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6 ÅRSREGNSKAP
A abordagem paramétrica continua vincadamente presente nos estudos de arquitectura paisagista, mas apesar de se constituir como uma metodologia válida necessita de um maior nível de flexibilidade.239 Neste tipo de abordagem pretende-se uma maior objectividade e rigor, no entanto essa objectividade é sempre relativa, mesmo quando se lidam com modernas tecnologias de processamento e criação de informação como os sistemas de informação geográfica, porque está sempre dependente do estabelecimento de critérios de avaliação associados ao diagnóstico, que são subjectivos. Acresce que a abordagem paramétrica dificilmente integra a componente sensível, sensorial e emocional, da paisagem. As críticas surgidas desde os anos 80 do século passado referem que esta não permite entender o carácter da paisagem devido à subjectividade inerente ao conceito. Referem também que a excessiva parametrização limita a criatividade. O pós-modernismo advoga a necessidade de contextualização dos estudos e da importância do carácter da paisagem, que deverá ser apreendido para ser preservado. No entanto, mesmo dentro desta corrente, nas abordagens fenomenológica e estruturalista da paisagem se encontraram excessos relacionados com a crença absoluta numa continuidade histórica e com a crença da experiência estética como uma experiência de reconhecimento, reduzindo a importância que a surpresa e a aprendizagem têm nos processos. Ao conjunto de soluções que possam ser encontradas para a intervenção numa paisagem a partir da contextualização geográfica e da historicidade é necessário conjugar a criatividade, que provém quer das faculdades intuitivas e de imaginação quer da humildade de se aprender com a natureza.
Quando do processo de apreensão do carácter da paisagem é importante a assunção da subjectividade do observador, facto apontado por Cancela d’Abreu et al quando referem que “a paisagem tem uma componente objectiva, composta por uma combinação de factores abióticos e bióticos (suporte físico, meio biológico e acção humana), mas também uma componente subjectiva, que corresponde à mesma combinação quando analisada por um observador”.240 Para Luís Ribeiro “a abordagem determinística, baseada numa aproximação espacial analítica, providencia uma compreensão da distribuição espacial dos recursos na paisagem, mas não uma compreensão dos significados humanos a eles atribuídos. A mera análise das características físicas e dos processos não é suficiente para compreender o espírito do lugar.”241 Considera-se que a intuição e a imaginação - privilegiadas na abordagem fenomenológica - devem ser duas preciosas ferramentas ao dispor do arquitecto paisagista que, após uma análise cuidada das variáveis que influem numa determinada questão, e um contacto aprofundado com o lugar e com as pessoas que aí vivem e trabalham, deverá permitir-se arriscar a criar – neste caso uma abordagem ao carácter da paisagem que permita a sua apreensão e uso em situações concretas - respeitando o lugar e as componentes naturais e culturais a ele associadas. A posição metodológica defendida neste estudo para a apreensão do carácter de uma paisagem passa pela integração numa abordagem holística das metodologias paramétrica, paisagística e fenomenológica por meio de um conjunto de passos que se descrevem seguidamente.
O primeiro passo é a visitação prolongada do lugar. Considera-se que o carácter da paisagem poderá ser mais facilmente ser apreendido caso o lugar, neste caso os Açores, seja alvo de um conhecimento experiencial. Refira-se que, já no início do século XX, Geddes preconizava que o percorrer atento da área de estudo seria uma etapa importante para absorver a realidade concreta da vida regional, que deveria ser efectuado tanto pelos técnicos como pelo público em geral, numa óptica de planeamento participativo.242 O arquipélago dos Açores foi inteiramente visitado entre os anos 2006 e 2008, procedendo-se a levantamentos de campo em todas as ilhas que integraram a observação local e registos escritos e fotográficos. Estas visitas duraram um mínimo de três dias em cada ilha e permitiram um melhor entendimento da sua paisagem
239 RIBEIRO, L.P. op. cit. p. 20.
240 CANCELA D’ABREU, A. et al(2004) op. cit. p.27. 241 RIBEIRO, L.P. op. cit. p. 98.
43 e das semelhanças e diferenças entre as várias ilhas. A recolha de informação bibliográfica constitui o segundo passo, que se concretiza na pesquisa da metodologia que melhor se adequa ao objecto de estudo, na recolha de dados sob a forma de documentos escritos, imagens e cartografia, e num esforço de pesquisa multidisciplinar que abrange dados provenientes da arquitectura paisagista mas também da ecologia da paisagem, geografia e outras áreas do conhecimento.
A fase seguinte consiste na apreensão do carácter da paisagem açoriana (fase A). Procede-se inicialmente à análise paramétrica (capítulo 2), tendo como fonte a bibliografia e cartografia temática disponível assim como fotografias aéreas. A metodologia paramétrica é usada quando se procede a uma discretização dos elementos componentes da paisagem e a uma análise independente desses componentes, como se de parâmetros se tratassem. Os elementos em questão são a geologia, a geomorfologia, os solos e a fisiografia, o clima, a vegetação, a fauna, o homem, suas sociedades ao longo da história, sistemas de ocupação cultural do território e elementos culturais da paisagem. Estas componentes são analisadas independentemente, procedendo-se posteriormente a diagnósticos e sínteses parcelares que constituem uma das bases da abordagem holística. Seguidamente procede-se à aplicação de uma metodologia paisagista, mais abrangente que a anterior (capítulo 3). A esta metodologia vai-se buscar um modo de interpretação da paisagem que se foca tanto na componente estética como ecológica e cultural para a compreensão do lugar. Integra a descrição das diversas ilhas e a análise e diagnóstico das grandes unidades de paisagem e elementos singulares.
Procede-se, em paralelo com a aplicação da metodologia paisagista, a uma abordagem fenomenológica (capítulo 4) que inclui dados provenientes da experiência pessoal da investigadora por meio do uso da linguagem natural característica do método gestalt. Incluem-se também nesta fase as visões da paisagem por parte de escritores e da população. Pretende-se abranger visões do passado e presente do imaginário açoriano, por meio da inclusão de dados provenientes do folclore e de inquéritos. A abordagem holística (capítulo 5) consiste na integração de todos os dados provenientes das diversas metodologias de um modo unificado, de modo a que o todo seja mais do que a soma das suas partes, já que inclui os diversos diagnósticos parcelares mas também a sua conjugação estruturada. Esta é a fase em que se procede à síntese do carácter da paisagem açoriana - por meio da identificação dos pontos-chave da sua paisagem e das suas principais propriedades e se avalia a validade da hipótese inicial. É também a fase em que se procede à identificação das ameaças a esse carácter e das potencialidades caso os conflitos presentes sejam resolvidos, e se avançam hipóteses para estratégias de conservação e gestão da paisagem numa perspectiva de desenvolvimento sustentável, fazendo-se deste modo a ligação para a etapa seguinte da investigação.
A etapa subsequente consiste na abordagem às áreas protegidas açorianas aplicando-se os conhecimentos adquiridos sobre o carácter da paisagem açoriana aos casos de estudo da fase B. É identificado como caso de estudo à escala regional o conjunto das áreas protegidas existentes nos Açores (capítulo 6) procedendo-se a uma análise das áreas protegidas existentes, dos valores nelas preservados e das estratégias de gestão a elas afectas, à luz dos aspectos referenciados como definidores do carácter da paisagem e das acções de intervenção preconizadas pela Convenção Europeia da Paisagem. Analisam-se também as ameaças ao carácter da paisagem a que as áreas protegidas se encontram sujeitas, assim como as potencialidades que estas apresentam, no que diz respeito à resolução de conflitos e expressão do carácter da paisagem. Procede-se também à identificação dos mais recentes planos e projectos concretizados nas áreas protegidas.
Como caso de estudo à escala do lugar é abordada a Paisagem Protegida do Monte da Guia (capítulo 7). Na aproximação a este caso de estudo procede-se à apreensão do carácter da paisagem por meio da metodologia anteriormente descrita e elabora-se sobre as suas potencialidades e ameaças a que o carácter da paisagem se encontra sujeito. No Monte da Guia realizou-se trabalho de campo que consistiu num ensaio
exploratório de plantação de vegetação endémica e em duas acções de sensibilização ambiental com a participação pública, que consistiram na erradicação de vegetação invasora e plantação de vegetação endémica com a ajuda de voluntários. A partir do trabalho de campo obtiveram-se dados para informar futuras intervenções nesta área protegida. Esta acção concreta permitiu entender de modo mais profundo esta área protegida específica e a relação entre ela e as pessoas que com ela convivem. A inclusão das opiniões do público relativas aos elementos definidores do carácter da paisagem tem lugar neste estudo por meio de inquéritos, concretizados quando das acções de sensibilização ambiental.
No que diz respeito aos Açores, constata-se que apesar de existirem diversos estudos que abordam de modo genérico a paisagem das ilhas, ou em pormenor a paisagem de algumas ilhas, não existem estudos concretizados de modo sistematizado sobre todas as ilhas no campo da arquitectura paisagista. A excepção é o já referido “Livro das Paisagens dos Açores”, em que se procede à descrição da paisagem de cada ilha e à definição e caracterização de unidades de paisagem e elementos singulares para cada ilha do arquipélago. A utilização de uma metodologia composta por diversos tipos de abordagem tem como objectivo a apreensão do carácter da paisagem, na tentativa de, sem perder o rigor técnico, conseguir chegar ao cerne do genius
loci açoriano, retendo o conhecimento das coisas - materiais e imateriais - com as quais a paisagem é feita,
mas integrando também a visão de conjunto que permite a revelação de uma identidade única e singular. Pretende-se que os resultados sejam validados simultaneamente pelas diversas metodologias e que sejam, por um lado, concretos e operativos, mas por outro flexíveis, de modo a que o conceito de carácter da paisagem dos Açores proposto possa integrar os mais diversos conteúdos - formais, funcionais e simbólicos - que possam vir a ser imaginados para o lugar. O plano metodológico de investigação descrito segue o esquema seguidamente apresentado.
45 Figura 6 - Plano metodológico da investigação.
As conclusões a que se pretende chegar dizem respeito aos seguintes pontos:
Conclusões relativas à eficácia da conjugação de metodologias proposta para a apreensão do carácter de uma paisagem concreta, a do arquipélago dos Açores;
Conclusões relativas à importância do conceito de carácter da paisagem - tal como é entendido neste estudo e aprofundado no capítulo 5 - para o aprofundamento do conhecimento da paisagem deste arquipélago e avaliação dos valores de paisagem naturais, culturais, e sensoriais presentes, identificação de ameaças a que se encontram sujeitos e potencialidades de expressão do carácter da paisagem; Conclusões relativas à aplicação do conceito de carácter da paisagem para o aprofundamento do
conhecimento relacionado com a gestão das áreas protegidas açorianas, valores de paisagem preservados, ameaças a que se encontram sujeitas e potencialidades de expressão do carácter da paisagem caso os conflitos presentes sejam resolvidos;
Conclusões relativas à importância da utilização do conceito de carácter da paisagem no caso de estudo à escala do lugar, a Área de Paisagem Protegida do Monte da Guia, especialmente no que diz respeito à operacionalidade na identificação das características identitárias da paisagem, valores, ameaças e potencialidades presentes e na abrangência do mesmo; conclusões relativas à identificação por parte do publico dos valores considerados.
A abordagem paramétrica constitui uma base de trabalho e de relacionamento com as outras disciplinas científicas que elaboram sobre aspectos da paisagem e cujo contributo é de fundamental para a apreensão do carácter da paisagem, é a usada no capítulo 2 intitulado “componentes do carácter da paisagem”. A abordagem fenomenológica contribui para este estudo com aspectos relacionados com a percepção do lugar e no âmbito deste estudo intitula-se como “a percepção da paisagem”.
A abordagem paisagista contribui com aspectos relacionados com a forma da paisagem, relacionando-a com morfologia de cada ilha e com elementos concretos da sua paisagem por meio da corologia. A identificação de unidades de paisagem e elementos singulares é a base da apreensão da paisagem por meio desta metodologia, no âmbito desta investigação. Por ser uma metodologia mais integradora que a paramétrica e que permite, simultaneamente, lidar com grandes quantidades de informação no capítulo a ela respeitante - “a paisagem das ilhas” - procede-se a um pré-diagnóstico onde se abordam as dimensões natural e cultural da paisagem e a sua dinâmica. No capítulo “ a paisagem unificada” dá-se expressão à abordagem holística por meio da integração dos dados provenientes das anteriores.
A aproximação ao conceito de carácter da paisagem formulada é usada para analisar as áreas protegidas do arquipélago e aspectos relacionados com a sua gestão. Ao nível do arquipélago são identificados valores naturais e culturais presentes nas áreas protegidas, ameaças ao carácter da paisagem e suas potencialidades, que consistem em formas de resolução de conflitos presentes que, sendo implementadas, permitem uma expressão mais intensa do carácter da paisagem. Abordam-se também alguns planos e projectos mais recentes concretizados nas áreas protegidas. Ao nível do caso de estudo da área de Paisagem Protegida do Monte da Guia procede-se à aplicação do conceito formulado na identificação das características identitárias e singularidade da paisagem, e dos valores, potencialidades e ameaças presentes e apontam-se vias de resolução das questões mais prementes através do trabalho de campo. O trabalho de campo visa evidenciar a importância da vegetação natural endémica e das acções de recuperação de paisagem para a potenciação do seu carácter. Visa também incluir a população no processo de apreensão do carácter da paisagem.