A morte épica de Heitor pode constituir um paradigma para os gregos do século V, visto que, ameaçados pelo avanço do Império Persa, as cidades atenienses enfrentaram não só as dificuldades trazidas por um inimigo poderoso, mas também aquelas relacionadas com sua própria organização interna.
A base da estrutura política e social grega é a pólis, consolidada durante o que se convencionou chamar de período clássico (séculos VI-IV), não pode ser definida apenas levando em conta a circunscrição do território urbano, mas também de toda a área rural, e, o mais importante, do conjunto de pessoas que habitam todas as suas terras. Com as comunicações entre elas dificultadas pelo relevo acidentado da península balcânica, essas cidades-Estado desenvolveram-se de forma autônoma e, consequentemente, diferenciaram-se em relação às instituições políticas, regulamentações sobre o comércio, educação e adquiriram características culturais específicas. No entanto, com uma base linguística e religiosa comuns, e com os jogos que reuniam as cidades para competirem em honra aos deuses, um substrato comum permitiu ao grupo identificar-se como ―os helenos‖, os habitantes da Hélade. As Guerras Médicas, como ficou conhecido o conjunto de batalhas travadas entre gregos e persas, aumentou ainda mais essa percepção do mundo pan-helênico.
Vitoriosa, a pólis grega vai ser saudada como uma grande realizadora desses feitos, e isso deixou claro o tragediógrafo Sófocles, no primeiro estásimo de sua obra
―Antígona‖, famosa por louvar os atos (maravilhosos, espantosos, mas também terríveis), ta\
deina, dos homens levando-os à civilização, à humanização:94
A fala e o alado pensamento, as normas que regulam as cidades sozinho aprendeu;
da geada do céu, da água inclemente e sem refúgio, os dardos evita, de tudo capaz.
94
SÓFOCLES, Antígona, 355-362: kai\ fqe/gma kai\ a)nemo/en fro/nhma kaiì a)stuno/mouj o)rga\j e)dida/cato,
kaiì dusau/lwn pa/gwn u(pai¿qreia kaiì du/sombra feu/gein be/lh pantopo/roj: aÃporoj e)p' ou)de\n eÃrxetai to\ me/llon. Todas as traduções citadas neste capítulo são de Maria Helena da Rocha Pereira.
O surgimento do concurso de tragédias e do teatro (assim como a filosofia, em outro contexto) está intimamente ligado ao advento da pólis. Evento cívico integrante da celebração dos festivais dionisíacos, revestidos de um grandeza particular desde a época dos Psitrátidas95, a glória passa a ser representada em conjunto e não serão mais adequados, para consolar uma perda, funerais como os de Heitor. Nesses festivais estavam presentes não apenas os cidadãos, mas muitos estrangeiros e comerciantes, pois a época era de grande oportunidade de negócios e fortalecimento dos laços políticos entre Atenas e seus aliados. 96 As festas eram uma celebração cívica97 que abrigavam o tema da morte como um elemento do conjunto. Esse gênero de comemoração tem uma dívida muito grande, em relação ao seu conteúdo, com a tradição épica, pois seu enredo desenrolava-se-se em torno de famosas famílias lendárias. As apresentações eram assistidas por uma audiência numerosa, que se acotovelava para ver e ouvir, numa nova perspectiva, as ações dos célebres personagens do mundo épico na skénē.
Os tragediógrafos buscavam os temas de suas peças nos relatos da tradição. Os episódios mais significativos estavam situados em um passado remoto e eram transportados para o presente.
Não é fácil estabelecer uma ligação direta entre os assuntos abordados na tragédia e os problemas políticos debatidos naquele momento na pólis, mas é inegável que o teatro grego era um lugar privilegiado para se discutir, ao menos de forma mais geral, os problemas impostos pelo momento histórico brilhante que os gregos atravessavam. De modo diverso, o livro de Christian Meier (1991) levanta a hipótese de que é possível estabelecer essa ligação,98 posição que não compartilhamos. Uma peça como a de Sófocles não é o relato histórico dos debates políticos correntes em Atenas metaforizados pelos tragediógrafos, mas uma reflexão de questões colocadas pelo exercício de poder de instituições as quais floresceram de forma inédita. Sendo assim, seus cidadãos experimentaram, no sentido primeiro da palavra, a atividade humana conhecida nos dias atuais como política. Creonte, enquanto rei de Tebas, não pode ser identificado com o líder ateniense, Péricles.
As questões colocadas por Sófocles, exemplo emblemático desse quadro ateniense, foram importantes, pois sua biografia se confunde com a própria história da
95
MEIER, De la tragédie grecque comme art politique, 1991, p. 60-61.
96
MOSSE, Atenas: história de uma democracia, 1982, p. 19-20.
97
MEIER, De la tragédie grecque comme art politique, 1991, p. 8.
98―Le présent ouvrage part de l‘hypothèse que‘au V siècle, il existait entre tragédie et politique une connexion étroite.‖ MEIER, De la tragédie grecque comme art politique, 1991, p. 12.
cidade.99 Nascido em 496, no início das Guerras Médicas, participou ativamente da vida pública de sua pólis. Em 443 foi eleito e)llhnotami/aj, uma espécie de coletor de impostos e administrador do Tesouro de Delos e uma de suas atribuições era arrecadar contribuições dos aliados atenienses na luta contra os persas. Em 440 combateu como estratego ao lado de Péricles no cerco de Samos; após o fracasso da expedição da Sicília, foi um dos dez
pro/bouloi, conselho que preparava as leis a serem aprovadas pela assembléia popular.
Morreu em 406, dois anos antes da derrota final de Atenas na Guerra do Peloponeso. Em relação à sua produção dramatúrgica, os nomes de 114 peças compostas por ele são conhecidas, embora restem apenas sete obras completas e alguns fragmentos.
Nesta seção a personagem que escolhemos para analisar é Antígona, da peça homônima, uma das personagens mais ilustres do teatro grego, e que dispensa outras apresentações. Desde Hegel, essa obra vem sendo dissecada por inúmeros estudiosos, que sempre apontaram algum tipo de antagonismo presente.100 O fato de ser exaustivamente estudada revela a riqueza da obra de Sófocles, marcada pela ambiguidade do vocabulário e, em decorrência disso, as dificuldades de interpretação.
Não é nossa intenção revisar tais pontos de vista neste trabalho. Outros já o fizeram e teríamos pouco ou nada a acrescentar a esse debate. O que nos interessa é analisar o desenrolar dos fatos que fizeram Antígona tomar a resolução de sacrificar sua vida e estabelecer um possível diálogo com a tradição épica da qual a tragédia é herdeira.
Claro está que sua decisão já é conhecida no párodo, logo no início do enredo. No entanto, a explicação e justificativa de tal decisão serão reveladas somente nos āgónes travados com outros personagens que acabam por mudar suas posições iniciais no decorrer da trama, sempre influenciados pela força e obstinação do caráter da filha de Édipo.101
99
MOSSÉ, Dicionário da Civilização Grega, 1998. Cf. verbete Sófocles. Para mais detalhes, ver o capítulo sobre Sófocles em LESKY, A tragédia grega, 1990.
100Assim resume Cerri: ―Vi si è voluto cosi vedere di volta in volta il conflito tra stato e famiglia, ordine politico
e religione, legge positiva e legge naturale, dettame della lege e imperativo etico, stato e libertà individuale, ragion di stato e coscienza umana. Un cliché interpretativo le cui varianti sono pressoché illimitate.‖ CERRI,
Ideologia funeraria nell‘Antigone di Sofocle. in: GNOLI, G. et VERNANT, J-P (orgs.). La mort, les morts dans les Sociétés Anciennes, 1980, p. 122.
101
Discordamos parcialmente do que disse Meier ao analisar a ―Antígona‖: ―dans la constellation de
personnages qui composent le drame, l‘enfermement de chacun dans um rôle est donc particulièrement rigide et étroit; Sofocles se plaît, d‘ailleurs, a le mettre très nettement em évidence.‖ MEIER, De la tragédie grecque comme art politique, 1991, p. 240.