CAPÍTULO TRIGÉSIMO
DA REPOSTA (SIC), QUE MANDOU FILIDOR AO CAVALEIRO DA ROCHA
Vendo Filidor estes versos, quase determinava de não responder a eles, por ter já em semelhantes coisas largado de todo o barco e redes; mas, por não parecer descortês a tanta cortesia, nem ingrato ao amor que o cavaleiro da Rocha lhe mostrava, e pera o avisar também que mais o não desinquietasse, pois já não curava das musas, lhe respondeu, só por esta vez, estes humildes versos,
Junto de uma ribeira pastorava O pastor Filidor seu pouco gado, Sendo guarda do que ele mal guardava; Pasciam em um verde e fértil prado Suas ovelhas fartas e contentes. Sem temor de Fortuna ou triste fado. Matavam sua sede nas correntes Claras, doces, frias, deleitosas, Não receando ver mais acidentes. Ao pé das faias altas, mais umbrosas, Todo estio passavam repousando, Em todas as venturas venturosas.
Não sei qual foi dos fados, que, envejando Deste pobre pastor sua ventura,
Lhe foi todas as águas conturbando; Correu tanto cinzeiro lá d’altura Das grandes serras, nunca cultivadas, Que cobriu os bons pastos de tristura. Era gram mágua ver, tão maguadas, As ovelhas buscar alguma fonte, Sendo todas as fontes encinzadas; Pera passar as águas não têm ponte, Nem pera entrar em elas ousadia, Que as viam vindo vir de monte a monte. O seu pastor, a quem seu mal doía, Pelas apascentar as encaminha Bem contra aquela grande serrania; Parece que sua alma lhe adivinha Alguma coisa que ele não cuidava Além de que a seu gado assi convinha. Já depois que ao pé da serra estava, Junto de uma alta rocha, e graciosa, Suas poucas ovelhas careava, Coisa pera contar muito espantosa, Ouviu falar a rocha com seu gado, Com esta voz suave e deleitosa: “Gado mimoso, bem afortunado, Por cujo merecer tu já alcançaste De te guardar pastor assi extremado? Não cumpre desmandar, que te não baste O ter diante ti tão claro espelho,
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Com que as cataratas sempre afaste; Não salte agora a cabra, sem conselho, O carneiro rodeie a companhia
Que trouxer o chocalho por mais velho. Podeis beber quietos água fria,
Debaixo dessas faias, cedros, louros, Dos pássaros ouvindo a harmonia. Virão por outra parte mansos touros, No suave jugo do pastor regidos, Mostrando do divino ser tesouros. Os lobos andarão fracos, perdidos, Sem se atrever entrar nessa manada, Fugindo pelos montes mais subidos. A terra, por mãos doctas cultivada, Multiplicará tanto na semente, Que seja a toda outra avantejada. Assi, serás, ribeira, tão contente, Que irá tua crescente assás quieta; A ninguém fará mal tua corrente. E, pois, concede o Céu teres perfeita A vida, não te atrevas desmandar-te; Antes a esse pastor sê mui sujeita. E, como não se acha em cada parte Pastor de tanto engenho e peregrino, Assi passa teus erros por boa arte; Inclina, pois, teu sentido ao divino.” Como quando dispara artelharia Estando alguém de ouvi-la descuidado, Faz tremer e alterar a quem a ouvia, Assi ficou este pastor pasmado, Vendo a rocha falar com voz humana Um verso tão subido e consertado. Creu logo de princípio ser Diana, Que estaria da caça descansando, Ou daquela gram serra outra serrana. Estava só consigo fantesiando, Se seria a ninfa Eco, que responde, Mas nenguém (sic) vê d’além estar falando. Estando mui confuso, não sabe onde Ache algum oráculo, que lhe diga Mistério, que assi tanto se lhe esconde. Cuidou se seria Niobe, amiga
Já dos seus muitos filhos mortos, tanto Chorando deles a fortuna imiga,
Que, feita rocha e pedra com seu pranto, Mármore a tornando sua brandura, A quantos isto ouviram fez espanto. Mas os versos ouvidos tal doçura Traziam, com alegre molodia,
Que bem se vêem não ser desta figura. Perplexo este pastor nesta porfia, Daquela não obscura rocha clara Ouviu uma doce voz, que assi dizia: “Porque ser, pastor, julgas coisa rara Sair verso algum desta rocha erguida, Que em tanto teu louvor ou fama para? Moço era Ganimedes no monte Ida, Donde foi pela águia arrebatado Pera servir a Jove na comida; Também foste de moço tu criado
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No serviço das musas tão queridas... Inda que daí pera outro estás furtado. As graças dos teus versos recebidas, Quando tu lhe cantavas seus louvores, Agora t’as vem dar agradecidas. É esta condição de bons senhores, Dar, inda que tarde seja, galardão Àqueles que não são maus servidores. E tu turbaste-te agora; porque vão Desta rocha palavras entoadas,
Que de amor em teu louvor forjadas são? Não sabes que da rocha são tiradas Pedras, que fazem ricos aposentos Em terras que não eram nomeadas? Também da rocha saem os talentos De todo fúlvido ouro e branca prata, Que a pobres enriquecem avarentos. A rocha cria o ferro, que te mata; Esmeraldas, rubis, minas e o metal Nas rochas a humana indústria cata. Calíope sou das musas principal,
Que ouves nesta alta rocha estar falando, Onde tenho meu assento terreal;
Aqui me estou dormindo e descansando Na rocha donde saem tantas fontes De versos e águas claras, namorando; Daqui te falo, amigo, por que contes Desta rocha a dignidade e seu valor, E a Fama vá correndo pelos montes. É tudo quanto na rocha vês, Amor; Palavras que eu aqui te estou dizendo Amor as está tornando teu louvor.” O pastor Filidor, em isto vendo, Lançou-se logo em terra transportado, À musa seu silêncio oferecendo. Dali a comprido espaço levantado, Falar começa à musa desta sorte, Encostado de fraco a seu cajado: “Quem te trouxe, senhora, a este norte A falar com um servo fugitivo,
Que a tantos versos doces deu já corte, Quando em mancebo fui de ti cativo? Minha frauta mil versos te cantava, Dando tu veia fértil e o motivo; Aquele tempo todo sobejava, Mas agora sobejam os cuidados, Por isso já nos versos não cuidava. Se os meus anos não foram tão trocados, Eu, musa, versos mil te compusera, Mas são já meus sentidos embotados. Cantar Agoes pastor também quisera, Que a mim sua alta voz cantou um dia, Mas não é Filidor aquele que era; Já não sou o pastor que ser soía; Pena, camponha, frauta te ofereço, Como há tempos que oferecido havia! Logo te entreguei tudo no começo, Não me chames agora a teu abrigo, Que já ser teu poeta não mereço. Um aviso te dou de bom amigo:
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Pois mandas ser de mim rocha louvada, Já que isto estás porfiando comigo, Antes será sua honra desdourada,
Que é fraco meu saber; mais vale que cale; Abasta rocha ser tua morada.
Isto dizendo, vai-se pelo vale, E a musa, levantada no ar, subindo Fica: “A Deus, pastor! Mea musa, vale!” Assi se foram ambos despedindo.
Acabando Filidor de se despedir de Calíope, dizem que viu chegar a ela no ar as outras oito musas, e, com ela no meio, as viu tornar todas nove a fazer assento naquela alta e graciosa rocha, onde se esconderam e encerraram, pelo que lhe perguntou uma dúvida que tinha acerca do cavaleiro da Rocha.
E entendeu delas a reposta, como claramente se pode ver neste soneto. Que caso é, Musas, este desumano, Que um alto poeta vosso tão privado, Pelas vossas mãos fermosas laureado, O façais vir cair em tal engano?
Que em dar-me, a mim, louvor tão soberano, É Dédalo, que o filho há levantado,
Por dar queda a formiga d’alto estado, Dando-me grandes asas por meu dano. Entendo que dizeis, dando em desculpa, Que por ter ele sempre coisas altas, Sem jamais se decer cantar baixezas, É digno de mais glória por tal culpa, Pois decendo a louvar as minhas faltas Nunca pode dizer senão grandezas.