É este o grupo que nos surpreende pela positiva. Assaltados pela literatura lida, assumimos erradamente, como hipótese, a sua percentagem diminuta face aos restantes grupos. Contra as 169 presenças de disciplinas de Ciências Sociais e Humanas, este grupo reúne 83 disciplinas distintas e 100 presenças das mesmas em cursos. Engloba as disciplinas conhecidas como “práticas”, ou seja, vocacionadas para o ensino da prática jornalística, como os
Ateliers
, Laboratórios, Produção e Oficinas, conforme indica igualmente Mesquita e Ponte (1997)90.A estas juntam-se as disciplinas cuja designação se prende com os vários suportes jornalísticos (televisivo, radiofónico e digital, e ainda o fotojornalismo) com 27 disciplinas diferentes, que apenas deixam de fora os cursos da ESTGM e da ESCS. Destacam-se ainda disciplinas que abrangem os conteúdos mais específicos do Jornalismo, como
Jornalismo
Cultural
,Desportivo
eEconómico
, oferecido pela ESTA denunciando já alguma preocupação com a especificação tão mencionada na literatura e pelos entrevistados. Deste leque de disciplinas,
90 Somando 20, cinco, sete e seis designações, respectivamente, e distribuídas por todos os cursos, à excepção da ESTGM que apenas possui um Laboratório Multimédia, área não inserida neste estudo.
destacam-se ainda as de
Deontologia
eTeoria da Notíci
a, em cinco licenciaturas. Presente em sete licenciaturas está ainda a disciplina deGéneros Jornalísticos
91.Este é um dos saberes essenciais ao jornalismo da imprensa escrita cuja falta não se pode fazer notar de acordo com Marcelino (Entrevista: 9 de Outubro de 2006), para que não se confundam os géneros jornalísticos na hora de fazer uma notícia, conhecimento que falta a muitos candidatos à profissão. Este saber da prática é defendido por Marcelino (Entrevista: 9 de Outubro de 2006) com incidência cada vez maior com o passar da licenciatura. De acordo com o jornalista, as licenciaturas não têm conseguido dotar os alunos de ferramentas essenciais para o exercício da profissão que chegam com «uma preparação muito defeituosa». Destaca que não sabem fazer uma notícia, nem distinguir os vários géneros, como exemplos, pois apenas chegam às redacções com a teoria e sem prática.
Neste grupo também se poderão inserir as disciplinas que ensinam os alunos a fazer uma notícia, saber indispensável como afirma Vilas-Boas (Entrevista: 14 de Setembro de 2006), insinuando que «as universidades não têm tempo para ensinar a fazer uma notícia a um estudante de Comunicação Social». Este conjunto de saberes constitui um saber teórico que não é mais do que o «substrato para se poder avançar de modo concreto sobre determinadas experiências» do mundo do jornalismo, como seja a entrevista, invocando os géneros jornalísticos referidos também por Marcelino. Além destes saberes, a capacidade de «comunicar com grande transparência a mensagem que [o jornalista] tem, como a postura em televisão e a voz em rádio, o saber escrever com qualidade jornalística, são também referidas por Vilas-Boas como saberes que podem ser ensinados nas disciplinas referidas no início deste ponto.
Outras disciplinas indicadas por Marcelino (Entrevista: 9 de Outubro de 2006) apontam para a especificidade, não só a nível do suporte de divulgação (rádio, jornal, televisão ou digital), como também a nível temático (jornalismo desportivo, económico, etc.), no último ano e com «durações muito parcelares» e onde se iriam inserir os já referidos profissionais na docência92,
«Porque a base teórica, essa estará completamente consolidada nos dois primeiros anos», não discutindo a teoria que está a ser leccionada, mas defendendo a existência de maior prática em
91 Que no caso da ESCS e da UBI assume a designação de Teoria da Notícia e Géneros Jornalísticos, pelo que contou também para esta apreciação.
92 O jornalista exemplifica com o jornalismo económico, onde poderiam contribuir os dois directores dos jornais económicos portugueses. É esta a colaboração que o jornalista afirma poder ser prestada pelas empresas de comunicação social, que ajudarão a «esclarecer, a formar, a dar conhecimentos, mas também a tirar dúvidas às pessoas.
todos os suportes. Sem divulgar quais, encontra licenciaturas com maior qualidade que outras, pelos estagiários que vão parar aos vários títulos da Cofina. «Há cursos que são mais objectivos que outros e, portanto, as pessoas chegam aqui e já sabem o que é um jornal, o que é que faz falta, até já conhecem melhor o jornal em questão, sabem-no definir melhor e há outros cursos em que vêm com a teoria mas com uma ausência de noção da realidade absoluta.»
Ainda com os profissionais do jornalismo escrito, é-nos dito que a técnica, que será inserida nas disciplinas deste grupo temático, não é tida como prioritária por Carvalho (Entrevista: 13 de Outubro de 2006), pois as teorias como a da pirâmide invertida ou a estrutura do
lead
já apelam ao criativismo e não à “fórmula” ensinada e definida como parte do jornalismo «novecentista» e de «forma seca». O jornalista defende o seu ensino, mas não a sua aplicação obrigatória na prática onde é necessária a criatividade e imaginação para cativar os leitores. No entanto, assume que os alunos vêm bem preparados no que toca à técnica profissional e ao seu domínio, bem como a nível do domínio do português.Na área da televisão, Carlos Daniel (Entrevista: 6 de Novembro) afirma que, «além de um domínio dos assuntos que é transversal, o domínio da técnica televisiva» e o «domínio da técnica de reportagem acho que é o principal, o conhecimento sobre a forma de escrever e de editar em televisão, o domínio da técnica de apresentação que é específico mas que tem ligações directas às intervenções em directo e à forma como se tem de cobrir uma notícia na hora, portanto, também estão ligados e é uma formação óbvia.» Nesta área podemos contar com uma série de disciplinas específicas da televisão em várias licenciaturas93. No entanto, não
devemos esquecer que existem disciplinas que indicam uma prática genérica e que poderá abarcar todos os tipos de jornalismo. Vieira (Entrevista: 17 de Outubro) está a favor de licenciaturas que, além de laboratórios devidamente equipados, tenham «cadeiras práticas de jornalismo puro e duro» que conjuguem o ensino da «parte técnica da notícia», de «como é que se escreve uma notícia, como é que se contactam as fontes, como é que se cria uma carteira de contactos, como é que se confirma a informação, as questões éticas e deontológicas». Vieira conclui que as instituições deveriam facultar os instrumentos que permitissem transmitir aos alunos a parte técnica de uma notícia e deontológica da profissão.
93 ESEV (Atelier/Televisão/Cinema); UNL e ESCS (Atelier de Jornalismo Televisivo); UNL (Atelier de Televisão; Jornalismo Radiofónico e Televisivo); FLUC (Comunicação Televisiva); UA (Jornalismo de Imprensa, Rádio, TV e Ciberjornalismo); ESEV e FLUC (Jornalismo Televisivo); UTAD (Laboratório de Imprensa, Rádio, Televisão I); UM (Laboratório de Jornalismo (Rádio/TV); UNL (Produção e Realização Televisiva); FLUC (Teoria e Prática da Redacção Televisiva), e que deixam de parte as licenciaturas da ESTA, ESEB, ESES, ESEP, ESTGM, UBI e UP.
Além disso, o jornalista (Entrevista: 17 de Outubro) sugere a organização de uma redacção dentro da faculdade ou instituto, o que obrigaria à existência de «uma enorme componente de questões ligadas à sociedade», à justiça, à cultura, ao ensino, à educação, ou seja, «as áreas de trabalho dos jornalistas». Aqui deviam incluir-se as editorias de várias temáticas como o desporto, internacional, economia, seguindo o ideal de especialização requerido pelos entrevistados, mas não esquecendo uma especialização de ensino dentro de cada tipo de suporte: TV, rádio, jornal ou on-line94. A nossa análise não permite verificar,
exactamente, se existe esta adequação, mas o leque de disciplinas existente pode responder a algumas das preocupações do director de informação da SIC.
Neste ponto, podemos avançar que a quantidade de teoria mais ligada ao exercício do jornalismo e sua aplicação prática possuem uma presença significativa dentro das licenciaturas. Sem que os entrevistados definissem a percentagem necessária, podemos avançar que possui mais de metade do que o grupo mais assíduo, as Ciências da Comunicação, não sendo tão mínima quanto se fez crer tanto pelos críticos presentes na literatura como pelos entrevistados. Não será despropositado, no entanto, desejar uma presença mais forte do ensino prático do jornalismo, pois é através desta prática que os alunos começam a errar, e a errar é que se aprende95.
7.2.3. As Ciências da Comunicação e Estudos Sobre os