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Cedo se nota nele, pouco depois de se fixar em Lisboa, o interesse pelo fado. Folhetinista, tradutor, ficcionista, investigador, jornalista multifacetado, Alberto Pimentel (1849-1925), natural de Cedofeita, não consegue frequentar o ensino superior, devido às dificuldades económicas paternas, como mais tarde relatará numa das suas crónicas. Inicia a carreira no Jornal do Porto, como revisor e tradutor, ao mesmo tempo que começa a escrever folhetins. Os seus interesses são muitos e o jovem irá procurar adquirir um acervo científico, que o distinguirá de outros divulgadores da época. Trata- se de alguém que pretende chegar a escritor conhecido e a político influente. Como o seu contemporâneo Cândido de Figueiredo (autor do famoso dicionário) escreverá,

67 - Barão de Roussado, in Cancioneiro Alegre, prefácio e organização de Camilo Castelo Branco, Porto, Tip. de A. J. da Silva Teixeira, 1879, p. 320.

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36 Camilo Castelo Branco é para Alberto Pimentel o maior dos mestres, anota sem cessar os termos que o eminente escritor inventa e depois esquece, para os incluir num estilo o mais possível semelhante ao do autor de A Brasileira de Prazins. Vendo nesta prática algo digno de elogio, sublinha o citado filólogo:

O conhecimento da língua, habilita-o para amoldar a pena, sem grande esforço, aos mais diversos e difíceis assuntos. Não é um sábio, não é um historiador, não é um luminar da pedagogia, e contudo tão facilmente decanta as folhas de um lírio como escreve um livro de história, um relatório escolar, uma monografia criminal um artigo de polémica. Isto depende essencialmente de um largo conhecimento e exercício da boa linguagem, em que pese a muitos, que muito escrevem e pouco estudaram a língua que escrevem. (…)69

Chegará a académico e a deputado, deixará larga obra publicada, mas o nosso interesse por Alberto Pimentel centra-se no facto de ele ter escrito uma das duas primeiras obras historiográficas sobre o fado. Deve-se a outra a João Pinto de Carvalho, o Tinop, sendo ambas publicadas no início do século XX. Só que enquanto o também culto Tinop, lisboeta, senhor de uma prosa inventiva, cheia de originalidade, procura o registo e o relato, num constante recurso ao memorialismo,70 o portuense segue um caminho que tenta tingir de colorações científicas, numa constante posição de muito pouca neutralidade perante o fenómeno, reafirmando sempre as suas ambições de mobilidade social bem conseguida nalgumas passagens, apresentando-se preconceituoso e parcial. Porventura para sublinhar o olhar distante de alguém bem relacionado nas esferas do poder, que beneficiara da protecção do poderoso político regenerador conselheiro Augusto César Barjona de Freitas (1834-1900), sobre algo que certamente encarava como coisa pitoresca e, no fundo, pouco recomendável, dará ao seu livro um título significativo: A Triste Canção do Sul – Subsídios para a História do Fado.71 Ora será essa obra, estruturada e cheia de interesse, que contribuirá sobremaneira, em nossa opinião, para o reforço de uma ideia pecaminosa e doentia em relação à trova e, sobretudo, dará lugar à fixação de muitos e persistentes mitos.

69 - Alberto Pimentel, Fotografias de Lisboa, Lisboa, Frenesi, 2005, pp.5-6.

70 - No caso muito particular desta obra, é visível a componente memória própria ou alheia, bem como a expressão escrita da tradição oral.

71 - A Triste Canção do Sul – Subsídios para a História do Fado foi uma obra publicada em Lisboa, pela Livraria Central de Gomes Carvalho, em 1904.

37 Mas há mais: seguindo aquilo que hoje se poderia chamar uma agenda ideológica, Pimentel dará à estampa, pouco tempo volvido, As Alegres Canções do Norte 72, que, sem sombra de dúvida, constitui a obra mais subtilmente tecida para minar a importância do fado e do seu papel na vida nacional, que ele considera certamente nefasto e imagem sólida da calaceirice meridional, leia-se lisboeta.

Convirá aqui introduzir outra personagem, que teve grande influência sobre o cronista, o também amigo de Camilo e igualmente folhetinista Júlio César Machado (1835-1890), que o portuense conhecerá em Lisboa e de quem fica incondicional admirador, além de íntimo. Havia razões para isso: o visado era também autor teatral, biógrafo, poeta, romancista, crítico de costumes, ilustrado pelas viagens ao estrangeiro, que descrevia com pormenor e prosa saborosa, tal como a seguir se exemplifica:

Um garboso empregado incumbia-se de advertir por mais singular que isso parecesse num baile público de Espanha, país da cigarrilha, não ser permitido fumar senão na sala de entrada. As espanholas, que lá vi, pouco ciosas da fama de formosuras, salvavam-se pelo menéo: espanholas, bonitas, ou feias, têm sempre uma graça especial para tocar, para cantar, e para dançar; e depois, aquelas Paquitas, Dolores, ou Pepas, costureiras quase sempre, de Capelanes, pareciam chamarem-se todas elas Dona Decencia; um

salero casto, para haver de tudo.73

Também Alberto Pimentel se interessava sobremaneira por espanholas, quinta-essência do nosso erotismo oitocentista masculino, quanto a influências moderadamente

estrangeiras— e que ele homenageava da seguinte forma entusiástica:

Quando o Lourenço de Magalhães se senta ao piano, e a primeira valsa começa, são elas, as espanholas, que figuram em maior número entre os pares dançantes, e, diga-se a verdade, a sua graça nativa, o salero, compensa nelas a simplicidade da toilette. Gostando imenso da valsa, as espanholas são infatigáveis como valsistas e, quando durante alguns momentos de descanso passeiam na sala, ressurge logo nelas a alegria da conversação (…) Sente-se que se está em presença de uma raça alegre, que nós temos por força que admirar, porque podemos ser tudo o que são os espanhóis, menos tão alegres como eles.74

72 - As Alegres Canções do Norte, livro dado à estampa em Lisboa, pela Livraria Viúva Tavares Cardoso, em 1905.

73 - Júlio César Machado, Em Hespanha, scenas de viagem, Lisboa, Livraria de A. M. Pereira, 1865, p. 57.

38 Certamente que os dois homens terão ido juntos, uma ou outra vez, às chamadas hortas, também visitadas por alguns escritores e artistas 75 — e não deixa de ser curioso como Júlio César Machado, sem esconder um certo desdém, as retrata:

O Colete Encarnado é como o Peru, o Quintalinho, as Cortes, uma horta como todas as

hortas. A leitora terá por certo ouvido, de uma ou de outra vez dizer no teatro, alguma personagem de farsa de meio carácter — Fomos às hortas, vamos às hortas, queres ir às

hortas? As hortas por si são um local sem encanto, porém ir às hortas constitui a festa: o prazer não consiste em estar nas hortas, mas em ir às hortas! O prazer consiste no passeio, na boa companhia e na liberdade que o caminho permite, porque as hortas são quase sempre fora das portas da cidade. O nosso povo gosta desse passatempo. Ao domingo vai a gente das classes inferiores divertir-se fora de Lisboa, a algum desses quintalões onde se passa alegremente o dia, cantando, tocando guitarra, jogando a malha ou passeando. Numa das extremidades da horta costuma haver uma casa de pasto, onde se não julga preciso haver lista, porque quase sempre as iguarias se limitam ao «peixe frito» e «chouriço com ovos». Uns «pastéis de bacalhau» aumentam às vezes o banquete, e uns «queijos de marmelada» servem de lauta sobremesa.76

Preocupado com a nossa falta de alegria, incapazes de rivalizarmos com os espanhóis, pelo menos nesse domínio, Alberto Pimentel terá de dar razão, necessariamente, à opinião expressa pelo amigo, quando descreve aqueles locais onde se canta, habitualmente, a triste canção do Sul. Não é ele o mais elegante contista de que tem conhecimento?!77 Tudo fala nele: os olhos, que são de um brilho verdadeiramente

peninsular; a cabeça, que, com notável vivacidade, acompanha os movimentos dos olhos.78 Quanto à trova lisboeta, num livro publicado cerca de um ano depois de se estabelecer na capital, o portuense parece emocionar-se com essa canção tão distante das do seu Norte:

Lisbonne s’amuse. Lisboa está namorada da guitarra e do fado. Ao anoitecer,

principalmente a essa hora, ouve-se em cada rua, tangidas dentro das casas, seis guitarras pelo menos. E o certo é que os guitarristas de Lisboa compreenderam a doce

75 - Ambiente de fadistagem e de amadores tauromáquicos, coisa de que (nem todos) os intelectuais da época seriam grandes entusiastas, as hortas dos subúrbios lisboetas, constituíam uma espécie de local de diversão popular, onde não faltava quem tocasse guitarra e cantasse o fado, enquanto geralmente se esperava o gado bravo para as touradas. Para o vulgo, estas romagens iniciavam-se depois da Páscoa e prolongavam-se até ao Outono. Abundavam os retiros, estando referenciados, entre Arroios e a Portela, os seguintes: Miguel do Café, José dos Pacatos, Bazalisa, Tanoeiro, António Cara Larga, Perna de Pau, o António Zé, o Mantas e o Fadista (Cf. Raul Proença, in Guia de Portugal, Lisboa e Arredores, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991, p. 269; e Marina Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, Lisboa, Quimera, 1987, p.133).

76 - Júlio César Machado, A Vida em Lisboa, vol. 2.º, Lisboa, Parceria A. Maria Pereira, 1901, pp. 92-93. 77 - Alberto Pimentel, Fotografias de Lisboa, Lisboa, Frenesi, 2005, p. 64.

39 melancolia do fado, e fazem com que as cordas da guitarra chorem numa cadência maviosa. O fado tem a poesia natural das grandes angústias, a tristeza dos que sofrem desamparados. É o hino da desgraça, o romance das mágoas obscuras, a epopeia do povo. Não há sentimento doloroso que a linguagem melancólica do fado não reproduza, desde a saudade do tombadilho até à aflição do lupanar. É o pensamento dos não sabem exprimi-lo. Para interpretar o fado nenhum instrumento mais de jeito que a guitarra. Está costumada a cantar tristezas desde a mais remota antiguidade, e além disso fala tão baixinho que não chega a incomodar os grandes, os felizes, os opulentos. É quase uma criança que chora ou uma mulher que suspira. Impressiona e não atordoa. Faz-se ouvir mas não atordoa. Faz-se ouvir mas não se impõe. A guitarra recorda a Espanha, onde a introduziram os mouros. (…) Foi a guitarra que levou ao piano o fado. Não é hoje raro que nas mais brilhantes soirées lisbonenses um pianista da primeira sociedade glose o fado com mais ou menos sentimento artístico. Estas invasões dos direitos do povo são frequentes em todos os tempos e em todos os regimes. O certo é que o fado, a música popular, perde muito da sua poesia no piano, cujas vozes são claras, fortes, nítidas. O fado, segundo a sua acepção, é a sentença ditada pelo destino: a fortuna, a sorte. Ora a história do povo é sempre acidentada de mágoas, de trabalhos, de fadigas. Requer um historiador humilde e melancólico. A guitarra reúne estes dois predicados. Fique o piano para a ópera e, se quiserem, para a opereta. Mas deixe-se para o triste serão do lupanar a guitarra que soluça nas mãos do homem devasso e é escutada pela mulher perdida — dois desgraçados. Que eles tenham ao menos essa hora de pungente poesia. Que chorem ao ouvir a tristeza do seu fado, porque o fado é (…) o hino da desgraça, o romance das mágoas obscuras, a epopeia do povo.79

O mínimo que se pode dizer é que o texto não pressagia nada de bom. Depois de reconhecer que o fado já entrou nos salões, através do piano — para grande inquietação da burguesia com filhas casadoiras, acrescente-se —, o autor mostra-se contrário a tais

transgressões. Quer vê-lo novamente entregue ao lupanar, para que possa desempenhar, cabalmente, o seu papel de «hino da desgraça», numa «epopeia do povo» que não se divisa qual seja. Desse mesmo povo que Alberto Pimentel terá a oportunidade de representar como deputado… E por duas vezes, a primeira das quais pelo círculo de Cinfães (1882), segundo garante, o menos carneirocombatatasmente,80 numa alusão à forma como se angariavam votos em época que não tinha ainda ao seu dispor os actuais

79 - Idem, ibidem, pp. 73-78. 80

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brindes partidários made in China. A segunda eleição verificou-se em 1890 e foi por um círculo do distrito do Porto.81