10. DISCUSSION
10.1 Discussion of the main findings
CAPÍTULO VIGÉSIMO QUARTO
COMO FILIDOR SOCORREU A UM CAVALEIRO, QUE ACHOU PELEJANDO CONTRA OUTROS, E, SENDO SEU HÓSPEDE, CONHECEU SER NATÓNIO, SEU AMIGO; E COMO
DEPOIS, FALECENDO A MULHER DE NOTÓRIO, SE DESPEDIRAM AMBOS COM PROPÓSITO DE TORNAREM PERA SUA TERRA
Apartando-se Filidor daquele lugar saudoso, andando muitos caminhos por estranhos reinos, indo um dia por antre um bravo e espesso mato, caminhando por uma vereda, sem saber por onde caminhava, por ter perdido o caminho, ouviu um estrondo de armas e, após isso, uns brados de um escudeiro, que vinha chorando, o qual, como viu a Filidor, de longe lhe disse: — “Acudi, senhor cavaleiro, ao melhor cavaleiro que há nesta terra, que estão matando uns tredores”.
Ouvindo isto, Filidor, dando depressa de esporas ao cavalo, foi ter a um gracioso campo, ornado com uma fresca fonte, que o regava, onde viu estar sete furiosos cavaleiros pelejando contra um, que animosamente se defendia deles, e vendo esta disparidade, se chegou mais perto a eles, dizendo: — “Ah! senhores cavaleiros, pelo que deveis à ordem de Cavalaria, que recebestes, vos peço que possa mais em vós a vossa cortesia que a vossa fúria e deixeis este cavaleiro, que, pelo esforço com que de tantos se defende, merece ser socorrido e não ofendido”.
Os sete cavaleiros, como envergonhados desta cortês reprensãm, corridos dela, correram todos juntos com dobrada fúria contra Filidor, que não estava descuidado de tal encontro, e, assi, os recebeu com melhor ânimo do com que eles receberam seu conselho, de tal maneira que ele e o outro, que dantes pelejava contra eles, vendo-se favorecido, em pouco espaço deram fim àquela contenda tão estranha, deixando uns dos contrairos mortos e outros mal feridos.
E sem querer Filidor mais saber quem era gente de tão vil ânimo e baixo espírito, ele e o outro, alimpando e embainhando suas espadas, se puseram ambos em caminho, praticando e dando um as graças do bom socorro e o outro louvores do bom esforço, namorado cada um das razões do ouTro e da postura, lhe foi contando o cavaleiro como aqueles vencidos, que moravam ali perto, em outra cidade, mandando-o chamar a sua casa, dizendo e fingindo ser pera os ajudar em uma aventura, acometendo-o no caminho, por enveja que dele tinham de haver vencido a alguns deles em uns torneios que, poucos dias havia, foram feitos na corte (porque ela emagrece com os bens alheios), ficaram eles sem ventura, e ele ficara sem vida antre aqueles tredores, se lhe ele não valera.
Nestas e outras coisas praticando, chegando à vista de uma grande e populosa cidade, rogou e importunou aquele cavaleiro a Filidor que quisesse aceitar ser seu hóspede aquela noite, pois fôra seu Emparo e socorro aquele dia. Não lhe podendo resistir, Filidor o foi acompanhando.
Chegados à casa, onde morava, descavalgando à porta, vieram muitos criados e pagens recebê-los. E, dentro no páteo, depois de entrados nele muitas donas e donzelas, antre as quais vinha a senhora delas e mulher de seu senhor a recebê-lo; ele, tomando-a pela mão, disse: — “Se, senhora, me desejais a vida, como sempre desejastes, agradecei a este senhor cavaleiro a que me deu este dia com me livrar de meuS contrairos”.
Vindo aquela senhora pera se lançar aos pés de Filidor, rendendo por aquela mercê as devidas graças, se afastou Filidor um pouco pera trás, tirando o elmo por cortesia. E, como o cavaleiro o conheceu, como sem juÍzo se foi a ele, com os braços abertos, dependurando-se em seus ombros de tal maneira, sem poder falar palavra que, ficando transportado, o julgaram por morto toda aquela grande companhia.
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A mulher começou de prantear o marido, dizendo a Filidor: — “Esta é a vida, senhor cavaleiro, que a meu marido destes com a morte? Que vida foi aquela, que ele dizia tão risonho e alegre? Ou que morte é esta, que eu tão chorosa e triste vejo?”
Vendo Filidor toda aquela casa feita um grito, pranteando todos, rijamente tirou o elmo ao cavaleiro, senhor dela, confuso, sem saber como ou porque aquele desmaio lhe acontecera, mas como lhe viu o rosto, entendeu tudo, conhecendo ser aquele o cavaleiro Natónio, grande amigo seu e do seu Filomesto, que havia anos que andava pelo mundo aventureiro, buscando as aventuras, até que veio a casar e ter casa, vivendo naquela cidade e lugar, onde, então, estava como morto.
E mandando depressa trazer água fria, com que lhe banhou o rosto, acordado com ela Natónio, o banharam ele e Filidor com ardentes lágrimas e amorosas, chorando ambos de contentamento estranho, por assi se conhecerem e verem em terra estranha. A qual vista houvera de custar a vida a Natónio, com grande alteração que teve, quando primeiro viu e conheceu a seu Filidor amigo.
As palavras que ali passaram, os abraços que se deram, a festa que toda a casa sentiu com tal ventura, se a minha língua o quisesse contar, grande sem razão faria àqueles dois corações tão amigos.
Contando Filidor a Natónio como achara Filomesto, que também, como ele, andava por terras alheias, mas descontente de seus amores, e que já se tornavam ambos pera sua pátria, se os não apartara uma aventura, em que consertaram que cada um fizesse pera lá o caminho, por sua parte.
Ali se esteve Filidor alguns dias até voltar a Fortuna, como sói, a sua mudável roda; porque Beliza (que assi se chamava a senhora da casa, mulher de Natónio) falecendo de uma enfermidade aguda, aguçou e acecalou a tristeza, que, dantes, com o prazer, estava ferrugenta e bota.
Acabadas as exéquias e pompas funerais do enterramento de Beliza (a que esteve presente Filidor, por fazer fora de sua casa à morta o gasalhado com lágrimas tristes a troco das alegres, com que ela, sendo viva, poucos dias antes o havia nela recebido e festejado), se tornou pera sua casa com tanta dor, como nela achou; onde, com sua entrada, se pôs de novo toda aquela família em tristíssimo pranto. O qual, indo visitar a Natónio, lhe disse ele, entrando, com um suspiro triste:
“Ah! senhor Filidor, bem adivinhava eu que a enfermidade da minha Beliza era mortal”. Ao que respondeu Filidor, dizendo: — “Senhor Natónio, não há pera que sentir a morte da senhora Beliza com extremos, pois, já agora, com a morte está sã dessa doença mortal. Acabaram os bons mortos em suas doenças e msérias, e já vivem outra vida, melhor que esta. Nós, que cá ficamos, somos os enfermos de doença perigosa, pois a mesma Natureza, condenada por Deus à morte pelo pecado de Adão, é doença mortal. E começa cada um a morrer o dia que nasce, e quanto mais dias vive, tanto mais vai morrendo, e, assi, quando já nascemos, parece que nossa natureza, sentindo isto, de si começa logo a chorar a sua doença mortal, pois todos choramos quando nascemos. Nós, que muito vivemos, chegados estamos a essa derradeira hora; a nós cumpre chorar nossa morte, que tão presto esperamos, e não a daquela, que, com a sua, alcançou nova e mais segura vida, pera nunca tornar a morrer. O trago, que nós temos por passar, temamos e choremos, pois os que vão diante de nós servem de nos lembrar a doença mortal em que cá ficamos, pera com essa lembrança derribarmos as asas das esperanças compridas que temos de longa vida. Como a nau, que vai mui inchada e soberba, com próspero vento, cheias as velas em bonança, sem lhe lembrar o perigo que têm à entrada do perigoso porto, se lhe dá uma tormenta ou se vê algum mar grosso ou armar algum chuveiro, amaina logo as velas, assi usa Deus de sua misericórdia com os que navegam no mar desta vida com próspero vento, levando as velas cheias de contentamentos, cuidando ter vida perpétua, sem cuidar no fim dela, soprando-lhe um vento que mostre ser tudo vento, e uma tormenta de alguma grande perda, como é agora a de sua fiel e caríssima companheira, pera que amainemos as velas alguns dias ou horas, antes de outra maior tormenta da morte própria, que esperamos, aceitando de boa vontade, como purgatório, os trabalhos e desgostos que antes de vir a nossa morte padecemos, que pera este fim nos faz Deus mercê de os dar, como necessários e forçados, pera que, aceitando-os com amor e paciência (ainda que com dor, que não se escusa), mereçamos nesta vida com eles algum prémio na outra, que pretendemos. Como o mestre não se contenta com açoitar o discípulo, mas, depois de
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açoitado, pera que quebre e amanse nele a fúria e braveza, que tem de natureza, lhe dá a beijar a palmatória ou açoites, com que o tem castigado, assi pera nos amansar, nosso bom Deus não só nos castiga com doenças e perdas grandes, como é esta vossa, nem só quer que soframos os trabalhos, que nos dá como açoites, mas quer também que os beijemos e abracemos com reverência e paciência, como coisa de que recebemos grandes bens e proveitos nesta vida, que vivemos, e havemos de receber grandes prémios na outra que esperamos; e, por isso, não nos é dito que com nosso trabalho, senão em nossa paciência, que nele tivermos, beijando-o e abraçando-o, querendo-o e aceitando-o com amor, de boa vontade ganharemos nossas almas”.
Estas e outras razões lhe dizia; mas não abastavam razões de Filidor pera consolar a Natónio, casado e descasado, já, em terra alheia, porque a mal soldada e fresca chaga naturalmente recusa deixar-se tocar, e, quando às vezes é tocada com grosseira mão e pesada, causa e renova maior dor a quem a tem. Mas algum tanto se confortou e sossegou com as prudentes e amigas palavras de seu amigo.
Como o bacio de estanho que está a música ancila tangendo, virando-o ao redor com os dedos, com que lhe faz fazer um saudoso e triste som, tocando-o e pondo-lhe uma mão em cima, ensurdece, assi nossa escrava Natureza musica, e, sentida com o voltar da Fortuna, pondo-lhe alguém a mão de alguma consolação discreta, logo ensurdece e seca, conhecendo a razão, sem poder muitas vezes usar dela. O silêncio, que mais sente nestes casos, é às vezes (mas não sempre) são conselho e mais discreto, e melhor fala. Ele diga as tristezas e desconsolações desta casa e do senhor dela.