3 Methodology
3.1 Study area and sampling sites
A opção pela expressão gênero em vez de sexo é ideológica. A convicção é que não são as diferenças sexuais que justificam a discriminação. Entretanto, apesar da grande produção científica sobre o tema, ainda não há um consenso sobre sua conceituação.
A categoria gênero vem sendo utilizada pelo movimento feminista desde a década de 70. Boff (2002, p. 17) afirma:
Não basta constatar as diferenças. É imprescindível considerar como elas foram construídas social e culturalmente. Em particular, como se estabeleceram as relações de dominação entre os sexos e os conflitos que suscitam; a forma como se elaboram os distintos papéis, as expectativas, a divisão social e sexual do trabalho; como foram projetadas as subjetividades pessoais e coletivas. Como podemos ver, o conceito de gênero compreende questões que vão além do feminino/masculino e do sexo biológico, tomados em si. (grifo do autor).
No mesmo sentido, afirma Louro (1996) que gênero não significa o mesmo que sexo. Enquanto sexo se refere à identidade biológica de uma pessoa, o gênero está ligado à sua construção social como sujeito masculino e feminino.
O sexo, portanto, é uma categoria biológica que indica as diferenças anatômicas entre homens e mulheres. Já o conceito de gênero tem conotação social e cultural superando a mera oposição de seres anatomicamente diferentes e trazendo a lume de que o equipamento biológico não dá conta da explicação da posição subalterna conferida às mulheres na sociedade.
Os estudos feministas foram fundamentais para refutar o argumento histórico da diferenciação biológica e sexual de homens e mulheres como justificadora das desigualdades sociais, que procuraram demonstrar que as identidades do masculino e do feminino se constroem cotidianamente na esfera do social, não pelas características sexuais, mas sim pela forma
como essas características são valorizadas e representadas em diferentes contextos históricos (SABOYA, 2013).
Contribuindo nessa discussão, Flexa (2007, p. 2) afirma que “o conceito de gênero surgiu a partir da rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos e expressões como sexo ou diferença sexual, remetendo ao caráter fundamentalmente social das diferenças entre homens e mulheres”.
A autora ressalta que a nossa espécie se reproduz por meio da diferenciação sexual e que gênero guarda relação com os significados que cada sociedade atribui a tal fato. Gênero seria, portanto, o sexo socialmente construído.
Já Olinto (1998) contribuiu com a discussão afirmando que gênero significa a distinção entre atributos culturais alocados a cada um dos sexos e à dimensão biológica dos seres. Essa definição incluiu a questão sexual, mesmo transcendendo a diferença biológica como as anteriores.
Boff (2002) arrisca a agrupar as principais linhas de pesquisas sobre gênero em três grandes correntes.
A primeira corrente, segundo o autor, parte do princípio que a humanidade possui uma ‘memória’ sexual própria, fundada no longo processo de evolução da vida, que fornece comportamentos distintos com características psicológicas próprias a cada um dos sexos. O homem e a mulher aprendem e se socializam, mas tais realidades serão sempre moldadas pelas matrizes biológicas prévias. As relações de poder e os papeis, portanto, são condicionados pela base biológica diferencial dos sexos.
A segunda corrente afirma que as diferenças sexuais, de personalidade, de papeis e de exercício do poder resultam de condicionamentos sociais. O homem e a mulher são construídos social e culturalmente. Quando do nascimento, o homem e a mulher seriam neutros do ponto de vista psicossexual. Por essa visão, a fisiologia e a psicologia são insuficientes para dar conta para explicar as diferenças entre os sexos. Não existem, portanto, traços masculinos e femininos definidos. Homens e mulheres podem ser construídos igualmente em seres agressivos, dependentes, passivos ou cooperadores, criativos e pacíficos. O que determina o que cada sexo será é o tipo de construção social operado.
Dentro dessa corrente destaca-se a teoria do patriarcado. Patriarcado seria uma organização social que sistematicamente beneficia o homem em detrimento da mulher. Ou, como prefere Barreto (2004) é uma estrutura social sobre as quais se assentam todas as sociedades
contemporâneas e que é caracterizado por uma autoridade imposta institucionalmente, do homem sobre as mulheres, no espaço público e privado e que permeia toda organização da sociedade, da produção e do consumo, da política, à legislação e à cultura.
Nesse sentido, o patriarcado funda a estrutura da sociedade e recebe reforço institucional, nesse contexto, relacionamentos interpessoais e personalidade, são marcados pela dominação e violência.
A terceira e última corrente, ainda de acordo com Boff (2002), considera elementos das posições anteriores, de uma forma dialética. O ser humano é a espécie mais complexa. Por um lado, é parte e parcela da natureza com o seu capital biológico-sexual próprio. Por outro, intervém na natureza e molda-a de acordo com os seus interesses. É essa complexa interação entre fatores biológicos e socioculturais que constrói o gênero. As diferenças sexuais são dadas e, simultaneamente, construídas.
Ao seu turno, Silveira N. (2009) apresenta também a sua classificação didática dos estudos sobre gênero em quatro abordagens.
Abordagens evolucionárias – Equivale a primeira corrente de Boff (2002) vista acima. Afirma que a humanidade é “ancestralmente programada” e analisa o comportamento diferenciado de homens e mulheres com base no investimento para a perpetuação da espécie, levando em conta tanto as estratégias reprodutivas como o posterior cuidado da prole.
Sob essa perspectiva evolucionária, os papéis desempenhados por homens e mulheres na sociedade são reflexos da “função natural” que cada um tem para a sobrevivência da espécie. A contribuição do homem é ter o maior número de descendentes possíveis, através de múltiplos parceiros, com vista a maximizam as chances de sobrevivência da prole. Já as mulheres precisam ter cuidados durante a gravidez e após o parto. É seletiva na escolha do parceiro para garantir uma boa linhagem – maior chance de sobrevivência da prole – e a segurança da ‘ninhada’. O que é normalmente associado à agressividade e dominação.
Abordagens psicanalíticas – É uma ótica Freudiana. O desenvolvimento de identidade de gênero é diferente para meninos e meninas e é associada à sexualidade. Nessa abordagem, a diferenciação do gênero emerge da forma como a menina e o menino reagem à natural atração com a figura parental do sexo oposto. Daí, de forma simplista, o medo da castração, por parte do menino, e o ressentimento da privação de um pênis, no caso das meninas.
Abordagens sociológicas – Essas abordagens se contrapõem explicitamente às abordagens biológicas e psicológicas, propondo que gênero é uma construção social. Equivale a segunda corrente de Boff (2002).
As diferenças entre homens e mulheres não são a confirmação da natureza determinística da biologia e da superioridade masculina. De acordo com essas abordagens, essas diferenças podem ser elucidadas pela psicologia social e pela sociologia. O entendimento desse enfoque é que tanto as diferenças individuais dentro de cada sexo como as diferenças médias entre os sexos são, basicamente, reflexos da socialização.
As concepções do masculino e feminino variam, ainda de acordo com essas abordagens, de sociedade para sociedade e ao longo da história. Os atributos tidos como masculinos, agressividade, por exemplo, são encontrados em muitas mulheres, assim como a sensibilidade, tida como característica feminina, pode ser encontrada em vários homens. Abordagem sócio-cognitiva – Essa abordagem tem como premissas que as diferenças entre homens e mulheres variam em função do contexto social e em diferentes períodos da vida e que os fatores biológicos ou psicológicos ou sociais são insuficientes para explicá-las. Assim, identidade de gênero é um processo negociado ao longo de toda a vida que envolve aspectos cognitivos, afetivos e motivacionais.
Assim, o desenvolvimento da identidade e concepções de gênero se dão através de influências de fatores pessoais, sob a forma de eventos cognitivos, afetivos e biológicos que incluem as próprias concepções de gênero; fatores comportamentais, até aqueles que comumente são associadas aos gêneros; e fatores ambientais, que dizem respeito às influências sociais encontradas na vida quotidiana. A contribuição relativa de cada uma dessas influências depende do contexto e que podem operar como facilitadoras ou inibidoras.
Scott (1995, p. 21) acrescenta ao conceito de gênero, uma dimensão política. Seu conceito é composto por duas partes: “o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder.”.
A própria autora explica que o gênero, como elemento constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos (primeira parte do seu conceito), implica quatro elementos relacionados entre si:
a) Símbolos culturalmente disponíveis que evocam representações múltiplas (frequentemente contraditórias) – A mulher é Maria e Eva, símbolos de luz e da escuridão, da inocência e da corrupção.
b) Conceitos normativos que colocam em evidência interpretações do sentido dos símbolos que tentam limitar e conter as suas possibilidades metafóricas - expressos nas doutrinas religiosas, educativas, científicas, políticas ou jurídicas e tipicamente tomam a forma de uma oposição binária que afirma de forma categórica e sem equívoco o sentido do masculino e do feminino. A história posterior é escrita como se essas posições normativas fossem o produto de um consenso social e não de um conflito.
c) Noção do político e referência às instituições e organizações sociais - Uma visão mais ampla que inclua não só o parentesco, mas também o mercado de trabalho, a educação, o sistema político etc.
d) Identidade subjetiva - O gênero é um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre diversas formas de interação humana.
Quanto à segunda parte do conceito – a questão do poder, a autora afirma que o gênero é uma das referências recorrentes pelas quais o poder político foi concebido, legitimado e criticado. O gênero e o poder se constroem reciprocamente. Ele se refere à oposição masculino/feminino e fundamenta ao mesmo tempo seu sentido. O poder político, nessa acepção, não seria uma construção humana, faria parte da ordem natural ou divina.
No presente trabalho se optou pelo conceito articulado por Silveira R. (2008). A autora compilou os avanços teóricos sobre o tema e apresenta o significado de gênero como:
a) Uma construção sociocultural: nem as diferenças biológicas existentes entre homens e mulheres são apenas “naturais”. O modo de encarar o corpo também é elaborado na vida social, das diversas culturas/sociedades. As diferenças biológicas, portanto, não justificam nem explicam a situação de subalternidade e de inferioridade. Família, infância, cuidado, responsabilidade, sensibilidade são igualmente construções socioculturais.
b) Uma dimensão da vida humana: as identidades pessoais e sociais e as relações entre homens e mulheres fazem parte da vivência. São distintas, mas complementares, às distinções biológicas/corporais. O sexo e a sexualidade são expressão de humanidade.
c) Uma construção histórica, no tempo e no espaço: não há uma identidade feminina ou masculina única, fixa e imutável, universal, válida para todos os tempos e espaços. A concepção binária (homens de um lado, mulheres, de outro) constitui o padrão dominante para normatizar um modelo de comportamento de base religiosa, científica, educativa, jurídica, política, segundo o qual homens e mulheres deveriam se pautar. d) Os modos como as sociedades e os grupos sociais interpretam: as diferenças entre os
sexos e as relações que se estabelecem entre si, tais como os impulsos sexuais, os relacionamentos afetivos, a reprodução da espécie humana, também são o que a sociedade diz que é e dão significados.
e) Um conceito abrangente: relacionado a vários outros elementos constitutivos das identidades de homens e mulheres, tais como classe social, etnia, geração, religião, etc. f) Um conceito que significa relações de poder: as relações de gênero também tratam das
concepções e práticas sociais que acentuam ou enfatizam o poder masculino sobre as mulheres. Essa dimensão é provavelmente o que tem de comum às mulheres das diversas culturas, embora sejam variáveis as formas que são oprimidas.
g) Um conceito que serviu e serve para classificar e para desclassificar: na medida em que a expressão “gênero” associa determinados qualificativos aos homens e outros, às mulheres, criou uma desclassificação destas últimas, tanto nas práticas sociais quanto nos discursos.
h) Um conceito que supera a divisão entre esfera pública e esfera privada: o gênero aponta na possibilidade que as duas esferas se interpenetram e se complementam. i) Uma possibilidade de mudança na situação de opressão: as práticas sociais objetivas
de relacionamentos entre homens e mulheres são elementos constitutivos de suas identidades. Assim, no papel de sujeitos sociais, pode-se aceitar uma determinada situação ou não. As mulheres podem se submeter à opressão ou podem recusá-la. 2.2.3 Gênero e o mundo do trabalho
Conforme visto na seção 2.2.1, a inserção da mulher no mercado de trabalho de forma definitiva só acontece no século XX, com as grandes guerras. E essa mudança irreversível é, na opinião de Flexa (2007), um marco na história das mulheres, pois permitiu iniciar a ruptura da dicotomia entre os papéis público e privado atribuídos segundo o gênero, condição básica do patriarcado.
Durante as guerras, lembra Betiol (2000), as mulheres ocuparam todos os papeis na sociedade: chefes de família, condutoras de bondes, operárias de fábricas de munição, auxiliares do exército, servidoras públicas etc. Adquiriram mobilidade, mudaram os trajes para roupas mais confortáveis, adquiriram, principalmente, confiança em si próprias.
A vinda da mulher para o mundo do trabalho não se faz sem conflitos. As vozes se levantam para falar da masculinização das mulheres que se incorporam ao trabalho além de movimento ostensivo para sua volta aos lares.
As barreiras enfrentadas pelas mulheres para participar do mundo do trabalho foram muito grandes, independentemente da classe social a que pertencessem. Menores salários, intimidação física, desqualificação intelectual, assédio sexual são alguns dos inúmeros obstáculos para participar de um ambiente definido – pelos homens – como “naturalmente masculino”. Esses obstáculos começavam no interior da família que hostilizava o trabalho feminino fora do lar (RAGO, 2013). Nesse ambiente, as mulheres têm que lidar com uma carga considerável de preconceitos machistas por parte de superiores, pares e subordinados. Entretanto, parte das mulheres sequer percebe o preconceito. Os estereótipos machistas estão tão arraigados culturalmente que por vezes não são percebidos por suas próprias vítimas. O preconceito e a discriminação vêm perdendo espaço, mas ainda é muito presente. Lemos et
al. (2014) afirmam que algumas particularidades que envolvem a inserção da mulher no
mercado de trabalho (tais como a sexualidade e a maternidade) reforça a noção de que as aspirações e expectativas das profissionais, ainda que possam ter muitos pontos em comum, talvez não sejam exatamente iguais as de seus parceiros masculinos.
Um elemento fortemente diferenciador da relação entre a mulher e o homem na organização é a sexualidade e o temor do seu uso indevido. Desse temor derivam pelo menos dois preconceitos: primeiro, que a mulher usou de sua sexualidade para ascender; segundo, que ela se comporta “como homem” (BETIOL, 2000).
Já Carvalho Neto et al. (2010) são da opinião que essa “masculinização” do comportamento feminino no ambiente de trabalho, e, portanto, essa corporificação dos atributos masculinos pelas mulheres, seria responsável pela perda de um necessário lado “diferente, feminino, de fazer a diferença” na gestão.
Outro grande desafio contemporâneo, tanto para as mulheres como para as organizações, é o equilíbrio entre o espaço público e o espaço privado, entre o trabalho e a casa. Kreiner et al (2009) investigaram nos EUA como as pessoas gerenciam limites para negociar as demandas
entre trabalho e vida doméstica. O principal achado é que o gênero feminino valoriza mais esse equilíbrio que o homem e que esse estado é raramente alcançado por profissionais.
O lar não é a principal preocupação do homem profissional (KREINER et al 2009). Os homens raramente, mesmo que a situação profissional do casal seja semelhante, participam das atividades domésticas nem nas tarefas com os filhos do casal. Essas tarefas não são negociadas com os maridos.
Ainda no campo dos papéis desempenhados por homens e mulheres se observa que ainda é grande o número de mulheres, mesmo sendo as maiores provedoras do lar ou “referência familiar” (ganham mais que seus maridos), ainda submetem o orçamento a estes (CARVALHO NETO et al, 2010). Em 2004, o percentual das mulheres “referência familiar” variava de entre 6,6% (casais sem filho) e 5,1% (casais com filhos) dos lares. Em 2013, esse número saltou para 20% dos lares (IBGE, 2014).
Que pese todas essas dificuldades, as mulheres trazem para o mundo do trabalho, segundo Boff (2002), algo radicalmente novo, pois foi apenas o homem que se tornou competitivo, porque se destinou ao domínio público. Como a mulher ficou destinada ao domínio doméstico, conservou os valores de solidariedade e partilha. Milenarmente ela tem sido educada para o altruísmo e o cuidado, pois, se o filho não tiver à sua disposição alguém completamente altruísta, ele não dura um dia sequer.
Nesse sentido, Queiroz et al. (2010) afirmam que os valores trazidos pela mulher para o ambiente das organizações são muito valorizados, como a capacidade de trabalho em equipe, a persuasão e a cooperação. Como foi visto na introdução, não existe mais nenhuma trincheira que não tenha sido ocupada pelas mulheres: governos, empresas, pesquisa, tecnologia de ponta. Pilotam jatos, comandam tropas, perfuram poços de petróleo.
O modelo das dimensões culturais de Hofstede é um quadro-referência que descreve cinco tipos de diferenças/perspectivas de valores entre as culturas nacionais, entre eles encontra-se a dimensão da masculinidade versus feminilidade, que indica como se dá a distribuição de papéis entre os sexos naquela cultura. Hofstede (2001) afirma que a masculinidade está relacionada à competição, ao posicionamento afirmativo, a aquisição de dinheiro e de coisas, enquanto que a feminilidade valoriza as relações entre as pessoas, preocupação com o próximo e a qualidade de vida global.
Em culturas mais femininas, as expectativas dos papéis desempenhados pelo homem e pela mulher não têm diferenças tão significativas. Tanto um quanto o outro pode estar ligado às
atividades externas, à carreira, ao sucesso e ao dinheiro, como também pode ser responsável pela harmonia das relações e qualidade de vida. Isso explicaria porque, em culturas mais femininas, como nos países escandinavos, a mulher já avançou mais em relação à igualdade e os homens já tendem a considerar que é também sua função cuidar do dia a dia dos filhos, o que abre mais espaço para a mulher se dedicar à carreira. No entanto, o caso escandinavo é raro, mesmo entre os países mais desenvolvidos.
Nos países masculinos, como Áustria e Japão, por exemplo, se espera que as mulheres permaneçam no espaço privado ou doméstico. Já nos países femininos as mulheres são encorajadas a trabalhar. Na Suécia a licença maternidade é compartilhada entre o pai e a mãe da criança (HOFSTEDE; HOFSTEDE, 2004).
Sociedades onde há diferenças latentes nesse aspecto são consideradas como “masculinas”, o inverso são consideradas “femininas”. No Quadro 4 estão relacionadas as características da feminilidade proposta por Hofstede (2001).
Quadro 4 – Características da feminilidade na organização do trabalho Feminilidade
Pequena diferença entre gêneros na cultura
Maior participação das mulheres no trabalho profissional e técnico Menor diferença de salários entre gêneros
Maior equilíbrio entre família e carreira
Espera-se que os gestores usem intuição, tratem as pessoas com sentimento e procurem consenso Gestores são funcionários como os outros
Significado do trabalho: relações e condições de trabalho
Conflitos são resolvidos por meio de medição, acordos e negociações Menor tensão no trabalho
Fonte: Adaptado de Hofstede (2001).
Diferente de Hofstede (2001) que classificou o Brasil como uma cultura hibrida entre a
masculinidade e a feminilidade, Carvalho Neto et al (2010) afirmam que o Brasil tem uma
tradição cultural machista, e que por isso, o avanço da participação da mulher no mercado de trabalho ainda não foi capaz de se traduzir em significativa divisão de responsabilidades em relação às crianças. Pesquisas sugerem que as mulheres, na média, enfrentam mais estresse no desempenho do seu papel familiar do que os homens, e que, no equilíbrio entre os papéis no trabalho e na família, as mulheres tendem a trocar as responsabilidades familiares pelas responsabilidades do trabalho.
Cavazotte et al. (2009) destacam três situações nas quais a desigualdade de gênero é bastante evidente no mercado de trabalho. A primeira é a diferença salarial (os homens recebem remuneração superior à das mulheres em ocupações idênticas). A segunda é a segregação ocupacional (as mulheres, em geral, ocupam postos de trabalho menos qualificados e mais mal remunerados do que os dos homens). E por último, objeto deste trabalho, observa-se a dificuldade de ascensão profissional das mulheres, fenômeno para o qual foi cunhada a expressão teto de vidro (glass ceiling).
O conceito de teto de vidro foi introduzido na década de 80 nos Estados Unidos, entendido como uma sutil, mas forte barreira que bloquearia a promoção de mulheres aos níveis superiores da hierarquia nas organizações, independentemente das suas qualificações e realizações profissionais. (CAVAZOTE et al, 2009; STEIL, 1997; MADALOZZO, 2011). Essas barreiras viriam de encontro à propensão cada vez mais forte, das mulheres, a assumir cargos de maior responsabilidade e de maior exigência técnica, apesar de ainda persistirem as diferenças salariais, a discriminação quanto ao estado civil e quanto à aparência física