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Alice and the Stepwise Approach

6.3 A Stepwise Refactoring Tool

6.3.2 Alice and the Stepwise Approach

Como vimos anteriormente, a economia solidária não é uma completa oposição da economia tradicional, ela utiliza alguns conhecimentos da economia de mercado e precisa de pessoas capazes para a tornar cada vez mais eficaz, eficiente e inovadora. Contudo, essas componentes precisam, também elas, de ser transmitidas e ensinadas e é nesse aspeto que a escola tem um papel dinamizador fundamental.

Aliás, mesmo dentro da própria economia capitalista existe a necessidade de que os indivíduos tenham um bom desenvolvimento da sua inteligência emocional e empatia para que possam tornar-se empresários de sucesso e que contribuam para o crescimento económico e criação de emprego.

Ao analisar as características necessárias para se ser um bom empreendedor indicadas pela ANJE, rapidamente verificamos a existência de componentes ligadas à emotividade e capacidade de se relacionar. As competências recomendadas pela ANJE são a “curiosidade; a

capacidade de resistência (física e emocional); a orientação para objetivos; a independência; a exigência; a elevada propensão ao risco calculado; a tolerância à ambiguidade e à incerteza; a criatividade; a inovação; a visão; o empenho; a aptidão para resolução de problemas; a capacidade de adaptação; a iniciativa; a integridade; a capacidade de angariação de recursos; a capacidade de persuasão; a forte apetência pela mudança; a empatia e a tolerância ao fracasso”, estando muitas destas competências mais relacionadas com a personalidade e

emotividade de cada um do que propriamente com o seu desempenho intelectual.

Ora, se a própria economia tradicional reconhece a necessidade de algumas competências que vão além das lógico-racionais, mais se espera que a economia solidária, que visa a cooperação e o aumento do bem-estar social, tenha uma valorização crescente dessas competências humanísticas nos seus projetos e organizações.

Como nos é indicado por Martins e Pinheiro (2010) as iniciativas de empreendedorismo social caracterizam-se por terem “uma missão social para dar resposta a um problema social; por ser

uma solução inovadora na criação de um produto, bem ou serviço ou de um novo modelo de negócio; por ter um papel na geração de impacto social, alicerçada na transformação social positiva; por ter um elevado potencial de escalabilidade, o que permite um crescimento ou replicabilidade destes projetos e por ter uma forte estratégia de sustentabilidade financeira.”

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Podemos aqui verificar muitas semelhanças entre as características que são requeridas a um empreendedor clássico e um empreendedor social, contudo o empreendedor social distingue-se

“pelo carácter social da sua missão, pela natureza do valor que aspira criar, bem como pela visão de transformação social que pretende alcançar” (Quintão e Parente, 2015). Logo um

empreendedor social precisa ter as suas competências e preocupações sociais mais desenvolvidas do que é exigido ao empreendedor da economia de mercado.

Porém, apesar de Martins e Pinheiro (2010) defenderem que “é fundamental a criação de

centros de investigação universitários focados nas temáticas da economia social; gestão de organizações sem fins lucrativos e empreendedorismo, inovação e serviço social”, é ainda mais

importante que determinados valores, requeridos aos empreendedores, como a ética, a cidadania e participação comunitária sejam ensinados desde a pré-escola e de forma continua ao longo de todo o percurso escolar.

Claro que a existência de oferta formativa no ensino superior relativamente a estas áreas, tem uma grande relevância, mas se os nossos jovens universitários não souberem previamente a importância da colaboração, desenvolverem a empatia e o espírito de entreajuda ao longo do seu percurso académico, irão ter grandes dificuldades em se tornar empreendedores sociais de sucesso e estar à altura dos desafios que a sociedade lhes apresenta.

Sendo a democracia participativa um elemento fundamental para o funcionamento das instituições da economia solidária, ela necessita, portanto, de um conhecimento de como essas dinâmicas realmente funcionam e para tal a educação deve contribuir com os seus ensinamentos nesse sentido, estando previstos em termos teóricos, mas deixando ainda a desejar em resultados práticos. Como refere o relatório da UNESCO (1996) “a preparação para uma participação

ativa na vida do cidadão tornou-se para a educação uma missão de caráter geral, uma vez que os princípios democráticos se expandiram pelo mundo”, porém a participação democrática é

ainda pouco relevante e débil dentro das escolas, ficando aquém do esperado.

A questão da democracia e da capacidade em tomar decisões em comunidade é aqui amplamente discutida e reforçada por ser tão importante para a economia solidária, estando prevista em três características do seu sentido ético. Segundo Vanderson Carneiro, membro do Grupo de Estudos de Economia Solidária do Centro de Estudos Sociais essas características prendem-se com a tomada de decisão e produção e distribuição dos bens; relações humanas e convenções culturais e especificidade cultural. Estas são também características fundamentais

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da educação, sobretudo nos temas da educação para a cidadania, de modo dotar os estudantes de conhecimentos e técnicas que permitam “a um processo de construção social de capacidade

de governança balizado por princípios éticos e por um sentido de futuro.” (Ferrão, 2012)

Este modelo e práticas educativas vão ao encontro do desenvolvimento de competências quando se propõe a implementação de um currículo de união, do incentivo à gestão democrática e da promoção à integração comunitária. Desta forma, irá estimular a cooperação, a empatia e o desenvolvimento humano e social de cada individuo de modo a terem uma maior consciência da realidade que os circunda e dos problemas sociais que enfrentam, assim como uma maior abertura para abraçarem projetos de empreendedorismo social que traga respostas a muitos dos problemas que a sociedade defronta no presente. Aliás, como defende António Sérgio, um percursor de o cooperativismo em Portugal, deveria existir na escola experiências de auto governação em que “os alunos são entendidos como os protagonistas dos seus destinos dentro

da escola; elegem os seus representantes; fazem as suas regras e leis, acerca da sua vida dentro da escola; formulam os seus direitos e deveres; … assim habituam-se a intervir na vida como membros da sociedade”. Desta forma as práticas da economia solidária estão plenamente

adotadas pela escola permitindo aos alunos experimentarem os mecanismos democráticos.

Seria, contudo, utópico esperar que todos os membros ligados a uma organização social ou mesmo solidária tivessem presentemente este tipo de formação, enquanto não se regista essas mudanças pedagógicas. O que acontece na prática é que estas organizações surgem, como foi referido anteriormente, da necessidade de dar resposta a problemas sociais que nem a economia de mercado, nem a economia pública são capazes de solucionar, levando a que as pessoas se unem em torno de um objetivo comum. Mas por vezes, existem lacunas na formação de alguns dirigentes destas organizações que põem em causa a ação destas organizações podendo leva- las ao fracasso.

Surgiu por esse motivo a chamada formação cooperativa, que visa o devido ensinamento da ação cooperativa. António Sérgio dizia que “antes de se construir uma cooperativa se devia

criar uma escola”. Deste modo existe até na Declaração sobre a Identidade Cooperativa (1995)

o princípio da Educação, Formação e Informação que declara que “as cooperativas promovem

a educação e a formação dos seus membros, dos representantes eleitos, dos dirigentes e dos trabalhadores, de modo a que possam contribuir eficazmente para o desenvolvimento das suas cooperativas. Elas devem informar o grande público particularmente os jovens e os líderes de opinião, sobre a natureza e as vantagens da cooperação”, sendo assim uma forma de contornar

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essa falta que existe no sistema de ensino tradicional, dotando os líderes e gestores cooperativistas de ferramentas fundamentais à sua prática.

Como tal, a educação cooperativa deve ter como principais objetivos (Leite 2012):

➢ Dar amplo e completo conhecimento do sistema cooperativista, tanto na sua parte doutrinária e histórica, quanto nas suas realizações práticas;

➢ Formar no individuo o hábito de refletir sobre os próprios problemas económicos, bem como os da sua região, dando ao mesmo tempo uma formação económica o mais completa possível;

➢ Formar mentalidades democráticas; ➢ Educar moralmente os indivíduos.

Contudo, no fundo, a educação deveria ter esta componente colaborativa e cívica de um modo transversal independentemente da área de estudos realizados. O relatório da Educação Global da UNESCO afirma que “existe um único objetivo universal da educação, ter como missão

desenvolver um modelo onde a aprendizagem, tenha o poder de influenciar as decisões das pessoas para criar sociedades mais justas, inclusivas e sustentáveis.” Desta forma é

fundamental que exista conhecimento e compreensão dos problemas existentes e normalmente as pessoas educadas estão mais propensas a conhecer esses fatos. (UNESCO 2016)

Assim, como vimos ao longo deste ponto, os valores, práticas e ferramentas da economia solidária podem e devem ser aplicadas de uma forma praticamente transversal a toda a educação e sistema educativo, caso ainda não tenham feito, através de pedagogias e de modos de ação ou processos de tomada de decisão dentro das escolas.