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3.2 Front-End Design

3.2.2 String Flex

Diante das reflexões feitas ao longo do texto, podemos perceber os imensos desafios que precisam ser superados e que devem ser assumidos conjuntamente pela Escola Itinerante, pelo Setor de Educação e pelo conjunto do MST com vistas a qualificação dessa Escola. Sintetizamos estes desafios em alguns eixos:

1- Fortalecer a organização e as instâncias dos acampamentos para potencializar a participação e a relação acampamento–Escola. Estes devem ser espaços de efetivo estudo, formação e decisão. As famílias acampadas devem se apropriar do projeto de educação e escola do MST. Fortalecer os coletivos de educação nos acampamentos e intensificar o acompanhamento pedagógico aos educadores como forma de avançarmos na construção de uma educação de qualidade. Este é um dos caminhos para que a escola contribua no processo de formação humana de maneira ampla e colocá-la no rumo da construção de forma escolar articulada à luta pela transformação da sociedade.

2- Trabalhar na perspectiva de formar um grupo de educadores que possa atuar nas Escolas Itinerantes, evitando a excessiva rotatividade dos educadores nessas escolas. Para isto tem-se a necessidade de incluir os educadores que ainda não tem formação pedagógica nos cursos de magistério ou de pedagogia. Ao mesmo tempo, é necessário buscar parcerias com as universidades públicas na criação de cursos de pedagogia para que possamos formar o máximo de educadores que possam atuar nas futuras Escolas Itinerantes e nas escolas dos assentamentos.

3- Lutar para melhorar a estrutura da Escola Base e das Escolas Itinerantes, assim como o fornecimento de material pedagógico e didático, recursos para deslocamento dos coordenadores pedagógicos, contratação de merendeiras, entre outros. Fazer com que o Estado cumpra com suas responsabilidades, ao mesmo tempo em que a estrutura do sistema estadual de educação torne-se menos enrijecida às demandas populares. Ao mesmo tempo, o

acampamento deve assumir a responsabilidade de construir hortas, jardins, espaços amplos e arejados, aproximando a escola da Pedagogia do MST e tornando orgânica a relação acampamento–MST e Escola.

4- Avançar no desenvolvimento de metodologias e instrumentos que possam auxiliar o educador para trabalhar com turmas multisseriadas, com qualidade no processo pedagógico e na aprendizagem das crianças. Assim como construir ferramentas para garantir o aprendizado das crianças que chegam ao acampamento com defasagem escolar, assegurando à elas o direito de aprender, evitando a evasão escolar comum entre as crianças que são retidas por várias vezes na mesma série.

5- Avançar na discussão pedagógica sobre a importância da Escola Itinerante no MST na perspectiva da construção de uma nova escola ao mesmo tempo em que haja uma apropriação dos conhecimentos acumulados, estes vistos desde sua inserção nos processos amplos de ensino e formação, conforme aponta a Pedagogia do Movimento.

6- Estudar para compreender qual a implicação pedagógica que traz a organização escolar em sistema série em relação aos ciclos de formação humana. Organizar os acampamentos e o Setor de Educação para forçar a abrir espaços de diálogo junto ao Estado e a secretaria de educação para pautar mudanças no Sistema Estadual de Educação.

7. Fazer o debate nos acampamentos e assentamentos sobre a continuidade das escolas do campo na transição de acampamento para assentamento, uma vez que as negociações com os municípios, não raro, demandam de lutas prolongadas e tempo para elaboração e aprovação dos projetos.

Estes são alguns dos desafios que apontamos e que merecem a reflexão nos acampamentos, na Escola Itinerante, no Setor de Educação e no conjunto do MST, para que possamos avançar na construção de uma educação diferente, que esteja pautada na formação das várias dimensões do ser humano, articulada à socialização e à produção dos conhecimentos úteis à emancipação dos trabalhadores. Estes desafios devem ser vistos como possibilidades de construirmos um processo educacional que ajude na mobilização dos acampamentos, no fortalecimento das instâncias organizativas, na elevação do nível de consciência das famílias acampadas e na discussão de um novo projeto de agricultura que tenha suas bases na agroecologia. A educação, dessa forma, contribuirá na luta pela Reforma Agrária e na construção de um novo projeto de sociedade em que as pessoas terão livre acesso à terra, ao trabalho, e onde predomina a solidariedade e a cooperação entre os seres humanos.

REFERÊNCIAS

BRASIL. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Diretrizes operacionais para a educação básica nas escolas do campo. Resolução CEB n.º 01/2002.

BRASIL. Diário Oficial da União, n.º 175, 10/09/2008 .

CALDART, Roseli Salete. Pedagogia do Movimento Sem Terra. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.

ESCOLA ITINERANTE SANTA CATARINA. Projeto de Criação da Escola Itinerante dos Acampamentos do Movimento Sem Terra de Santa Catarina. Chapecó, abril, 2003 .

____. Projeto Político Pedagógico. Chapecó, Julho de 2006.

FREIRE, Paulo, Pedagogia do Oprimido, 17ª. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1987

MORI, Cleber Menezes. O processo de constituição da Escola Itinerante Sepé Tiarajú do acampamento Pátria Livre, no município de Correia Pinto no estado de Santa Catarina. Monografia (Pedagogia da Terra), Veranópolis, 2006.

PUHL, Raquel Inês. Escola Itinerante do MST: o Movimento da Escola na Educação do Campo. Dissertação (Mestrado em Educação), UFSC: Florianópolis, 2008.

Marcela Nunes da Cunha 1

Débora Nunes Lino da Silva 2

Abordar a trajetória de luta, debates, reflexões e inquietações sobre a construção da Escola Itinerante em Alagoas, significa adentrar na história deste estado. Compreender a sua formação sócio- histórica e econômica, que permite descobrir muitas contradições no decorrer deste processo e que influem no jeito de conceber e fazer educação no estado. São mais de um milhão de pessoas sem acesso ao processo de escolarização, e sem que haja responsabilização, de fato, dos poderes públicos no trato da questão.

Resgatar esta experiência, ainda que embrionária, com seus limites e uma série de desafios a serem enfrentados, permite apontar que as mudanças necessárias se fazem em diferentes frentes, desde a desconcentração da terra à garantia do direito básico e inegável do acesso à escola. E que estes direitos só são possíveis de serem conquistados por meio da organização e mobilização dos trabalhadores e trabalhadoras.

Alagoas é o segundo menor espaço territorial do país: 27.767.661 km2, com mais de 3 milhões de habitantes, conferindo-lhe uma densidade demográfica de 109,37 hab/km² (IBGE, 2007). Número bastante elevado em relação ao Brasil ou mesmo ao Nordeste, levando um escritor alagoano a expressar que: “É muita gente para pouco espaço” (LIRA, 1998).

No entanto, se verifica que os problemas do estado de Alagoas não se limitam à sua alta densidade demográfica. São problemas mais graves, de ordem econômica e social, expostas a olhos nus. O estado tem como base de sustentação de sua economia, até hoje, a monocultura da cana de açúcar voltada para exportação, com a exploração de grandes extensões de terra.

Esse processo assumiu especificidades na configuração fundiária de Alagoas, com a conformação de uma estrutura econômica, social e política oligárquica persistente, concentradora de terra, renda e poder, geradora de grande parte dos problemas sociais que parecem ter se hegemonizado, caracterizado por sua rígida hierarquia social. A concentração de renda é um dos itens mais reveladores das condições de vida extremamente precárias da maioria da população de Alagoas, onde os 10% mais ricos detinham 54% da renda total, enquanto 40%, constituídos dos mais pobres, ficavam com apenas 6,9% dessa renda.

A face mais perversa do estado de Alagoas se expressa na situação de extrema pobreza e miséria em que vive a maioria da sua população. Em relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), de 1996, Alagoas figurava em segundo lugar entre os estados brasileiros que ofereciam as piores condições

1 Especialista em Educação de Jovens e Adultos e coordenadora pedagógica do MST de Alagoas. 2 Socióloga e dirigente nacional do MST.