Neste trabalho nos propusemos fazer, num primeiro momento, uma arqueologia do pensamento de Dussel. Trata-se de conhecer os frutos do “retorno às origens” como ele mesmo diz. Este teve dois momentos: o primeiro no contato com a cultura semita, e o segundo no contato com a cultura helênica.
De fato, vimos que a leitura e proposta filosóficas de Dussel são fundamentadas nesta que podemos chamar de gênese de sua filosofia. As noções de totalidade e exterioridade são elaboradas a partir do contato com estas duas culturas.
Em seguida, apresentamos, de maneira geral, a proposta filosófica de Dussel, levando em conta, principalmente sua obra de 1977: Filosofia da
libertação na América Latina. Aqui ele nos apresenta a vida do homem a partir das
relações entre o “Eu” e o “Outro”, duas totalidades que não têm se respeitado muito na história da humanidade. Trata-se da identificação, a partir daí, da dominação exercida pelo “Eu” centro sobre o “Outro” periferia.
Dussel não fica apenas no âmbito geral desta dominação, apresenta-a de forma específica em todos os níveis de nossa vida, seja no erótico, da relação homem-mulher, no pedagógico, da relação mestre-discípulo ou no político, da relação irmão-irmão. Em cada um Dussel identifica as maneiras como a dominação ocorre e como se poderia pensar em libertação.
O que mais nos interessou para o trabalho foram a dominação/opressão e libertação pedagógicas, já que nossa proposta procurou trazer também alguns fundamentos do pensamento de Freire (as concepções de educação: bancária e problematizadora ou crítica) para fazer uma comparação com a “Pedagógica” de Dussel.
Neste sentido, Dussel apresenta o que há de melhor em sua ética, a ética da vida. As discussões a respeito desta questão são muitas. Qual deve ser o fundamento da ética atual? Dussel não hesita então. O fundamento é o respeito pela VIDA. E a vida humana se mostra como critério na experiência da exterioridade metafísica do Outro. O Outro, mesmo desconhecido, diante de mim é sagrado. O respeito pelo Outro também se retrata no respeito pela sua língua,
pela sua religião, pelos seus costumes, é o princípio da libertação.
As semelhanças entre Dussel e Freire em nossa proposta de estudo são significativas. Principalmente o fato de que ambos tendem para uma subjacente valorização da cultura semita no processo de constituição de um éthos que irá determinar a possibilidade ou não de êxito no processo educativo para a libertação. Este é um ponto chave na filosofia de Dussel: a construção de uma educação efetivamente libertadora. E nisso converge para a fonte de Paulo Freire. Os dois grandes pensadores latino-americanos, com base na situação concreta de opressão e dominação, proclamam uma denúncia: há uma alienação desumanizadora. E um anúncio: o homem latino-americano a reclamar sua liberdade e dignidade.
A crítica de Dussel ao anti-historicismo do eterno retorno, ao dualismo antropológico e ético e ao monismo transcendente é categórica e direta. Da mesma forma que exalta a forma da cultura semita conduzir-se, principalmente no que diz respeito à consciência histórica e à metafísica da aliança, desde a importância que atribui à unidade antropológica e ética. Neste sentido, nos oferece uma contribuição muito original ao fazer resgate da matriz cultural judeu-cristã, de qualquer modo presente na cultura latino-americana. Assim, também sugere releitura da história da filosofia.
Paulo Freire, ao apresentar suas idéias sobre as concepções de educação, pontua ações específicas do opressor condenando-as, e aponta também aquelas ações contrárias às do opressor que deveriam ser assumidas. De modo geral em suas críticas, de uma forma subentendia, está presente a opção que Freire faz pela cultura semita. E não apenas em sua reflexão pedagógica, pois Paulo Freire de certo modo foi, sobretudo, um pedagogo desde uma efetiva ação educativa. Uma inflexão entre Dussel filósofo e Paulo Freire educador!
Em Dussel identificamos influência muito forte do pensamento filosófico, p. ex. de Heidegger, de Paul Ricoeur e principalmente de Emmanuel Lévinas. Dussel articula Filosofia da Libertação com Ação de Libertação, com seus níveis concretos de análise. No entanto, pode ser que Paulo Freire tenha inspirado de modo mais efetivo práticas libertadoras. Ficamos entre um bom teórico, Enrique
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