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Studying Developers’ Refactoring Experiences

Introdução

O título do presente capítulo sugere uma dicotomia que gostaríamos de desfazer ao longo do mesmo: online não deve ser entendido em opo- sição a offline. Com efeito, ainda que seja possível diferenciar de várias formas a experiência dentro e fora da rede, tal fronteira não deve ser en- tendida de forma rígida. A experiência quotidiana acarreta uma imersão digital constante que se intensifica à medida que os equipamentos tec- nológicos digitais se tornam ubíquos (Haythornthwaite e Wellman 2002). Dos scanners presentes nas caixas dos supermercados, que registam as nos- sas compras habituais, aos terminais de multibanco, onde levantamos dinheiro ou efetuamos pagamentos e outras operações, passando pelo uso do telemóvel para uma panóplia de funções, ou pelos circuitos fe- chados de vigilância que monitorizam os nossos passos mais banais, existe uma infinidade de ocasiões em que nos cruzamos com algum tipo de tecnologia digital.

A lista de atividades que aqui poderíamos enumerar é praticamente interminável, mas, sobretudo, revela a forma como progressivamente di- versas dimensões da nossa vida quotidiana foram sendo absorvidas pela tecnologia, a ponto de a sua utilização se ter tornado rotineira e passar em muitas ocasiões desapercebida. É assim que a pressão para estar co- nectado e alargar (indefinidamente) a nossa rede de contactos online anda a par da pressão para estar sempre disponível e acessível, a qualquer hora e em qualquer lugar. Esta é uma característica mais acentuada entre os jovens, que desenvolvem parte significativa das suas sociabilidades online,

traduzindo a mediação progressiva das suas práticas culturais e dos uni- versos simbólicos que criam fora e dentro das redes digitais (Bennett 2004; Boyd 2014). Não obstante, uma parte das nossas atividades quo- tidianas escapa às redes digitais. Nem sempre estamos conectados, do mesmo modo que uma parte significativa da população mundial tam- bém não está e não se supõe (por razões várias) que o venha a estar.1To-

davia, as questões que pretendemos aqui debater não se prendem tanto com os objetos passíveis de serem abordados online, mas com as poten- cialidades e as limitações que uma tal abordagem pode comportar. Gos- taríamos de começar por enunciar nesta introdução três ideias subjacen- tes à presente reflexão.

A primeira ideia diz respeito à importância de considerar a internet como cultura e artefacto cultural, seguindo a sugestão que Christine Hine formulou há mais de uma década a propósito de abordagens etnográficas online (Hine 2000). Esta recomendação possui tanto um alcance teórico como repercussões metodológicas. Do ponto de vista teórico permite ul- trapassar a ideia de determinismo tecnológico ou conceções monolíticas (e simplificadas) do que a internet representa, que tendem a surgir asso- ciadas a visões polarizadas do impacto da tecnologia na sociedade: por um lado, de elogio e evidente otimismo, por outro lado, de depreciação e notório pessimismo (Mann e Stewart, 2000; Markham, 2005). A pas- sagem de perspetivas centradas no impacto para perspetivas centradas nos usos e apropriação social da tecnologia, parece ser a solução para a com- preensão mais complexa da internet como artefacto cultural. Do ponto de vista metodológico, tal alteração de perspetivas comporta uma mu- dança de foco nas abordagens dos meios digitais e das suas consequên- cias.

O segundo ponto de partida articula-se com o anterior e diz respeito à forma como podemos pensar a relação entre o online e o offline ou, como também tem sido formulado, entre o «virtual» e o «real». Se a separação entre online e offline tende a apresentar-se cada vez mais problemática, a segunda distinção apresenta-se potencialmente equívoca e limitadora do ponto de vista tanto teórico como heurístico. Na verdade, esta última enunciação tem vindo a ser abandonada nos últimos anos sem que, con- tudo, tenham sido postas de lado as suposições epistemológicas de tal

1 Esta questão remete-nos para o debate sobre as desigualdades digitais e as limitações de acesso à tecnologia por uma parte da população mundial. Para os que têm acesso, a questão central diz respeito aos usos e à literacia digital. Ver, para desenvolvimento destes debates, Djik (2006) e Hargittai (2008).

distinção, que parecem sugerir que o «real» possui uma «validade intrín- seca» superior ao «virtual» (Miller e Horst 2012). Até que ponto a internet constitui um meio legítimo de obtenção de informação, com valor ex- plicativo por si, e não uma espécie de realidade de segunda? Em que me- dida a análise da internet terá sempre de comportar um olhar de fora do ecrã do computador, compensando a observação online com algum tipo de recolha offline (Bakardjieva e Smith 2001; Kendall 1999)?

A sugestão que aqui fazemos, seguindo com isso vários autores (Hine 2000; Kozinets 2010; Baym e Markham 2009), é que a relação online-of- fline não seja encarada como uma dicotomia mas antes como um conti- nuum entre os dois domínios. Em certas ocasiões podemos privilegiar apenas um dos contextos, ao passo que noutras podemos considerar a articulação intrincada entre ambos. Os casos empíricos que iremos apre- sentar inserem-se nesta última tendência, ao passo que vários exemplos de «mundos virtuais» (como, por exemplo, o Second Life) podem incluir- -se na primeira.

O terceiro e último ponto de partida a que pretendemos aqui aludir refere-se à forma como a internet tanto tem sido utilizada enquanto ter- reno de investigação por direito próprio como encarada de modo instru- mental, enquanto ferramenta de pesquisa, meio para atingir um determi- nado fim (Mann e Stewart 2000). Esta distinção, tal como as anteriores, tem vindo a perder alguma da sua pertinência inicial à medida que a imersão tecnológica se amplia e que a interpenetração entre os universos online e offline se intensifica. Todavia, pode ser pensada igualmente em função do modo como se decide estudar a importância atribuída às prá- ticas online por determinada população: considerando-as de forma indi- ferenciada, associada à utilização da internet para fins genéricos, ou de forma específica, associada a determinados universos culturais que pos- suam uma expressão online significativa e específica. Põe-se, por isso, a questão de saber, por um lado, que papel desempenham estas tecnologias nas práticas e nos universos que podemos estudar, e, por outro lado, que acesso nos dão aos fenómenos em causa? Como teremos oportunidade de discutir, há fenómenos em que a tecnologia digital se afigura como um artefacto crucial, constituindo-se como causa e terreno de interven- ção, do mesmo modo em que noutros casos desempenha um papel mais secundário ou complementar.

O presente capítulo tem uma ambição limitada dentro do que seria a multiplicidade de abordagens metodológicas da internet e dos meios di- gitais. Por um lado, pretendemos discutir questões de carácter teórico e metodológico a propósito da utilização de metodologias qualitativas on-

line. Por outro lado, propomo-nos apresentar as «soluções» encontradas a respeito de casos empíricos particulares. Não se trata, portanto, de for- necer indicações metodológicas precisas sobre como conduzir investiga- ção ou aplicar determinadas técnicas de pesquisa, mas procurar responder a problemas específicos.2

Para além de considerações teóricas e metodológicas gerais, propomo- -nos dar resposta a três questões a partir de casos concretos: a) como de- finir e delimitar um determinado objeto de estudo ou campo de análise online? b) que estratégia metodológica poderá ser seguida para selecionar os métodos de recolha e análise de informação, tendo em conta a varie- dade de materiais recolhidos online e a sua articulação com uma possível recolha offline? c) como definir a análise dos dados online, atendendo a que estes podem assumir uma natureza diversificada e articular-se de forma múltipla com dados offline?

Os casos empíricos que aqui trazemos para discussão referem-se a estu- dos que tiveram a juventude e as práticas culturais juvenis (pelo menos em parte) como denominador comum: por um lado, um estudo3sobre dife-

rentes vertentes da cultura hip-hop,4por outro lado, um estudo sobre par-

ticipação política e cívica dos jovens portugueses.5Correspondem igual-

mente a fenómenos eminentemente urbanos: num dos casos com um carácter subcultural (estudo sobre a cultura hip-hop), no outro associado à participação pública, principalmente no espaço urbano. Temos presente que estes são temas e objetos que nos condicionam de certa forma na res- posta às questões colocadas, quer porque possuem uma existência prévia offline, quer porque o seu carácter urbano e a ligação à juventude sugerem uma utilização proeminente de meios digitais e em particular da internet.

2Ver, para obras que cumprem este propósito, Jones (1999), Mann e Stewart (2000) Hine (2000; 2005), Baym e Markham (2009), Kozinets (2010) e Boellstorff et al. (2012).

3 O material metodológico que aqui será aludido tem por base a investigação de dou- toramento realizada entre 2003 e 2006 na FCSH-UNL. Ver Simões (2010).

4A chamada cultura hip-hop integra três vertentes expressivas, que agregam quatro ati- vidades principais: o graffiti (ou vertente visual) – pinturas realizadas pelos writers ou pin- tores de graffiti, recorrendo predominantemente à técnica do aerossol –; o rap (ou vertente musical) – que inclui o mcing (atividade a cargo do MC, mestre-de-cerimónias, rapper ou cantor rap) e o djing (atividade realizada pelo DJ, disk jockey ou quem manipula os discos e produz a sonoridade típica do rap) –; e, finalmente, o breakdance (ou vertente gestual) – que corresponde a um estilo acrobático de dança cujos praticantes se designam usual- mente b-boys/b-girls.

5 «Ativismo juvenil em rede: media digitais, movimentos sociais e cultura participativa entre jovens ativistas», projeto exploratório financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) através de fundos nacionais (EXPL/IVC-COM/2191/2013), que de- correu entre fevereiro de 2014 e maio de 2015.

No resto do capítulo, iremos começar por discutir alguns atributos formais da internet e dos media digitais, dado que possuem repercussões na forma de conceber as práticas online e, com isso, a investigação no ter- reno «virtual». A última parte do capítulo será dedicada à apresentação da estratégia metodológica seguida nos dois casos empíricos referidos. As respostas apresentadas serão pois determinadas pelos objetos de es- tudo em questão, que permitirão evidenciar potencialidades e desafios colocados à utilização de métodos qualitativos online.

Divisando o terreno digital: atributos