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Strengths and limitations of the studies

10. DISCUSSION

10.2 Strengths and limitations of the studies

CAPÍTULO VIGÉSIMO SÉTIMO

EM QUE SE ESCREVE UMA LAMENTAÇÃO QUE FILOMESTO FEZ JUNTO DE UMA RIBEIRA PELA MORTE DE GURIOMA

Águas, com quem já chorei em outros tempos passados, agora que aqui tornei, chorar quero outros cuidados, daqueles que, então, cuidei. Chorei, então, esquivanças d’outro amor de crueldade; choro agora de vontade minhas mortas esperanças, minha viva saudade. Meu choro mal empregado nada, então, me aproveitou; mas outro novo cuidado, que agora a morte levou, como o chorarei, coitado? Cuidei que por longos anos este meu mal fenecesse; ele, em vez de minguar, cresce, pois me nasceram mil danos por um só bem que falece. A ninfa Eco, porque viu minha tão triste agonia, quã prestes se despediu, não quis minha companhia; sem tardar de mim fugiu. Não fujais vós, claras águas, já que ela fugiu asinha; vede uma vida mesquinha, ouvi minhas tristes máguas, ouvi a desdita minha. Quando se sói apagar um círio, que bem ardia, em tornando-o a soprar, torna a cobrar mais porfia para melhor lume dar. Assi, porque eu apaguei meu amor, por disfavor (sic), tornou-me a soprar Amor; tanto desta vez amei, que cobrei dobrada dor.

Capítulo Vigésimo Sétimo 98

Sinal é mui evidente,

(por meu mal o soube assim), da pessoa, que é doente, que vem já perto seu fim, quando de nada é contente. Muda camas cada hora, pelo seu mal ser mui forte; assi anda a minha sorte, pois amor mudei agora, sinal é de minha morte. Por sentir minha paixão, ide, águas, com passo brando; meus olhos a contarão, se tardardes escuitando, depois vos ajudarão. Que, por eles serem canos por que corre o meu tormento. tem tal uso em sentimento que o que eu perder em dez anos podem cobrar num momento. Ouvi, águas, por que conte o que de Bactriana escrevem, que andam camelos no monte sem beber, mas, quando bebem, nunca bebem em clara fonte. Bem por três e quatro dias a sede podem sofrer, mas, em vendo águas correr, fogem das claras e frias, só das turvas vão beber. Como às águas vão aqueles, assi a meus choros vou; turvas águas bebem eles, e se eu camelo não sou, nisto abasta, sou como eles. que por d’amor me apartar, por disfavores que achei, quando a outro amor tornei, água clara fui achar, mas só turva a beberei. Perdi a desaventura,

achando outro amor tão doce, mas minha triste ventura não quis consentir que fosse o meu bem de muita dura. Porque estando já contente, sendo bem aventurado, tudo em breve foi mudado, que abastou um mal presente turvar todo o bem passado.

Capítulo Vigésimo Sétimo 99

Vi todo meu bem morrer, todas minhas alegrias, vivo eu pera isto ver; vindo por tão poucos dias, pera que vinhas, prazer? Vi-me cobrado e perdido com ver e perder meu norte; chorai, águas, minha sorte, já não há prazer comprido, pois o meu levou a morte. Quando a meu peito aportaste, mui contente me fizeste, mas quando, prazer, tornaste, com tornar, mais dor me deste que prazer, quando chegaste. Foi minha breve bonança por mais tormenta passar; já não espero esperar, pois só tive uma esperança pera mais me maguar. Inda que duro parece, costume é de Alexandria, quando quer que algum falece, buscar quem chore esse dia o morto por interesse. Dizem que é choro por arte, maior que de dor causado; mas não é choro acabado, que pera em choro ter parte sem arte há-de ser chorado. Choro tão interesseiro não sei quem o possa dar; não é choro o por dinheiro, e quem por ele chorar não tem choro verdadeiro. Chorar, assi, a partido é bradar por pagamento; mas o meu choro, que eu sento, é, chorando o bem perdido, perder-me em meu perdimento. Se, ervas contentes, puderdes, fugi minha companhia,

que é de outra cor; vós sois verdes; ou me dai uma alegria,

dar-vos-ei quanto quiserdes. Bem sei eu que ma dareis, que a vossa cor a daria; mas quem dar-m’a poderia não fará o que fareis, pois a tem a terra fria.

Capítulo Vigésimo Sétimo 100

Por encobrir meu tormento, que só meu bem o sabia, fui a seu enterramento; levei a tumba em que ela ia pera mais meu sentimento. A meus ombros vos levava, meus prazer e minha dor; fostes bem, por dor maior, minhas máguas vos contava, não respondieis, amor. A dor grande é dor passá-la, mas mor dor é encobri-la, que a dor sentida calá-la: menos dor é só senti-la, que depois dissimulá-la, Se não é noutros assim, isto só por mim o digo, que, enterrado o meu abrigo, maior dor foi pera mim calar só meu mal comigo. Foram-vos acompanhando, amor meu, muitos senhores; os curas iam cantando, mas eu, sem cura, com dores, curava meu mal, calando. E esta cura me dobrava a dor que n’alma trazia, que, porque calando me ia, o mal de dentro lavrava, de fora não parecia.

E sendo máguas estranhas, trabalhei polas calar,

mas, por serem elas tamanhas, não pude dissimular

o mal de minhas entranhas. Que, fazendo por vós pranto os que vos acompanhavam, a chorar lugar me davam, pois, por todos chorar tanto, meus choros não se estranhavam. Vendo eu tal ocasião

de chorar, sem ser sentido, dei novas ao coração que soltasse algum gemido, com tal dissimulação. E soltando, então, o fio às lágrimas a tristeza, correram com tal braveza, como águas corre algum rio que dantes tinha em represa.

Capítulo Vigésimo Sétimo 101

E se alguém me reprendera porque ou por quem gemia, encobrira-me e dissera que, pelo que outrem fazia, também o mesmo fizera. Antre o povo assi presente encobrira este sinal, que por vos ver bem mortal, vos chorava toda a gente, mas eu chorava mor mal. Chorava o prazer perdido e o pesar que via vir; chorava por ser nascido, pois, por tanto mal sentir, me foi dado o meu sentido. Chorava, porque partistes e cá, sem vós, me deixastes; chorava, porque tornastes de ledos, que foram, tristes os meus olhos, que cegastes. Eles choram de vontade com maior razão agora, por cair mais na verdade, que as vossas coisas, senhora, dobram minha saudade. E minhas tristes lembranças na tormenta deste mar servirão de me lembrar minhas passadas bonanças, pera mais me atormentar. Às gentes is acabando, e a mim só is vivendo, e os que vos vão enterrando, pera vir meu mal crescendo, vos iam meu bem prantando. Secou-se a eles seu rio e seu choro teve fim,

mas não foi meu choro assim, que este grão mar, por que guio, mar sem fim é pera mim. Vendo meu bem enterrado, vi viva minha tristura, o meu prazer encurtado; vendo-vos na sepultura, vi-me vivo sepultado.

Como águas deitam nas prantas no tempo que as prantaram, quando, bem, vos enterraram, eu deitei lágrimas tantas, que os meus olhos me cegaram.

Capítulo Vigésimo Sétimo 102

Mil fontes me descobriram pera chorar tanto mal, porque tantas máguas viram, que por dó do bem mortal com névoa se me cobriram. E, antes de cegar, a veia soltaram, por mais chorar; como maior lume dar vemos sempre uma candeia, quando se quer apagar. Quando o branco cirne canta o fim de sua ventura,

muitos mais brados levanta, mas nem choro, nem brancura, sua triste morte espanta. Mais suave que calhandro, multiplica seus gemidos, e com dobrados aulidos, junto do rio Meandro,

vai cerrando os seus sentidos. Como cirne brancos eram e claros meus tristes olhos; toda sua luz perderam, a morte lhe pôs antolhos, quando os vossos feneceram. Por ver perto a vossa morte, com seus choros, que dobraram, O Meandro acrescentaram, e sem ter quem os conforte, pouco e pouco se cerraram. Em mal me vão converter o bem que já me mostraram; cegaram pera o prazer, mas mais claros me ficaram pera só tristezas ver. Com razão cegaram, vendo o meu bem na terra fria; mas quem não se cegaria, vendo o seu prazer morrendo por não ver mais alegria? Gram tesouro se descobre, sendo morto o grão de trigo na terra com que se cobre, pois tal vigor tem consigo, que faz ser rico do pobre. Nesta saudosa serra vim descobrir gram riqueza, sem vós, vivendo em pobreza, pois morta vos cobre a terra, rico sou já de tristeza.

Capítulo Vigésimo Sétimo 103

A ave Fénix é nascida com primeiro outra morrer; assi cobra nova vida, com que vem depois viver, quando a outra tem perdida. Quis eu ver quem me causava vida de prazer tão nua;

soube, enfim, que a morte crua, pois quem me esta vida dava tinha já perdida a sua. Fortuna, pera que deste grandes mostras de alegrias, se logo te arrependeste, pois quantas mercês fazias com morte m’as desfizeste. Por meu mal vim entender quão bem sabes enganar, pois tão mal foste acabar; não te quero agradecer o teu bom principiar. Antes de meu nascimento comecei chorar cruezas, donde tenho em pensamento que nasci pera as tristezas, pois tive tal fundamento: Que mais máguas, das que vi, não cuido que se fizeram, porque também se me deram, que ou só pera elas nasci, ou sós pera mim nasceram. Lembra-me que me dizia a madre, que me pariu, que, por triste profecia, no ventre chorar me ouviu, indo em uma romaria. A quem tal sinal foi dado, que prazer esperara? Antes adivinhara

que, pois chorou sem ser nado, depois morto chorara.

Se com os ramos pera o chão são as árvores prantadas, quando assi prantadas são, vêm crescer depois viradas com a mesma inclinação. Pois, se eu antes de nascido logo chorar comecei, e, quando nasci, chorei, não é muito, se em crescido todo a choros me inclinei.

Capítulo Vigésimo Sétimo 104

Choro noites, choro dias, não sei onde isto há-de ir ter, que não conheço alegrias, e em lugar de meu prazer tenho minhas agonias. Envido em chorar o resto de minha coitada vida, só pera o pesar nascida; tens a vida, Filomesto, mas pera o prazer perdida. Em rica tapeçaria

e em delicadas pinturas, onde mágua se escrevia, vi já chorar mil figuras choro que não fenecia. Durando tanto o chorar, enquanto o pano durava, cada figura mostrava lágrimas em seu lugar, com que sem chorar, chorava. Dos meus olhos estiladas me trazem grandes ribeiras as lágrimas tão cursadas, que, inda que são verdadeiras, duram mais que outras pintadas. O contrairo destas sigo,

que o pintado é fingimento, chora sem ter sentimento; mas não choro eu no que digo, pois não digo quanto sento. Quando tinge o tintureiro as lãs pera preto pano, dá-lhe a cor azul primeiro, porque o preto, sem engano, sobre azul é mais inteiro. Assi a desaventura no primeiro meu amor deu-me azul o disfavor, e agora a cor da tristura de dó m’a deu minha dor. No primeiro amor chorava por me ser negado o bem; mas no amor, que agora amava, porque já o a terra tem,

cor de dó a dor me dava. Por ser dada assi confio, que nunca se perdera, com a vida acabara, que, enquanto durar seu fio, a cor também durara.

Capítulo Vigésimo Sétimo 105

Se uma fonte perenal com mui pouca água se faz, que, por cano artificial, torna a cair donde traz a subida principal. Mais perenais e perfeitos meus tristes choros serão, pois nascem do coração e tornam cair nos peitos, donde outra vez subirão. Onde, ribeiras, nasceis, antre os seixos que lavais, uns olhos d’água fazeis, e lá por eles chorais as águas que cá trazeis. Já meus olhos são abrolhos, seus rios não sofrem pontes; assi cá, como nos montes, as fontes se tornam olhos, meus olhos se tornam fontes. Por mais águas que tragais, é tão grande a minha mágua, que, por muitas que corrais, choro eu com dois olhos d’água, quanto vós com mil chorais. As vossas águas vau têm, passam-se suas enchentes; mas águas vivas, crescentes de quem tem morto seu bem não têm vau suas correntes. É o leite, que bebemos, a sãos manjar proveitoso, mas os doentes tememos, pois se converte danoso no pior humor que temos. Eu nasci pera a tristeza, e por a ter mais segura, o meu amor de doçura converteu-m’o a natureza em lágrimas de tristura. Se, conforme a fraca ou forte, qualquer coisa em seu valor alcança nome por sorte, bem se chama amor, amor, pois é princípio da morte: A morte vai começando, e por isso amor se chama, grão de morte é, se desama, mas a mor morte é já quando morre a esperança do que ama.

Capítulo Vigésimo Sétimo 106

A meus anos pertencia minha alma vossa partida; mas a morte bem sabia que, partindo a vossa vida, também a minha partia. Por me vir a mim buscar, dês que em mim me não achou, em vós meu bem me buscou, e pera mais me matar em vós a mim me matou. Chorai bem, não me canseis, olhos meus, e, se cansardes, um pouco descansareis pera mais forças cobrardes, com que mais depois choreis. Quero eu ver vosso descanso, por ver meu choro maior, pois que manda a minha dor que descanse, quando canso, por depois chorar melhor. Dizem que, se água correr longo tempo por estanho, que lhe dará novo ser, porque é seu poder tamanho que o pode prata fazer.

Meus choros, de quando em quando por minhas barbas descendo, tanto há que estão correndo, que os meus cabelos, chorando, de prata se vão fazendo. Não me faz velho a idade, que não sou de tantos anos, mas por chorar de vontade, de pequeno, longos danos, sou velho na mocidade. A velhice aborrecida tenho, sem me aborrecer; aborreço eu o prazer,

mas, por que é triste esta vida, não me pesa de viver.

Planetas do céu e estrelas, que estais vendo nestas águas as vossas figuras belas, dai perdão às minhas máguas, que as turvam, entrando nelas. E vós, árvores, que vendo vos estais nesta ribeira, não culpeis minha canseira, que, por não cansar querendo, quer turbá-la, em que eu não queira.

Capítulo Vigésimo Sétimo 107

Não de vos ser inimigo, choro por vos ofender; mas, por ser d’águas amigo, lembra-me, vendo-as correr, que corre o meu mal comigo. E sendo em chorar tão velho, solto as lágrimas correndo, e elas, outras águas vendo, turbam-vos o vosso espelho, umas outras revolvendo. Ide agora pera o mar, meus choros, nestas ribeiras, que elas vos podem guiar; pois cá me são companheiras, lá vos hão-de acompanhar. Ide em sua companhia buscar vosso nascimento; se virdes contentamento, não cuideis que dá alegria, pois a mim deu mais tormento. Vós ireis de terra em terra, vendo vilas e cidades; eu ficarei nesta serra só com minhas saudades, com que sempre terei guerra. Direis que chorando fico o que fica por viver, que não pode muito ser, deste meu pesar tão rico, quanto pobre de prazer. Neste lugar não verei fera alguma, que me coma, e, vivo, só chorarei

minha morta Gurioma, com que vivo morrerei. Quero-te ir buscar agora nesta serra de tristura sua triste sepultura. Ide, meus choros, embora, que cá fica o sem ventura.