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A partir de agora queremos apresentar as características gerais do diálogo e do anti-diálogo defendendo a idéia de Freire de que o diálogo preconiza a libertação e o anti-diálogo a opressão.

Para o objetivo último da educação libertadora é preciso formar seres humanos com consciência de si estando no mundo, capazes de construção do conhecimento. Pessoas que diante de realidades novas sabem interpretá-las, pois é para isso que aprendem. Não pessoas que apenas repetem cartilhas ou manuais, pois, quando saírem desse universo restrito de noções, não saberão o que fazer, pois quem pensava por eles era o educador.

O ser humano deve saber e ter liberdade de dizer sua palavra, aprender a desvelar o mundo. Para isso, o educador deve saber ouvir o educando e propor reflexões onde o próprio educando vá construindo um conhecimento que lhe seja próprio. Para isso é necessário aproximá-lo de uma realidade familiar que desperte interesse de indagação. Falar sobre coisas distantes não desperta o gosto pelo conhecimento.

Os objetivos da educação problematizadora conduzem o ser humano à libertação e só são possíveis mediados pelo diálogo. Também para Dussel ouvir a voz do discípulo é a característica mais esperada do mestre libertador. Pelo diálogo se chega à libertação. Antes de tudo, libertação é deixar o ser humano ser ele mesmo livre da totalização, livre da alienação do sistema. O que primeiramente deve ser respeitado é o éthos do ser humano, o que constitui o seu núcleo ético mítico.

Já a ação antidialógica favorece a opressão, pois o ser humano não pode dizer a sua palavra, manifestar a sua opinião. Sua liberdade é suprimida e terá que viver digerindo coisas prontas sem o direito de aceitá-las ou não. A pessoa não tem parte na construção de sua história (anti-historicismo). Alguém constrói por ela sem perguntar se é isso que ela quer. Quem tem intenção de construir o indivíduo ilhado é a ação antidialógica usada pela educação bancária. Quem quer que a pessoa se construa em relação com o mundo é a ação dialógica na educação problematizadora. Vamos ver de forma mais específica as duas formas

de ação e o que cada uma delas implica.

1. AS CARACTERÍSTICAS DA AÇÃO ANTIDIALÓGICA E A

OPRESSÃO.

Os seres humanos são naturalmente inconclusos, mas são conscientes desse fato. É na educação que eles superam esta inconclusão. A educação confere ao ser humano outra característica: historicidade. Por ser histórico, o ser humano sabe que sua vida depende dele mesmo para ser de uma ou outra forma, há possibilidades de mudança dependente de sua ação. Daí que pela educação deve-se pensar o mundo para agir nele. Então a importância do diálogo como elo da corrente comunicativa, ao fazer com que os seres humanos, vivendo como sujeitos, individualmente, formem comunhão com os outros seres humanos. Na comunhão a libertação, como nas palavras de Paulo Freire: “os homens libertam-se em comunhão.

Se os seres humanos agirem antidialogicamente impedirão a comunicação e a comunhão. O mais lamentável é que além de impedirem a comunhão estarão impedindo que ocorra o processo do quefazer. A ação antidialógica forma seres humanos que aprendem apenas a fazer, repetir o que lhes é mandado, sem pensar o mundo. Ha lideranças que tomam os seres humanos como meros fazedores ou executores de slogans. Também aí se dá a opressão. Os indivíduos apenas recebem pacientes a palavra de um outro, sem poder pronunciar a sua.

Não pode haver divisão entre ação e reflexão. O quefazer implica a união entre estas. Cumpre à liderança promover esta união, em comunhão com o povo para alcançar a libertação. Contrariamente, a liderança é também dominadora:

“Para dominar, o dominador não tem outro caminho senão negar às massas populares a práxis verdadeira. Negar-lhes o direito de dizer sua palavra, de pensar certo” (PO 147).

Vale conferir também em Dussel semelhante idéia quando este aborda as características do mestre opressor, já referidas neste trabalho. Ao contrário do mestre libertador, o opressor cala a voz do discípulo.

A. A CONQUISTA

indicadas por Paulo Freire:

“O primeiro caráter que nos parece poder ser surpreendido na ação antidialógica é a necessidade da conquista” (PO 161).

Cada ação do opressor diante das pessoas tem por objetivo último conquistá-las. Seja de forma sutil, doce ou brutal. A conquista pressupõe um sujeito conquistador e um objeto conquistado. A partir do momento em que é conquistado, o objeto pertence ao sujeito conquistador. A ação da conquista é necrófila, não permitindo ao oprimido a construção de sua própria cultura:

“O antidialógico se impõe ao opressor, na situação objetiva de opressão, para, pela conquista, oprimir mais, não só economicamente, mas culturalmente, roubando do oprimido conquistado sua palavra também, sua expressividade, sua cultura” (PO 162).

Aqui, Paulo Freire parece ser mais abrangente do que de costume quando fala de opressão. Fica mais próximo de Dussel que não considera apenas a relação professor aluno, então, círculos de cultura como locais onde se efetiva a dominação, mas o âmbito da cultura como um todo.

O anti-diálogo propicia a conquista e a manutenção da conquista requer o anti-diálogo. São duas coisas que ocorrem simultaneamente e com dependência mútua.

Para manter a conquista é necessário apresentar o mundo a partir da idéia de fatalidade, o mundo como destino dado, estático ao qual os seres humanos devem se ajustar e não ver possibilidades de transformá-lo. A massa conquistada deve ser passiva, espectadora, gregarizada. Percebemos novamente, que a idéia de destino presente na cultura grega e muito criticada por Dussel, também é posta aqui como uma barreira na libertação do oprimido, sendo característica explicita da educação bancária.