Neste dia decidimos avançar um pouco mais a viagem. Este é um trecho com muitas ilhas, e como não tivemos tempo suficiente para parar em todas, fizemos uma breve descrição com informações colhidas por pessoas com quem conversamos ao longo da viagem.
Logo de manhã a primeira ilha que encontramos foi a Ilha Belo Monte, pequena e sem moradores fixos. Um pouco abaixo, a Ilha do Jenipapo, grande, com associação, escola e muitos moradores fixos. Logo em seguida passamos pela
Ilha Gramear, pequena, ainda em formação, aparentemente utilizada apenas
para plantio.
Continuamos descendo o rio e chegamos à cidade de Itacarambi, onde fizemos uma parada rápida. Logo na orla, vimos os monumentos dos seres encantados que nos impressionaram (foto 16). Enormes carrancas, sereias, caboclos, etc. Figuras mitológicas muito citadas pelos ribeirinhos, especialmente nos “causos” de pescadores.
Bem em frente a cidade está localizada a Ilha de Maria Preta, grande e com muitos moradores. Fomos à procura do senhor Manoel Pontaria. Segundo informações ele é uma pessoa de referência na ilha. Chegamos até o seu porto, e logo apareceu o senhor Manoel dos Santos, também conhecido como Manoel Pontaria, vindo de Itacarambi de barco. Ele chegou acompanhado de um dos filhos. Alegre, recitando poesias e contando causos ele nos convidou para ir até a
Foto 16: Praça principal de Itacarambi/MG. Ao contrário de muitas outras cidades ribeirinhas que exibem em suas praças esculturas de celebridades importantes da região, esta praça tem como destaque uma grandiosa carranca ao centro e ao redor esculturas menores de peixes, jacaré e outros seres mitológicos do Rio São Francisco como a sereia do lado esquerdo da foto e a mula sem cabeça do lado direito.
sua casa. Quando chegamos observamos muitos objetos e placas com dizeres e versos pendurados pelas paredes.
Ele é um senhor de 74 anos, pai de 37 filhos, nordestino, pescador e antigo marinheiro. Durante nossa conversa ele contou fatos de sua vida, cantou e recitou poemas e dizeres sobre o Rio São Francisco.
Meu velho Chico você nos mata e nos alimenta Você é um pequeno rasgo na face da terra Eu queria que eu fosse uma gaivota pra beijar você de ponta a ponta
Um dia eu queria que você fosse meu cemitério A boca dos peixes fosse meu túmulo
A flor do outro fosse minha capela Queria morrer nos braços de Iemanjá
Lembrou do tempo de criança, “eu comecei a trabalhar de nove anos de idade. Não estudava. Eu trabalhava para meu pai e minha mãe. Eu sou o primeiro filho que minha mãe pariu foi eu. Nós era 16 irmãos. Lá no Nordeste”.
Explicou a origem do nome da ilha, como ela foi formada e o motivo de ter migrado para as terras mineiras.
Então, tinha uma mulher aqui que chamava Maria e ela era preta. Então ela morava debaixo de uma árvore. E aquela árvore puseram o nome árvore de Maria Preta. E até hoje ela é uma madeira que dá só na vazante. E colocaram a Maria Preta. Então foi isso. (...) E por isso a origem. A
Maria Preta já faleceu? Já, muito tempo. Quanto tempo tem a ilha?
Isso tem uns quarenta e poucos anos por que quando eu cheguei pra cá, minhas lanchas passavam por aqui. (...). Aqui tudo era... começou isso aí uns manguezinhos.
(...)
Por que eu sai lá de minha terra para conquistar as ilhas. Mas não comer terra que eu não sou minhoca. Não, eu vim conquistar as ilhas. Eu vim com dois filhos, estou com trinta e tantos. Como o senhor chegou na
ilha? Aqui, por que eu amo isso aqui! Primeiro meu sogro estava
morando pra aqui, dez anos sumido e meus tios era vapozeiros. Vapozeiro era quem viajava a bordo. E então, aí ela falou assim: é meu pai foi para São Paulo e depois desceu para Pirapora pescando e tal, no fim ele achou essas terra aqui e ficou por aqui. Arrumou uma mulherzinha e ficou por aqui mesmo. Aí a minha esposa falou assim: oh meu pai sumiu, aquela trem toda, disse que foi até Pirapora. Até Pirapora teve notícia, naquele tempo não tinha telefone, não tinha nada. Ai eu falei com dois tios meus. Ele era comandante de vapor do São Francisco. Ai eu digo: tio se você vê ai em Minas Gerais um baiano por nome de João Nunes... Quando ele voltou, passou trinta dias ele voltou, começou a descobrir. Tem um João
Nunes morando lá em Minas Gerais, pra baixo de Januária, com esse nome, tem até um porto de lenha. Eu descobri por causa disso, tem um porto de lenha. Ele é sozinho com uma mulherzinha. Tem dois filhotinho. Ele Luiz e parece que Aparecida. Ai eu peguei uma carta, fiz uma carta e mandei, tá entendendo? Ele respondeu a carta que era ele mesmo. Ai a família, a mulher dele veio, a velha veio pra ontar ele e trouxe uma filha que veio com ela né. Deixou os outros comigo lá, que eu trabalhava, era funcionário da Codevasf que meu pai era chefe de uma parte da Codevasf, que nós trabalhava com explosivo. Negócio de furando pedra, detonando pedra, só coisa perigosa. Ai quando descobriu eu já tava com três anos de casado, e tinha dois filhos. Mazaniel e Eliomar. Eu cheguei aqui em 1960, Mazaniel tinha um mês de nascido. Aqui na ilha mesmo? Em Minas Gerais.
Conforme sua fala, ele chegou à região em 1960, vindo de Petrolina. Ele contou que depois que veio para Minas Gerais já plantou na ilha do Jenipapo e Jatobá. Mudou-se para o município de Itacarambi em 1975 e começou a plantar nas terras da ilha. Atualmente vive sozinho na ilha, toma remédio caseiro e se afirmou um amante incondicional da natureza, do Rio São Francisco e da ilha. “Isso aqui pra mim é um paraíso”. “Nessa mãe natureza, que é a mãe de todas as mães que eu considero”. “Então a mãe de todas as mães é a natureza que tudo criou e fez. É a mãe. Oh mãe natureza eu te amo! Não te guento mais não te largo”.
Além de suas histórias o senhor Manoel fez algumas denúncias sobre a degradação do rio.
Como as pessoas estão vivendo na beira do rio atualmente?
Miseravelmente. Miseravelmente. Só não vejo mais miserável pro que a natureza, não sei como é... por que o costume do cachimbo é que põe a boca torta. Por que o que acontece é o seguinte, nós somos privativos de pegar peixe por que não tem mais. Eu vou te mostrar uns jornais que a Votorantim mais a Cemig matou os peixes tudinho em 2006. Nós tamamos empréstimos até hoje não pagamos, tamos no SPC por cauda disso. Os pescadores profissionais. Por que eu sou pescador profissional e marinheiro profissional. Sou aposentado mais continuo. Mais aqui é o seguinte: sumiu um litro de água por décimo seguindo aqui. Aqui se tivesse um bombeamento aqui nós não precisava vim do projeto ali. Por que ali só tem rato, rato é ladrão. Por que lá nunca produziu nada. O maior projeto da América Latina. Eu comecei a trabalhar desde o começo com serviço de topografia, que eu sou auxiliar de topógrafo até no final em minhas lanchas entendeu. Qual projeto o senhor está falando? Do projeto Jaíba. E nunca produziu nada. Até uma fábrica agora que tem ai de suco está falindo. (....). Isso aqui é um sofrimento nesta beira do São Francisco. Por que acabou os peixes tudo. Tomamos um dinheiro emprestado ai pra pagar com três anos de carência. Ninguém pagou por
que não pode. Descia Surubim, só num lugar, só num lugar só tinha vinte e cinco toneladas de Surubim morto. Os jornais estão todos ai. Nós colocamos três, dois advogados para resolver a questão. Oitenta mil pescadores deu 10,00 reais. Ele comeu esse dinheiro, nem o dinheiro devolveu, não deu justificativa. A Cemig mais a Votorantim soltou propina pra eles e ficou por isso mesmo. Quem sofre é quem sente a dor. Eu sou o prejudicado.
Foram muitos “causos”, boas gargalhadas e incontáveis histórias sobre o rio. Um senhor que já foi marinheiro e barqueiro, que trabalhava com lanchas transportando pessoas de uma margem a outra, que conhece bem a águas do Rio São Francisco e denuncia seus usos indevidos. Uma pessoa que se dedica ao rio, vive para e com o rio e que possui um profundo afeto pela natureza que o cerca.
Depois desta conversa deixamos a Ilha, retornamos para Itacarambi e seguimos viagem. Passamos pela Ilha do Retiro, grande com aproximadamente 40 moradores, escola, luz solar e associação.
Logo em seguida localizamos a Ilha do Cajueiro. Esta é uma ilha de formação mais nova, com aproximadamente seis moradores fixos. Um pouco abaixo está a Ilha Pedra do Fogo, pequena e sem moradores fixos.
Ainda passamos pela Ilha do Capão, com aproximadamente 40 moradores e uma escola. Esta ilha é próxima às comunidades de Remanso e Várzea da Manga, pertencente ao Quilombo da Lapinha, na margem direita do rio.
Uma das últimas ilhas que passamos antes de chegar ao nosso destino final foi a Ilha da Ressaca, pequena e com poucos moradores, também pertencente ao Quilombo da Lapinha, município de Matias Cardoso. Um pouco mais abaixo avistamos outra ilha pequena, chamada de Ilha Pau de Légua.
Seguimos viagem, passamos pela cidade de Matias Cardoso, na margem direita do rio. Avistamos a Ilha de Curimatá e logo em seguida a cidade de
Manga um pouco mais abaixo, na margem direita do rio. Como já estávamos
chegando ao fim da viagem decidimos não parar nas cidades. Seguimos direto para o nosso destino final, à comunidade de Pau Preto, não por acaso escolhemos esta localidade como nosso ponto final da viagem.