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Por sua vez, pesquisas interessadas em discutir a respeito da racionalidade, da ciência moderna, da tecnociência e suas influências para a sociedade, encontraram na Teoria Crítica da Escola de Frankfurt aparato conceitual.

A Teoria Crítica foi selecionada para embasar a construção teórica dos trabalhos T7169, T8476 e T2201, para justificar a contradição moderna entre conhecimento mítico e científico. Os trabalhos T2577 e T4142 fundamentaram-se a partir das discussões realizadas por Jurgen Habermas e o trabalho T6071 estabeleceu relações a partir da “Dialética do Esclarecimento” de Adorno e Horkheimer.

Assim, em seis trabalhos analisados identificamos a escolha da Teoria Crítica como claro referencial teórico.

A categoria discutida pelos trabalhos que se destacou pela vivacidade das análises, as quais buscaram na Teoria Crítica fundamentar-se foi “o mito”.

4.4.3.1 A categoria mito

A relação entre o mito e a forma de conhecimento da Modernidade já fora amplamente debatida de forma magistral em Adorno e Horkheimer (2006). Nesta obra, os autores da “Teoria Crítica” explicam de que forma a Modernidade projetou desmistificar a natureza, ao prometer torná-la totalmente cognoscível por meio da racionalidade científica e metódica, e dialeticamente, acabou por criar novos mitos, como o da ciência portadora de todo o conhecimento possível. Por este motivo, a discussão sobre o mito tem papel destacado na temática da Modernidade/ Pós-Modernidade.

Pois, se a ciência moderna tem como pressuposto libertar a Humanidade da angústia gerada pelo desconhecido, a qual o conhecimento mítico tentava amenizar, ela, por outro lado, tornou-se um novo mito da verdade absoluta para esta sociedade. Processo este que foi destacado no trabalho T7169, como se pode observar nas passagens:

Por longos séculos o pensamento mítico dominou o sujeito humano e a sociedade. A racionalidade de então se convertia a estruturas extremamente peculiares, onde ritos simples e complexos eram utilizados como forma de amenizar o desassossego promovido pela presença do inexplicável junto ao ser-do-mesmo. Entidades sobrenaturais agiam e controlavam o mundo e os seres. (T7169, p. 46)

No entanto, como sugere a “Dialética do Esclarecimento”, “o mito criado em torno da ciência e da informação assumem aqui um papel considerável, visto que, sob elas, criou-se um universo de magia em que suas afirmações são consideradas indiscutíveis, infalíveis e completas” (Idem, p. 57- 58).

Pois bem, então a Teoria Crítica dá elementos para que neste trabalho seja levantada a questão da inovação tradicional da racionalidade moderna, ao passo que a ampliação dos saberes continua, na Modernidade, “proibida”, se agora não ameaçada pelas fogueiras, mas pela aceitação da comunidade científica. Sem dúvida, uma boa troca.

As construções racionais da modernidade acabam por negar definitivamente a possibilidade de formas díspares de pensar, demonstrando que os ídolos permanecem mais vivos do que nunca e que as formas míticas de encarar a realidade metamorfosearam-se influenciando determinantemente na forma de como se constrói a racionalidade costumeiramente aceita. Neste contexto, o conjunto de dados potencialmente informativos exigidos como fundamentais ao bom desenvolvimento das atividades do indivíduo nos tempos modernos, inclui-se como elemento perpetuador dessa mesma estrutura sem nada de verdadeiramente inovador trazer à tona. (T7169, p. 102)

O insucesso da proposta do Esclarecimento, exposto no trabalho T7169, está descrito na seguinte passagem textual:

A busca frenética pelo conhecimento, no sentido mais amplo do desejo da humanidade de ver superadas as condições míticas de um passado dominado por sonhos e fantasias, rui diante das catástrofes cometidas por uma sociedade pretensamente esclarecida. (T7169, p. 9)

No trabalho T2201, baseando-se nas considerações realizadas por Chauí (2001), trata- se da mitificação da ciência e tecnologia, que “ao serem submetidas à lógica neoliberal e à ideologia moderna” perderam-se seus princípios libertadores e “tornaram-se causas de carências e genocídios”. Como se pode observar no trecho destacado:

Filósofos e cientistas antigos e modernos tinham os conhecimentos como fonte libertadora – do medo, da superstição, das carências impostas por uma natureza hostil e, sobretudo do medo da morte - para os seres humanos; isso graças aos avanços das ciências, das técnicas e de uma política capaz de deter as guerras. A ciência e a tecnologia contemporâneas, submetidas à lógica neoliberal e à ideologia moderna, ao criarem a ciência e a tecnologia como novos mitos e magias por meio do complexo industrial-militar, tornaram-se ao contrário do esperado, causas de carências e genocídios (T2201, p. 34).

Mas, com o crescente descrédito na ciência e na tecnologia, a partir de meados do Século XX, como é apontado no trabalho T8476 “o que está acontecendo é que alguns dos mitos da ciência, que eram considerados verdades, estão deixando o palco e novas estrelas estão surgindo no horizonte” (T8476, p. 45). Nesta pesquisa referida, por exemplo, abordam- se as “revolucionárias descobertas” que no início do Século XX

transformariam de forma inusitada os paradigmas físicos até então existentes. A Teoria da Relatividade, desenvolvida por Einstein e a Física Quântica, resultante dos estudos do mundo atômicodesenvolvidos por um grupo internacional de físicos, abalaram profundamente os fundamentos da física clássica, desmontando a base sólida da modernidade. (T8476, p. 78-79)

Deste modo, dentre os trabalhos analisados, é interessante observar nos trabalhos T3362 e T2252 o uso que se faz dos mitos como dados ou teorias possíveis para

complementar as investigações, o que seria inadequado em pesquisas que se baseiam absolutamente no paradigma da Modernidade. Em T3362,observamos o interesse em apontar os mitos cosmogênicos como narrativas possíveis de orientar as pesquisas da área. A proposta apoia-se em Eliade (1972), como apresentado neste trecho:

Eliade (1972) não considera o mito em sua acepção usual, em que é visto como fábula, invenção e ficção, mas o aceita como este era compreendido pelas sociedades arcaicas: uma história verdadeira, extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar e significativo. O mito pode ser definido como aquele

que “(...) conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do ‘princípio’” (...) o mito narra como, graças às

façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento. (...) Em suma, os mitos descrevem as

diversas, e algumas vezes dramáticas, irrupções do sagrado (ou do ‘sobrenatural’) no

Mundo. (T3362, p. 41, grifo nosso)

O trabalho T2252 também busca fundamentação da crise socioambiental nos mitos judaicos cosmogênicos, como o da Babilônia, e desta reflexão conclui-se que: no mito da criação do ano-novo observa-se a forte influência da dominação tanto da humanidade, sobre a natureza, quanto do patriarcalismo, do homem em relação à mulher, pois a deusa que representava o mar foi fortemente vencida pelo deus homem, que forma a partir do material da deusa do mar, a criação da abóboda celeste e da terra. No mito da criação divina, Deus criou tudo a partir do nada em sete dias, e outorgou ao homem o dever de se satisfazer de toda a natureza, mas, em nenhum momento diz o livro do Genesis que o homem deva subjugar o papel dos outros seres-vivos (que também são filhos de Deus) ou das forças naturais, pois neste mito o homem é tomado como co-criador dos outros seres, inclusive a mulher, junto com Deus.

No trabalho T83 o mito, assim como em T3362 e T7643, é considerado como uma possível fonte de conhecer a realidade: “A estética, a magia, o mito e a representação são elementos, ao mesmo tempo, produtos e produtores do processo de hominização” (T83, p. 123, grifo nosso).

Neste mesmo sentido, o mito, dentre outros elementos do saber, é para o debate Modernidade/ Pós-Modernidade valorizado como uma fonte profícua de conhecimento, assim como a Ciência. Desta forma, no trabalho T77 o mito é compreendido como parte da construção de conhecimento individual e coletivo, e seria assim, indissociável de outras formas de conhecer. Como esclarece o fragmento:

[o mito como] forma cultural converte-se em formas identitárias que não são ensinadas nem aprendidas segundo métodos pedagógicos racionais, mas que vão penetrando e fazendo parte da construção própria do eu, de maneira tal qual que não existe uma clara separação entre mitos e crenças do eu, e o eu em si mesmo. (T77, p. 38)

Segundo o trabalho T2024, nenhuma forma de conhecimento seria capaz de libertar completamente o homem de seus temores. A partir das concepções de Spinoza, o qual “[...] nega que o homem seja inteiramente livre em alguns dos seus atos, porque a liberdade é idêntica à consciência, e, como nenhum homem é pleniconsciente, nenhum homem pode ser plenilivre” (T2024, p. 50). E então, continuamente citando Bauruch Spinoza no trabalho T2024 aponta-se que:

Compreender o universo, diz Spinoza, é estar libertado dele. Compreender tudo é estar livre de tudo. Somos escravos de tudo o que ignoramos – somos livres de tudo o que sabemos. Por isso, todo saber, conhecer ou compreender confere libertação e liberdade. A ética racional é a proclamação da suprema e definitiva liberdade do homem. Compreender o universo é ser libertado de qualquer espécie de temor, de culpa e de ódio, filho da ignorância (T2024, p. 34).

Se a ciência sozinha não é capaz de tornar-nos livres dos nossos temores ou de todo tipo de mal-estar gerado ou não pelas ações humanas sobre a natureza, também não podemos renunciar à ciência. Se o mito (qualquer um ou todos eles, inclusive da verdade absoluta da ciência) também não nos permite salvaguardar-nos, ele permanece essencial para que tenhamos, como sujeitos e como sociedade, esperança de encontrar caminhos para minimizar a crise multifacetada, na qual nos encontramos agora. Acreditamos, assim, que toda e qualquer forma de conhecimento deva ser somada para possíveis interpretações da crise, e, fonte para o permanente repensar nas formas do homem relacionar-se com a natureza.