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Publicada em 1904, no ano seguinte à História do Fado de Tinop, imbatível no estilo e na transbordante torrente de informação, A Triste Canção do Sul – Subsídios para a

História do Fado antecipa As Alegres Canções do Norte, livro dado à estampa em 1905. Tal não significa que o tema não andasse na mente do escritor há tempo largo. Antes de mais nada, ao contrário de alguns dos amigos que fazem das viagens à civilização motivo de numerosas crónicas, Alberto Pimentel, embora assumido admirador da cultura francesa, como provam as muitas palavras desse idioma utilizadas na sua prosa, opina com orgulho:

É preciso que fique alguém para falar do nosso país. Tenho ficado eu, a tomar conta nele, mais que os governos.82

Antes, porém, não deixa de dar uma ferroadazita aludindo à tanta gente que vai ao estrangeiro de onde nos traz impressões, aventuras, e não sei se fábulas. 83 Admite, porém, como pessoa atenta ao progresso:

É moda do nosso tempo correr mundo, agradavelmente, em comboios rápidos ou paquetes velozes. Até se pretende resolver o problema de viajar em balão. Os homens de hoje colhem o fruto dos trabalhos que os nossos remotos antecessores passaram para descobrir e explorar terras longínquas; para atravessar caminhos perigosos, infestados de assaltos, emboscadas e morticínios.84

Ver — e saber fazê-lo — é, no entanto, algo de importante, tanto como registar aquilo que se observou:

Em França os tipos populares têm tido por fotógrafos habilíssimos talentos. Bastará citar dois ou três livros, porque são numerosos os que tratam do assunto. Eu conheço o Ce qu'on voit dans les rues de Paris e Les espectacles populaires et les artistes des

rues por Victor Fournel; Enigmes des rues de Paris por Eduardo Fournier e Célébrités

de la rue de Charles Yriarte. Em Portugal apenas um ou outro escritor se tem ocupado em artigos de jornal — lembro-me agora do sr. Alexandre Herculano e de Júlio César

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- Idem, ibidem, p.52.

82 - Alberto Pimentel, Sem Passar a Fronteira, Livraria Gomes de Carvalho, Lisboa, 1902, p. 7. 83 - Idem, ibidem, p.7.

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41 Machado — dos tipos populares. E todavia esse imenso mundo das ruas tem, como todos os mundos, seus mistérios, suas lágrimas, seus sorrisos, seus romances, — o que lhe dava direito a ter também a sua literatura. Estude-o porém quem se julgar com forças para o fazer; eu limitar-me-ei hoje a pregar neste cartão volante duas ou três borboletas, das que se andam espanejando nas ruas, à luz do sol de Deus, e que podem constituir, quando muito, outras tantas páginas da epopeia do povo.85

Nenhuma figura fadista sai então da pena do prosador portuense, que, se analisa alguns tipos populares, mais à vontade parece estar quando fala de homens de cultura ou de posição, mostrando quase sempre veia científica nas suas apreciações, como esta versando a arte e as bizarrias da genialidade:

Os homens de letras descuram porém as conveniências do organismo. Para eles a vida intelectual é tudo e, — dissipadores inconscientes! — vão-se atirando para o túmulo com uma pressa que o seu estado de contínua excitabilidade lhes não permite domar. Abundam nestas desafinações do sistema nervoso os caprichos, as veleidades, os hábitos esquisitos e bizarros, as idiossincrasias. Michelet, por exemplo, trabalha de manhã, tomando café em larga cópia. Balzac escrevia de noite e, como Michelet, ia esvaziando chávenas sem conto dum café negro, carregado, nauseabundo. Bossuet escrevia num quarto frio com a cabeça coberta; de Schiller conta-se que metia os pés em gelo para ter uma inspiração feliz. Mozart, a sensitiva da música, organização extremamente nervosa, era vítima de profunda melancolia. Procurava vencê-la com o trabalho, com o trabalho louco e desregrado, a ponto de se levantar do piano para cair no leito, exausto de forças. (…) O sr. visconde de Castilho cuja índole amena e suavíssima se espraia em recamos cintilantes por todas as páginas dos seus formosos livros, escreveu duma vez um poema onde se agita tempestuosamente o sentimento mais violento que pode escandecer o coração do homem ,— o ciúme. A sua biblioteca tem porém só um livro de tempestades e lutas; todos os outros refulgem serenos como os lagos na primavera. O estado-mixto dos escritores e dos artistas sofre também excepções, e nelas deve ter grande parte a hereditariedade. Agora nos ocorrem três: Um escritor robusto, bem humorado, infatigável — Alexandre Dumas, pai. Um maestro todo alegria e saúde, — Rossini. Um pintor, cheio de animação e de vida, em cujos quadros tudo é louro e rosado, — Rubens.86

85 - Alberto Pimentel, Vida de Lisboa ,Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1900, pp.53-54. 86

42 Testemunha privilegiada de uma época de mudança, procurámos traçar o retrato par lui-

même de Alberto Pimentel, que ficará indelevelmente ligado à historiografia do fado. Há que apontar, no entanto, o objectivo último deste autor, enquadrado certamente num romantismo nacionalista. Para ele, o fado é, afinal, algo que deverá manter-se nos seus

ghettos lisboetas, porque nada deve ensombrar o passo a um homem novo lusitano:

A meu ver, um dos maiores escritores da Europa, que mais salientemente deixa ver a influência do seu clima natal, — é Camilo Castelo Branco. Basta lê-lo, nos seus numerosos volumes, para se conhecer o temperamento português. É que Camilo Castelo Branco é primeiro que tudo um escritor nacional. Nos seus romances anda o idíliotriste, suave, sublime de doçura e pungimento a par da sátira envenenada, da crítica mordaz, do epigrama lacerante. Os seus livros, como os quadros de Rembrandt, têm a magia do claro-escuro que caracteriza a escola holandesa. (…) Muita da nossa melhor literatura são crónicas de viagem e poemas de amor. Nós, a nação que formamos a monarquia à sombra da cruz, herdamos, no vasto espólio que recebemos de Roma, a lira melancólica de Virgílio, que foi o poeta mais cristão do paganismo (…) Depois a mesma índole da língua, cujos números são duma saudosa melancolia, como notou Garrett, as perturbações súbitas da atmosfera, o aspecto suavemente triste da natureza, a solidão do navio, do bivaque e do claustro, deram-nos este carácter sombrio que nos distingue, predispuseram-nos para o temperamento nervoso-melancólico que é o predominante. O nosso clima favorece as moléstias intestinais — daqui o mau humor, a hipocondria, o azedume, a sátira, que está perfeitamente representada em Bocage. Ao contrário, os gregos, cujo céu era todo alegria e esplendores, tinham uma palavra própria para designarem o seu estado normal — Eucolos, o que diz simplesmente, — ter bons

intestinos. (…) Dois livros nos caracterizam perfeitamente, — Os Lusíadas e a Menina

e Moça. Fomos sempre o povo das saudades e da vida concentrada do mar, que o mesmo é dizer também da saudade. (…) Urge reformar esta raça enfezada que se está eximindo a cada passo de servir o exército nacional por não chegar ao estalão. Não deixemos mumificar estes pobres rapazes de vinte anos que se narcotizam com o charuto, que se requeimam com o grog, e se desvairam com o romance. E as raparigas! ah! e as raparigas! Como elas querem ser pálidas e lânguidas! Aos dezoito anos começam a ter enxaquecas, e aos vinte sofrem nevroses, — clássicas e românticas —, como as classificou Balzac na Fisiologia do Casamento. Havíeis de ver estas moçoilas do Minho, belas e rosadas, que volteiam tardes inteiras na valsa, em dias de romagem! Um dia, passando um ciclone na Europa, haveis de desaparecer da superfície da terra e subir ao ar em vapor. Depois haverá uma epidemia europeia, porque vós, partículas deletérias, corrompereis a atmosfera, e os animais que vos respirarem hão-de cair

43 fulminados. Das alturas de Barroso descerá então uma mocetona que, solidamente organizada, o tufão não logrou empolgar. E da serra da Estrela baixará um beirão que zombou das correntes atmosféricas erguido sobre um penhasco, que serviu muitas vezes de canapé a Viriato.E desta mulher e deste homem nascerá a raça futura.87

É com este «programa político» traçado em 1872 que o jornalista e deputado escreverá, muitos anos volvidos, As Alegres Canções do Norte, aplicando critérios de estudioso social e analisando canções folclóricas da região, assunto que cai fora do âmbito do nosso estudo, como já atrás dissemos mas convirá, de vez em quando, sublinhar. Não nos parece de estranhar que Alberto Pimentel, no dealbar do século XX, confunda diversos assuntos, antes de mais nada porque lhe faltaria formação. Homem de cultura acima da média, simpatizante confesso dos ideais maçónicos, procurando estar bem documentado sobre os mais diversos temas, não escaparia aos rigores de uma periferia geográfica então muito lesiva de quem pretendia estudos e meditações de certa profundidade com base em apoios científicos actualizados. Decide que o Minho, a

província mais setentrional do país, deve servir-nos de tipo na caracterização psicológica do povo do norte.88 E justifica-se:

Foi nesta província que primeiro pulsou a alma portuguesa. Não só na caracterização psicológica, mas também na da propriedade e cultura das províncias setentrionais do reino, como reconheceu Herculano. (…) Foi aqui, numa nesga de chão desmembrado da Galiza, que se desenrolaram os mais remotas preliminares da nossa independência. É, portanto, aqui, que devemos procurar os vestígios primitivos desse espírito de nacionalidade, que depois de nos ter feito livres nos tornou grandes.89

Curiosas para o tempo as suas observações sobre a vida minhota, que não está sujeita

aos frequentes conflitos que, noutras terras mais cultas, têm por base ‘a honra da mulher’. Conta-nos que este preconceito social não atormenta a vida das famílias; nem também a consciência da vítima e do sedutor. 90 E isto porque manter relações ilícitas

com uma rapariga solteira chama-se ‘namorar’. Sublinha, a propósito, que a própria palavra, adoçando-se num sentido passional, procura atenuar a gravidade do delito.

Geralmente — escreve — as raparigas casam já ‘namoradas’ por outro ; o noivo não o ignora, nem vê nessa falha de virgindade nenhuma ofensa aos seus brios de marido, nem á sua dignidade de homem. Também o adultério raras vezes inferna a vida do

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- Idem, ibidem, pp. 11-16; 40-42; 206-207. Os sublinhados são do autor da tese.

88 - Alberto Pimentel, As Alegres Canções do Norte, Lisboa, Livraria Viúva Tavares Cardoso, 1905, p. 5. 89 - Idem, ibidem, pp.5-6.

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minhoto no lar conjugal, porque a mulher casada, livro que um ou muitos leram antes

do marido, não desperta apetite, nem cobiça.91 E porquê? Ninguém a procura, nem a

solicita. Dir-se-ia que o homem do Minho apenas é guloso da ‘primeira mão’, ou pelo menos do viço da mocidade. As raparigas deixam-se facilmente ‘namorar’ pelos casados, visto que elas não aspiram a que o primeiro sedutor lhes pague o preço da sua honra, nem o perdê-la é motivo para deixarem de encontrar marido.92 Esclarece o autor que aquilo que nós chamamos vulgarmente namoro chama-se no Minho ‘conversar’. Conversar é, pois, o prólogo de namorar; é o prefácio, mais ou menos longo, da posse. Os conversados, por sua vez, passam horas inteiras dialogando, ele encostado ao

varapau, ela moendo entre os dedos o cordão de ouro ou as pontas do lenço. Aspecto interessante, em algumas povoações, por exemplo na Maia, concelho importante que

fica entre o Porto e o Minho, os ‘conversados’ falam em verso, repetindo formulários tradicionais, cada vez mais deturpados, ou improvisando redondilhas, muito fluentes e incorrectas.93 E, depois de aludir a esta liberdade de costumes afinal consensual e funcional, embora pouco católica, sobretudo para a época, como o livro (também) trata de canções, adianta o seu autor:

O verso foi a linguagem primitiva dos legisladores, porque se adaptava mais facilmente à memória dos povos rudes. Talvez por idêntica razão apareceriam os primeiros formulários da linguagem do Amor ; depois, enraizado o hábito de falar em consoantes, ele supriria pelo improviso as deficiências ou embaraços do formulário. As terras, no sul, enriquecem, mas não cantam. Em todo o Algarve, a vegetação intensa-se, tem uns longes amenos do Minho, mas o panorama do mar cava nostalgias da época dos descobrimentos na alma do marinheiro, e o domínio longo dos mouros, sobrepondo-se à natureza, não a deixou irisar-se nos trajes das povoações, onde o bioco, esse capuz fradesco das mulheres, meio árabe, meio medieval, é ainda uma tradição, combatida mas resistente. No sul, incluindo o Algarve, a vegetação acachapa-se, a vinha rasteja, a árvore procura o solo, a cor débil afunda-se, parecendo confranger e enterrar o coração das povoações indígenas. No Minho, a vide trepa, a roseira arboriza-se, a cor berrante sobe e empluma-se, gritando sursum corda, convidando o coração do homem a elevar- se para a alegria azul da atmosfera, puxando por ele para cima com um guindaste fundido em sol, que tem por base a coma dos arvoredos altos e corpulentos. O saloio do Termo de Lisboa só conhece o fato da camponesa de Viana pelo ter visto no corpo

91 - Idem, ibidem, p. 15. 92 - Idem, ibidem, p. 15. 93

45 dalguma rapariga estroina, que sai do baile de máscaras quando ele entra na cidade com as suas bilhas de leite ou com as hortaliças da sua almuinha. O minhoto não chega a entender as reivindicações socialistas, especialmente aquela que pretende limitar o dia do operariado a oito horas de trabalho; não tem rancor ao patrão, nem aversão à propriedade; e apenas se revolta de século a século para queimar as matrizes, insurgir-se contra os impostos, protestar contra a carestia do milho ou defender um preconceito religioso.94

Pimental envereda, depois, por longas considerações sobre o miguelismo, as lutas partidárias, a famosa Maria da Fonte, o posterior alheamento do minhoto pelos pronunciamentos militares, e, já agora, pelas directivas governamentais, sempre vistas como lesivas dos direitos do cidadão, que vê o seu dinheiro confiscado para impostos e fica sem os braços dos filhos obrigados a assentar praça. Sublinhando que de todos os

direitos reconhecidos pela legislação existente a propriedade é até o que ele compreende melhor, embora nunca seja em relação à terra ferozmente autoritário 95, o autor conclui:

Compreende-se que o seu canto seja sempre alegre, não só pela sugestão dos factores mesológicos, físicos ou morais, que rodeiam as povoações campestres do Minho, como também pela acção benéfica e estimulante de que a própria alegria é por sua vez factor. A antiga neuma guay, comprimida hoje no — ai — das canções populares, e tão persistente nos Fados da Estremadura como equivalência de um suspiro ou gemido, perde na boca do camponês minhoto a sua expressão sentimental de melancolia e dor. (…) Se os povos são felizes, cantam sua paz e riqueza: se estão escravizados ou abatidos, cantam saudades de um passado longínquo, esperançados num messianismo redentor. (…) A análise psicológica exercida pelo camponês, e traduzida em sentenças rimadas como os aforismos meteorológicos, conserva um ar de riso e de filosofia bonacheirona, até nas ocasiões em que tem de censurar as versatilidades do coração humano e lastimar os desequilíbrios da vida conjugal (…) as canções do norte não vão buscar lágrimas ou gemidos ao Fado, nem se bordam de escurezas de calão, como as da Estremadura. É a eterna linguagem dos madrigais e dos idílios. Canção do norte, canção alegre, que desoprimes e desabafas, tu vales tanto como um exorcismo seguro para repelir o trasgo da melancolia; como a droga eficaz para desopilar o pesadume da figadeira. És um copo de vinho confortante, que não custa dinheiro, e que se bebe no ar. (…) as nossas canções populares do norte são mais alguma coisa de que uma vivaz

94 - Idem, ibidem, pp. 16-23. 95

46 aguarela de costumes pitorescos, — são um rico filão psicológico, uma filosofia inteira.96