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Pela manhã partimos da cidade de São Francisco, e logo localizamos uma ilha sem plantio e moradia. Segundo informações dos moradores de outras ilhas, ela é chamada Ilha de José Roseno, um senhor que plantava na ilha antigamente, mas que já faleceu.

A primeira ilha em que paramos foi a Ilha Vira Saia, também conhecida como “Ilha dos Galinha”. Uma ilha pequena, utilizada apenas para o plantio. As pessoas que plantam geralmente moram na cidade de São Francisco. Próximo à margem direita do rio avistamos um canal que forma uma lagoa dentro da ilha.

Conversamos com o senhor Antônio José e seu filho que estavam trabalhando em uma roça grande de feijão, ainda verde. Ele disse que já planta na ilha há cerca de oito anos e falou dos riscos que corre com a lavoura. “Aqui se a água não matar, quando a gente planta, se não matar, a gente colhe. Agora é arriscado. Às vezes o gado também chega do fazendeiro de fora. A gente fica sem nada também, só com o prejuízo”. Ele nos contou como a ilha foi formada, “isso aqui é tipo assim, vai começando assim, as águas vai vindo, vai rendendo”.

Como não possui casa na ilha, apenas um barraco de lona improvisado, utilizado como cozinha e dormitório, ele fica durante a semana na ilha trabalhando na “roça” e vai de barco para a cidade no fim de semana, onde também trabalha como pedreiro. Ele disse que não vai e volta todos os dias da cidade para a ilha por que gasta muito combustível com o barco.

A poucos metros paramos na Ilha Cearense, que antigamente era chamada de Ilha do Lagedo, com aproximadamente seis moradores fixos. Existem pessoas que plantam, mas não moram. Tem energia solar e um alambique utilizado para a fabricação de cachaça. A ilha possui um barranco muito alto dos dois lados. Geralmente é utilizada para plantio, criação de animais e moradia.

Encontramos com o senhor Joaquim, de 76 anos e sua esposa Angelina, de 63 anos (foto 12). Eles disseram que, “vai fazer 14 anos” que estão morando na ilha.

Tivemos uma agradável conversa no quintal de sua casa, de frente para o Rio São Francisco. Eles falaram da origem do nome da ilha, contaram as vantagens e as dificuldades de morar dentro do rio. Nasceram na região de Januária, atualmente já são aposentados, vivem longe dos filhos e ainda plantam pequenas “roças” para o “sustento”.

Como é o nome da ilha? Ilha cearense. Por que tem este nome? Por

que o primeiro cara que morou aqui, dona dessa ilha aqui chamava cearense aí botou o nome da ilha de cearense. (...). Antes de morar aqui

na ilha onde vocês moravam? Antes nós morava no Pandeiros. De lá

nós mudamos pra cá. E por que vieram para a ilha? Ah aqui é melhor pra gente. Lá era um lugar muito seco. Aqui tudo que você planta, você

Foto 12: Senhor Joaquim e sua esposa, Ilha do Lagedo/MG. Sentados debaixo da sombra de uma mangueira no quintal da casa. Eles nos contaram as histórias de 14 anos morando dentro da ilha.

vê. Se você planta um pé de mandioca você vê. Se você uma melancia você vê. Se planta um pé de feijão você vê. Tudo que planta aqui tem e lá pra fora pro rumo da chapada só mal a mandioca. E a ilha do Lagedo e

qual? Não. Era essa aqui, mas mudaram o nome. Que muitos conhece ela

por ilha do Lagedo. Aqui tem muita gente? Tem nada. Tinha demais mas mudou tudo para a cidade que diz que aqui modo a energia, que botaram essa luz solar, mas essa luz solar um dia tem luz outro dia não tem. De quando puseram ela nunca vieram corrigir elas aqui. É mesmo que não ter. Aí os que não queriam ficar sem luz mudaram para a

cidade? É. Agora eu que estou temando aqui. Tem uns quatro morando

aqui. Esses aqui tá temando aqui dentro. (...). Tem as pessoas que

planta e mora fora? Planta também. Planta aqui também. Eles tem

direito aqui e planta. Mais moram na cidade? É, vem e volta. As vezes fica aqui na semana, no fim da semana vai para a cidade. Agora eu não, sou nativo aqui, só vou lá pego meu realzinho e torno voltar. Muito

difícil ir na cidade? Muito difícil, só vai quando é para tirar dinheiro. Os dois têm aposentadoria? Tem. Aqui só mora vocês dois? Deus e

nós dois. E os filhos? Agora que tem um junto de nósmas os outros mora tudo fora. Tem muito filho mas mora tudo fora. Todo mundo casado? Todo mundo casado, graças a Deus. Vocês nasceram na região? Em Januária. Vocês gostam de morar aqui? Aqui só é ruim sabe o quê que é? Por causa da doença que é ruim aqui. Agora aqui por um ponto aqui é melhor do que na cidade, mode aquele zuadeiro. Aqui não, é sossegado agora de lá não, dentro da cidade é zuada demais. (...). Aqui vocês

plantam? Aqui você planta um milho, você planta mandioca, você planta

feijão de rança na seca, se vê. Você planta feijão catador você vê. Você planta uma fava, a feijoa, você já ouvia falar da feijoa? A feijoa você planta ela aqui das águas você colhe o tanto que puder colher. De tudo você planta aqui, até o arroz das águas, no ano de boa águas você planta arroz aqui. O senhor planta arroz também? Não, não planto mais. (...)

E pescar? Parei também. Mas já pescou? Graças a Deus! E era feliz

com o peixe. Todo mundo está reclamando que não tem mais peixe? O peixe está devagar mesmo meu irmão. Não tá tendo não. O peixe tá difícil. O peixe tá difícil mesmo.

No meio da conversa chegou um outro morador, o senhor Loro. Perguntamos sobre o tamanho da ilha ele disse: “moço esta ilha aqui é grande. Ela já quebrou muito. Ela era bem em cima lá. Diz ele que ela era 110 alqueires. Mas ela já quebrou demais”. Ele nos contou que já morou no Pará, casou lá. Agora já tem oito anos que mora na ilha. “Isso aqui é o direito. A gente compra o direito de serviço”.

Caminhamos pela ilha e chegamos até a casa do senhor Dorival e dona Altamira, moradores que vieram do Sul de Minas. Eles disseram que querem investir na ilha, mas o que dificulta é a falta de energia e o acesso, apenas de barco. “Não é tudo que a gente esperava não”. O senhor Dorival, homem de espirito modernizador e empreendedor, fez questão de mostrar a estrutura de seu

alambique e explicou como é feita a fabricação da cachaça. Um fato curioso que ele nos contou foi que algumas áreas de pasto da ilha de sua propriedade são alugadas por sitiantes da margem do rio. Segundo ela a ilha conta ainda com uma associação de moradores com cerca de 15 associados.

Seguimos rio abaixo, logo abaixo da Ilha do Lagedo localizamos uma pequena ilha, situada bem em frente à foz do Rio Pardo, coberta apenas por vegetação nativa.

A figura 12 a seguir mostra a cidade de São Francisco, com destaque para o porto e a imponência da Igreja Matriz de São José, nosso trajeto passando pela Ilha do Lagedo e chegando até a foz do Rio Pardo, outro importante afluente do Rio São Francisco, na sua margem esquerda.

Figura 12: Croqui da cidade de São Francisco, Ilha do Lagedo e Barra do Rio Pardo.

Nesta seção do rio as ilhas começaram a aparecer em maior número. Logo abaixo da barra do Rio Pardo localizamos uma pequena ilha chamada Ilha do Rio