• No results found

MASKINERIANLEGG

Regel 29 Styremaskin 37

Entre os anos de 1997 e 2006 decorre a intervenção na Sé Catedral e áreas limítrofes. A equipa responsável pela intervenção na aldeia considerou sempre fundamental intervir sobre todo este espaço. Este era o monumento principal de Idanha-a-Velha e um dos mais relevantes da península ibérica, principalmente pela sua escala monumental, completamente inabitual neste tipo de edifícios pré-românicos. A envolvente da igreja era constituída por terrenos sem nenhum tratamento, desordenados e com registos de escavações arqueológicas levadas a cabo por D. Fernando de Almeida a Poente e outras, mais recentes e pontuais, a Sul e Nascente em espaços muito próximos do monumento. A existência de um arruamento a Nascente, entre a igreja e o terreiro, aliada à diferença de cota entre ambos, criavam uma sensação de enterramento do monumento e consequente perda da sua dignidade e escala. Neste contexto todo o conjunto foi identificado como de intervenção prioritária, sendo os objetivos principais do projeto, repor a dignidade e a escala do monumento, bem como a sua legibilidade, reordenar ou ordenar os percursos de visita e os de funcionamento corrente para os habitantes e qualificar o espaço público do terreiro existente.

Do ponto de vista do desenho urbano e intervenção na envolvente, o projeto aposta na eliminação do arruamento existente a nascente da igreja, minorando com isso a diferença de cota entre o monumento e os terrenos adjacentes e gerando uma maior continuidade.

60 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves

Costa e Sérgio Fernandez e com o Arqueólogo José Cristóvão” transcrita em Anexo.

61 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves

A criação de um murete em pedra ao longo de toda a fachada Nascente separa uma zona plana imediatamente adjacente ao monumento de um talude que efetua a transição de cota para o terreiro onde é criado um percurso em lajeado de granito que ligaria este espaço ao Lagar de Varas. O terreiro é tratado como uma praça de algum recato, lajeada e arborizada onde seriam instalados bancos e um tanque em granito. Segundo as palavras de Sérgio Fernandez “decidiu-se tratar este espaço por um lado para ser um espaço de encontro das

pessoas, uma espécie de introdução de espaço público aqui e, por outro, para favorecer a visibilidade da Sé. Quase que não fizemos mais nada do que regularizar estes níveis (…) de resto foi um pouco seguir as linhas de nível. 62

Os acessos ao monumento poderão fazer-se a Norte através de uma escada ou a Sul por um percurso mais longo, mas sem degraus. São ainda criados alguns percursos em passadiços de estrutura metálica revestida a chapa, que permitem aceder às cotas da entrada Poente e também a Sul. O tratamento dos terrenos a Poente passa por duas operações de relativa simplicidade: por um lado retirar terras entretanto depositadas para libertar e consolidar todas as ruínas existentes, reforçando a valorização do sítio não só do ponto de vista estético mas também simbólico, e com esta operação, por outro lado, dar a importância merecida ao intradorso da muralha que de outra forma ficaria enterrado. Quanto aos materiais utilizados, as vias de tráfego automóvel seguiram a logica da restante aldeia com pavimento em cubo de granito, os circuitos pedonais seriam lajeados a granito ou em terra vegetal e os muretes seriam executados em pedra irregular de xisto e granito seguindo a tradição regional.

Centremos agora atenções na intervenção no edifício propriamente dito. Aliada à sua escala invulgar o edifico é muito complexo do ponto de vista histórico, nas palavras do próprio Alexandre Alves Costa “o edifico é muito enigmático, começa por uma grande quantidade de

portas, cada entrada teria um sentido de orientação, corresponderia a um eixo ou um percurso e, portanto, há aqui uma variedade de percursos que leva a pensar que o edifício teve utilizações muito variadas, muito diferentes63”. A acrescentar a esta complexidade, as

escavações arqueológicas já feitas e as que se fizeram descobriram-se dois batistérios, um a Sul e outro a Norte. A existência de dois batistérios corresponderia a edifícios autónomos, uma vez que, neste período da história da arquitetura, o batistério localizava-se fora das igrejas. Depois foi ainda Sede Episcopal e as escavações, como já referido, levadas a cabo por D. Fernando de Almeida revelam alguns indícios do Paço Episcopal, embora o arqueólogo não tenha deixado grandes registos, o que adensa ainda mais a incerteza.

Regressando ao edifício “podemos admitir que começou por ser uma basílica cristã, sabemos

que em determinado momento foi sueva, foi visigótica, foi ocupada pelos árabes, foi

62 Referido por Sérgio Fernandez na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves Costa

e Sérgio Fernandez e com o Arqueólogo José Cristóvão” transcrita em Anexo.

63 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves

Fig. 30 Estado antes da intervenção Fig. 31 Escavação arqueológica – Batistério Norte

Fig. 32 Escavação arqueológica – Batistério Sul Fig. 33 Vista Sul depois da intervenção

Fig. 34 Vista Oeste depois da intervenção Fig. 35 Vista Nordeste depois da intervenção

reconquistada e cristianizada, depois dessa primeira reconquista em que foi templária, D. Manuel tentou recuperar aqui o concelho e fazer um foral especial, provavelmente terá sido também cemitério. Por conseguinte tem uma história muito longa e provavelmente ainda não foram efetuadas as escavações arqueológicas que seriam necessárias para chegar a conclusões rigorosas sobre este conjunto monumental de dois batistérios e esta basílica64”.

Esta enorme incerteza e complexidade levou a permanentes debates dentro da equipa pluridisciplinar, constituída por arquitetos, arqueólogos e historiadores e, como é evidente, várias leituras eram possíveis num exercício de permanente investigação. Por exemplo a repetição no centro do eixo Poente/Nascente, de duas colunas e um arco de ambos os lados, poderia indiciar uma composição de planta central, o que depois com a construção da porta Norte no eixo Norte/Sul leva a pensar que essa composição central foi transformada numa composição longitudinal. É normal em Portugal e na Península Ibérica as igrejas pré-romanas com planta central, sendo que depois em determinado momento o cristianismo adota a planta longitudinal como seu modelo, abandonando a composição central. Nas palavras de Alexandre Alves Costa “a transformação de uma planta central em longitudinal é normal, podia ter

acontecido65”. Depois há ainda outra porta do século XVI a Sul que significa que houve aí

outra entrada e, ainda outra a Poente do período de D. Manuel. Percebe-se que quando esta última porta foi aberta, foi criado um eixo transversal (Poente/Nascente) rematado por um altar.

Quando os arquitetos reuniram com os arqueólogos e historiadores no local para definir estratégias de intervenção, o próprio D. Manuel Real chegou a sugerir criar uma plataforma central que pontuasse aquilo que poderia originalmente ter sido uma composição de planta central (sem que houvesse certezas cientificas sobre isso). No entanto a equipa decidiu não fazer nada disso, sendo que a esse nível, a única intervenção que fizeram, dadas as duvidas que existiam, foi retirar um pavimento em granito que tinha sido oferecido pela Gulbenkian, porque por um lado, conseguiam colocar um pavimento em madeira de maior dignidade e, por outro, porque esta opção os aproximava da possibilidade de fazer escavações arqueológicas o que, para os projetistas era muito importante. A intervenção contemplou ainda, o restauro dos frescos, a simplificação da cobertura que era uma estrutura recente, o encerramento de uma janela enorme a Norte que trazia uma luz muito intensa ao interior (quando tradicionalmente estes espaços eram pouco iluminados), a colocação sobre a janela de uma peça em chumbo que alberga um ecrã que desce e permite a realização de conferências e outros eventos, e a resolução do problema dos desníveis nas diferentes entradas através da colocação de escadas soltas com um aspeto bastante artificial.

64 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves

Costa e Sérgio Fernandez e com o Arqueólogo José Cristóvão” transcrita em Anexo.

65 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves

A grande preocupação dos projetistas, considerando a complexidade e incerteza existentes era “que as intervenções que fizéssemos aqui fossem reversíveis, isto é, não fossem fixas,

não fixassem o futuro, não tirassem a possibilidade de ser tudo alterado, com base em escavações diferentes66”. Esta preocupação era também partilhada pela restante equipa,

como nos refere o Arqueólogo José Cristóvão “pretendíamos uma intervenção que fosse

minimalista, que não comprometesse que no futuro se pudesse fazer outras interpretações, que fosse reversível67”.

É também curioso referir que, ainda hoje, volvidos vários anos e continuada a investigação, esta incerteza teórica sobre o edifico persiste, como comprova o interessante relato transcrito em Anexo da “Visita a Idanha-a-Velha com os arquitetos Alexandre Alves Costa e Sérgio Fernandez e o Arqueólogo José Cristóvão”, onde se discutiu as cotas originais do pavimento interior da igreja e sobre as quais não se conseguiu chegar a nenhum consenso. Fruto deste debate salutar de opiniões diversas, Alexandre Alves Costa sugere que se retire um ensinamento, na sua opinião, fundamental a quem intervém no Património “a intervenção

no Património passa, obrigatoriamente por um estudo muito aprofundado sobre os edifícios, sem isso, não é pura e simplesmente possível fazer qualquer intervenção. E quando o estudo histórico e arqueológico não são suficientemente claros, não resolvem todos os enigmas, como é este caso, os arquitetos devem apagar-se o mais possível e tentar preservar aquilo que está. Não porem a sua assinatura em tudo aquilo que fizerem e deixarem que o tempo passe, porque um dia hão-de ser resolvidos os enigmas. Portanto ou sabemos tudo e então podemos transformar, ou não sabemos tudo e temos que preservar cuidadosamente…68”.

66 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves