Neste trabalho os gêneros Pheidole, Solenopsis, Camponotus, Dorymyrmexe Crematogaster foram os mais abundantes, como corroborado por Wilson (1976); Marinho et al. (2002); Fonseca & Diehl (2004); Costa et al. (2010). Entre as formigas, estes gêneros são os que apresentam maior diversidade de espécies e abundância local, maior expansão da distribuição geográfica e maior adaptação ao ambiente, além de serem também os gêneros com maior riqueza de espécies do mundo (Wilson 1976). A subfamília Myrmicinae apresenta ainda o recrutamento em massa para exploração de recursos e hábitats, o que facilita o sucesso de colonização e estabelecimentos de colônias(Caldas & Moutinho 1993). O gênero Pheidole é o gênero mais diverso de família Formicidae, isto implica em uma variedade de adaptações e genótipos que os coloca em praticamente todos os hábitats, exceto nos pólos e algumas ilhas oceânicas (Ribeiro et al. 2005).
O gênero Solenopsis apresentou alta abundância em praticamente todas as coletas, semelhante aos trabalhos de Wilson (1976), Delabie & Fowler (1995) e Diehl et al. (2004). É um gênero com grande número de espécies generalistas e agressivas, como a espécie Neotropical invasora Solenopsis
invicta Buren, também muito abundante neste trabalho. Este gênero é conhecido por apresentar fácil adaptação às mudanças ambientais, sendo que algumas espécies são dependentes da umidade do solo para o estabelecimento do ninho (Lofgren et al. 1975). Na Vereda Lago do Inferno (vereda com menor impacto) o gênero foi registrado em maior abundância em relação ao demais. Ao longo deste estudo, foram observadas marcas de fogo na vegetação de Cerrado que circunda esta vereda, como
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sólidos abandonados). Com o registro relevante de um gênero altamente generalista, com espécie muito agressiva (S. invicta) nesta área, pode-se inferir que pequenos e sutis impactos podem ser mais facilmente perceptíveis usando elementos da mirmecofauna como bioindicadores. Aparentemente a vereda está saudável e com água de boa qualidade, porém a avaliação de sua fauna de formigas de solo pode nos dizer que estes pequenos impactos pode afetar sutilmente a saúde do ecossistema. De fato, a espécie S. invicta não respondeu às variações de fatores limitadores do cerrado, como por exemplo, os metais pesados Al e Ti (ANOVA Al: F1=0,12; p=0,72 e ANOVA Ti: F1=3,15; p= 0,09), pois estes impactos associados à sua presença massiva podem não ter relação ou não interferir nas concentrações destes elementos.
Figura 4.2. Evidências da presença de gado na Vereda Lago do Inverno. A) Dejetos de gado no espelho d‟água da vereda, e B) Marcas de pegadas de gado na margem da vereda, destacadas pelo círculo vermelho.
Apesar de não ter sido um gênero significativamente importante na diferenciação das áreas, o gênero Atta Fabricius 1804, foi capturado apenas na Vereda Lago do Inferno e na Vereda Curral das Éguas, ambas com cerrado circundando a vereda. Este gênero apresentou duas espécies, A. levigata F. Smith 1858 e A. sexdens Forel 1908. Autores como Araújo et al. (1997), Majer & Recher (1999) e Zanetti et al. (2008) registraram este gênero em cultivos de eucalipto, chegando a ser tratado como praga, porém este resultado não foi encontrado neste estudo. Atta forrageia em ambientes que já foram perturbados e que estão em recuperação, porém este gênero necessita de ambientes em que o solo tenha estruturação que permita a construção de ninhos sem que galerias e câmaras desmoronem (Moutinho et al. 2003; Costa et al. 2010), bem como necessita defolhas frescas, sementes e flores como substrato para crescimento de fungos (Hölldobler & Wilson 1990). Na Vereda Buriti, o eucaliptal que margeia a vereda se encontra em estágio jovem, ou seja, o solo da monocultura ainda
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desestruturação desse solo e a impossibilidade de manutenção de ninhos mais estruturalmente exigentes, como é o caso do gênero Atta. Além disso, a área entre o afloramento do lençol freático (vereda propriamente dita) e a cultura do eucalipto está sob constante influência da variação do nível da água e permanece total ou parcialmente alagada por grande parte do ano, o que impossibilita a implantação de ninhos neste local. Com isso, podemos inferir que este gênero pode ter sido deslocado ou localmente extinto devido às condições ambientes inadequadas para sua permanência. Fonseca & Diehl (2004), estudando riqueza de formigas em monoculturas de Eucalyptus em áreas de restinga, não encontram representantes do gênero. A restinga é um ambiente com solo arenoso, pouco estruturado e com baixo teor de material orgânico. Isto reforça a relação da complexidade do solo e o estabelecimento do gênero Atta. A ausência de Atta em determinado ambiente não só indica a desestruturação do solo como também a redução da sua fertilidade. Locais onde existem ninhos de
Atta o solo apresenta melhores condições de umidade e porosidade, maior concentração de matéria orgânica e pode até apresentar inputs de nutrientes para planta, podendo aumentar o fluxo de até 13 elementos químicos nas áreas circunvizinhas ao ninho, em comparação com locais onde não existem ninhos (Moutinho et al. 2003; Philpott et al. 2010).
Um gênero importante neste sistema que foi ausente no eucaliptal é Cephalotes, sendo este fato indicativo de algumas questões de hábitat importantes. Este gênero é caracterizado por espécies de hábitat arbóreo e que se alimentam de exudatos produzidos pelas plantas, seja em frutos, nectários extraflorais, inflorescências ou flores. Nesta área houve a retirada da vegetação nativa (Cerrado) e a implantação de uma monocultura, que não oferece estes recursos para que estas espécies possam explorar. As duas espécies, C. maculatus F. Smith (1876) e C. pusillus Klung (1824), que ainda ocorrem nesta área, estão associadas à vegetação que se mantém na zona encharcada da vereda. A substituição das florestas nativas por plantações de estrutura física simplificada pode apresentar uma grande ameaça para a fauna nativa, uma vez que as condições de estratificação horizontal e vertical e de sombreamento são completamente modificadas (Majer & Recher 1999). Por outro lado, este resultado corrobora a ideia de que Cephalotes é um gênero com elevada exigência de hábitat, assim, um bom bioindicador de condições mínimas de hábitats arbóreos.
Alguns registros interessantes foram exclusivos na área de menor impacto (Vereda Lago do Inferno) como o gênero Xenomyrmex Forel (1885), Apterostigma, Hypoponera e Pogonomyrmex, Com uma única espécie (neste trabalho, denominada sp1), Xenomyrmex tem biologia ainda pouco conhecida. Creighton (1957) e Wheeler & Wheeler (1960) relatam que este gênero nidifica em cavidades de árvores. Sugerem ainda que essas formigas podem não estar restritas aos troncos de
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perturbado ou mesmo isento de perturbação, podem ter espécies de plantas que favorecem este gênero. Outro gênero pouco conhecido é o gênero Apterostigma. As formigas deste gênero geralmente nidificam debaixo de rochas, em troncos podres e na serapilheira, possuem colônias pequenas, e como as demais Attini, cultivam jardim de fungos (Lattke 1997), e são comumente registradas no Cerrado (Vasconcelos et al. 2008). Sua identificação é bastante difícil e neste trabalho foram encontradas duas espécies: Apterostigma (pilosa gr.) sp.1 e Apterostigma sp.1. Junto com estes gêneros pouco conhecidos está Hypoponera. São caracteristicamente membros da serapilheira, nidificando na madeira podre sobre solo e/ou entre as raízes das plantas, e mais raramente, podem ser encontradas nidificando em cupinzeiros após terem sido abandonados (Dejean et al. 1997). Essas formigas geralmente são consideradas predadoras de pequenos artrópodes (Bolton & Fisher 2011), o que pode implicar em necessidade de ambientes menos perturbados para a sua colonização. Por fim, a espécie Pogonomyrmex naegelli, que, apesar de ser típica do Cerrado, apenas um indivíduo foi coletado na área de baixo impacto. Esta espécie é conhecida por ser coletora de sementes e se alimentar também de partes de insetos, podendo esta dieta variar com a sazonalidade (Belchior et al. 2012).
Ainda na área de menor impacto, espécie Gracilidris pombero, única espécie do gênero encontrada neste trabalho, esteve ausente. Até onde se sabe, esta espécie é generalista e nidifica no solo, e é comum em áreas perturbadas e/ou de agricultura e pastagem, e já foi encontrada no Cerrado brasileiro (Wild & Cuezzo 2006; Guerrero & Sanabria 2011). Como esta espécie tem preferência por áreas perturbadas e modificadas, a sua ausência pode ser entendida na Vereda Lago do Inferno, já que esta área apresenta baixo impacto. Porém, o que se conhece da história de vida deste gênero ainda é insipiente (Wild & Cuezzo 2006).
Na área com pastagem, duas espécies foram exclusivas:Sericomyrmex parvulus e Nylanderia
nr. fulva. Sericomyrmex geralmente nidifica no solo e em troncos podres, são generalistas que frequentemente coletam matéria orgânica, fezes de insetos, polpa de frutas e sementes para cultivar seus jardins de fungos (Pizo & Oliveira 2000; Araújo et al. 2002a; Mehdiabadi & Schultz 2009). O gênero Nylanderia nr. fulva tem grandes colônias e nidifica em diversos locais diferentes. São predadoras generalistas e tem um comportamento de recrutamento de massa (Zenner & Ruiz 1988). Geralmente predam cupins, e como nesta área a presença de cupins era muito evidente, a presença deste gênero pode estar relacionada a esta oferta de recurso.
A comunidade de formigas está estreitamente ligada à estrutura de hábitat. Ao analisarmos o tipo de vegetação, as alterações ambientais e como essa transformação promove a variação de riqueza, abundância e composição de espécies de formigas, fornecemos subsídios para fazer o
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monocultura de eucalipto simplifica o ambiente modificando química e fisicamente o solo, diminuindo oferta de recursos e micro-hábitats, dificultando a colonização de espécies vegetais e animais. Por outro lado, impactos indiretos do eucaliptal ou do pastoreio também podem afetar o Cerrado e as veredas, sendo estes efeitos detectáveis pela variação na composição de espécies de formigas. Em particular, a substituição da vegetação nativa de cerrado por monocultura de eucalipto, neste caso, na Vereda Buriti, é onde também acontece, mesmo que pequena, a redução de concentração de Al no solo. Esta pequena redução pode estar relacionada com a calagem solo realizada para a efetuação do plantio de eucalipto, pois este procedimento diminui o alumínio trocável no mesmo (Goodland & Ferri 1979).
Alguns estudos (Silva et al. 2006b; Silva et al. 2009) já mostraram que as formigas são capazes de bioacumular Al e outros metais, alocando-o em estruturas corporais que necessitam de maior resistência e rigidez, como por exemplo, mandíbulas e cápsula cefálica. As formigas adquirem esse metal principalmente ao se alimentarem de exudatos de plantas que bioacumulam metais e
honey-dew de homópteros que se alimentam dessas plantas. Como a mata nativa que ofertava esses recursos para estas formigas foi substituída pelo o plantio de eucalipto, a relação do aumento da riqueza de espécies com a maior concentração de Al se torna significativo e real nas áreas onde há a vegetação de cerrado no entorno. Obviamente a simplificação de diversos elementos do hábitat na plantação de eucalipto não nos permite uma interpretação direta de causa e efeito, podendo haver a omissão de alguns fatores que não foram analisados. Porém, a resposta positiva do número de espécies de formigas com elevação da concentração de Al reflete na adaptação destas espécies a estas condições de solo. Portanto, o Cerrado e as veredas representam claramente um ambiente que força a chamada “Estratégia de adversidade” (Greenslade 1983), e estas são características de história de vida que podem claramente separar espécies exigentes de espécies invasoras, por exemplo.
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Os riscos do avanço sobre o Cerrado de cultivos agressivos que suprimem a vegetação modificam irreversivelmente a estrutura e características químicas do solo, ficoram mais uma vez evidenciado com a bioindicação por fauna de formigas. A supressão da vegetação que mantinha uma fauna associada e dependente dos recursos que esta vegetação oferecia deixou clara a importância do micro-hábitat para existência de algumas espécies. Pode ser uma questão de tempo a extinção de algumas espécies que dependem dessa complexidade do bioma nativo caso sua depauperação não desacelere. Os efeitos locais dessa situação puderam ser observados neste trabalho, porém o conhecimento deste tipo de impacto na bacia hidrográfica como um todo é fundamental para afirmar com segurança este diagnóstico.
As pegadas de gado encontradas na vereda Curral das Éguas confirmam a utilização das veredas como local de pastagem e dessedentação animal, principalmente na estação seca, quando o ambiente de vereda pode ser comparado a um oásis no Cerrado. O constante pisoteio promove a compactação visível do solo, o que pode acarretar em prejuízo na recarga do lençol freático que abastece a vereda. Com isso, o espaço intersticial será reduzido com a aproximação dos grãos, o que pode dificultar tanto a recarga quanto o afloramento do lençol, ou seja, em longo prazo isso implicará em conseqüências negativas ao ecossistema de um modo geral. Efeitos similares podem estar causando uma elevada densidade/sucesso da S. invicta na aparente bem preservada vereda Lago do Inferno. A despeito de ainda estar cercada por extensa área de Cerrado fisionomicamente bem preservada, as evidências de fogo frequente e pisoteio de gado podem estar eutrofizando excessivamente este ecossistema, e dessa forma, favorecendo espécies com potencial invasor.
Pode-se concluir que a utilização da mirmecofauna para estudos de impactos e monitoramento ambientais vai além da simples visão da relação deste grupo de artrópodes com o solo. O diagnóstico oferecido por esta prática traz informações mais complexas e mais abrangentes sobre o ambiente do que tem sido registrado em relatórios de impacto ambiental. É evidente que ao analisar parâmetros de qualidade da água pode-se ter informações sobre o tipo de uso desse elemento (o que justifica a utilização de classes, para justificar o tipo de uso) e sobre a fauna existente no meio aquático. Entretanto, quando se associa indiretamente estes parâmetros com análise de formigas, também é possível inferir sobre a qualidade do ambiente terrestre. Uma água classificada como “boa” para o uso e sobrevivência da fauna associada pode não refletir as condições em que o ambiente terrestre subordinado se encontra e isto é visível quando encontramos gêneros de formigas ambientalmente menos exigentes coexistindo em riqueza e abundância maior nos locais onde a água
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gado, podem refletir em assoreamento e eutrofização dos ambientes aquáticos, mas tais impactos são generalizados em todo ambiente terrestre e difíceis de interpretar de maneira cartesiana ou linear. Talvez por isto haja na literatura um completo vazio na interpretação concatenada de dados limnológicos e de ecologia terrestre. Este é um dos primeiros trabalhos em ambientes mésicos de Cerrado que tenta vincular dados abióticos diretamente mensuráveis na água, estrutura de comunidades terrestres dependentes desta água e impactos ambientais. Assim, se torna uma tentativa de corrigir uma perda histórica de oportunidades de vinculação de dados e melhoria nas medidas de identificação dos efeitos reais dos impactos agro-pastoris em biomas tropicais que coexistem com agroecossistemas.
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