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O envolvimento do PCB na luta dos posseiros de Porecatu se deu através do Comitê Municipal de Jaguapitã, do qual eram dirigentes Arildo, Ângelo, Miguel e Mercedes Gajardoni. A família Gajardoni exerceu papel fundamental na organização do movimento e nos confl itos que se sucederam. Aos pou- cos, conseguiram organizar os posseiros em grupos, “conscientizando-os” da importância de defenderem suas posses: primeiro legalmente, depois pelas armas.

Antes mesmo da formação dos grupos armados, que teria início em novembro de 1948, o PCB de Jaguapitã chegou a recorrer ao Comitê de Londrina. O farmacêutico Ângelo Gajardoni conseguiu levar à região litigada o então vereador londrinense Manoel Jacinto Corrêa, conhecido militante comunista. Jacinto constatou a gravidade da situação e sugeriu, com sucesso,

ao comitê estadual do Partido, em Curitiba, um apoio efetivo aos posseiros.5

Enquanto em Londrina o PCB iniciava um movimento de solidariedade aos “resistentes de Porecatu”, a família Gajardoni trocava sua farmácia em Jaguapitã por 10 alqueires de terra de mata virgem, nas margens do Ribeirão Tenente, possibilitando atuação próxima dos posseiros.

Mas o fato mais importante de aproximação dos posseiros com o PCB se deu, curiosamente, com a cassação do registro eleitoral do Partido e do mandato de seus deputados. Já que os militantes que atuavam na área souberam aproveitar aquele momento para incutir em alguns posseiros a proximidade dos princípios do Partido com suas lutas.

Nessa época nós já tínhamos uma ligação com o PCB. E essa ligação com o PCB é muito curiosa porque o PCB estava cassado, cassaram os deputados. Mas quando cassaram os deputados nós fi zemos uma reunião. A reunião tinha uns 40, 50 possei- ros. Esse pessoal deve ser bom. Cassaram esses caras porque eles queriam reforma agrária. Aí meu pai, com mais dois, tiraram uma comissão de três e foram para São Paulo e para o Rio de Janeiro. Naquele tempo o presidente era o Dutra. Isso foi em

4 Arquivo Público do Paraná. Fundo DOPS. Recorte de Jornal, Pasta 427/188.

5 CPDH. Centro de Pesquisa e Documentação em História. Universidade Estadual de Londrina.

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fi m de 47 ou começo de 48. Então essa comissão foi a São Paulo, na casa de um tio, irmão do meu pai. Não era militante, mas era um cara ligado ao Partido e disse: “vocês procurem o deputado Pedro Pomar”. “Procurem o Pedro Pomar, porque é o único que não foi cassado [eleito pelo Partido de Adhemar de Barros (PSP)]. Não cassaram ele, mas ele era comunista e da direção do Partido.” Então embarcaram para o Rio e encontraram o deputado. E através do Pedro Pomar marcaram uma audiência com o Presidente da República e aí ele disse que ia resolver o problema, mandaram para o Paraná. Mas era tempo perdido! Depois dessa época nós já tínhamos ligação com o PCB. Mas foi depois dessa época que nós formamos a organização do Partido naquela região e aí nós ligamos com Jaguapitã que já tinha uma militância naquela região. Nós estivemos juntos no movimento [refere-se à interdição da estrada de Guaraci], mas nós não sabíamos.6

A partir desse momento, diversos militantes do PCB de Londrina passa- ram a visitar a região com maior freqüência, sobretudo o vereador Manoel Jacinto Corrêa, o advogado Flávio Ribeiro e o médico Newton Câmara, levando roupas, mantimentos, remédios e dinheiro. Essa ajuda dos comu- nistas permitiu a conquista da confi ança e da simpatia dos posseiros. Com isso se tornaram agentes importantes na orientação da luta e da batalha legal pela posse da terra.

A decisão do PCB de assumir a organização da luta armada no Norte do Paraná foi concretizada formalmente em novembro de 1948, na casa de Hilário Gonçalves Padilha, na fazenda Umuarama, quando os posseiros aceitaram os argumentos de vários emissários do Partido de que a única saída para a defesa de suas terras era o recurso das armas.

Os emissários eram de Curitiba e foram para a região depois que Hilá- rio Gonçalves Padilha e José Billar tiveram um encontro com o advogado e ex-deputado estadual pelo PCB, José Rodrigues Vieira Netto. Logo que

chegaram à região,7 se hospedaram na casa de Hilário Gonçalves Padilha,8

que se encarregou de reunir os posseiros para discutir seus problemas. Após esse primeiro contato, os “homens do partidão”, como depois vieram a ser rotulados, retornaram todos os fi ns de semana do mês de novembro da- quele ano até alcançar o objetivo maior: convencer os posseiros a recorrer às armas de forma organizada.

Há, na verdade, pouca informação sobre esses encontros decisivos. Uma rara exceção é o depoimento de Herculano Alves de Barros, prestado à Polí- cia de Porecatu, em 1951, depois do fracasso total do movimento. Herculano

6 Depoimento de Hilário Gonçalves Pinha ao autor, 7 out. 1999.

7 Não foi possível identifi car corretamente esses emissários, mas, pelas presenças no decorrer

do confl ito, é bem provável que tenham sido João Saldanha, na época morando no Paraná e dono de terras na região, Manoel Jacinto Corrêa, Flávio Ribeiro, Joaquim Mochel e Maria Olímpia Carneiro Mochel, depois vereadora pelo PCB em Curitiba.

8 Hilário Gonçalves Padilha era o pai. O fi lho, Hilário Gonçalves Pinha, sobrenome da mãe,

por ser descendente espanhol, veio a ser depois um dos principais líderes da resistência armada.

Formas de resistência camponesa: visibilidade e diversidade de confl itos ao longo da história

participou de todas as reuniões e mesmo da viagem ao Rio de Janeiro com Padilha e Billar. Mas confessou que decidiu se afastar dos colegas quando

optaram pelas armas.9 Herculano contou em depoimento que os emissários

apareciam sempre nos fi ns de semana na casa de Padilha e, aos domingos, reuniam-se com os posseiros, em geral depois de alguma partida de futebol, quando então passavam a explicar os direitos dos trabalhadores, a questão da posse da terra e as injustiças que eram cometidas na região. Depois de alguns encontros, distribuíam jornais, panfl etos e boletins com matérias sobre a luta dos camponeses pela terra. Segundo Herculano:

Aos poucos eles foram levando a coisa pro lado do comunismo, pregando que a terra era de quem nela trabalhasse e que todos deveriam se unir para enfrentar jagunços, grileiros, fazendeiros e até mesmo o Governo, se fosse preciso. Daí surgiu a proposta de criarem os grupos armados. Eu não concordei e deixei os colegas.10

É difícil estabelecer com precisão o que se seguiu imediatamente após a decisão dos posseiros optarem pela luta armada. Contudo, por alguns depoimentos pode-se concluir que o PCB tratou de preparar o terreno para assentar operacionalmente os grupos armados, cujos embriões já existiam havia tempos, graças ao Comitê Municipal do Partido em Jaguapitã, por intermédio de Arildo Gajardoni e das Ligas Camponesas formadas em toda a região, sob a liderança de Hilário Gonçalves Pinha.

Mas até esse momento a presença do PCB na área se limitava aos pró- prios militantes com origem entre os posseiros. Era um grupo bastante reduzido, embora com posições importantes no processo de organização da resistência. Nesse sentido, tanto Arildo Gajardoni quanto Hilário Gonçalves Pinha iriam trabalhar com a perspectiva de arregimentar um número cada vez maior de camponeses visando, de imediato, ao direito à posse legal. O trabalho de arregimentação era feito de várias formas: por atividades de lazer, como o jogo de futebol, a pescaria, o jogo de truco, que sempre enveredava para o debate político; o trabalho político propriamente dito, mediante as reuniões das Ligas Camponesas, esse sim, fórum privilegiado da discussão política.

Mas o interessante é que as próprias Ligas Camponesas, e se sabe, pela inexistência de um aparato legislativo que lhes desse vida legal, tinham em seus estatutos preocupações de cunho mais social do que propriamente político. Embora a discussão política não estivesse contemplada estatuta- riamente, era tudo o que se fazia naquelas Ligas.

9 Arquivo Público do Paraná. Fundo DOPS. Relatório sobre Porecatu, Pasta 427/188.

10 Folha de Londrina, 16 jul. 1985, p.13. Herculano Alves de Barros foi um desses personagens

controvertidos do movimento. Posseiro, acabou passando para o lado dos fazendeiros quan- do conseguiu legalizar suas terras. Era tratado como traidor pelos antigos companheiros. Arquivo Público do Paraná. Fundo DOPS, Pasta 427/188.

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No fi m dos anos 1940, o PCB fez circular no Norte do Paraná uma pro- posta de estatuto visando a ampliar a discussão em torno da formação de Ligas. Nessa proposta, a orientação era que as Associações de Trabalhadores Rurais fossem constituídas com as seguintes fi nalidades:

1. Lutar por educação e cultura dos trabalhadores da região e de suas famílias, por meio de: a) criação de escolas primárias para todas as crianças em idade escolar; b) criação de uma biblioteca circulante, contendo livros instrutivos, principalmente no que se refere à agricultura, criação, organização dos moradores da zona rural e demais assuntos de interesse dos trabalhadores; c) promoção de festas populares nas ocasiões oportunas, como São João, São Pedro, Santo Antônio, Natal, Sete de Setembro, 1o de Maio e outras, a fi m de manter vivas as tradições populares das danças, músicas etc.

2. Lutar, quando for preciso, para a obtenção de créditos bancários, para fi nancia- mento das plantações e preços compensadores para as colheitas.

3. Conseguir abatimento nas consultas médicas e nos medicamentos, mediante entendimento com o médico e a farmácia.

4. Conseguir salários compensadores para os trabalhadores rurais na derrubada, apanha de café etc.

5. Conseguir estradas.11

Se a discussão política pela conquista da terra não estava contemplada claramente, alguns pontos fundamentais para a vida dos camponeses, en- tretanto, estavam, como a luta por créditos bancários, melhores preços para a produção, salários para os trabalhadores das derrubadas etc. No entanto, implicitamente, o lugar da discussão estava colocado. Não é sem sentido que a comemoração das chamadas festas populares esteja contemplada, e

nela, o “1o de Maio”, data que nas décadas de 1940 e 1950 fora signifi cativa-

mente comemorada, seja pelos esperados discursos de Getúlio Vargas, seja pelas atividades preparadas pelo PCB nas mais diversas cidades e regiões do país. Enfi m, foram esses espaços – de lazer e da política – fundamentais para trazer o camponês para a luta.