Ao analisar o exercício profissional do Assistente Social no âmbito das “práticas interdisciplinares” na área da Saúde, se faz necessário discutir a interdisciplinaridade nessa área, haja vista ser essa interlocução o ponto nodal deste estudo, que objetiva discutir como se processam essas práticas frente às transformações no mundo do trabalho em curso e os impactos para a profissão do Serviço Social no seu exercício profissional.
Na América Latina a interdisciplinaridade vinculou-se a políticas modernizadoras como a Saúde, Educação, meio ambiente, planejamento social, etc., atrelada ao nascente processo de democratização, tornando-se pauta nos debates das políticas sociais.
No contexto de redemocratização do país, sobretudo nos anos de 1980, o Movimento da Reforma Sanitária na Política de Saúde cresce e ganha consistência, dando abertura para a participação da sociedade civil, trazendo a tona novos contornos na vida social a partir dos princípios democráticos e (re) orientadores de um novo modelo de atenção a saúde. Esse novo modelo de saúde foi construído para ampliar a compreensão da relação saúde-doença definindo um sentido mais abrangente, colocando a saúde como um resultante das condições de alimentação, habitação, renda, trabalho, transporte, lazer, liberdade, e acesso gratuito aos serviços de saúde. Essa emergente abordagem trouxe novas requisições para a produção do conhecimento e para a gestão na saúde.
É nesses parâmetros que emerge o Sistema Único de Saúde (SUS), criado pela Constituição Federal de 1988, regulamentado pela Lei nº. 8.080/90 e a Lei Orgânica da Saúde de nº. 8.142/90, que estabelecem os princípios de igualdade,
integralidade e universalidade, nos quais se preconizam a porta de entrada para as
chamadas “práticas interdisciplinares” que surgem com a finalidade de promover a compreensão integral do processo saúde/doença e de facilitar a interlocução entre profissionais através da concepção de que o conhecimento não é algo isolado e fragmentado.
A interdisciplinaridade passa a integrar a Política de Saúde com vistas a superar as especialidades que fazem parte do saber das ciências da saúde, buscando objetivar novas configurações de saberes que favoreçam uma abordagem integral do indivíduo.
A saúde deve ser tratada como unidade, que pode ser apreendida numa abordagem sintetizadora e nunca pela acumulação de visões parcelares. Deste modo, os conhecimentos advindos dessa dialética fornecerão os elementos para a construção do sentido de totalidade. Isso desperta para uma série de conseqüências que dizem respeito à interdisciplinaridade, relativas à atuação dos educadores nos vários campos do saber (POMBO apud SILVA, 2006 p. 7).
Registram-se desde então, tendências de unificação do saber sob uma perspectiva de trabalho em equipe, “solidário” e “interdisciplinar” em resposta à
fragmentação e à excessiva especialização do conhecimento, no qual a totalidade é substituída, nos termos de Netto (1989), por um simulacro, o “todo”, equacionado como integração funcional de “partes” e capturável por essa perspectiva de inter ou
multidisciplinaridade.
Os princípios que regem o SUS, constituídos pelo Movimento Sanitarista, caracterizaram-se como um movimento de extrema relevância por ter como objetivo a ampliação do conceito de Saúde - não mais centrado no modelo médico/curativo. Nesse contexto, a interdisciplinaridade se apresenta na área da Saúde como uma exigência interna que possibilita superar o modelo funcionalista e organicista centrado na consulta médica para o tratamento dos problemas que envolvem a relação saúde/doença, conforme reconhece o Ministério da Saúde.
O Ministério da Saúde ainda prevê que o SUS deve cumprir um papel indutor no sentido de mudanças no campo da prática de saúde como no campo da formação profissional. Nesse processo, ele cria os Pólos de Educação Permanente em Saúde para trabalhar com os elementos que conferem a integralidade da atenção à Saúde superando os limites da formação e das práticas tradicionais na área da saúde através da adoção de uma metodologia de ensino e aprendizagem, ancorada na perspectiva da interdisciplinaridade.
As propostas de Educação Permanente na Saúde têm na sua essência estratégias de organização do trabalho, construídas a partir do trabalho coletivo com base na formação continuada dos profissionais de saúde para o desenvolvimento de uma prática interdisciplinar. Tal presunção permite dizer que a interdisciplinaridade resultaria de um processo de cooperação que tráz em sua marca o trabalho coletivo através da integração dos conhecimentos e da troca dos saberes.
Nesse aspecto, a ideia de desenvolver um trabalho interdisciplinar no âmbito do trabalho coletivo está conectada a um projeto de cooperação/parceria entre profissionais, onde o ato de vontade do sujeito coletivo aparece com o poder de superar as especializações do conhecimento através de uma fecunda atuação em parceira, com vistas à ampliação de práticas interdependentes e complementares. Quer dizer: significa fazer parte de um processo coletivo, estar engajado e comprometido com sua atividade atuando em conjunto com os demais profissionais.
Na tentativa de qualificar o debate, pode-se inferir criticamente, que uma das consequências dessa compreensão do conhecimento é avaliar esses processos de forma moralizadora e patológica, no qual o sujeito coletivo apreende uma visão
voluntarista, que com base em sua vontade, decide superar o conhecimento fragmentado a partir de um trabalho coletivo, ou até mesmo pela via meramente epistemológica, descaracterizando as condições objetivas que envolvem o processo de construção do conhecimento.
O atual estágio de fragmentação do conhecimento humano não é gratuito e descontextualizado da materialidade histórica, ele está absolutamente congruente com o modo de produção em voga. Portanto, não se pode reduzir a interdisciplinaridade ao querer ou vontade de sujeitos coletivos que passam a desenvolver suas atividades em equipes ou em parceria. Essas discussões sobre interdisciplinaridade estão enraizadas de um caráter conservador, na medida em que são analisadas em total desconexão da processualidade histórico-social (JANTSCH; BIANCHETTI, 2008).
Nessa presunção, percebe-se que o constante apelo ao trabalho em equipes traz o escopo mascarado na “[...] nova face e fase do capital, em sua sempre renovada tentativa de perenizar-se” (JANTSCH; BIANCHETTI, 2008, p. 24). Em outras palavras, afirma-se a nova proposta de trabalho legitimada pela atual organização produtiva, que emprega um conjunto de conhecimentos funcionais em prol dos objetivos do sistema capitalista.
Torna-se manifesto observar que as análises realizadas sobre a categoria interdisciplinaridade na política da Saúde, como também o arsenal teórico que trabalha a temática em discussão, insistentemente dissecada por um grande número de pesquisadores na área da Saúde, são invocadas constantemente como algo positivo, isentas/livres de contradições, expressas por um racionalismo lógico-formal abstrato, desarticuladas de ideias que acompanhem uma reflexão crítica acerca da visão utilitarista representada no contexto da sociedade contemporânea.
Nessas condições, o contraponto a essas concepções teóricas da categoria interdisciplinaridade na área da Saúde é flagrante quando se observa historicamente a indissociável relação entre a produção do conhecimento e os modos de produção capitalista, bem como o seu caráter utilitarista nas relações de trabalho, evidenciando uma racionalidade instrumental/operacional para atingir objetivos/metas propostos pela razão capitalista. Segundo Mueller (2006, p. 38), a razão instrumental não é propriamente alvos de críticas marxistas, pois sem ela não haveria ação racional alguma, mas sim a razão capitalista ao utilizar o trabalho alheio como meio para garantir e perpetuar o poder de uma minoria.
O que ocorre com frequência, sobretudo na Política da Saúde, é a formação de equipes de trabalho que possuem um objetivo geral, permitindo um trabalho coletivo de cooperação entre equipes. Essa relação incorpora diversos elementos de diferentes áreas de conhecimento na medida em que servem de meios para atingir objetivos comuns. Mas não significa afirmar que a efetivação do trabalho coletivo em combinável relação com diferentes profissionais da área de saúde e áreas afins sejam no seu processo de trabalho enveredado pela perspectiva da interdisciplinaridade.
Para Etges (2008, p. 69), a incorporação dos elementos de um conhecimento em outro entra como informação, sem que os pressupostos teórico-metodológicos dos diversos campos do conhecimento, inclusive da própria teoria que utiliza, sejam questionados. A sua funcionalidade está em apenas seguir essa cadeia de funcionamento, e o saber de uma ciência ou especialidade serve apenas de meio para um fim em outro campo. Essa ação é meramente instrumental, ou seja, puramente técnica, e jamais uma atividade interdisciplinar.
Com o objetivo de realizar ações integradas no campo da Saúde, um conjunto de profissões, sobretudo das ciências humanas e da Saúde, passa a aprender a cooperar, a trabalhar em equipes, e não a praticar ações interdisciplinares. Suas ações se aplicam a regras de uma cadeia que age em termos de fins e meios e, “[...] esse tipo de atividade não pode ser confundida com o ato de pensar ou de aprender a pensar” (ETGES, 2008, p. 80). Desenvolver ações em parceria é imprescindível no cotidiano das práticas profissionais, seja ela na direção da produção do conhecimento, da intervenção direta, ou ainda em ambas, mas não significa dizer que o trabalho em parceria seja interdisciplinar.
Isso quer dizer que é perfeitamente comum no contexto da Saúde, que vários profissionais de diferentes especialidades trabalhem coletivamente, em parceria, em regime de cooperação, perpassada por diálogos eventuais sobre o conteúdo de suas ações sem que se faça disso uma ação interdisciplinar.
A relação da razão instrumental não confere nenhuma unidade maior a uma teoria ou ciência, nem muda as estruturas das disciplinas. O conhecimento continua especializado com antes e o desconhecimento do que está fazendo continua o mesmo. Tal relação se assemelha com o trabalho multiprofissional, no qual se denominam, em muitos espaços na área da Saúde, trabalhos em equipes interdisciplinares.
Pode-se dizer, em certa medida, que existe um conteúdo prescrito no trabalho desenvolvido por médicos, assistentes sociais, psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, etc., próprios da divisão social do trabalho, que é reiterado em maior ou menor medida, pelos conselhos regulamentadores das profissões, pelas instituições, pelos próprios profissionais, como também pelos usuários (ALMEIDA; MELO, 2000, p. 234). A essência desse conteúdo é dinâmica e varia conforme diferentes conjunturas e, de maneira especial, a partir das requisições advindas do mundo do trabalho.
Atualmente, é possível observar a assimilação do discurso proveniente da organização produtiva flexível nas instituições e hospitais de saúde brasileiros, propalados por um ideário de qualidade total17 que impulsionam a uma forte tendência, marcada desde os anos de 1970, para a polivalência e multifuncionalidade, demarcadas pela difusão do conceito de interdisciplinaridade.
Cabe chamar atenção o fato de que a interdisciplinaridade no contexto da Política de Saúde passou a conter um enorme poder ideológico - comumente pode- se referenciar como modismo - que não permite pensar com precisão os limites de sua aplicação e validade, conferindo a mesma um caráter de panaceia que solucionaria uma série de problemas que extrapolam os limites concretos que são postos na realidade, como é o caso da fragmentação do conhecimento que caminha lado a lado com a fragmentação do trabalho, ligado aos fatores histórico-sociais da divisão social do trabalho.
Não é a toa que as chamadas “práticas interdisciplinares” são bastante incipientes no campo do conhecimento e pouco empreendidas na área da Saúde. Portanto, no cotidiano das ações profissionais, a interdisciplinaridade está mais no plano do desejo, no ímpeto do discurso e menos no campo das práticas profissionais.
Fica, então, constatada a polêmica sobre a temática em discussão, sobretudo, no que concerne aos cultores da interdisciplinaridade que defendem a ideia de unidade do conhecimento e superação da fragmentação do saber pelas vias epistêmicas ou pela força de vontade dos sujeitos individuais, sem considerar as
17 Os círculos de controle de qualidade (CCQ) atuam com finalidade de discutir a qualidade do trabalho para propor melhorias que podem resultar em redução de custos e aumento da produtividade. Sua maior vantagem é envolver ideologicamente os trabalhadores, fazendo com que interiorizem os objetivos da empresa como fossem seus (PINTO, 2007, p. 69).
determinações históricas da realidade social que determinam, e muito, a produção do conhecimento, bem como subsunção dessa categoria nas atuais relações e condições de trabalho, mas especificamente tratadas na Política Saúde.
Para tanto, ressalta-se, a necessidade de aprofundamento sobre o assunto, a partir da análise de uma realidade empírica, dada a escassez de trabalhos que abordam a categoria interdisciplinaridade em termos de uma dimensão histórica e social de reflexão crítica acerca da visão utilitarista que a interdisciplinaridade representa no contexto da sociedade contemporânea.