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1. Introduction

1.2. Study aims

Compreender a partir de ReR uma dialética de alteração institucional deve significar um auxílio-resposta a algumas exigências expressas e sugeridas por outros textos do próprio Herbert Marcuse. Desenvolver um conceito de uma dialética apta a enfrentar as novas formas do capitalismo tardio, é uma das exigências por ele exposta, desde o prefácio de 1957 ao livro de Raya Dunayevskaya “Marxismo e Liberdade”: “O reexame da teoria marxiana é uma das mais urgentes tarefas para se compreender a situação contemporânea.” (MARCUSE, 2000, p. xx)

O desafio para a teoria marxiana de poder estabelecer uma institucionalização de categoria libertária e de efetividade histórica foi, como consideramos no capítulo quinto, ao comentarmoso texto sobre negação em 1966. Neste período, mesmo após esses nove anos, não diminuiu sua confiança na possibilidade de compreensão, de domínio conceitual, de domínio pela consciência do homem do conteúdo do capitalismo tardio e de sua contraposição, a alteração institucional, apesar de historicamente estarem distanciados e apesar de haver elementos a serem reconsiderados, “Talvez nenhuma outra teoria tenha tão corretamente antecipado as tendências básicas da sociedade industrial avançada - e aparentemente projetado tão incorretas conclusões a partir desta análise.” (MARCUSE, 2000, p. xx)A compreensão do contéudo hegeliano não comprometeu ou ofuscou o marxismo de seu autor. No prefácio de 1957, compreende-se em pormenores de preciosidade linguística, a elucidação motivadora da apresentação tão concreta e tão transparente de um humanismo marxiano. A ideia humanista é exposta como o próprio conteúdo da teoria marxiana. “A teoria marxiana é uma interpretação da história e define, com base nesta interpretação, a ação

política que, utilizando as possibilidades históricas dadas, pode estabelecer uma sociedade sem exploração, miséria e injustiça.” (MARCUSE, 2000, p. xx) Marcuse deixa claro o caráter instrumental da organização societária do trabalho, a ser controlada politicamente pelos efetivadores imediatos do processo de produção, tenham sido eles, os operários da linha de produção da indústria dos anos vinte, sejam eles, os programadores de software, interligados em linha de produção e em rede desde o Vale do Silício até aos arredores miseráveis de Bombaim.

Neste prefácio aparece um destaque à exigência pela coerência entre conceituação e prática naconstituição de uma dialética ou pensamento apto a responder à contemporaneidade, “Logo, em sua estrutura conceitual tanto quanto em sua prática política, teoria marxiana necessita "responder" à realidade histórica em processo: modificação dos conceitos teóricos e da prática política para ser guiada por estes é parte da própria teoria.” (MARCUSE, 2000, p. xx)

Marcuse elogia o livro “Marxism and Freedom” porque aí expõe-se a reciprocidade entre o em si e o outro de si, entre ação e teoria, entre economia e filosofia evidente nesta abordagem marxiana da filosofia: “O livro de Dunayevskaya vai além das prévias interpretações. Este mostra não só que a política e a economia marxiana são, por completo filosofia, mas que esta última é desde o início economia e política.” (MARCUSE, 2000, p. xxi) Outra exigência de Marcuse quanto ao marxismo é a compreensão como negatividade da contemporaneidade a partir da sociedade capitalista avançada:

“esta sociedade cria as pré-condições para uma existência humana livre e racional enquanto impede a realização de liberdade e razão. Em outras palavras..., Marx sustenta que a sociedade capitalista cria as pré-condições para uma existência sem labuta, sem pobreza, injustiça e ansiedade enquanto perpetua labuta, pobreza, injustiça e ansiedade.” (MARCUSE, 2000, p. xxii)

O que se torna valor não é um humanismo ou um socialismo qualquer, torna-se valor como tal, torna-se valor evidente o outro de si do establishment: Marcuse expõe “como fato histórico ou melhor como possibilidade histórica: as condições societárias para a realização de „tudo o que seja o individual‟ pode ser estabelecido pela mudança das condições societárias estabelecidas que evitam esta realização.” (MARCUSE, 2000, p. xxii) A polaridade considerada é a contraposição reveladora de valor, o establishment evita a realização das condições societárias, promessa de capacitação do homem para o homem. Valor revelado por negação. O marxismo como teoria crítica compreende-se como reciprocidade. A

reciprocidade filosofia-economia política é uma expressão de bidimensionalidade: “filosofia marxiana é crítica da economia política, e cada uma das categorias econômicas é categoria filosófica.” (MARCUSE, 2000, p. xxii) O reflexo da economia política capitalista é o seu ser outro-de-si, são todas as possibilidades diferenciadoras do em si e para si do capitalismo analisado, essa fundamentação que propicia a compreensão da alteração institucional como diferença qualitativa alteradora do status quo. “A teoria marxiana não descreve e analisa a economia capitalista "em si e para si" mas descreve-a e analisa-a em termos do outro de si mesmo - em termos das possibilidades históricas que se transformaram em objetivos realistas para ação.” (MARCUSE, 2000, p. xxii)

Robespierre Oliveira destaca no marxismo de Herbert Marcuse o papel revolucionário do indivíduo. “Por isso, Marcuse escreve em R&R (1941) que o comunismo é a realização do indivíduo ...um indivíduo socialmente inserido.” (. 2011 p. 65) Diante da sociedade industrial avançada, diante dos controles materiais e culturais disponíveis pelo capitalismo, “Pode-se notar como características do marxismo de Marcuse a busca incessante pela utopia como guia ético do processo de transformação social e a crítica sem concessões ao existente” (OLIVEIRA, R. 2011 P.69) Robespierre considera como exigência do marxismo de Herbert Marcuse uma mudança radical em relação à sociedade do capitalismo tardio, prevê justamente a alteração do status axiológico do indivíduo, que de anônimo e subordinado de massa, estrutura que lhe é adversa, se transforme em sujeito presente às determinações sócio-políticas de consequências vitais e psico-biológicas em cada indivíduo personalizado.

A alteração institucional que os elementos a serem recolhidos dos textos de R&R e dos textos associados a essa obra é uma alteração institucional de qualidade diversa da apresentada pela organização capitalista do trabalho. Marcuse já expõe com clareza que o socialismo não se satisfaria com a emancipação e a organização do trabalho mas com sua abolição. A contraposição à labuta, ao trabalho árduo é para ser conseguida no estágio do industrialismo avançado, com automação. Essa organização societária do trabalho é fruto de um processo verdadeiramente racional, o estabelecimento do trabalho sob o controle dos “produtores imediatos” é um problema político segundo Marx. No entanto para Marcuse o humanismo que se contrapõe à organização capitalista do trabalho, e que exige para si tudo o que é evitado por tal organização é um humanismo que propicie o desenvolvimento das aptidões humanas negadas por tal organização. Em contraposição à logística do trabalho, Marcuse destaca que Marx fundamenta sua revolução numa logística do desenvolvimento do humano. A logística do trabalho é a logística fundada na racionalidade instrumental do

princípio de desempenho no entanto essa racionalidade da produção não pode ser seu fundamento, a produção não é justificada por si mesma, por isso Marcuse reforça que a produção verdadeiramente racionalizada enquanto processo, a produção em si, não é libertação:

Mas isto não é libertação. Libertação é viver sem trabalho árduo, sem ansiedade: o jogo das aptidões humanas. A realização da liberdade é um problema de tempo: redução da jornada de trabalho para um mínimo que transforme quantidade em qualidade. Uma sociedade socialista é uma sociedade na qual o tempo livre, e não o tempo de trabalho é a medida social de riqueza e a dimensão da existência individual:” (MARCUSE, 2000, p. xxiii)

O conceito marxiano de revolução socialista não é meramente uma relação tecnológico-econômica, envolve o desenvolvimento das faculdades humanas que tornam o indivíduo livre e em especial o desenvolvimento da consciência. “Consciência é portanto consciência revolucionária, expressando a negação determinada da sociedade estabelecida, e como tal consciência proletária.” (MARCUSE, 2000, p. xxiv)

A alteração intitucional como diferença qualitativa é uma exigência da dialética marxiana de Marcuse. Em que consiste a diferença qualitativa exigida pela dialética marxista para uma alteração institucional? A partir da avalição desenvolvida por Marx em trecho citado dos “Grundrisse”, Marcuse reafirma que a verdadeira poupança econômica consiste em poupar tempo livre de trabalho porque este poupar é idêntico ao desenvolvimento de produtividade. A produtividade com objetivo humano, acabará com a contradição entre trabalho e tempo livre, tão prestigiada pelos incentivadores do trabalho árduo como algo essencialmente humano. Marcuse cita Marx:

“ „Tempo livre que é tempo de lazer assim como tempo para a melhor atividade, transforma seu possuidor num sujeito diferenciado‟ ...Esta é a imagem de uma sociedade na qual ... o processo de produção material, organizado e controlado por indivíduos livres, cria condições e meios para o exercício de sua liberdade por “satisfação‟.” (MARCUSE, 2000, p. xxiii)

Explicita-se assim que o desenvolvimento do “jogo das aptidões humanas” responde a teleologia de um verdadeiro marxismo libertário, libertação efetiva, se desenvolvida conforme análise do marxismo hegeliano de Marcuse como alteração institucional qualitativa.