A intervenção na Porta Norte e os arranjos exteriores da Muralha Romana, têm início em 1995 e decorrem ao longo de dois anos, sendo concluídos apenas em 1997. O objetivo principal desta intervenção passava por dignificar a entrada, criando um elemento iconográfico, transformando-a num dos elementos carismáticos e de identidade da aldeia. Como nos refere
53 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves
Costa e Sérgio Fernandez e com o Arqueólogo José Cristóvão” transcrita em Anexo.
54 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves
Costa e Sérgio Fernandez e com o Arqueólogo José Cristóvão” transcrita em Anexo.
Fig. 18 Vista aérea da Intervenção na Porta Norte e Muralha Romana
Alexandre Alves Costa na explicação transcrita em Anexo, o próprio IPPAR em Lisboa, na altura dirigido pelo Sr. Paulo Pereira, insistiu imenso na necessidade de criação deste elemento simbólico. No entanto a concretização deste objetivo e a transformação da intenção em projeto foi muito complicado do ponto de vista teórico, “fizemos,
inclusivamente um congresso internacional, chamamos diversos especialistas da área para discutir algumas das operações que estávamos a iniciar. O processo foi sempre muito discutido, com o arquiteto Fernando Távora também…56” Consequência deste debate
pluridisciplinar e dado que existiam dados bastante precisos do ponto de vista arqueológico, foi decidido propor a Reposição/Reconstrução de partes da Muralha e da Porta Norte. “Aqui
nós sabíamos que esta Porta tinha existido, um dos cubelos estava praticamente no sitio e as pedras do outro estavam espalhadas pelo chão (…) e de fato esta entrada era uma entrada monumental, foi-o sempre, era no tempo Romano de certeza e provavelmente até mais alta do que esta57”. Esta reposição utilizando, embora parcialmente, silharia romana existente no
terreno, foi efetuada até ao que os autores chamaram de “altura de segurança, até ali nós
sabemos que a muralha romana existia de certeza, porque existiam vestígios que mostravam que esta altura era garantidamente romana, o que está para cima poderia ser ou não, não havia provas científicas (arqueológicas) que o fosse58”. Num consciente incumprimento do
articulado da Carta de Veneza, foram então reconstruídos os dois cubelos semicirculares que ladeiam a porta, num processo sempre muito apoiado pela arqueologia o que reforça a convicção do autor “eu posso garantir que o que está aqui construído é, seguramente, uma
parte daquilo que esteve construído no período Romano59”.
Entretanto, na sequência da limpeza do terreno envolvente à muralha, foram empreendidas escavações arqueológicas que mostraram que a muralha, não tinha fundação, pousando diretamente sobre maciço rochoso de xisto. Esta particularidade suscitou a hipótese de manter esta estrutura à vista, no entanto concluiu-se que a ação das águas e do atrito degradariam o xisto, pelo que foi recoberto com terra. Neste processo de escavação apareceram, também, as fundações de mais dois cubelos. Aqui a Reposição não foi colocada como hipótese pelos autores que consideraram um exagero face ao trabalho já desenvolvido na Porta. Relativamente a estes dois cubelos foi decidido “fazer uma espécie de figuração,
dando a escala e a dimensão real do cubelo (que originalmente iria até ao chão) e
56 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves
Costa e Sérgio Fernandez e com o Arqueólogo José Cristóvão” transcrita em Anexo.
57 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves
Costa e Sérgio Fernandez e com o Arqueólogo José Cristóvão” transcrita em Anexo.
58 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves
Costa e Sérgio Fernandez e com o Arqueólogo José Cristóvão” transcrita em Anexo.
59 Referido por Alexandre Alves Costa na “Visita a Idanha-a-Velha com os Arquitetos Alexandre Alves
Fig. 20 Estado antes da intervenção Fig. 21 Escavação arqueológica – base da muralha
Fig. 22 Processo de Obra Fig. 23 Porta Norte e Muralha
Fig. 24 Porta Norte Fig. 25 Figuração dos cubelos
simultaneamente criando uma espécie de varandas que permitem usufruir da panorâmica60”.
Estes elementos figurativos, bem como um percurso criado no coroamento da muralha e que permite ligar todos estes momentos, são construídos com uma linguagem e materiais contemporâneos (ferro e cobre) dos quais resulta uma clara distinção entre o novo e o antigo. Embora a abordagem à Porta Norte e a parte da Muralha contrarie os desígnios da Carta de Veneza, adotando a Reposição, no percurso criado sobre a muralha e na criação das varandas de repetição imagética dos cubelos, conseguimos claramente identificar o princípio da diferenciação entre novo e antigo, princípio basilar da referida Carta. Num mesmo momento, a especificidade de cada circunstância e as necessidades e objetivos identificados, levam à adoção de abordagens diferentes com resultados construtivos também eles diferentes. Nas palavras do próprio autor “poder-se-á dizer que são intervenções incoerentes, mas de facto é muito difícil intervir no Património, porque nós não temos uma regra e a regra é sempre ditada pela própria circunstância e por aquilo que nós queremos. Outros arquitetos teriam feito diferente com certeza, não há nenhuma fatalidade na recuperação do Património. O Património é, como qualquer outra intervenção, uma obra de autor61”.