2.1 Prognoser for forbruk og nettutvikling
2.1.3 Elektriske biler
O estudo das relações internacionais caracteriza-se pela divergência ideológica e metodológica entre as diferentes abordagens. Tais características enriquecem o debate, mas também mostram o conflito tanto empírico quanto teórico nas abordagens das decisões e dos temas. A variedade, muitas vezes, está associada à condição histórica onde a teoria foi estabelecida e reflete as circunstâncias dos respectivos países no qual as ideias são defendidas. A tendência, com frequência, é fruto do momento e mostra que as teorias das relações internacionais quase sempre acompanham o cenário internacional. Não é a toa que a teoria do idealismo ganhou força depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), na tentativa de evitar um conflito dessa magnitude novamente:
Sem a contenção das instituições democráticas e sob pressão de seus generais, os líderes autocráticos tomaram decisões fatais que levaram seus países a guerra. Já os governos democráticos da França e da Grã-Bretanha, por sua vez, foram arrastados para o conflito por meio de um sistema entrelaçado de alianças militares. Embora tais acordos tivessem a intenção de manter a paz, eles impulsionaram todos os poderes europeus a participar da guerra uma vez que qualquer grande poder ou aliança estava envolvido com o conflito. Quando a Áustria e a Alemanha confrontaram a Sérvia com Forças Armadas, a Rússia foi obrigada a ajudar a Sérvia e recebeu o apoio compulsório da Grã-Bretanha e da França. Para os pensadores liberais da época, a teoria ‘obsoleta’ da balança de poder e o sistema de alianças precisavam ser fundamentalmente reformados para evitar que tal calamidade ocorresse novamente303.
Na época, o presidente americano Woodrow Wilson, antigo professor universitário de ciência política, pensava que a única forma de impedir novas guerras era levar valores democráticos e liberais à Europa e ao resto do mundo. Entre os pontos apresentados por ele,
302 Idem, Ibidem, p. 18. 303
JACKSON, Robert; SORENSEN, Georg. Introdução às Relações Internacionais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 63.
121 no Congresso em janeiro de 1918, estavam o fim do serviço secreto, a liberdade de navegação nos mares, o fim das barreiras para o livre comércio, a redução de armamentos, o princípio de autodeterminação dos povos contra o colonialismo e a criação de uma associação de nações com o objetivo de garantir a integridade e a independência política das grandes e pequenas nações, o que resultou na criação da Liga das Nações na Conferência de Paz de Paris, em 1919.304
Dois aspectos são destacados na defesa de Wilson. O primeiro é a confiança na democracia liberal que substituiria os governos autocráticos Europeus, com a convicção de que as democracias não fazem guerras entre si. Além disso, a criação de uma organização internacional que, com base em leis e regras, poderia substituir a tradicional balança do poder dos estadistas e teóricos realistas. A noção que instituições internacionais poderiam promover a paz e a cooperação é um pensamento caro aos liberais. A fé de Woodrow Wilson de que a paz seria alcançada por uma organização internacional remete ao pensamento do filósofo liberal mais famoso que tratou da ordem internacional: Immanuel Kant, com “A Paz
Perpétua”.
No entanto, a Liga das Nações não conseguiu estabelecer a paz desejada e uma onda de autoritarismos começou a varrer a Europa com regimes totalmente militarizados. Mesmo o senado americano não ratificou o acordo da Liga devido à tradição isolacionista dos Estados Unidos, assim como não queria envolver-se com as questões difíceis dos europeus. Wilson sofreu a maior derrota dentro do seu próprio país e, portanto, já nos anos 30, ela estava completamente ineficaz. Contudo,
The League of Nations failed to take hold in America because the country was not yet ready for so global a role. Nevertheless, Wilson’s intellectual victory proved more seminal than any political triumph could have been. For, whenever America has faced the task of constructing a new world order, it has returned in one way or another to Woodrow Wilson’s precepts. At the end of World War II, it helped build the United Nations on the same principles as those of the League, hoping to found peace on a concord of the victors. When this hope died, America waged the Cold War not as a conflict between two superpowers but as a moral struggle for democracy. When communism collapsed, the Wilsonian idea that the road to peace lay in collective security, coupled with the worldwide spread of democratic institutions, was adopted by administrations of both majors American political parties305.
Com o fracasso da Liga das Nações e a expansão dos regimes autoritários na Europa e no mundo, principalmente com os fascismos, o tom do discurso nas relações internacionais
304
Idem, Ibidem, pp. 64-65.
122 assumiu os seus aspectos mais realistas, como o autor do clássico “Vinte anos de Crise –
1919-1939” de Edward Hallett Carr, que procurava examinar os anos entre guerras. De uma
perspectiva geral, o tema do poder voltou a comandar os discursos na ordem internacional e autores clássicos, como Tucídides, Maquiavel e Hobbes, passaram a serem mais respeitados nesses assuntos do que Kant. Não é a toa que Carr coloca como epígrafe de seu livro uma frase de Francis Bacon: “Os filósofos elaboraram leis imaginárias para comunidades imaginárias, e seus discursos são como estrelas que dão pouca luz por estarem muito altas”.306 De uma maneira muito precisa Carr reflete sobre o dilema das ciências políticas:
Nenhuma ciência merece tal nome até que tenha, adquirido humildade suficiente para não se considerar onipotente, e para distinguir a análise do que é, da aspiração do que deveria ser. Porque nas ciências políticas esta distinção jamais pode ser absoluta, algumas pessoas pretendem retirar delas o direito do título de ciências. Tanto nas ciências físicas quanto nas ciências políticas, logo se atinge um ponto onde o estágio inicial do desejo deve ceder lugar a um estágio de análise dura e impiedosa. A diferença reside no fato de que as ciências políticas nunca podem emancipar-se totalmente da utopia (...). No campo da ação, o realismo tende a enfatizar o poder irresistível das forças existentes e o caráter inevitável das tendências existentes, e a insistir em que a mais alta sabedoria reside em aceitar essas forças e tendências, e adaptar-se a elas. Tal atitude, embora defendida em nome do pensamento ’objetivo’, pode facilmente ser levada a um extremo em que resulte a esterilização do pensamento e a negação da ação. Mas há um estágio em que o realismo é o corretivo necessário da exuberância da utopia, assim como em outros períodos a utopia foi invocada para contra-atacar a esterilidade do realismo (...). O pensamento maduro combina objetivo com observação e análise. Utopia e realidade são, portanto, as duas facetas da ciência política.307
Esses dois lados da ciência política, o idealismo e o realismo, na visão de Edward Carr precisam ser equilibrados para atingirem-se os objetivos almejados. E, de fato, é esse equilíbrio sempre difícil, entre idealismo e realismo, que circunda os debates em torno da teoria das relações internacionais. Alguns teóricos pretendem ser completamente realistas, outros, no extremo oposto, têm dificuldades para pensar uma teoria de acordo com uma dada realidade, mas também, mais recentemente, surgiram correntes que reconhecem que a melhor alternativa é este equilíbrio já exposto por Carr no começo do Séc. XX.
A antítese entre o mundo dos valores e o mundo da natureza, já implícita na dicotomia objetivo-fato, está profundamente arraigada na consciência humana e no pensamento político. O utópico estabelece um padrão ético que proclama ser independente da política, e procura fazer com que a política adapte-se a ele. O realista não pode aceitar logicamente nenhum valor padrão, exceto o dos fatos. Em
306 BACON, Francis. On the Advancement of Learning,1605, apud. Edward H. Carr. Vinte anos de Crise – 1919-
1939. Brasília: Editora da UNB, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001.
307
CARR, Edward H.. Vinte anos de Crise – 1919-1939. Brasília: Editora da UNB, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001. pp. 13-15.
123 seu modo de ver, o padrão absoluto do utópico é condicionado e ditado pela ordem social, sendo, portanto, político. Moralidade só pode ser relativa, não universal. A ética tem de ser interpretada em termos de política; e a procura de uma norma ética fora da política está fadada à frustração.308
Essa difícil relação entre os valores e os fatos estará no plano de fundo deste trabalho. Como relacionar os objetivos a serem perseguidos na ordem do dever-ser com a análise da realidade nem sempre suscetível a ordem do dever. Também será importante destacar que o realismo mais puro esconde sobre o seu manto uma extensa carga valorativa, a mesma com a qual Carr, na citação anterior, acusa os idealistas utópicos de possuírem a moral da sociedade. Ora, a moral da sociedade foi usada pela ideologia do realismo em suas vertentes mais conservadoras e usaram-na sempre muito bem. Como, por exemplo, explicar os valores difundidos do realismo, a sua valorização do status quo, a aceitação do uso da força como instância que garante o poder, os ideais do liberalismo econômico sem controle para a maximização dos interesses de suas respectivas nações, a aceitação conservadora da ordem internacional como uma instância inflexível às mudanças, na medida em que é esta ordem que garante os realistas no topo do poder. A necessidade da análise da ordem internacional deveria passar por uma crítica aos valores que são sustentados como dados, e, nesse sentido, um realismo puro parece ser tão utópico quanto a mais vã das utopias. Assim, uma teoria das relações internacionais precisa estabelecer os parâmetros que definem uma dada realidade e os valores que esta ordem ambiciona, e quais modelos poderiam ser utilizados para a construção de alternativas.
O desmascaramento, pela crítica realista, da fragilidade do edifício utópico é a primeira tarefa do pensador político. Somente quando a simulação for demolida que poderá haver alguma esperança de erigir-se uma estrutura mais sólida em seu lugar. Mas não podemos, como medida final, acomodar-mo-nos no realismo puro. O realismo, embora preponderante em termos lógicos, não nos dá as fontes de ação que são necessárias até mesmo para o prosseguimento do pensamento. Com efeito, o próprio realismo, se o atacarmos com suas próprias armas, freqüentemente se revela, na prática, como tão condicionado quanto qualquer outra forma de pensamento. Na política, a crença de que certos fatos sejam inalteráveis, ou certas tendências irresistíveis, normalmente reflete uma falta de desejo, ou de interesse, em mudá-los ou resistir a eles. A impossibilidade de se ser um realista consistente e completo é uma das mais corretas e curiosas lições da ciência política. O realismo consistente exclui quatro coisas que parecem ser ingredientes essenciais de todo o pensamento político eficaz: um objetivo finito, um apelo emocional, um direito de julgamento moral e um campo de ação.309
308 CARR, Edward H.. Vinte anos de Crise – 1919-1939. Brasília: Editora da UNB, Imprensa Oficial do Estado de
São Paulo, 2001. pp. 28-29.
124 Para se entender melhor como Carr concebe o seu julgamento dos limites do realismo, deve-se estabelecer como ele pensa o realismo, e, de fato, ele é considerado um teórico clássico realista das relações internacionais. Para isso, precisa-se começar com uma breve citação de Maquiavel:
Mas como minha intenção é escrever algo útil para quem estiver interessado, pareceu-me mais apropriado abordar a verdade efetiva das coisas, e não imaginá-las. Muitos já conceberam repúblicas e monarquias jamais vistas, e de cuja existência real nunca se soube. De fato, o modo como vivemos é tão diferente daquele como deveríamos viver, que quem despreza o que se faz e se atém ao que deveria ser feito, aprenderá a maneira de se arruinar, e não a defender-se. Quem quiser praticar sempre a bondade em tudo o que faz está fadado a sofrer, entre tantos que não são bons. É necessário, portanto, que o príncipe que deseja manter-se, aprenda a agir sem bondade, faculdade que usará ou não, em cada caso, conforme seja necessário.310
De acordo com Carr, foi só depois do fim do sistema medieval que houve a cisão definitiva entre a teoria e prática política. No mundo helênico, quando sentenciaram que “a justiça é o direito do mais forte”, isso representava apenas uma parcela insignificante da população e, no contexto medieval, durante o Império Romano, e depois com a Igreja Católica, a ideia de um bem político separado de um bem moral era impensável.311 Desse modo, desprende-se de Maquiavel o começo do pensamento político moderno.
Três características são destacadas na doutrina de Maquiavel, que se pode afirmar, são os fundamentos da filosofia realista. Em primeiro lugar, o entendimento de que a história é uma sequencia de causa e efeito, que pode ser vislumbrada através do intelecto. Em segundo, a ideia de que é a prática que cria a teoria e não o contrário. Por fim, a constatação de que a autoridade é quem cria a moralidade e, com isso, a moral é um produto do poder: “Portanto se um príncipe pretende conquistar e manter o poder, os meios que empregue serão sempre tidos como honrosos, e elogiados por todos, pois o vulgo atenta sempre para as aparências e os resultados”.312
A diferença de Maquiavel para o realismo moderno do séc. XVIII, de acordo com Carr, é a crença no progresso. Tanto o realismo quanto o idealismo utópico incorporaram a ideia do progresso e o próprio realismo acabou por tornar-se mais progressista que o próprio idealismo. Enquanto o idealismo baseava-se numa crença em um padrão absoluto, mas de forma estagnada, o realismo ao contrário:
310 MAQUIAVEL, Niccolò. O Príncipe. São Paulo: Martin Claret, 2002. p. 93.
311 CARR, Edward H.. Vinte anos de Crise – 1919-1939. Brasília: Editora da UNB, Imprensa Oficial do Estado de
São Paulo, 2001. p. 85.
125 se tornou mais dinâmico e relativizado. O progresso tornou-se parte da mais profunda essência do processo histórico; e a humanidade se movia adiante, para um objetivo que permanecia indefinido, ou definido por diferentes filósofos. A ’escola histórica’ dos realistas teve seu lar na Alemanha, e seu desenvolvimento foi traçado através dos grandes nomes de Hegel e Marx. Mas nenhum país da Europa ocidental, e nenhum ramo do pensamento, ficaram imunes à sua influência em meados e fins do século dezenove e esse desenvolvimento, embora tenha libertado o realismo da coloração pessimista que lhe foi conferida por pensadores como Maquiavel e Hobbes, realçou fortemente o caráter determinista.313
A ideia do determinismo, que na religião estava associada com a Providência Divina, ganhou, na racionalidade dos filósofos do séc. XVIII e XIX, novos contornos, principalmente com o “Zeitgeist” de Hegel e no materialismo histórico de Marx até chegar à tese “científica” dos realistas, que imaginavam a realidade como um processo que o filósofo ou o cientista deveriam investigar.
Não pode haver realidade alguma fora do processo histórico. ‘Conceber a história como evolução e progresso’, escreve Croce, ‘implica aceitá-la em todos os seus aspectos, e, portanto, negar a validade de julgamentos sobre ela’. Condenar o passado em termos éticos não têm sentido; pois, nas palavras de Hegel, ‘a filosofia transfigura o real, que pareça injusto, no racional’. O que foi, está certo. A história não pode ser julgada, exceto por padrões históricos. É significativo que nossos julgamentos históricos, exceto os relativos a um passado de que podemos nos lembrar tão bem quanto o presente, sempre pareçam partir do pressuposto de que os fatos não poderiam ter sucedido de outra forma.314
A história cria o direito e não o contrário. Em outras palavras, é a confirmação tanto das teses de Maquiavel em “O Príncipe”, quanto do “Leviatã” de Thomas Hobbes. Além dessa contribuição para as análises realistas, Hobbes também deu a indicação do que seria, depois, um dos aspectos principais dessa corrente de pensamento, a atitude relativista e, em moral, poderia ser entendido como a falta de valores, ou o ceticismo moral.
Edward Carr, um clássico das relações internacionais, já questionava os limites do realismo político. Como foi visto, Carr insistiu no fracasso de pensar a política em termos puramente causais objetivistas, como a tendência irresistível dos fatos, pois a via dupla de fatos-valores estabelece que sempre se possam questionar os fatos com aquilo que pensamos sobre eles. Contudo, foi claro ao questionar o idealismo utópico que não está preocupado com a análise política, mas apenas com objetivos ideais. Entretanto, ao questionar as forças irresistíveis da objetividade histórica, Carr estabeleceu que não se pode apenas pensar a
313 CARR, Edward H.. Vinte anos de Crise – 1919-1939. Brasília: Editora da UNB, Imprensa Oficial do Estado de
São Paulo, 2001. p. 89.
126 história como eventos causais contendo apenas uma racionalidade. Como citado, Carr entende que um objetivismo leva a “esterelização do pensamento”, e pensou como necessário o estabelecimento de objetivos: “na política, a crença de que certos fatos sejam inalteráveis, ou certas tendências irresistíveis, normalmente reflete uma falta de desejo, ou de interesse, em mudá-los ou resistir a eles”.315 A moralidade em Carr não é uma moralidade universal, mas historicamente construída. Por isso, a ideia do egoísmo racional, “identificar racionalidade com a maximização do autointeresse”316, presente em vários autores realistas, como algo determinista, é insuficiente para mostrar a historicidade da política e da moral.