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A conquista da escola dos acampamentos se configura como um processo coletivo de organização e participação da comunidade acampada na vida da escola. A primeira necessidade dos camponeses é a conquista da terra e, para manter-se nessa luta e resistir, foi preciso também a compreensão do papel da educação. Ressaltamos que o MST, desde sua origem, procura educar e escolarizar os filhos da terra pra compreenderem melhor a realidade que enfrentam.

As comunidades dos acampamentos, ao se convenceram da necessidade de instituir uma escola nos respectivos acampamentos, iniciaram os mutirões para a construção das mesmas. A comunidade Nova Santa Rita reuniu o acampamento Herdeiro de Che e decidiu em coletivo a distribuição de tarefas para cada Núcleo de Base na construção da escola. Contudo, antes de iniciar o processo, deliberaram que a escola iria funcionar em um barraco desocupado no acampamento. Para isso, ele seria reformado.

Assim, cada núcleo de família ficou responsável por uma parte da reforma da escola7. Uma

das atividades foi comum a todos: a fabricação de adobes8. Cada companheiro, dentro de seu núcleo, tinha

uma quantidade de adobes a ser fabricado. A cada semana um núcleo fabricava uma quantidade de adobes e, em seguida, outro núcleo com o mesmo espaço, tempo e as mesmas ferramentas dava continuidade na fabricação, até chegar à quantidade necessária para levantar a escola.

A lição extraída durante a fabricação dos adobes e a reforma da escola fortaleceu os valores defendidos pelo Movimento: o companheirismo e a solidariedade. A disponibilidade e a força de vontade entre os acampados em alterar a realidade coletivamente fortalecem a luta pela transformação social, como

6 Desta ocupação não temos ainda o levantamento dos dados da fazenda, pois a falta de agilidade do INCRA não permitiu contabilizar a área depois de quase quatro anos de ocupação.

7 Núcleo de família ou Núcleo de Base é um termo usado pelo MST para organizar o acampamento. Esse grupo varia de 10 a 15 famílias, e cada um possui um coordenador e uma coordenadora e mais uma secretaria. Todas as discussões e encaminhamentos referentes à luta e à organização do acampamento passa por esses grupos de famílias, ou seja, o Núcleo de Base é a célula organizativa do Movimento Sem Terra.

8 Material de barro utilizado na fabricação do tijolo, mas com um viés artesanal que tem a mesma função do tijolo mássico na construção de casas de material.

ressaltou o educador João Batista Gonçalves, ao afirmar que “só coletivamente seremos capazes de resistir a todas essas dificuldades”.

Nesse sentido, para a consolidação deste ambiente educativo, uma dispensa para a cozinha, as paredes, o telhado, e o piso foram reformados, as portas foram colocadas o reboco feito e as madeiras substituídas. A reforma foi realizada e deu-se início às aulas. Com o tempo, a comunidade do acampamento construiu uma escola em todas as áreas de ocupações. Além dessa estrutura, as comunidades escolares precisavam de carteiras, quadro de giz, gás para o funcionamento das aulas de EJA no turno da noite e fogões para fazer a merenda escolar.

Devido à carência desses materiais, formou-se uma comissão para negociar e participar de audiências com secretários de educação dos municípios, com o objetivo de solicitar materiais permanentes. Outra dificuldade enfrentada foi a falta de material didático. Os acervos que as escolas possuíam eram doações do Banco do Brasil, do Projeto de Escolarização e de outras entidades. O pouco que se conseguiu da Seduc foi distribuído pela Escola-Base Paulo Freire.

A distribuição deste material foi realizada pelos caminhões de “pau de arara”, utilizado na feira dos pequenos agricultores, que acontece toda segunda-feira no município de São João do Piauí. Estrategicamente, a direção da Escola-Base Paulo Freire, no assentamento Marrecas, fez uso deste transporte, que retorna com os produtores às suas comunidades, para levar o material didático até as Escolas Itinerantes. Atingido o mínimo necessário para começar as aulas, as comunidades com mais tempo disponível começaram a construir a escola com uma estrutura mais sólida. Foram criados núcleos para discutir a organicidade e funcionamento da escola nas três áreas de acampamento, onde cada membro da comunidade assume uma responsabilidade na consolidação do referido espaço formativo.

Adiante, após a aprovação do projeto das Escolas Itinerantes em 2008, a dificuldade inicial se ateve à matrícula das crianças nas Escolas Itinerantes. Como a Secretaria de Educação não havia lançado no sistema a matrícula dos educandos, os pais que tinham seus filhos matriculados nas escolas do município ficaram receosos de perder o ano letivo e inicialmente resistiram em transferir seus filhos para as escolas do estado recém instituídas. Por conseguinte, as famílias do acampamento temiam perder o benefício do Programa Bolsa Família, já que um dos pré-requisitos para receber tal contribuição é manter as crianças na escola, e não havia como comprovar que as crianças estavam matriculadas e também sua frequência escolar.

Diante deste limite, foi necessário um bom diálogo com todas as famílias acampadas para reverter este problema e garantir a matrícula dos educandos no sistema estadual de educação. Assim, foram feitas as transferências, o que não acarretou nenhum prejuízo à população pelo contrário, a Escola Itinerante se constituiu uma conquista de toda comunidade acampada.

O nome Itinerante agora tem significado próprio para o povo. É uma obra construída coletivamente, o que simboliza grande avanço entre os processos formais de escolarização e as relações sociais de convivência. O que mais encanta são os aprendizados que vêm dos próprios sujeitos da organização, ou seja, o próprio Movimento constrói conhecimento e a escola. Essa proposição vem da necessidade de obstruir a concentração da propriedade, da riqueza e do conhecimento, na busca de empregos, trabalho, moradia e acesso à educação.

Entretanto, todo esse processo de lutas e conquistas não foi o suficiente para garantir a permanência das famílias no acampamento. O número de educandos nas Escolas Itinerantes vem gradativamente diminuindo devido, principalmente, aos seguintes fatores: a) o atraso no repasse da cesta básica para a alimentação das famílias; b) a dificuldade de acesso à assistência médica; c) a falta de incentivo na produção; d) a inexistência de uma infra-estrutura para a construção das barracas; e) a lentidão na implementação do projeto de assentamento do Crédito Fundiário na região. Todos esses fatores contribuem para a desmobilização das famílias acampadas e se constituem em obstáculos para os acampados. Nesse sentido, atualmente temos o seguinte cenário nas Escolas Itinerantes no estado do Piauí:

Portanto, esses obstáculos interpostos a todo o momento demonstram que a consolidação desta escola vem do próprio esforço do MST, que intensifica sua ação em torno da luta pela educação. Hoje é possível dizer que ela é reconhecida pelo sistema público de ensino em virtude do empenho de toda a comunidade acampada.