3 METODE
3.5 Studiens kvalitet
As dificuldades em relação ao contexto de prática apresentadas pelas professoras neste segundo momento do projeto não diferem daquelas do momento anterior. Por exemplo, as professoras se queixam da pouca valorização de seu trabalho por parte da direção e colegas, da grande quantidade de aulas semanais, muitas vezes, assumidas em dois cargos, das dificuldades para se conseguir materiais didáticos, do fato de a “disciplina de inglês não reprovar” e da pouca carga horária de aulas semanais para LI. O que percebemos ser diferente é a emoção entre as participantes, demonstrando maior unidade e acolhimento no momento em que as experiências são compartilhadas, e a emoção em relação aos seus contextos de prática. A professora Vera explicou essa mudança,
Hoje, acreditamos que temos as rédeas nas mãos e que somos capazes de mudar nossa trajetória. Conscientes disso percebemos que o inglês existe para a escola ou para o aluno com o mesmo valor que as demais disciplinas. Nós é que precisamos ser donos dessa verdade para que possamos defendê-la em todos os momentos de nossa atuação na instituição, fazendo com que os outros a compreendam e passem a respeitá-la tal como merece. Dessa forma, demarcamos nosso espaço dentro do ambiente escolar e demonstramos, através do nosso trabalho, que a língua estrangeira deve ser respeitada como conteúdo importante a ser estudado da mesma forma que os demais conteúdos (NF Vera).
Os termos utilizados por Vera em sua narrativa são bastante expressivos - “temos as rédeas nas mãos”, “ser donos dessa verdade”, “demarcamos nosso espaço” - e, se contrapõem aos utilizados por ela no início do projeto apresentados no primeiro momento de análise nesta tese – “tinha perdido minhas forças”, “vivi um verdadeiro caos”, “trabalhamos como se fôssemos máquinas”. Mudam as emoções, mudam as ações. A aceitação e a valorização de si e da disciplina que leciona gerou confiança e restabeleceu a autonomia em relação à sua trajetória profissional, ocasionando novas atitudes no contexto de prática. Em sua narrativa, Vera exemplificou,
Com o tempo, tudo muda. Até mesmo os recados escolares deixam de ficar reservados para serem repassados nos horário da aula de inglês e deixa de existir o olhar de desprezo dos outros membros da escola ao mencionarem o professor ou a aula de língua estrangeira. (NF Vera).
Vera comentou que novas atitudes foram percebidas por ela em seu contexto “com o passar do tempo”, por exemplo, o reconhecimento do ensino de LI por parte dos colegas e coordenadores. Segundo as pesquisas apresentadas em Miccoli (2010), muitos professores revelam suas experiências nas instituições de ensino afirmando a pouca valorização do ensino de LI por seus colegas, em seus relatos os professores se queixam que as aulas de LI são “no último horário” e são frequentemente utilizadas para “reuniões ou atividades extracurriculares” (MICCOLI, 2010, 119). A professora Vera exemplificou a mudança em seu contexto revelando que os recados deixaram de ser repassados em suas aulas e os olhares de desprezo por parte de
colegas deixaram de existir. As pesquisas apresentadas por Sutton e Wheatley (2003) confirmam que os professores se sentem motivados quando são apoiados pelos colegas, fazendo-os se sentirem mais satisfeitos e seguros em suas práticas.
A professora Maria relatou ao grupo no início de 2009 suas novas decisões em relação à sua prática, confirmando que se sente mais acolhida em sua escola. A coordenadora Salete anotou,
Maria: 5ª ao 1º EM. 30 horas! Ficamos surpresas. A Maria, apesar de ainda “chocada” pareceu estar feliz e se vendo professora, e não apenas, funcionária da prefeitura. Ela explicou que tirou férias acumuladas da prefeitura por bastante tempo (não anotei quanto) e por isso teve maior disponibilidade para as aulas. Disse que mostrou o Newsletter para sua diretora e foi muito elogiada pelo trabalho e esforço que faz aqui. A diretora disse que seria bom ter outros grupos com outras disciplinas e áreas. Sua primeira aula foi entorno do que motiva os alunos para aprender inglês. Ensinou a música “Row-row row your boat...” e os alunos gostaram bastante (NC 2009).
Maria havia desistido de ser professora, ingressando no trabalho burocrático da prefeitura de sua cidade. Quando ingressou no PECPLI, em 2004, estava começando a retornar à sala de aula, com uma carga horária pequena. O seu envolvimento no projeto e no contexto escolar fez com que Maria investisse novamente em sua carreira como professora de inglês. Para o grupo, foi uma grande surpresa ver a decisão de Maria. Compartilhamos sua alegria em trabalhar com os alunos para que aprendam inglês na escola e por ter sua dedicação em participar do PECPLI reconhecida por sua diretora.
As experiências vivenciadas ao longo dos anos no PECPLI geraram novas experiências no contexto escolar. Considero pertinente o comentário das professoras participantes relacionando o tempo às mudanças percebidas, i.e., para que houvesse mudança significativa em seus contextos de prática, foi necessário o “passar do tempo”, o compartilhar de várias experiências, a realização de várias conversas. Quando uma professora nova veio, em 2009, ao projeto para conhecer o grupo e foi indagada pelas professoras sobre o que gostaria de conversar nos encontros, ela disse que gostaria de falar dos
conflitos entre professores e gestores de educação e da apatia dos alunos. O grupo explicou que esses eram temas recorrentes no PECPLI,
Visitante: (...) mas o que tem me chamado muita atenção desde quando eu comecei a trabalhar porque...eu me formei com quarenta anos, tá, gente... a baixa auto estima dos alunos, parece que eles não tem esperança nenhuma no futuro e outra coisa... (...) que tem nos sido muito pesado... é... que os gestores de educação querem empurrar para os agentes educativos... é que se os alunos não estão aprendendo é que os professores não estão ensinando...é... é um fato que vem me chamando muita atenção... e a baixa auto estima dos alunos.. é o que tenho observado... e como a gente poderia fazer pra enfrentar esse tipo de situação... ou situações...
Mary: É... interessante... a gente já falou sobre isso aqui algumas vezes... esse e outros aspectos mais negativos em relação aos alunos...e... a gente pode ter um outro encontro e falar sobre isso novamente...
Jane: Explica pra ela que a gente já tem esses encontros há algum tempo e...
Mary: Pode explicar... Grupo: ((risos))
Jane: não... é que... a gente já tem uma agenda... uma agenda que a Salete e a Mary elaboram e que... então... hoje já tem uma agenda, não é?... então a gente pode falar isso em outro encontro, não é... se não ela (se referindo à visitante) vai falar... “ah, não falou o que eu queria ouvir hoje”...
Visitante: Não...tudo bem... não...
Mary: Foi bom a Jane ter falado isso... porque a gente sempre negocia os temas e a agenda com todo mundo no final de cada encontro e... às vezes a gente já tem uma coisa pré determinada mas que... foi combinada antes...
Visitante: Dentro de um assunto não é?... entendi...
Mary: No momento a gente está... ainda negociando... ((risos)) Grupo: ((risos))
Kely: Mas a gente pode tratar desse assunto novamente para você ...
Jane: É e esses assuntos sempre vêm... assim... nunca desaparecem...a gente tá sempre pensando nisso... (V 27)
As professoras mostraram que muitas conversas já foram feitas sobre os temas que diziam respeito ao papel do professor e à apatia dos alunos. No entanto, esse era um assunto recorrente e poderia ser revisto em outro encontro para que a professora visitante pudesse ter seus interesses atendidos no grupo. Segundo Maturana, é preciso criar uma nova rede de conversações para que, a partir do fluir do linguajar e do emocionar, seja construído um domínio racional comum. Acredito que a mudança nas ações percebidas nos contextos de prática das professoras seja um indício que demonstre a
mudança ocorrida na estrutura das professoras (provocada pela vivência de novas emoções) e, também, na estrutura do PECPLI (provocada pelas experiências das vivências de novas emoções das professoras).
Algumas vezes as professoras relataram que elas estavam agindo diferente na escola, por exemplo, implementando novas atividades para o trabalho com os alunos, ou aceitando e valorizando mais seus alunos, por isso, não eram bem aceitas por seus colegas. O excerto abaixo exemplifica essa experiência. A coordenadora Mary estava conversando com as professoras sobre os capítulos que estavam sendo escritos por elas e pelos demais colaboradores. Ao comentar sobre um dos capítulos, o qual tratava da experiência de pertencer a um grupo, Mary sugere que esse poderia ser um assunto a ser, futuramente, conversado nos encontros para que as professoras partilhem sobre as experiências em seus contextos,
Mary: (…) his chapter touches on this.. on how people can feel isolated…separated… and how we can… belong…
belongness… you feel the sense of belongness here, right?
But, how do we act when somebody wants to exclude themselves, separate themselves, etc… so we need to go back to this to discuss this because I think this important to our project…because…it’s not going to be worth if you’re the only one in your school thinking different…
Conceição: Not different! Mary: I know…
Conceição: Not different about ways…but about thinking… I can’t say… because if I say they can hit me… ((risos))
Mary: I know… hit? Conceição: No, no Mary: angry?
Conceição: ((risos)) Yes… I’m very…aumentando demais também, não é assim... ((risos))
Mary: They’d think you’re very... snobbish...
Conceição: Yes, I am not a sympathetic woman…(XXX) (V 27)
Mary afirma que as professoras se sentiam pertencentes ao grupo do PECPLI, mas que muitas vezes se sentiam isoladas em seus contextos, como se fossem as únicas a pensar e interagir diferentemente com alunos e colegas. A professora Conceição relata que os colegas ficam com raiva dela, não porque ela age diferente, mas porque pensa diferente. Por causa disso, Conceição disse que muitas vezes tinha que ficar em silêncio, sem manifestar a sua opinião.
Ao longo dos anos a convivência gerou maior entrosamento no grupo. Parece haver maior liberdade entre os membros expressada no humor e até no chorar juntas. Por exemplo, em um encontro utilizando técnicas da Prática Exploratória para levantar puzzles que gostariam de investigar, uma professora diz não ter tido muito tempo para preparar suas aulas como gostaria e isso a deixa estressada. A professora comenta,
Bruna: A gente tava falando aqui... às vezes o que me estressa é não ser assim... Mara falou assim... avalia o que tá bom e o que não tá... (XXX) nessa hora... eu bato no peito e falo assim... gente, eu planejo minha aula é em cima da moto... na hora que vou pro banho...
Conceição: eu também faço assim...
Bruna: Entendeu? Isso me estressa... mas outra coisa... eu me cobro... sabe eu reflito quando estou aqui... mas no meu dia-a- dia eu não tenho tempo de refletir...(A 31-05-08)
A nova experiência de refletir sobre as aulas foi um tema frequentemente relatado no grupo. A professora Bruna admite que era possível fazer a reflexão sobre sua prática nos encontros do PECPLI, mas expressou que se cobrava porque não conseguia tempo para planejar e refletir sobre suas aulas como gostaria em seu dia-a-dia. Quando a professora Bruna comentou sobre sua dificuldade para planejar as aulas e refletir sobre sua prática, outras professoras seguiram comentando suas experiências em uma emoção descontraída. A conversa prosseguiu:
Kátia: Jane essa semana tava ensinando partes do corpo e levou uma coisa que o Túlio [estagiário] deu [na aula de inglês]... ora, gente... aqui... ela toda feliz... e ela prepara, gente, ela fica a tarde inteira....
Mary: Ela prepara sim... eu vi a aula dela no estágio... foi muito boa...
Kátia: Ela é toda... aí ela diz que levou lá... os meninos não queriam repetir... quando pedia para tocar as partes do corpo... quando foi ver eles estavam desenhando chifre, bigode... Mary: Chifre, bigode?!
Kátia: É no desenho... ela disse que foi ver tava cheio de chifrinho, bigode...
Conceição: Ainda bem que foi só isso... ((risos)) Grupo: ((risos))
Túlio: ((XXX))
Conceição: Esse é o problema de envolver todos… mas a gente tem que dar graças a Deus por… dois por três... tem que valorizar os poucos que a gente conseguiu envolver... porque
senão a gente vai ter que desistir... se ficar se cobrando envolver todo mundo... uma coisa boa de nosso encontro aqui é isso... se um conta... aí eu penso assim... ainda bem que não é só comigo... assim que eu aprendi a valorizar o um o dois [alunos] que eu consegui...
Grupo: ((risos)) ((conversas))
Conceição: Estou à caminho... ainda não estou feliz não, mas já me coloquei à caminho, não é?
Grupo: ((risos)) (A 31-05-08)
Todos pareciam interagir na mesma emoção de descontração embora o tópico tenha sido a dificuldade de planejar aulas e a pouca receptividade dos alunos, conforme relatou uma das professoras. O que poderia ter sido partilhado como emoção de frustração, nesse encontro, ocorreu sob uma emoção de humor. Bruna continuou,
Bruna: Deixa eu terminar... como eu não tenho tempo... essa semana que fiquei internada, levei um monte de provas para o hospital, não é... ((XXX)) aí teve prova que eu não corrigi, que eu cancelei... como eu vou corrigir a prova ... ((XXX)) teve uma turma da sexta série que não entendeu nada de plural... tanto que eu fui me revendo também... e vendo até que ponto o ativismo destrói e constrói a gente... ((XXX)) ativismo...
Mary: Ativismo?
Bruna: É ativismo... eu sinto que mesmo quando eu não tenho tempo de preparar as minhas aulas, eu sinto que dentro da própria escola eu... eu e a Maria, nós duas ou separadas... vejo que nossa prática é diferente... mudou muito pra melhor... mas eu queria isso... me angustia não ter esse tempo todo dia...
Vera: Tá precisando de ficar mais no hospital ((risos)) Grupo: ((risos))
Salete: Ai, Vera...
Mary: Vera, você hoje está ferina. ((risos)) (A 31-05-08)
Bruna expõe sua dificuldade em administrar o tempo para o cumprimento de tarefas, como corrigir provas e preparar aulas. O “ativismo” ressaltado por Bruna é uma experiência vivenciada por muitos professores (COELHO, 2005; MICCOLI, 2010) O comentário da professora Vera conserva a emoção descontraída que gera humor no grupo. As coordenadoras, também, participam dessa emoção fazendo comentários da fala de Vera mostrando, assim, a intimidade na interação entre os membros.
Neste momento do projeto, as transcrições mostraram que os professores estavam mais conscientes das responsabilidades de seus alunos e
há pouca queixa em relação a eles nos encontros, mas ainda expressavam emoções de humilhação, desvalorização e conflito com a supervisão, direção e coordenação escolar. Esse fato gerou outra emoção comum no grupo, a indignação, por exemplo, quando uma das professoras relatou maus tratos por parte da supervisão.
No mesmo encontro acima citado, a professora Mara falou de sua dificuldade de se relacionar com a supervisora e coordenadora de sua escola. Ela se queixou da falta de tempo para ser atendida e da maneira com que foi tratada por essas pessoas na ocasião da avaliação feita pelo Estado dos alunos e professores das escolas públicas. Apresento alguns trechos do relato dessa experiência a fim de ilustrar as emoções da professora e da coordenadora Mary. Em um dos trechos, percebe-se a tristeza de Mara e a indignação da coordenadora com a forma ríspida com que a professora foi tratada. Mara contou,
Mara: Agora aconteceu alguma coisa essa semana de novo eu já falei que vou controlar o meu choro... só que não teve jeito... aquela prova que fizemos do estado?
Mary: Sim...
Mara: (...) ia passar os resultados... então [a supervisora] disse que nós tínhamos que fazer uma... tabulação de notas... segunda feira eu não tenho aula... fui à escola porque tinha uns xerox para fazer e o meu planejamento ... (...) aí a diretora disse, “Mara, tenho que falar com você. Isso é pra ontem quero que você faça a tabulação de suas provas e você vai pegar...” aí me deu uma folha de xérox com numeração de um a vinte... “e eu quero turma a, b e c”... (...) [eu perguntei] “para quando?”, porque ela tinha falado que era para ontem... “não, você vai fazendo”. Na hora que eu ia questionar como fazer, ela já não me atendeu mais.
Mary: Que é isso! (A 31-05-08)
A professora tentou conversar e solicitar orientação da supervisora sobre a tarefa que lhe havia sido designada, mas não conseguiu a sua atenção. No dia seguinte, é abordada pela diretora que lhe solicitou o cumprimento de uma tarefa cujo prazo para realização já estava vencido. Novamente a professora precisou de ajuda para esclarecimento e não foi atendida. Os membros do projeto acompanharam o relato silenciosamente, apenas a formadora expressou com uma exclamação sua indignação com a situação de Mara. A
tarefa havia sido designada sem a devida explicação para sua realização, o que fez a professora voltar a procurar ajuda, conforme contou no relato abaixo,
Mara: (...) aí eu falei assim, “Sandra [supervisora], eu vou levar de uma turma só porque eu tenho aula hoje à noite... e eu tenho aula amanhã...” na quarta-feira eu tenho aula o dia todo, manhã, tarde e de noite... (...) não consegui fazer à noite, o resultado não deu certo... (...) cheguei da escola quase onze... fui fazer...estava com sono...na quarta-feira... acordei um pouco mais cedo... quatro e meia por aí... fui começar a fazer isso e de novo deu errado... eu sabia que eu tinha o dia todo de trabalho... pensei assim... vou ficar na escola, não vou almoçar.. depois pensei... dessa vez não estou aqui para fazer papel de bobo, fui em casa almocei e voltei... à noite eu não aguentei fazer... tive aula até nove e meia, tinha uma palestra... fui começar a fazer dormi em cima daquilo... (A 31-05-08)
Mara contou que foi atendida mais tarde juntamente com outra professora, pela supervisora, mas disse não ter conseguido realizar a tarefa porque teve um dia muito atarefado. É frequente a queixa dos professores acerca da sobrecarga de tarefas que precisam realizar na escola muitas vezes em curto prazo. O grande número de aulas, as atividades extraclasse e a necessidade de levar tarefas para serem realizadas em casa, sejam no horário tarde da noite, de madrugada, ou no horário de almoço, como relatou a professora Mara, deixa os professores exauridos. Além de exprimir seu cansaço, Mara expressa que cumprir tarefas da escola dessa forma exigente a faz sentir-se no “papel de bobo”.
Segundo Maturana (2005), a sociologia afirma que todas as relações humanas são sociais. Segundo a Biologia do Conhecer, as relações humanas que vivemos em nossos encontros não são iguais, porque “vivemos nossos encontros sob distintas emoções, que constituem diferentes domínios de ação” (MATURANA, 2005, p. 68). Maturana (in: MAGRO, GRACIANO & VAZ, 2002; MATURANA, 2005), como visto anteriormente neste trabalho, afirma que as relações sociais se constituem como tal, apenas, na aceitação do outro, no respeito e na confiança. As relações de trabalho, por exemplo, se fundam no acordo de cumprimento de tarefas, sem considerar relevante que as pessoas como, “seres multidimensionais”, vivem outras dimensões relacionais, como família, amigos, dentre outros. O que caracteriza a professora como
pertencente àquele sistema, a escola onde trabalha, é o cumprimento da tarefa designada pela supervisora e diretora; as coisas pessoais não fazem parte da relação. Segundo Maturana (2005), “nosso problema é que confundimos domínios, porque funcionamos como se todas as relações fossem do mesmo tipo, e não são” (ibid. p. 69), “não somos o tempo todo sociais” (ibid., p. 71). Porém, a confusão se estabelece porque, como seres biológicos, que vivemos nossa conservação na emoção do amor, somos fundamentalmente sociais, e o social vai “aparecer o tempo todo e por toda parte” (ibid.) em nossas interações.
A experiência relatada por Mara se constitui em dois domínios interacionais, o domínio das interações de trabalho e, consequentemente, um domínio hierárquico de interações. O domínio hierárquico é constituído nas interações cuja emoção fundamental é a negação mútua, evidenciada na obediência e concessão de poder. Mara compartilha com o grupo sua obrigação em ter que realizar a tarefa designada pela autoridade da supervisora e diretora da escola onde trabalha. Novamente, compreende-se a interação hierárquica estabelecida quando Mara obedece e se esforça em cumprir a tarefa designada; sua atitude de obediência justifica a legitimidade da autoridade da supervisora e da diretora.
A convivência acontecida sob a emoção recorrente de cobrança e de negação do outro pode causar danos à fisiologia do ser humano. Segundo Maturana (MAGRO, GRACIANO & VAZ, 2002), o modo de viver humano é caracterizado pelo entrelaçamento do linguajar e do emocionar, juntos, que acontecem na emoção do amor. Os seres humanos são animais que tem o seu modo de viver constituindo o seu modo de ser, sua ontogenia humana (Ibid. p. 47). Assim, os seres humanos dependem de “um viver no qual essas