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A fim de elucidar a conversão de Agostinho, torna-se necessário, num primeiro momento, verificar de que maneira a leitura de Hortênsio de Cícero o influenciou quatorze anos antes. Agostinho se põe a contar este fato sobrevindo a ele, e o descreve, ao menos em parte, à maneira da cena do

Tolle, lege: ele nos diz que o Hortênsio produziu, sobre ele, um efeito repentino

pleno de um incrível e inflamado desejo de sabedoria, toda vã esperança lhe

56 Cf. NODARI, P. A busca de Deus nos Solilóquios de Agostinho. In: Teocomunicação, v. 41, n. 1, 2001, p. 157-58. 57 Cf. Van der LINDEN, J. Ratio et intellectus dans les premiers écrits de saint Augustin. In: Augustiniana (1957), p

pareceu indigna; ele se sente indeciso de voltar a Deus, ele ardia em livrar-se das coisas da terra em direção a Ele. A única objeção a Hortênsio é que nome de Cristo (do qual o seu tenro coração alimentou o amor e, ao mesmo tempo, o leite materno) estava ausente. Ele resolveu consultar as Escrituras e diz: ”o que senti, quando tomei nas mãos aquele livro [a Bíblia] não foi o que acabo de dizer, senão que me pareceu indigno compará-lo à elegância ciceroniana. A sua simplicidade repugnava ao meu orgulho a minha inteligência não lhe penetrava no íntimo”58. Seu orgulho crescente, pois, se revoltava diante da humildade da Escritura, ela era, entretanto, feita para os pequenos, e foi, por isso, que ele caiu no maniqueísmo: “caí, assim [dirá ele], nas mãos de homens orgulhosamente extravagantes, demasiado carnais e loquazes” 59.

É o próprio Agostinho que reprova os dois acontecimentos, a saber; o desprezo pela simplicidade das Escrituras e a aceitação do maniqueísmo. Com efeito, quando ele descreve o episódio final de sua conversão, ele se lembra de ter sido convertido uma primeira vez por Hortênsio, de não ter sido capaz de conformar, então, sua existência e de ter deixado, para mais tarde, a decisão de abraçar uma vida virtuosa. Não se pode negar que descrevendo o efeito de Hortênsio, Agostinho não tenha antecipado as grandes linhas e, mesmo, muitas expressões verbais que ele deveria empregar igualmente para descrever o acontecimento mais memorável que devia recordar mais tarde.

Neste afã pela busca da sabedoria, outrora despertada pela leitura de Hortênsio, de Cícero, e, agora, no encontro que realiza com a filosofia neoplatônica e sua relação com o cristianismo, em seu processo de conversão a Deus, percorre três fases distintas: a leitura das obras neoplatônicas, comparação de seu ensinamento com o das Escrituras, em particular com o de São Paulo, e consulta a São Paulo para obedecer a injunção Tolle, lege. Segundo Paul Henry “de todos os filósofos neoplatônicos, Plotino só é citado nos documentos que nos reportam à época da conversão de Agostinho” 60.

58 Conf. III, 5.

59 Conf. III, 6.

Entre as obras, lidas por Agostinho, pode-se citar o tratado sobre o Belo (cf. En I, tr,6, cap 8-9)61 e o tratado das Três hipóstases (cf. En V, tr. 1, cap. 2)62.

A leitura dos livros Platônicos havia despertado, ainda mais, em Agostinho, o interesse pela Verdade63. Podemos afirmar que tais livros tinham seus méritos, como filosofia, mas estavam pervadidos de orgulho intelectual: faltava-lhes a simplicidade do Evangelho e a necessidade da graça redentora de Cristo” 64.

“Por conseguinte [relata Agostinho], lancei- me avidamente sobre venerável estilo (da Sagrada Escritura) ditado pelo vosso Espírito, preferindo, entre outros autores, o apóstolo São Paulo [...] Compreendi o aspecto único daqueles escritos e ‘aprendi a alegrar-me com temor’ (Sl 2,11). Comecei a lê-los e notei que tudo o que de verdadeiro tinha lido nos livros platônicos, se encontrava naqueles” 65.

Observa-se, neste pormenor, uma grande diferença entre as Sagradas Escrituras e os livros platônicos, pois nestes não há menção à graça redentora,

61 A respeito do tratado sobre o Belo: é o primeiro escrito de Plotino (1-6) com efeito por um dos mais expressivos de

seu método. O filósofo, aí, estuda passo a passo o belo sensível, cap. 2-3, o belo intelectual ou moral, cap.4-5; ele analise o papel purificador das virtudes que elevam a alma até o Bem (cap. 6-7). O cap. 7, que é um dos mais belos de Plotino, descreve as alegrias da posse do Bem e os sacrifícios que ela exige; o autor consagra os dois últimos capítulos à visão intelectual do Bem e do Belo. Estas páginas sobre as condições da visão intelectual, bem podem, com efeito, ter inspirado a Agostinho tal ou tal fórmula dos n. 16-23 em particular. A beleza inteligível não se produz fora, é preciso entrar em si mesmo para encontrá-la: “aquele que pode, que vá, pois, e a siga até dentro de sua intimidade” (En I, 6, 8).

62 No primeiro tratado da Vª Enéada, a propósito das três hipóstases, é descrita, entre outras coisas, a riqueza interior

da alma que, por certos aspectos, contém a Alma do mundo e da Inteligência, no que ela toca o Ser supremo. É porque a alma, entrando em si mesma, pelo recolhimento une as hipóstases em um ato simples que é, com efeito, um puro esforço de procura metafísica. (cf. CAYRÉ, F. Initiation a la philosophie de saint Augustin, p. 164).

63O neoplatonismo constitui, por assim dizer, a base filosófica de Agostinho. A influência neoplatônica aparece,

sobretudo, na elaboração do homem interior, coroada pela mens, que equivale ao noûs neoplatônico, compreendendo Deus, pois enquanto Ele encontra-se no interior do ser humano, quanto lhe é superior. Ademais, a influência Paulina fornece a Agostinho a visão soteriológica da história, onde a graça exerce um papel considerável (cf. NODARI P. op.

cit., p. 156).

64 Cf. Conf. VII, 20. 65 Conf. VII, 21.

nem a Encarnação de Cristo, mas apenas uma referência ao Logos Eterno identificado como sendo Deus.66.

Este encontro de Agostinho com os livros Platônicos, traduzidos do grego para o latim por Marius Victorinus, pode ser caracterizado como sendo mais um momento de reflexão pessoal, intensamente vivido, do que um mero conhecimento intelectual.

Assim começa a relação de uma experiência legítima que se pode chamar mística, formulada com palavras que fazem apelo a temas especificamente plotinianos, mas livremente assumidos num contexto espiritual que se pode qualificar de cristão.

A leitura de São Paulo convenceu Agostinho de que a “verdadeira sabedoria” é sinônimo de “verdadeira felicidade”. Esta somente pode ser encontrada em Deus, onde a razão não atinge, mas que é preciso transcender a própria razão pela graça divina. Segundo Sciacca, a filosofia não dispõe de todos os meios para alcançar a felicidade, mas unicamente Deus pode proporcionar ao ser humano os meios para alcançá-la e realizá-la. Assim, a filosofia encontra-se em estreita relação com a religião, estabelecendo uma convergência: a filosofia, atividade humana e racional, encontra seu complemento no Verbo ou Verdade de Fé, sem negar ou perder a sua positividade67.

Para Agostinho, quando a alma se volta para Deus e entra na sua luz. é que ela percebe sua situação, tomando consciência do abismo que a separa de Deus como uma diferença ontológica entre a criatura e o criador. Agostinho prossegue fazendo dizer ao Ser que lhe envie esta fulgurante luz: “Eu sou o alimento dos fortes: cresce e tu me comerás; e tu não me trocarás em ti como o alimento de tua carne, mas és tu que serás mudado em mim”, isto é inserindo no relato da crise vivida por ele uma dezena de anos diante de a uma componente eucarística. A experiência mística culmina pouco depois. Para

66 Cf. Conf. VII, 9.

Agostinho, que se lamenta – ao lembrar-se recentemente de suas incapacidades de conceber o incorpóreo – e que pergunta se “a verdade não é nada, visto que ela não se estende nem no espaço finito, nem no infinito”, Deus

responde “de longe” como ele tinha respondido a Moisés, lhe revelando seu “Nome de eternidade”: “mas sim! Eu sou, Aquele que Sou (Ex 3,14)”. E

Agostinho acolhe em mística esta resposta: “e eu ouvi como se ouve no coração, e não tinha nada, absolutamente a duvidar”.

Como ficou evidenciado, existe uma forte influência da filosofia neoplatônica nos escritos do jovem Agostinho, recém-convertido. Procurar-se-á analisar essa influência como nos é apresentada nos Diálogos de Cassicíaco, especialmente na Solilóquia e na De beata vita.