CHAPTER 3: METHODOLOGY
3.1 Study Design
A tipologia proposta por Esping-Andersen (1990) suscitou um intenso debate académico que se manteve até à actualidade. O conceito em torno do qual o autor organizou a sua análise foi o de “regime de bem-estar”. Este conceito assentava na relação Estado-família-mercado, e integrava as disposições institucionais, económicas e políticas que interferiam no bem-estar dos/das cidadãos/ãs bem como na forma como as classes sociais se estruturavam. Esping-Andersen evocou duas razões para a utilização do conceito de “regime de bem-estar” como termo organizador da sua obra:
Primeiro (...), o conceito de Estado de Bem-Estar é associado de forma demasiado estreita às políticas convencionais de melhoramento social. Segundo (...) as nações
avançadas contemporâneas agrupam-se não apenas em termos de como as suas políticas tradicionais de bem-estar social são construídas, mas também na forma como estas influenciam o emprego e a estrutura social geral. Falar de ‘um regime’ é denotar o facto de que na relação entre o estado e a economia uma complexidade de recursos legais e organizacionais se entrelaçam sistematicamente (Esping-Andersen, 1990: 2).
Segundo Silva (2002: 26), o conceito de “regime de bem-estar” tornou-se “um instrumento particularmente poderoso para a compreensão de como as políticas sociais influenciam o funcionamento do mercado de trabalho, bem como estruturas sociais mais amplas e de como neste processo uma série de factores se interligam”.
Esping-Andersen começou por identificar, do ponto de vista teórico, três regimes de bem-estar (conservador, social-democrata e liberal) que se poderiam diferenciar pela importância relativa do Estado, família e mercado na provisão de bem-estar, em função de factores políticos, económicos e sociais6.
A definição do conceito de regime assentou em duas dimensões: grau de desmercadorização e estratificação social. A primeira refere-se ao “grau em que uma pessoa pode manter um padrão de vida socialmente aceitável sem dependência do mercado”. A estratificação social diz respeito à forma “como e em que medida os sistemas de bem-estar diferem na forma como estruturam a cidadania social” (Arcanjo, 2006: 5).
Apresentamos abaixo alguns dos elementos caracterizadores dos três regimes, bem como alguns dos países que os integravam, segundo a análise empírica do autor:
Regime liberal – o mercado desempenhava a função principal na provisão de bem-estar. Os mecanismos públicos de apoio à família eram quase inexistentes. Este regime tinha um grau baixo de desmercadorização e reproduzia as desigualdades do mercado de trabalho. Na validação empírica de Esping- Andersen, o Reino Unido e a República da Irlanda integravam, entre outros países, este regime.
Regime conservador ou corporativo– os direitos eram associados à classe e ao estatuto socioprofissional dos indivíduos. A família era a principal fonte de provisão de bem-estar, sendo os serviços públicos de apoio à família
6 Para validar empiricamente a referida tipologia, Esping-Andersen utilizou dados da década de 1980
visivelmente subdesenvolvidos. Este regime tinha um grau de desmercadorização médio, maioritariamente concentrado em trabalhadores com um longo historial contributivo. Na validação empírica de Esping-Andersen, integravam este regime países como a Áustria, a França, a Alemanha e a Itália, entre outros.
Regime social-democrata – o Estado era o pilar da provisão de bem-estar. O ideal era maximizar a capacidade de independência dos indivíduos, sendo o Estado a garantir padrões elevados de assistência básica aos/às cidadãos/ãs. Desta forma, os mecanismos públicos de apoio à família eram bastante desenvolvidos. Na validação empírica de Esping-Andersen, incluíam-se neste grupo países escandinavos como a Finlândia e a Suécia, entre outros.
A tipologia de Esping-Andersen foi alvo de várias críticas7
. Considerando os objectivos e a aplicação da presente dissertação, destacamos a omissão da dimensão do género e a incorrecta classificação de alguns países8
(ver subcapítulo 1.2.2.). A primeira crítica proveio sobretudo das perspectivas feministas (e.g. Daly e Lewis, 2000; Daly e Rake, 2003; Lewis, 1992; Orloff, 1996), motivando o autor a tentar integrar a posição da mulher e a contribuição relativa da família na provisão de bem-estar em diferentes países (Esping-Andersen, 1999). Esta análise resultou no desenvolvimento do conceito de desfamilialização (complementar ao de desmercadorização), que se refere ao grau de independência dos indivíduos em relação ao apoio provido pela família. Segundo o autor:
O termo desfamilialização pretendia descrever em que medida as responsabilidades de assistência e bem-estar das famílias foram reduzidas. (...) Um sistema é familialista, não se é a favor da família, mas se a sua política pública assume (e age para) que qualquer núcleo familiar seja o primeiro responsável pelo bem-estar dos seus membros. (...) O conceito de desfamilialização é paralelo ao de desmercadorização; com efeito, para as mulheres, a desfamilialização é em geral uma precondição da sua capacidade de se mercadorizarem (Esping-Andersen, 1999: 94).
Uma forma de aumentar o grau de desfamilialização seria o Estado assegurar a provisão de serviços sociais adequada para suprir as necessidades familiares (cuidados com
7
Conceito de desmercadorização (e.g. Boje, 1996); Conceito de regime (e.g. Kasza, 2002); a metodologia utilizada (e.g. Bambra, 2007).
crianças, pessoas idosas e outras dependentes). Desta forma, as mulheres, máximas responsáveis pelo trabalho não remunerado de prestação de cuidados, teriam maior liberdade para integrarem o mercado de trabalho e obterem independência económica.
A análise efectuada por Esping-Andersen em 1999, com a operacionalização do conceito de desfamilialização, teve resultados semelhantes à original, com a configuração de três agrupamentos de países (veja-se Quadro 1).
Quadro 1. Regimes de bem-estar segundo a provisão do Estado
Universalista Residual Segurança Social
Dinamarca Austrália Áustria
Noruega Canadá Bélgica
Suécia Nova Zelândia França
Finlândia Estados Unidos da América Alemanha
Holanda Reino Unido* Itália
Reino Unido* Japão
(*) O Reino Unido encontra-se em dois regimes por ter, em certa medida, caraterísticas de ambos.
Fonte: Esping-Andersen (1999: 85-6).
Esping-Andersen agrupou ainda os países com base no grau de familialismo (veja-se Quadro 2).
Quadro 2. Regimes de bem-estar segundo o grau de familialismo
Regime Familialista Regime Não-Familialista
Austrália Austrália
Alemanha Canadá
Itália Dinamarca
Japão Finlândia
Holanda Nova Zelândia
Portugal Noruega
Espanha Suécia
Bélgica Reino Unido
França Estados Unidos da América
Fonte: Esping-Andersen (1999: 86).
A relevância do trabalho de Esping-Andersen é amplamente reconhecida, tendo suscitado uma vasta produção académica, alguma da qual constitui uma análise crítica
à proposta do autor. No subcapítulo seguinte proceder-se-á à descrição de alguns contributos teóricos e empíricos que questionaram a classificação empírica de alguns países segundo Esping-Andersen.
1.2.2. Divergências na classificação de alguns países: contributos teóricos e