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Embora o interesse da Antropologia pelo esporte seja recente, o resultado deste entusiasmo tardio tem produzido uma abundante bibliografia e a aplicação potencial de abordagens antropológicas a diversos tipos de investigação sobre esporte. Por um lado, a Antropologia abre uma perspectiva teórica excepcional, segundo a qual é possível analisar qualquer aspecto do comportamento humano. Os modelos teóricos e a experiência obtida a partir do enfoque científico da pré-história e do estudo das sociedades primitivas e de pequenas sociedades são particularmente valiosos para o entendimento do comportamento esportivo. Desse modo, uma Antropologia especializada no esporte é um complemento de outras especialidades existentes como a Sociologia do Esporte e a Psicologia do Esporte. Por outro lado, o esporte é um fenômeno tão evidente e generalizado no mundo atual que não pode mais ser considerado um apêndice da Etnografia. A invasão do esporte na vida cotidiana de grande parte da população mundial confere a essa atividade a mesma atenção antropológica que recebe as outras categorias de comportamento. A Antropologia do Esporte se ocupa com a análise antropológica do comportamento esportivo. Os temas estudados incluem o significado do esporte, mudança cultural e esportiva e a utilização da informação esportiva (BLANCHARD & CHESKA, 1986).

A História da Antropologia do Esporte é bastante recente e está estreitamente vinculada à História do Jogo em todas as suas formas. O marco importante para o desenvolvimento da abordagem antropológica do esporte foi a fundação, em 1974, da The

Association for Anthropological Study of Play (TAASP). Por ocasião da reunião anual da

Sociedade Americana de História do Esporte, Edward Norbeck, Alyce Cheska, Michel Salter e Allan Tindall criaram a referida Associação.

A Antropologia geralmente é dividida em quatro subdisciplinas: antropologia biológica; arqueologia; lingüística e antropologia cultural. O estudo antropológico do esporte é um processo que combina os métodos especializados e os dados das quatro principais subdisciplinas da Antropologia, mas, sobretudo, é uma atividade própria da Antropologia Cultural.

Burnett Tylor, por vezes chamado de pai da Antropologia, foi um dos primeiros cientistas sociais a reconhecer o interesse pelo jogo com um tema de investigação ao considerar que as atividades esportivas revelavam indícios da natureza do contato da cultura pré-histórica. Em 1879, em um artigo sobre a história dos jogos, Tylor afirmava que alguns

jogos demonstravam a difusão e o contato entre centros culturais de distintas regiões do mundo. Como típico antropólogo de seu tempo, Tylor tinha a tendência a tratar o fenômeno do esporte como um meio de análise de processos culturais mais amplos. Outros antropólogos do século XIX mencionam superficialmente atividades esportivas em etnografia ou no contexto de introduções gerais à cultura (BLANCHARD & CHESKA, 1986).

Em 1959, o artigo intitulado “Games in Cultures” de John Roberts, Malcolm Arth e Robert Bush representou um marco na história do tratamento antropológico do esporte e do jogo. Nesse estudo, os autores sugerem uma possível relação em todo grupo humano entre as condições ambientais e o tipo e número de destreza física. Apesar das críticas que surgiram posteriormente, esse artigo despertou fortemente a atenção dos antropólogos para os jogos e os esportes.

Na década de 60, apareceram diversos estudos, destacando os trabalhos de Robin Fox, em 1961, sobre o beisebol. Em 1964, Leslie White, então presidente da Associação Americana de Antropologia, ressaltava que o estudo antropológico do esporte parecia suscetível de proporcionar um modelo de análise para os esportes profissionais, especialmente o beisebol. Em meados dos anos 60 já existia uma tendência manifesta dos etnógrafos de campo para examinar as atividades esportivas e lúdicas das populações estudadas, destacando também que nos congressos regionais ou nacionais de antropologia já se reservava algumas sessões para a apresentação de trabalhos sobre o esporte e temáticas esportivas.

Na década de 70, particularmente marcante pela fundação da Associação de Antropologia para o Estudo do Jogo (TAASP), deve-se destacar as pesquisas de Joyce Reigelhaupt em 1973 e um ensaio de Clifford Geertz em 1972 sobre “briga de galos” em Bali, no qual focaliza problemas de interpretação enfrentados pelos antropólogos na análise das observações culturais. A criação da TAASP muito contribuiu para o desenvolvimento da análise dos esportes nas décadas de 70 e 80, possibilitando a expansão desses estudos através de outras disciplinas acadêmicas e outras sociedades científicas.

Desde a sua fundação em 1974, a TAASP realizava eventos científicos anuais com apresentação de trabalhos de seus membros sobre o significado do jogo. Durante os primeiros dez anos, os melhores trabalhos submetidos ao encontro anual foram publicados em coletâneas tematizadas. O 10º Encontro Anual, em Clemson, South Carolina/Estados Unidos, foi realizado em colaboração com The Clemson University Conference on Sport and Society e

The North American Society for the Sociology of Sport, cujo tema foi “Cultural Dimensions of Play, Games and Sport”. Bernard Mergen (1986), ao fazer o prefácio da obra, destaca que os

vários estudiosos de diferentes disciplinas acadêmicas expressam de alguma forma o prazer de suas descobertas e as respectivas interfaces com a vida cotidiana.

De acordo com Blanchard e Cheska, os objetivos da Antropologia do Esporte podem ser agrupados em doze temáticas: 1. A definição e descrição do comportamento esportivo e do lazer do ponto de vista intercultural; 2. O estudo do esporte nas sociedades primitivas tribais, excluindo aquelas do mundo ocidental; 3. A análise do esporte como fator de aculturação, enculturação, conservação cultural e adaptação às mudanças; 4. Colocar o esporte na perspectiva com respeito a outras facetas do comportamento cultural; 5. A análise do comportamento esportivo na pré-história; 6. A análise da linguagem esportiva; 7. O tratamento do papel do esporte em um meio educativo multicultural; 8. O desenvolvimento e a administração de programas esportivos e recreativos para populações especiais; 9. A aplicação dos métodos antropológicos à solução de problemas práticos de caráter esportivo como na educação física e no lazer; 10. A aplicação dos métodos antropológicos ao desenvolvimento e à administração de programas de educação física e lazer; 11. O desenvolvimento de atividades recreativas construtivas que utilizem o modelo esportivo; 12. A criação de atitudes que favoreçam a compreensão intercultural. Apoiando-se em Cozens e Stumpf, os autores destacam que a Antropologia Cultural pode nos ensinar a “ver mais além de nossa observação superficial e ser mais tolerantes com os gostos dos outros”. Ainda evidenciam que, de um modo geral, a Antropologia do Esporte “é um enfoque social específico para a compreensão do esporte e para a aplicação prática dos resultados da investigação aos programas de educação física e de atividades recreativas” (BLANCHARD & CHESKA, 1986, pp. 17-18).

O problema básico do enforque cultural no estudo do comportamento esportivo reside na definição de seu papel no marco cultural geral – um problema muito mais complexo do que se supõe.

O objetivo da Antropologia Cultural Aplicada é a descrição e análise da mudança cultural. A Antropologia do Esporte centra seu enfoque nas mudanças primárias observáveis na sociedade, na enculturação e na aculturação. O esporte contribui para a mudança cultural de várias maneiras. Uma delas é através do comportamento manifesto que reforça as normas sociais em um processo de conservação social. Outra forma é a enculturação que se obtém por meio da integração de novos indivíduos aos modos ou aos costumes da sociedade. Uma outra forma de mudança cultural através do esporte é a aculturação, ou seja, o intercâmbio de traços ou complexos culturais entre membros de diferentes sociedades.

A crescente popularidade do esporte na sociedade contemporânea explica o interesse dos antropólogos pelos problemas sociais que caracterizam a instituição esportiva, à medida que esses problemas apresentam uma perspectiva intercultural. Entre os principais problemas sociais de caráter antropológico destacam-se os seguintes: o papel da mulher no esporte; o esporte e o envelhecimento; o esporte e a violência; o esporte e as relações internacionais.

Para Blanchard e Cheska (1986, P. 191), “o esporte é uma instituição de transcendência universal. Toda modalidade esportiva, seja qual for o país onde se pratique, é um elemento importante da experiência humana”. Para os autores, a Antropologia do Esporte trata desta experiência sob uma perspectiva cultural “valorizando seu significado universal e seu papel na evolução da cultura”. Além disso, o enfoque antropológico do esporte aborda temas contemporâneos, propondo meios para resolver problemas concretos, tomar decisões e executar programas, à medida que propicia uma variedade de técnicas, observações e conhecimentos sobre essas perspectivas temáticas. Nesse sentido, cabe ressaltar algumas prioridades para a investigação antropológica: 1. A compreensão do esporte; 2. Uma perspectiva crítica da instituição esportiva; 3. A apreciação e conservação do componente lúdico do esporte; 4. A compreensão dos enfoques teórico-analíticos do esporte; 5. A compreensão da evolução e da história do esporte; 6. A compreensão do esporte e da mudança; 7. A aceitação do esporte por outras culturas; 8. A percepção do significado do esporte a nível pessoal.

Para Huizinga (1971, P.53), o fato de se apontar a presença de um elemento lúdico na cultura, não significa que se atribua aos jogos um lugar de primazia entre as diversas atividades da vida civilizada, nem que se pretenda afirmar que a civilização teve origem no jogo através de qualquer processo evolutivo, no sentido de ter havido algo que no princípio era jogo e que depois se transformou “em algo que não era mais jogo”, sendo assim possível ser considerado cultura. O argumento de Huizinga em Homo Ludens para essa discussão entre jogo e cultura é expressado da seguinte forma!

[...] a cultura surge sob a forma de jogo, que ela é, desde seus primeiros passos, como que ‘jogada’. Mesmo as atividades que visam à satisfação imediata das necessidades vitais, como por exemplo a caça, tendem a assumir nas sociedades primitivas uma forma lúdica . A vida social reveste- se de formas suprabiológicas, que lhe conferem uma dignidade superior sob a forma de jogo, e é através deste último que a sociedade exprime sua interpretação da vida e do mundo. Não queremos com isto dizer que o jogo

se transforma em cultura, e sim que em suas fases mais primitivas a cultura possui um caráter lúdico, que ela se processa segundo as formas e no ambiente do jogo.

Para o autor, é sempre possível que a qualquer momento, mesmo nas civilizações mais desenvolvidas, o impulso lúdico se reafirme em sua plenitude, mergulhando o indivíduo e a multidão na euforia de um jogo gigantesco: “A partir do momento em que um jogo é um espetáculo belo seu valor cultural torna-se evidente”. Embora esse valor estético não seja indispensável para a cultura, os valores físicos, intelectuais, morais ou espirituais também são capazes de levar o jogo até o nível cultural. Assim, “[...] quanto maior é sua capacidade de elevar o tom, a intensidade da vida do indivíduo ou do grupo, mais rapidamente passará a fazer parte da civilização”. As representações sagradas e os espetáculos competitivos são duas formas que surgem constantemente na civilização, permitindo esta “desenvolver-se como jogo e no jogo” (HUIZINGA, 1971, P. 55).

O autor alerta para o fato de saber analisar a maior parte das competições dos gregos que eram realizadas com uma seriedade mortal, sem, no entanto separar o agon do jogo, ou para negar o caráter lúdico do primeiro, uma vez que “a competição possui todas as características formais e a maior parte das características funcionais do jogo”. Para o autor, o elemento competição pode ser incluído na categoria jogo.

Ao concluir seu estudo sobre o fenômeno lúdico apresentado no livro Homo

Ludens, Huizinga coloca os seguintes problemas para reflexão e investigação:

[...] em que medida a cultura atual continua se manifestando através de formas lúdicas? Até que ponto a vida dos homens que participam dessa cultura é dominada pelo espírito lúdico? Conforme vimos, o século XIX perdeu grande número dos elementos lúdicos que caracterizavam as épocas anteriores. Terá esta deficiência sido eliminada, ou terá ela aumentado? (HUIZINGA, 1971, P. 217).

Desde as últimas décadas do século XIX que os jogos, sob a forma de esportes, “vêm sendo tomados cada vez mais a sério”, uma vez as regras são cada vez mais rigorosas e complexas, são estabelecidos novos recordes, superiores a tudo quanto foi alcançado antes. Para Huizinga, essa sistematização e regulamentação cada vez maior do esporte implica a perda de uma parte das características lúdicas mais puras. Isso ocorre na distinção entre

amadores e profissionais. Comenta o autor que “o espírito do profissional não é mais o espírito lúdico, pois lhe falta a espontaneidade, a despreocupação”.

Segundo o autor, ainda na década de 30, o esporte estava sendo levado para longe da esfera lúdica propriamente dita, tendo se transformado numa coisa sui generis, que “nem é jogo nem é seriedade”. Cabe destacar a sua análise para o contexto da época:

O esporte ocupa, na vida social moderna, um lugar que ao mesmo tempo acompanha o processo cultural e dele está separado, ao passo que nas civilizações arcaicas as grandes competições sempre fizeram parte das grandes festas, sendo indispensáveis para a saúde e a felicidade dos que nelas participavam (HUIZINGA, 1971, P. 220).

Na sua desesperança para com a evolução técnica e econômica do esporte, Huizinga afirma categoricamente: “Seja qual for sua importância para os jogadores e os espectadores, ele é sempre estéril, pois nele o velho fator lúdico sofreu uma atrofia quase completa”. Trinta anos depois, um dos pioneiros da investigação do esporte na vida social, ao apresentar o cenário para fazer uma introdução a sua obra sociológica, afirmava que o esporte era “um fato social em estado bruto” e era “tão difícil ter uma visão de conjunto dele, como estudá-lo em detalhe” (MAGNANE, 1969, p. 9)..

Oitenta anos depois de Huizinga e cinqüenta anos depois de Magnane, o fenômeno esportivo continua surpreendendo os Cientistas Sociais. O que tem ocorrido nos grandiosos espetáculos esportivos, seja nacionais ou internacionais, constitui preciosa matéria-prima para uma infinidade de estudos e pesquisas visando compreender a cultura e a natureza humana em todas as suas múltiplas dimensões.

Quando Huizinga discorda frontalmente da opinião popular em reconhecer que “o esporte constitui a apoteose do elemento lúdico em nossa civilização”, abre espaço para muitas indagações e investigações empíricas sobre o fenômeno esportivo espetacular, em torno do qual pode emergir um profundo sentimento estético.