• No results found

STYRING OG KONTROLL I VIRKSOMHETEN

In document Årsrapport for 2021 (sider 48-56)

TALL FOR 2021

4 STYRING OG KONTROLL I VIRKSOMHETEN

O conceito de holismo surge pela primeira vez na obra de John Christian Smuts que, em 1926, publicou

Holism and Evolution. Diz respeito a uma ordem mais vasta do que as sociedades humanas que é auto-

organizadora e auto-reguladora. Sinteticamente o holismo refere-se à tendência da natureza formar, de modo criativo, sistemas em que “o todo é maior do que a soma das suas partes”, preposição esta que corresponde ao axioma holístico básico. Este conceito teve várias repercussões, na arquitectura paisagista mas também na ecologia e na geografia. É amplamente divulgado por autores envolvidos no movimento da ecologia da paisagem como Zev Naveh e por geógrafos como Marc Antrop.219

anteriormente citados - por se entender que deste modo se poderia atingir mais eficazmente o objectivo pretendido - contribuir para a apreensão do carácter da paisagem dos Açores - sem complexificar demasiado o tema, até porque se está a abordar um arquipélago.

214 SARAIVA, M. G. op. cit. p. 250. 215 Idem, p. 229.

216 Idem, p. 230. 217 Idem, p. 231. 218 Idem, p. 231.

219 No entanto, já em meados do século XIX Humboldt afirma em “Cosmos: Ensaio de uma descrição física do mundo” que “a natureza,

considerada racionalmente, isto é, submetida no seu conjunto ao trabalho da reflexão, é a unidade na diversidade dos fenómenos, a harmonia entre as coisas diferentemente criadas, na sua forma, na sua constituição própria, nas forças que as animam; é o Todo

39 O holismo enquanto conceito está intimamente associado ao conceito de sistema, e das diferentes possibilidades de relacionamento que se podem estabelecer entre as partes de um sistema, ou seja, ao nível da sua estrutura. Naveh e Lieberman definem sistema como um conjunto de elementos num determinado nível interligados por relações que são mais fortes do que aquelas que se estabelecem com o ambiente ou com outros elementos.220 É o conjunto de relações entre as partes constituintes de um sistema que conduz a que o todo seja maior do que a soma das suas partes. Naveh refere que o termo “maior” que se encontra no axioma holístico básico não se refere a qualquer quantidade mensurável mas sim à necessidade do observador complementar o conjunto das observações que podem ser concretizadas sobre as partes separadas por observações adicionais, necessárias para descrever o comportamento do conjunto, quando integrado no sistema. “Ao proceder a este processo de integração, ele de facto não está a fazer mais do que restaurar conteúdos de informação que se perderam na análise progressiva de um universo unitário em elementos abstractos.”221

O holismo aplicado aos sistemas vivos - ecossistemas e paisagens - é um conceito de organização hierárquica constituído por sistemas abertos estratificados a vários níveis, em que cada um dos níveis é composto pelos níveis inferiores em conjunto com novas qualidades que emergem do próprio nível.222 Os níveis superiores organizam os níveis inferiores e proporcionam-lhes contexto, e a relação entre os diversos níveis é geralmente estabelecida de modo que a função de um sistema se encontra relacionada com os subsistemas de nível inferior, enquanto o propósito se encontra relacionado com o supersistema onde este se encontra integrado.223 Esta regra de organização hierárquica é partilhada por partículas subatómicas, organismos, ecossistemas e paisagens e tem como chave o relacionamento.

A introdução do conceito de holismo da ecologia teve um efeito cultural bastante forte uma vez que dotou a comunidade científica da convicção de que “existe algures uma ordem última, um equilíbrio, um sistema de relações racional e lógico”224 ainda que este não seja percepcionado uma vez que é muito vasto. Este conceito pretende substituir ou complementar a análise paramétrica parcelar - em que se processa à fragmentação do objecto de estudo em partes cada vez mais pequenas - por uma abordagem de estudo que considere o todo de um modo mais orgânico, com ênfase na “integração, conectividade, síntese e complementaridade.”225 A aplicação deste conceito conduziu a mudanças de paradigma em áreas como a ecologia e a geografia e ao surgimento de novas áreas de conhecimento como a teoria dos sistemas.

Marc Antrop refere que, na tentativa de se conciliar o desenvolvimento sustentável com a preservação da paisagem foram propostos diversos modelos provenientes da economia com pretensa aplicação no diagnóstico da paisagem, mas que este tipo de modelos são contrários à abordagem da paisagem de um modo holístico,226 já que a consideram apenas como um recurso e não como um bem em si própria.227

penetrado por um sopro de vida. O resultado mais importante de um estudo racional da natureza é o de discernir a unidade e a harmonia nesse imenso agregado de coisas e de forças, abranger com um mesmo ímpeto o que é devido às descobertas de séculos passados e às do tempo em que vivemos, analisar o detalhe dos fenómenos sem sucumbir à sua massa.” Cit. por RIBEIRO, O. – “Paisagens, regiões e organização do espaço”. “Finisterra: revista portuguesa de geografia”. Lisboa: Centro de Estudos Geográficos. Vol. XXXVI, nº 72, (2001) p. 31.

220 NAVEH, Z.; LIEBERMAN, A. op. cit. p.27.

221Idem, ibid.

222 ANTROP, M. (2006) op. cit. p. 50.

223 NAVEH, Z. op. cit. p.12.Considerando uma floresta como um sistema a um determinado nível, cada uma das árvores pode ser

considerada um subsistema de um nível inferior e a paisagem onde essa floresta se integra o supersistema de nível superior.

224 NDUBISI, F. op. cit. p. 18. 225 NAVEH, Z. op. cit. p. 8.

226 ANTROP, M. (2006) op. cit. p. 187-197.

227 Um modo reducionista de encarar o holismo designa-o como um tipo de abordagem à paisagem que integra principalmente os

factores sociais, económicos e políticos das sociedades contemporâneas, ou seja as necessidades de uso do solo e os valores que as sociedades actuais atribuem à paisagem. Este tipo de interpretação do conceito, quando apenas encarado sob a perspectiva económico-social, sem ter em conta implicações mais vastas, conduz apenas a questões como: “que tipo, quantidade, e intensidade de modificações na paisagem são aceitáveis para que se mantenha um grau óptimo de estabilidade ecológica e produtividade? Porque circunstâncias sociais, económicas e políticas é influenciado o uso óptimo do solo num determinado território, e de que modo é influenciado pelas forças tecnológicas?” NDUBISI, F. op. cit. p. 54. Estas questões são válidas mas parcelares, já que não têm em conta a globalidade de que é constituída a paisagem.

Conceitos como capital natural e social e economia de conservação228 e capital de qualidade de vida focam- se na economia sustentável e não na paisagem, e nestes diversos aspectos da paisagem surgem de modo parcelar e não integrado.229 Este autor argumenta que a paisagem é por definição dinâmica, e que as mudanças fazem parte da sua definição, o que conduz a que seja necessário definir concretamente em que é que a sustentabilidade de uma determinada paisagem consiste. Assim, “as paisagens sustentáveis não serão uma ficção se as qualidades da paisagem forem bem definidas, e o contexto da mudança e do futuro funcionamento [mas não o intervalo de tempo] for estabelecido e fixado. As paisagens sustentáveis permanecerão utópicas se se estabelecerem horizontes de tempo para a gestão da paisagem demasiado precisos.”230 É, portanto, necessário dar tempo para que a paisagem se auto-concretize. Defende-se que uma via para a sustentabilidade da paisagem - integrada numa abordagem holística - poderá ser a apreensão do carácter da paisagem, seguida da formulação de um conjunto de orientações que expressem o seu valor, com a identificação das ameaças a que o seu carácter se encontra sujeito e das suas potencialidades, entendidas como modos de potenciar o carácter da paisagem. É este processo que se pretende usar nesta investigação, ao nível do caso de estudo.

A abordagem holística é concretizada, nesta investigação, quando se procede à síntese dos diversos conteúdos resultantes da aplicação das metodologias anteriores. Pretende-se, no entanto, que esta não seja apenas uma síntese parcelar mas acima de tudo uma abordagem coerente e unificadora de informação, que implique a assimilação dos diversos aspectos da paisagem, naturais e humanos, de um modo coerente e sustentável.231 Utilizam-se os dados provenientes de outras abordagens, como a paisagista, a paramétrica e a fenomenológica, integrando-os de modo coerente e sem se sobrepor a elas ou pretender encontrar uma fórmula última de identificação do carácter da paisagem, já que este é por natureza dinâmico. Assim, se por um lado, a abordagem holística permite uma visão integradora da paisagem, uma perspectiva demasiado utilitarista dos seus resultados desta abordagem poderá conduzir, ela própria, a uma cristalização de uma imagem de paisagem que é contrária à sua própria definição. Para que esse facto não aconteça a aproximação ao carácter da paisagem dos Açores deverá ser suficientemente flexível e abrangente para integrar diversas concepções de paisagem e integrar também a dimensão temporal.

É necessário estabelecer-se metas para a conservação e gestão da paisagem que sejam flexíveis dentro de um determinado intervalo de mudança mas que se estendam no tempo de modo contínuo, de preferência sem limite temporal ou com um limite temporal bastante alargado.232 Os críticos das metodologias holísticas referem que resultados não quantificáveis não são facilmente comparáveis nem apresentados aos decisores e à opinião pública. No entanto a perda de informação relevante sobre uma paisagem, simplesmente porque não é quantificável, deverá ser evitada por meio deste tipo de metodologias já que, como refere Frank Egler “nem tudo o que pode ser quantificado, conta, mas existem muitas coisas que não podem ser quantificadas, que contam.”233 O resultado de análises holísticas da paisagem é frequentemente um conjunto de directrizes ou cenários, em que se faz a predição da dinâmica da paisagem em função de estratégias de uso do solo e políticas de gestão e conservação diferenciadas.234

Nesta investigação a abordagem holística conduz à apreensão do carácter de uma paisagem concreta, a do arquipélago dos Açores, por meio de um conjunto de aspectos da paisagem e de propriedades fundamentais inerentes a ela. Esses aspectos são denominados, no âmbito deste estudo de pontos-chave do carácter da paisagem uma vez que, após a aplicação da metodologia preconizada ao caso de estudo dos

228 Os conceitos de capital natural e social, e de economia da conservação são propostos por diversos autores, entre os quais se

destaca o Ecotrust. ANTROP, M. (2006) op. cit. p. 192.

229 Idem, p. 187-197. 230 Idem, p. 195.

231 ANTROP, M. (2006) op. cit. p. 190.

232 Intervalo esse estabelecido de acordo com critérios fixados mas variáveis para cada tipo de paisagem concreta. 233 Cit. por NAVEH, Z. op. cit. p.12.

41 Açores, se chegou à conclusão que diversos aspectos considerados não são propriamente elementos no sentido físico do termo, mas sim características definidoras que se encontram mais ou menos presentes conforme a paisagem. Assim, paisagens que se encontram próximas de expressar todo o seu potencial possuem um determinado carácter da paisagem enquanto outras, em que as características definidoras de maior valor não se encontram tão expressas, podem eventualmente apresentar-se descaracterizadas.

In document Årsrapport for 2021 (sider 48-56)