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Ao construto CA traz consigo em sua trajetória uma discussão quanto a sua mensuração. Inicialmente medir a CA era norteada por fatores tangíveis como a P&D, no entanto, percebeu- se que o entendimento da CA na perspectiva unidimensional era limitada, uma vez que absorção de conhecimento envolve elementos intangíveis, dai a necessidade de entendimento multimen- sional, o que consequentemente traz consigo dificuldade na sua mensuração.

Nesse sentido, o estudou se preocupou em identificar o processo da CA e a presença suas múltiplas dimensões no ambiente agrícola com dinâmica diferenciada aos até então anali- sados.

Tendo em vista a abordagem adotada, a contribuição teórica consiste, primeiramente, em relatar a dinâmica envolvendo a CA em um contexto ainda não examinado na perspectiva aqui contemplada. Foram evidenciadas a múltiplas dimensões da CA no ambiente das unidades

de produtoras de soja, embora esses locais se diferenciem das organizações industriais onde surgiu o construto, uma vez que as primeiras seguem uma programação que obedece a um ciclo produtivo (preparo do solo, plantio, tratos culturais e colheita) de acordo com as condições climáticas de cada região, diferente do contexto industrial (mecanicista) no qual a repetição ocorre nas rotinas diárias, as quais não são atreladas às característitas cíclicas derivadas do ambiente a que está submetida a produção agrícola.

Ainda que a perspectiva trazida pela CA tenha surgido em um contexto diferente, no decorrer do tempo sua ampliação compreendeu uma diversidade de ambientes organizacionais, nos quais conseguiu explicar a forma como o conhecimento é absorvido a partir das fontes externas. Diante de tais constatações, julgou-se pertinente interrogar se o construto de CA seria capaz de explicar os processos de inovação no contexto do agronegócio da soja, uma vez que o processo produtivo desse grão requer o uso de conhecimento/tecnologia, bem como a contínua atualização para atingir produtividade esperada.

Quanto à adequação da abordagem teórica trazida pela CA para explicar os processos de inovação, nas três unidades produtoras de soja, diante das evidências encontradas, entendeu- se esse aspecto como adequado para esclarecer a sobrevivência dessas unidades ao longo do tempo e também capacidade em implantar práticas de cultivos diferenciadas (e mais complexas) que adotam. Sem o desenvolvimento da CA, não teriam a capacidade para a atualização e re- novação de sua base de conhecimento/tecnologia para se manterem na atividade; a CA contri- buiu para esse ecletismo. No entanto, alguns elementos citados na teoria têm sua dinâmica/co- notação diferente do contexto onde foram inicialmente propostos. Nesse sentido, serão listados alguns itens destacados teoricamente como favorecedores da CA, mas que, no ambiente empí- rico, tiveram características diferentes. Mesmo assim, não foram entendidos como desfavorá- veis à CA. Dentre os quais são elencados P&D, estruturas organizacionais e relações de poder.

A P&D foi prevista, desde a introdução do construto (COHEN; LEVINTHAL, 1990), como favorecedora da CA e, posteriormente, citada por Cockburn e Henderson (1998), Muro- vec e Prodan (2009), Spithoven, Clarysse e Knockaert (2009) e Fabrizio (2009). Embora a construção dessa abordagem ao longo do tempo recebesse críticas quanto à mensuração da CA baseada em aspectos tangíveis (como P&D), essa importância nunca foi negada; porém, na esfera das unidades de produção analisadas, contatou-se a ausência da P&D interna conduzida por elas próprias, o que teoricamente poderia afetar a CA. Mesmo diante das evidências, a questão não foi entendida dessa forma, uma vez que os produtores possuem áreas na proprie- dade onde as empresas revendedoras de insumos fazem experimentos (unidade de producao A), FUNDAÇÃO-MT (unidade de produção B) e ainda podem acessar as áreas de pesquisa das

consultorias (unidades de produção A e C). Sem contar que os resultados das pesquisas são disseminados nos Dias de Campo dos quais participam, o que pode suprir a necessidade de P&D e mantém-nos atualizados sobre os conhecimentos/tecnologias para cultivar soja. É per- tinente destacar, como já foi mencionado, que o construto de CA teve sua origem em ambientes diferenciados do contexto analisado, nos quais P&D foi percebido como relevante; porém, esse comportamento diferente quanto a P&D no âmbito do agronegócio da soja não foi entendido como prejudicial à CA, uma vez que isso pode ser provido pelas parcerias e contatos externos.

Outro elemento que se diferenciou no ambiente analisado, e que apresenta potencial de interferir na CA, foi a estrutura organizacional, por impactar no processamento do conheci- mento. (VAN DEN BOSCH; VOLBERDA; DE BOER, 1999). São características dos três ca- sos examinados: um quadro funcional constituído por poucas pessoas e uma estrutura sem for- malização. Consequentemente, há estruturas reduzidas e seus funcionários são alocados com base nas funções que desenvolvem, diferentemente do contexto estudado por Van Den Bosch, Volberda e De Boer (1999) envolvendo editoras.

Nas estruturas das unidades de produção, o proprietário é também o gestor principal, sendo auxiliado pelos gestores de área (s), junto aos quais as informações circulam e decisões são tomadas para, posteriormente, serem repassadas aos trabalhadores do nível operacional. Embora essa estrutura seja mínima e não formalizada, os dados sugerem que isso não seja li- mitante para a CA, uma vez que o processo decisório pode ser rápido por envolver poucas pessoas, o que consequentemente encurta o fluxo da informação; por tais razões, isso não foi entendido como limitador da CA.

As relações de poder foram outro aspecto a ser observado empiricamente e que não apresentaram a conotação teórica descrita por Todorova e Durisin (2007) a respeito do conhe- cimento novo a ser usado, que pode sofrer interferência de agentes poderosos dentro e fora da organização, capazes influenciar os processos de absorção de conhecimento para atingir seus objetivos. Diante das evidências contextuais, nos três casos, as relações de poder não se dão em uma “condição de disputa (ou conflito de interesses)” entre os agentes (como indicam Todorova e Durisin, 2007), mas envolvem uma condição de “racionalidade (ou coerência)”, uma vez que o proprietário é também o gestor principal. Assim, além de possuir os recursos necessários à produção, o proprietário tem o poder maior sobre o empreendimento. Diante disso, as decisões são centralizadas nesse indivíduo, que faz discussões com seus gerentes ou com a consultoria, mas detém a palavra final será sua. Embora o poder seja centralizado, o fato dos funcionários poderem fazer sugestões para melhorias nos processos, as quais podem ser acatadas desde que

pertinentes, não foi entendido como desfavorável à CA, por gerar envolvimento de todo o grupo nos diversos níveis.

Pode-se observar neste estudo o potencial da CA, com base nas evidências empíricas encontradas, para explicar os processos de inovação nas unidades produtoras de soja, não sendo constatadas diferenças merecedoras de destaque entre os três casos quanto aos subprocessos adquirir, assimilar, transformar e explorar. No entanto, a abordagem trazida pelo contruto da CA não explica a escolha/proximidade das fontes de conhecimento/tecnologia. O que diferencia os casos, conforme os dados sugerem, são as fontes de conhecimento/tecnologia, em função da proximidade e capacidade de produzir resultados diferenciados. Dito de outra forma: relações mais intensas com fornecedores de insumos (unidade de produção A com área de pesquisa) fundamentaram inovações baseadas nas tecnologias embarcadas; contatos com a EMBRAPA e consultorias deram base para inovações voltadas à adoção de distintas práticas de cultivo (SR e ILPF, unidades de produção B e C respectivamente). Assim, ficou obscura a questão sobre o que determina as práticas adotadas (sistemas de cultivo) ou se é a partir de tais práticas que é feita a opção por determinadas fontes de conhecimento/tecnologia.