De modo a reforçar as considerações acima expostas, pretende-se, nesse tópico, explanar mais detalhadamente sobre a idéia da diminuição do potencial auditivo em virtude da coerção direta ou indireta do meio cultural e/ ou natural em que se está inserido:
O cérebro, embora inicialmente direcionado para desenvolver-se de acordo com programas comuns a várias culturas, está gradualmente exposto a influências e condicionantes cada vez mais de índole cultural que requerem respostas seletivas e redefinem que quase nunca usamos os ouvidos para encontrar o caminho num ambiente urbano, mas fá-lo-íamos se tivéssemos de viver no bosque ou na floresta tropical (KERCKHOVE, 1997, p.149).
Esse fragmento põe em questão, novamente, a flexibilidade da mente quando da necessidade de adaptação, o que se compatibiliza com a já exposta idéia de Peirce sobre a arbitrariedade da ação mental, que, por seu próprio caráter, não se postula como invariável ou enrijecida a ponto de ser imutável. Assim sendo, o aspecto flexível da ação mental garante a possibilidade de mudança, podendo promover, como dito alhures, alterações na materialidade do cérebro, órgão esse dotado de plasticidade e modelável em face das necessidades com que se depare. O córtex auditivo de um bosquímano, por exemplo, tende a ser mais desenvolvido do que o dos habitantes das grandes metrópo les, acostumados aos ruídos da poluída paisagem sonora urbana. O bosquímano utiliza o sentido da audição para apreensões e direcionamentos vitais, o que, em meio ao trânsito, buzinas e propagandas gritantes dos grandes centros urbanos, não se está mais apto a fazer.
No tocante à audição, tem lugar ainda a interessante idéia pontuada por Kerckhove (1997, p.147), via McLuhan67, sobre a “audição oral” e a “audição letrada”, em que é enfatizada a doutrinação da audibilidade, em função da frisada programação alfabética: “[...] se não estiver tão submetido aos poderes da literacia, poderá ouvir sons que os outros nem sequer notarão”. Na seqüência, o citado autor lança uma sinestésica imagem auditiva: “pode ouvir os sons como esculturas sobrepostas, contendo texturas e formas, todas a fazerem pressão sobre si” (op.cit.). Essa afirmação evoca a intersecção de sensações
67 McLuhan, em A galáxia de Gutenberg, trata da separação entre o olho e o ouvido, entendendo esse fato
auditivas, táteis e visuais, no exercício da audição, demonstrando que é possível ouvir com o corpo, o que, longe de ser uma expressão metafórica, aflora qualidades sonoras imersas sob o afunilamento da especialização sensorial.
Em O Ouvido Pensante (1992), M. Schafer expõe os resultados de suas pesquisas sobre ambientes sonoros, treinamento e entorpecimento auditivos e demonstra que os sons têm texturas e imagens. Os sons são, segundo ele, múltiplos: sinuosos ou lineares, ásperos ou macios, dolorosos ou alegres, ritmados ou caóticos, audíveis ou inaudíveis, densos ou leves, suaves ou fortes, agudos ou graves, longos ou curtos, rápidos ou lentos. De acordo com o compositor, os sons se recobrem de ruídos e silêncios, sendo esses últimos análogos às janelas em uma construção arquitetônica, ou seja, fonte de luz e ar. Ele aborda, ainda, as melodias cromáticas, os sons ambíguos, os contrastantes, o diálogo orquestral (sons que conversam e se entendem), os sons que imitam, os que podem ser imitados, os que apenas sugerem, os sons do macrocosmo e os do microcosmo, as vibrações sonoras, entre outras inúmeras qualidades perceptíveis por um “ouvido pensante”. O “ouvido pensante” pode ser entendido, portanto, como áreas corticais auditivas treinadas para subverter, para criar novas sintaxes, para ultrapassar os domínios da audição condicionada e sentir, com o uno corpo-mente, em percepção e comunicação sinestésicas, os sons encobertos.
Essa percepção auditiva aguçada, retratada por Schafer (1992), apresenta correspondências com a “audição oral”, evocada por McLuhan (apud KERCKHOVE, 1997), cuja acuidade, aos poucos, anestesia-se em decorrência da programação alfabética e, também, da falta de tempo ou hábito de “sentir os sentidos” na íntegra, em sua máxima potência e diversificação. Kerckhove (1997, p.156) explicita que “a audição oral procura imagens em vez de conceitos, pessoas em vez de nomes. O sentido é organizado à volta de imagens vividas que agem em contextos”. Em contraposição, a mente letrada tende a
processar tudo sob o filtro das palavras, signos mediadores das sensações, recortes do cultural. A audição letrada, como se nota, apresenta-se mais especializada e seletiva, centrando mais a atenção nos signos verbais, alijando-se dos contextos de significação e do caráter sensorial das idéias. O supracitado autor (1997, p.152) aponta que houve uma “reescrita do nosso sistema nervoso pela literacia”. Para reforçar ainda mais o poder da literacia sobre o potencial auditivo, Kerckhove (1997, p.160) exemplifica com uma situação cotidiana: “quando se lê, fecham-se literalmente os ouvidos, como se tivesse protetores auditivos”. Com esse exemplo, ele expressa o poder de abstração alcançado pelo treino e condicionamento da literacia, o que, de certa forma, veda ou filtra a entrada dos sons do mundo e de outros signos sensíveis. Contudo, salienta-se, uma vez mais, que não se deve entender como irreversível o processo seletivo das modalidades sensoriais, mas sim conceber a possibilidade de se abrir para a percepção sinestésica, em busca dos elos desfeitos:
Abre-te! Abre-te, ouvido, para os sons do mundo, abre-te, ouvido, para os sons existentes, desaparecidos, imaginados, pensados, sonhados, fruídos! Abre-te para os sons originais [...], do início de todas as eras [...]. Para os sons de hoje e de amanhã. Para os sons da terra, do ar e da água... Para os sons cósmicos, microcósmicos, macrocósmicos... Mas abre -te também para os sons de aqui e de agora, para os sons do cotidiano, da cidade, dos campos, das máquinas, dos animais, do corpo, da voz... Abre-te, ouvido, para os sons da vida... (SCHAFER, 1992, p.11).
Os sinestetas, portanto, constituem uma prova concreta dessa abertura sensorial, ou seja, da continuidade intensiva das sensações. Aqui, sendo abordada a questão da audição, visou-se a tomar essa modalidade sensorial como uma parte representativa do todo sensorial, ou seja, metonimicamente, retratar as demais modalidades, e demonstrar que, embora haja uma tendência à especialização, os sinestetas, com seus sentidos não
segregados, propõem o redimensionamento do sentir, em combinatórias e intensidades incomuns, perturbadoras da dormência sensorial, à qual a maioria das pessoas vem submetendo-se.