cascatas ou ver os efeitos do luar na aldeia, na vegetação e no mar. Santa Maria, no pólo oposto, evoca um certo ar de familiaridade, como se chegasse a uma paisagem já conhecida, ou facilmente reconhecível. É o traçado medieval e o alcantilado de Vila do Porto, são as habitações dispersas em montes que evocam o Alentejo mas é também a presença de linhas de água permanentes que surpreende, e a presença de elementos singulares muito fortes e que marcam - quer de âmbito natural como os denominados “desertos vermelhos”; quer de âmbito cultural, como um inteligente aproveitamento de situações naturais específicas para a cultura da vinha como se pode verificar nas baías da Maia e São Lourenço mas também na Ponta do Castelo. Ambas expressam o carácter da paisagem dos Açores, a primeira de um modo mais intenso e a segunda de um modo mais suave e subtil. A diminuta tendência para sismos que estas duas últimas ilhas apresentam, assim como o Corvo, permitem a permanência de um património arquitectónico assinalável e de reconhecido valor. No entanto o maior expoente do património arquitectónico pertence à cidade de Angra do Heroísmo, cidade Património Mundial, que com as suas ruas e habitações evoca tanto o espírito renascentista dos descobrimentos e rotas marítimas portuguesas, como a capacidade de resiliência dos açorianos e o esforço actual no sentido da recuperação de um património que em 1980 foi praticamente destruído pelo forte abalo de terra que se fez sentir. Em intensa relação com a Terceira encontra-se, ainda nos dias de hoje a Graciosa, uma ilha que para além dessa relação de vizinhança com a Terceira vive numa certa autonomia, quase se esquecendo que também faz parte do restante Grupo Central, talvez reflexo da sua antiga auto-suficiência agrícola.

Para além das próprias ilhas são, então, as relações que se estabelecem entre elas que me atraem: o Faial tem como ponto central da sua geomorfologia a Caldeira, uma forma de relevo negativa, que está associada a um mecanismo destrutivo explosivo; o Pico é uma ilha mais recente, tem como ponto central o estratovulcão da Montanha do Pico que surge como uma forma de relevo positiva e construtiva, em que se dá a produção de materiais e produtos vulcânicos. Esta polaridade e o facto de se encontrarem face a face confere ao par de ilhas Faial-Pico uma dinâmica de paisagem muito particular, um pouco como se de um casal se tratasse, feminino o Faial, masculino o Pico. São Jorge, constituído por um conjunto de formas construtivas de menor dimensão alinhadas no sentido Nascente-Poente, surge como uma espécie de guardião, de dragão do mar que guarda o par. No entanto, quando se está em São Jorge ou no Pico apercebemo-nos o quanto estas duas últimas ilhas são também parecidas, com o seu planalto central elevado, avizinhando-se como paralelas. As Flores caracterizam-se por mecanismos destrutivos, negativos e por isso femininos, e por uma erosão acelerada, que conduz à existência de filões e chaminés. A sua ilha par, o Corvo, é uma vez mais uma ilha recente e constituída por formas de relevo construtivas, positivas,

masculinas. São Miguel, pela sua escala (em relação às outras ilhas) e diversidade de paisagens é como se de um mundo à parte se tratasse, ele próprio um pequeno “mini-continente”, historicamente colocado numa posição intermediária entre o território continental e o restante arquipélago. Se essa posição intermediária é verdadeira para as relações económicas com o território continental nacional não se verifica com tanta intensidade em relação a outros aspectos da vida em sociedade, já que a Terceira se continua a afirmar como um pólo cultural e o Faial como um pólo de cosmopolitismo associado às travessias atlânticas de barco. A sua importância turística é, contudo, inegável, assim como a beleza das suas paisagens, de onde se destacam as Sete Cidades e Furnas (as mais conhecidas) mas onde se encontram também diversos outros recantos e elementos singulares, como o Ilhéu de Vila Franca do Campo. A relação entre as ilhas é importante na geografia interior do arquipélago, mas também a sua diversidade e singularidade, aquilo que as permite distinguir entre si. Aquilo que as unifica são as impressões sensoriais provenientes de uma matriz comum, são o negro do basalto, o azul do mar, o cinza das nuvens e do céu e do mar em dias de tempo mais agreste e o verde da vegetação. O verde da vegetação, tem, no entanto, cambiantes diversos: verde mais claro e vivo para as pastagens pontuado de amarelo no caso da vegetação herbácea natural; verde-escuro e lustroso da laurissilva; verde seco das urzes; verde vivo no incenso na primavera; verde muito escuro e denso das matas de criptoméria. A sua textura é a suavidade verde das pastagens, a aspereza aguda da vegetação endémica e das criptomérias e a irregularidade das rochas da linha de costa. Os aglomerados urbanos surgem como linhas e núcleos de um modo geral a branco e cinzento. O som da paisagem açoriana é o barulho do mar a bater nas rochas, o som dos brandais dos iates em dias de vento, o grito dos milhafres e dos cagarros.

A importância da geologia na paisagem - ou antes dos efeitos da passagem do tempo - é patente nestas ilhas mesmo quando se olha para elas de uma maneira mais livre: Santa Maria (a ilha mais antiga) assume- se como uma ilha diferente de todas as outras, assim como o Pico (a mais recente). O facto de Santa Maria ser a mais antiga nota-se nos processos erosivos e a sua influência propaga-se ao clima - mais seco porque não há altitude suficiente para a presença constante do característico mar de nuvens das outras ilhas - à vegetação endémica e introduzida e também à ocupação humana. A uma geomorfologia mais próxima das paisagens do Sul do continente português correspondem, compreensivelmente, tipologias de habitação e ocupação do solo que se assemelham às do Algarve e Alentejo. A menor idade do Pico nota-se na sua braveza, nas rochas que ainda não se desagregaram, no pouco solo disponível e na especificidade das culturas agrícolas que aí se encontram. As vinhas necessitam de abrigo e solos quentes, e que melhor lugar para as plantar senão abrigadas entre muros sobre rochas negras? A natureza selvagem, não domesticada, observa-se nas zonas de planalto de altitude onde a vegetação endémica se encontra e ainda se podem observar os processos e ciclos de regeneração da vegetação - a laurissilva em toda a sua diversidade mas também a presença de florestas de cedro-do-mato que evoluem para turfeiras e a existência de zonas de aluimento natural onde a laurissilva se pode novamente estabelecer, após o domínio da turfa. A montanha domina a paisagem e se, para a população residente, já habituada, a sua presença por vezes nem se faz notar, para aqueles que a visitam constitui um dos elementos de atracção principal. Esta montanha e as suas nuvens características fazem parte de um imaginário de rudeza mas também de coragem e sinceridade, atributos necessários para viver em condições secularmente tão agrestes. Este imaginário e a maior proximidade a um estado inicial de desenvolvimento conduz a que sejam consideradas por diversos escritores como Vitorino Nemésio e Raul Brandão como a “ilha ideal”. Igualmente agrestes são as condições do Corvo, não tanto pelo propagado isolamento (que no Inverno ainda acontece mas que a televisão e a internet podem fazer esquecer) mas sim pela pouca terra. Onde é que há espaço para estar melancólico ou mal-humorado numa ilha tão pequena? No Faial, finalmente, sinto-me em casa. É o lugar onde mais se sinto em casa e cada vez mais me sinto em casa à medida que o doutoramento prossegue. É claro que se poderia falar na necessidade de distanciamento em relação ao objecto de estudo, mas tenho consciência que, para

181 além das (óbvias) facilidades de logística não tem - à partida - determinado o fluir das investigações, a não ser pelo facto desta ter sido a ilha escolhida para executar a maior parte do trabalho de campo.

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