2. Chapter 2: Literary Review
2.2. Strong voices
A caracterização da comunidade dos produtores tradicionais ligados à UNICA, colhida através dos depoimentos, dá suporte às premissas de escolha desta comunidade para este trabalho, bem como as descrições de comunidades cognitivas (Porac et al., 1989). Os depoimentos deste grupo evidenciam os laços históricos, bem como as interações sociais que os unem. O primeiro aspecto em comum foi à caracterização do grupo social dos “italianos”. Um dos especialistas do setor (ES1) confirma a questão da influência do grupo dos italianos na formação do setor. Segundo ele “[...] em resumo, existe uma visão patrimonialista por parte dos italianos, que assim veem os produtores como inimigos, ou como alguém que deve ser adquirido a qualquer custo.” (Especialista do setor ES1). Além das evidências de grupo social, os depoimentos também comentam da utilização da família como unidade importante para os negócios, à semelhança do que argumenta Campos (2002). Segundo outro especialista “O grupo era homogêneo, era a “italianada” que brigava, brigava, mas saía com uma decisão. Era a grande família italiana.” (Especialista do Setor, ES4). Outra evidência neste sentido foi colocada por um dos produtores tradicionais, que afirmou que “[...] e antes era quase uma família italiana, que brigavam e a noite estavam tomando uísque.” (produtor tradicional associado à UNICA, PT1). Esta visão de uma grande e unificadora família também foi abordada por um dos produtores tradicionais, que afirmou que “como nós não somos concorrentes entre nós tínhamos cotas [...] tudo mundo organizado [...] era uma grande família alcooleira, [...] fazia benchmark, comprava equipamentos juntos, era um familião.” (produtor tradicional associado à UNICA, PT2). Outro fator enfatizado nos depoimentos é o longo histórico de tradição destas famílias no setor e sua longa interação. Frase como são famílias com sessenta ( ou cinquenta ou setenta anos) foram comuns durantes os depoimentos, evidenciando que a alcunha de produtores tradicionais que este grupo tem respaldo em anos de experiência na atividade. Outro ponto que denota o tempo de interação e intimidade é a
maneira de referência aos personagens deste grupo, especialmente aos membros das famílias centrais ao desenvolvimento do setor. Rubens Ometto é frequentemente referenciado como “Binho” e Maurílio Biagi Filho é chamado de “Maurilinho”. A influência destas famílias “tradicionais” também aparece no discurso de outras comunidades cognitivas. Em referência as mudanças do setor, um dos novos entrantes afirmou: “O setor está mudando muito, as famosas empresas familiares estão abrindo mão.” (Novo entrante associado à UNICA, NE3). A maioria das entrevistas citou nominalmente o grupo dos “tradicionais”.
A comunidade dos novos entrantes ligados à UNICA foi citada em todas as entrevistas. A “novidade” da entrada destes novos grupos a partir dos anos 2000 e transferência de controle de grupos “importantes” para as mãos dos novos entrantes foi central em todas as entrevistas. A nova maneira de pensar dos novos grupos também é corrente na caracterização deste grupo. Um dos especialistas que cita “[existe a mudança da] maneira de pensar com a entrada dos estrangeiros“ (ES435). Este argumento é corroborado pelo depoimento de um dos novos
entrantes ligados a UNICA:
Queremos mudar a realidade do setor[...]A nossa atividade tem que mudar, com a entrada dos novos existe um novo mindset, dos líderes [gestores] atuais na empresa, apenas dois ainda tem este pensamento antigo. (NE2).
Alguns ainda citam a “profissionalização” como característica marcante deste grupo, em oposição às práticas das empresas familiares que caracterizam o grupo dos produtores tradicionais. Um dos produtores tradicionais não ligados à UNICA refere-se a isso dizendo que “Com a entrada da Shell o setor ficou mais profissional [...] também a Bunge, com o Pedro Parente o setor se profissionalizou.” (NU2). Outro dos produtores não associados à UNICA afirma que “A entrada de capital externo no Brasil mudou a dinâmica do setor [...] e profissionalização da gestão.” (NU3). A maioria das referências a este grupo usa termos como “os estrangeiros” ou “grandes grupos internacionais”, apesar da participação da Cosan em 50% da Raízen e da participação relevante do grupo Odebrecht através da ETH (com 37 milhões de toneladas de capacidade de moagem ano). Não obstante, tanto Cosan como ETH foram associadas às novas características deste grupo (“[...] com vinda das multinacionais que tem capacidade própria de dialogo pelo seu tamanho, como Shell, Bunge, Dreyfus e ETH.”, PT2). A Cosan é geralmente considerada “estrangeira”, pois existe a visão de que a Shell
35 A partir deste ponto, os entrevistados serão identificados apenas pelo código de duas letras e número, estes códigos estão descritos no Quadro 12 – , p.78.
eventualmente dominará a “fusão de iguais” com a Cosan (“A Cosan não existirá, será Shell, pois uma sociedade de iguais não existe.”, PT2).
A entrada destes “novos grupos” no setor e as mudanças estruturais causadas atreladas a este movimento ficam evidenciadas pela referência feita sempre no tempo passado ao antigo grupo dominante dos produtores paulistas. Os entrevistados usam expressões como “era a italianada“ ou “meu conselho era formado por usineiros” ou ainda “era um familião” (ES4, UN2, PT1, grifo nosso).
A comunidade dos produtores tradicionais não ligados a UNICA foi citada em um número menor de entrevistas. Grosso modo, esta comunidade foi citada em dois tipos de situações. Na primeira delas, quando membros de outras comunidades expõe sua opinião de que estes produtores tendem a desaparecer pela mudança de estrutura do mercado:
As unidades ficarão entre 2 e 3 milhões de toneladas. Virarão nicho? [...] não vai captar valor de logística, créditos, outros elos da cadeia [...] mas as questões de sucessão podem colocar tudo a perder [...] rupturas que estão acontecendo, estes terão que fazer escolhas. (PT1)
A segunda situação de citação desta comunidade acontece quando a própria comunidade descreve sua caracterização. Os entrevistados da comunidade se veem em posição “não central” em relação as decisões nacionais do setor, que está em São Paulo (“A UNICA não abriu a boca para criticar as declarações do Mink sobre zoneamento.”, NU2). Existe um subgrupo de destaque que são os produtores do Nordeste. Estes produtores tiveram destaque nas citações de outras comunidades, especialmente pela comunidade de produtores tradicionais associados à UNICA. Os comentários focaram nas questões de produtividade dos produtores do Nordeste em relação aos produtores do da região Centro-Sul. Um dos entrevistados citou as “[...] vantagens pecuniárias não compensam a baixa produtividade.”(PT1) e na habilidade dos produtores Nordestinos em conseguir uma fatia desproporcional das políticas públicas. Um dos entrevistados afirmou que “Tem algum exemplo do NE fazer o jogo melhor do que São Paulo [...] exemplo às cotas preferenciais para EUA.”(NU1). Comentou-se ainda da dependência do governo ao se afirmar que “[...] agenda política muito dependente do governo federal. (PT1). Parece haver uma “hierarquia temporal” nos modos de fazer negócios entre os grupos, que segue as fases históricas de “dominação” do setor: os produtores tradicionais ligados à UNICA veem a atuação dos outros grupos
tradicionais, especialmente em relação aos produtores do Nordeste, como um modo de atuação atrasado conforme assinalou um produtor tradicional, dizendo que as empresas nordestinas “[...] fazem um associativismo “pré-histórico.”(PT1). Parece existir este mesmo tipo de “hierarquia” no julgamento dos novos entrantes em relação aos produtores tradicionais associados à UNICA. Um dos novos entrantes afirmou que “(existe a mudança da) maneira de pensar com a entrada dos estrangeiros.“ (ES4).