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Considerando os bebês como representantes do homem em sua protopercepção sensorial, torna-se intrigante rastrear esse processo perceptivo durante o período gestacional. Ao se retroceder à vida intra- uterina e pesquisar a percepção sensorial nesse

espaço-tempo, têm-se outras descobertas relevantes, que podem resultar em elementos comprobatórios da aquisição de novos hábitos após o nascimento.

Partindo do sentido da visão, que se vem firmando como modalidade sensorial predominante, principalmente em decorrência do advento da programação alfabética, da invenção da imprensa e da saturação imagética imposta por uma civilização marcadamente visual (discussão que receberá ênfase mais adiante), nota-se um contraponto: essa mesma modalidade, na vida intra-uterina e nos primeiros meses após o nascimento, apresenta-se bem pouco desenvolvida. Verny (2004) aponta que, na vida intra-uterina, o sentido da visão, que será preponderante na infância e na fase adulta, está como que adormecido. Segundo Martino (2004), o feto é capaz, no período gestacional, de ver, podendo abrir e fechar os olhos, mas, nesse exercício, percebe apenas uma efêmera luminosidade. Acresce, contudo, esse pesquisador que, nos momentos em que o abdômen da gestante recebe intensa iluminação solar, o feto divisa esse estímulo como uma percepção cromática em tons alaranjados. Ainda quanto ao sentido da visão, há outros estudos que relatam que, no útero, o feto apenas pode discernir os contrastes do claro e do escuro. Cientistas explicitam que, nessa etapa, o sentido visual passa por experiências sem grandes variações e que, devido a esse fato, um recém-nascido apresenta apenas 0,05 por cento de visão se comparado a um adulto sem nenhum comprometimento visual.65 Como se pode perceber, a

visão passa a se desenvolver mediante os estímulos do meio, por necessidade e treino (ainda que involuntário), fato que demonstra a especialização desse órgão sensorial e legitima a idéia de aquisição de hábitos.

Quanto às demais modalidades sensoriais 66, pesquisas apontam que o olfato

também é bem pouco desenvolvido na vida intra-uterina, visto que, nessa etapa, todo o aparelho respiratório se vê repleto de líquido amniótico, o qual é, algumas vezes, engolido pelo feto. A olfação, então, confunde-se com o paladar, o que se constitui como mais uma prova da percepção sinestésica. Cabe esclarecer que a nutrição do feto se dá por via endovenosa, pela placenta, o que resulta também em uma não convocação da boca e da língua como órgãos responsáveis pela gustação. No entanto, quanto a essa mescla entre paladar e olfato, vale, ainda, ressaltar que se pode verificá- la cotidianamente, quando os aromas despertam ou inibem o paladar e se deduz que aquele alimento é palatável ou não pelo cheiro exalado. A esse respeito, recorda-se que as fossas nasais, vizinhas da boca, fartam-se do sabor dos alimentos, ingerindo-os olfativamente.

A temperatura, no útero, é, por sua vez, indicada como constante e ideal. Dessa forma, sem alterações que transmitam ao feto noções de frio e calor, o sentido térmico também não se aprimora muito durante a fase intra-uterina. Por outro lado, no período gestacional, destacam-se o tato (toque ou contato) e a audição. Em relação ao primeiro, as investigações sobre esse assunto apontam que o feto tem noções táteis ao tocar seu próprio corpo, o que pode ser detectado, com nitidez, nos avançados exames de ultra-sonografia. Ele movimenta os braços, as pernas, suga seus dedos, brinca com o cordão umbilical e pode até distinguir as pessoas, com as quais têm contato contínuo, pela forma como se movem, percebendo a diferença entre um movimento brusco e outro suave. Todos esses exercícios

66 Sobre os sentidos na vida intra -uterina, consulte referências: MONTARDO (2004); SANTOMAURO;

ANJOS (2003).

são estímulos que contribuem para o desenvolvimento da modalidade tátil, que conferem ao feto noções de contato, de proximidade, de espessura, dimensão, volume, forma, contorno, textura. Vale, nesse particular, ressaltar que não só as mãos e os pés tateiam, mas a pele toda está apta a sentir, e a boca e a língua, antes de terem a função gustativa, oferecem-se como ferramentas da percepção de tato e contato.

Quanto à audição, pode-se pontuar que esse é, então, o sentido predominante na fase gestacional. As experiências auditivas são variadas: as vozes e sua vibração, o ritmo e o compasso do coração da mãe, os ruídos da corrente sanguínea, o funcionamento gastrintestinal, entre outros sons internos, além de todos os sons do ambiente externo, redefinidos pelo ambiente aquático em que se está inserido. O bebê desenvolve, dessa maneira, noções de ritmo e compasso, sentindo que o som é também tátil, devido à sua vibração, o que consiste em mais um exercício para o desabrochar da capacidade sinestésica.

A intensa atividade do sentido da audição, na vida intra-uterina, pode ser atestada por interessantes pesquisas científicas que relatam, por exemplo, que após o nascimento, o bebê pode acalmar-se ao reconhecer uma música que escutava ainda como feto, ou que pode sentir-se mais tranqüilo ao ouvir os sons naturais dos órgãos vitais em funcionamento (o acolhimento do bebê, pela mãe, junto a seu peito, em que ele tem seu ouvido colado ao coração dela, podendo receber os sons e as vibrações dos batimentos cardíacos, é um exemplo claro dessa questão). Em decorrência disso, há estudiosos que desenvolveram melodias que interseccionam a música clássica com esses sons do corpo, objetivando reproduzir e presentificar o aconchego do útero.

Portanto, tendo em vista a predominância do sentido da audição na vida intra- uterina e a idéia, anteriormente exposta, da redução da capacidade de absorção da diversidade sonora conforme a acomodação auditiva aos sons constantes no âmbito de convivência (KERCKHOVE, 1997, p.149), ressalta-se, uma vez mais, que a amplitude dessa modalidade sensorial se afunila em contato com os sons do ambiente lingüístico familiar e do meio natural e cultural em que o indivíduo está inserido, ocorrendo uma imersão de parte da capacidade auditiva pela sua não utilização ou não solicitação freqüente. Essas idéias convergem, conjuntas, rumo à confirmação da abertura da mente para a aquisição de novos hábitos e retomada de outros preexistentes. Contudo, antes de finalizar esse tópico, cabe enfatizar que a aquisição de hábitos, embora seja mais evidente após o nascimento, pode ser notada ainda na vida intra- uterina. Há pesquisas sobre o sentido da audição que atestam que alguns sons externos, que se repetem (as músicas prediletas dos pais, as vozes e seu timbre etc) durante a gestação, vão tornando-se familiares, podendo ser reconhecidos posteriormente pelo bebê. Esse fato prova que, já na fase fetal, há a suscetibilidade para a assimilação de hábitos. Com isso, a plasticidade da mente se torna ainda mais verificável, dando provas de sua capacidade de moldagem e reversibilidade, ou seja, demonstrando que é capaz de adquirir hábitos, mudar de hábitos e acumular os hábitos anteriores junto aos novos.