3.3 Forskningsetiske aspekter
4.1.6 Strategisk planlegging
Segundo Prestes Motta (2001), a teoria das organizações (TO) se desenvolveu a partir do final da Segunda Guerra Mundial e é fruto de uma mutação na teoria da administração, a partir da evolução da Sociologia, da Ciência Política e da Psicologia Social. A teoria da administração tem suas origens na preocupação com a produtividade que dominou o processo da Revolução Industrial iniciado no final do século XVIII; e o momento em que a preocupação com a produtividade deu lugar à preocupação com a eficiência marca a transição da teoria da administração para a teoria das organizações (PRESTES MOTTA, 2001). Tem início, então, uma fase em que várias correntes do pensamento administrativo-gerencial surgiram, com abordagens particulares com relação ao espaço.
Embora a denominação singular do tema, teoria das organizações, possa conduzir o leitor a uma interpretação de que há apenas uma teoria aplicável a organizações, sempre é recomendável lembrar, seguindo a orientação de Hatch (1997), de que existem várias teorias organizacionais diferentes; essa multiplicidade sempre esteve presente nesse campo de estudo, e, ainda segundo a autora, continuará presente, em razão da variedade de outros campos que o inspiram e do fato de as organizações não podem ser explicadas apenas por uma única teoria. Mckinley, Mone e Moon (2003) também encontram esse cenário diverso; argumentam que
“mesmo uma breve revisão da teoria organizacional contemporânea sugere que a disciplina é composta de múltiplas e largamente incomensuráveis estruturas teóricas e escolas de pensamento” (Ibid., p. 86).
Além disso, merece destaque que as teorias adotam visões particulares do que seja uma organização; e isso, consequentemente, tem relação com a perspectiva de espaço organizacional dessas teorias. No processo de desenvolvimento da teoria organizacional como campo, Tsoukas e Knudsen (2005) observam um movimento de suposições rígidas e limitadas sobre organizações, para suposições mais realistas e complexas: organizações eram vistas como sistemas racionalmente projetados, e agora são aceitas como coletividades sociais historicamente constituídas, inseridas e envolvidas em seus ambientes. Tsoukas e Knudsen (2005) apresentam do seguinte modo a evolução do estilo de análise em organizações34:
“Nos primeiros passos do campo, [...] seguindo um ‘estilo newtoniano’ de análise [...] esperava-se que os teóricos organizacionais evidenciassem o cálculo da organização. [...] se as influências contingentes, históricas, tempo-dependente, e contextuais sobre as organizações fossem de algum modo descartadas, a essência das organizações, suas propriedades invariantes no tempo e no espaço, poderia ser revelada. Com o tempo, no entanto, os limites de tal análise tornaram-se aparentes. [...] o estilo newtoniano de investigação dificilmente iluminou o que era importante na experiência comum dos gestores: as organizações variam muito no tempo e no espaço; a história é importante; instituições extra-organizacionais também são importantes; gênero, raça e etnicidade são questões relevantes no ambiente de trabalho; existem muitas racionalidades na organização; a produção de sentido é uma parte importante da ação; o processo de tomada de decisão e as definições estratégicas pouco acontecem do modo que as teorias formais prescrevem.” (TSOUKAS e KNUDSEN, 2005, p.10, tradução nossa).
As organizações passaram de (a) uma concepção de entidades objetivamente reais, que quando bem projetadas e gerenciadas, são sistemas de decisão e ação dirigidos por normas de racionalidade, eficiência e efetividade de acordo com propósitos definidos (HATCH e CUNLIFFE, 2006); para (b) concepções mais complexas como: (i) as que consideram as organizações como continuamente construídas e reconstruídas por seus membros por meio de interações simbolicamente mediadas; (ii) concepções de organizações como locais em que se
34 Interessante observar que ao apresentarem a evolução do estilo de análise em organizações, Tsoukas e
manifestam relações de poder, opressão, irracionalidade, distorções comunicativas; ou arenas de diversão e ironia; ou ainda textos produzidos pela/na linguagem, que podem ser reescritos visando emancipação (HATCH e CUNLIFFE, 2006); ou (iii) concepções que preferem focar no processo organizativo que se move rapidamente de um lugar a outro e acontece em vários locais ao mesmo tempo; que consideram as organizações como reificações temporárias, dado que o processo organizativo nunca cessa (CZARNIAWSKA, 2004, 2008).
Com o objetivo de apresentar o lugar do espaço em algumas correntes em teoria organizacional, destaca-se a seguir considerações sobre espaço nas perspectivas do estruturalismo, da teoria geral dos sistemas, do pensamento que atribui papel central a cultura e simbolismo, e dos estudos críticos.
Estruturalismo e Espaço
Em síntese, o estruturalismo obedece a um paradigma teórico que postula que a sociedade industrial pode ser entendida como um sistema em mudança contínua; o conflito entre os grupos sociais deve ser visto como um processo social básico, que tende à institucionalização e cuja resolução determina a direção da mudança; e o bem-estar social está na dependência do resultado desses conflitos (DAHRENDORF, 195835; in PRESTES MOTTA, 2001). Parte das análises estruturalistas concentra-se nas disfunções da burocracia:
“[...] na ideia de que esse sistema possui funções manifestas e latentes e na ideia de que os mesmos fatores que levam à eficiência podem também levar à ineficiência. [...] a excessiva burocratização, bem como as resistências à conformidade, pode levar à ineficiência do sistema.” (PRESTES MOTTA, 2001, p.16).
Na visão do economista político e sociólogo Max Weber (1864 – 1920), as forças da burocratização transformam todas as instituições, incluindo as instituições de trabalho. Alguns temas caracterizam o modelo burocrático, no que se refere ao espaço: (i) a burocracia cria uma representação espacial particular, o bureau e seu envelope arquitetônico, o escritório; além do espaço de manufatura, da planta, nasce o espaço produtivo de serviços; (ii) a burocracia separa a esfera privada da pública; (iii) a burocracia insiste na neutralidade do
bureau e na impessoalidade do burocrata de acordo com regras igualitárias que prevalecem
em tal sistema; (iv) simboliza a defesa do bem comum e interesse geral; (v) ajuda a criar o
espaço social que produz novas identidades, como os funcionários que desfrutam de certa segurança no trabalho; e (vi) trata-se de um espaço de eficiência baseado na expertise (CHANLAT, 2006).
Pesquisas sobre tensões e conflitos advindos da excessiva burocratização e das resistências à conformidade demandadas pela burocracia marcam a análise estruturalista na teoria das organizações (PRESTES MOTTA, 2001). Particularmente, destaca-se neste estudo o trabalho do pesquisador Michel Crozier e seu colaborador Erhard Friedberg, na França, que desenvolveram uma visão política do espaço organizacional – poder é tido como um fenômeno político, de imposição e controle sobre as decisões e sobre a organização do trabalho –, diferente da perspectiva marxista que considera poder um fenômeno de alienação econômica (PRESTES MOTTA, 2001; CHANLAT, 2006). Esses pesquisadores apresentam organizações como espaços de relacionamentos de poder em que cada pessoa ou grupo social é um ator mobilizando diferentes recursos, desenvolvendo estratégias em contexto de incertezas, de acordo com as regras do jogo, procurando manter suas posições ou alcançar seus objetivos (CHANLAT, 2006).
Teoria Geral dos Sistemas e Espaço
A teoria geral dos sistemas foi introduzida na análise organizacional por meio da divulgação do trabalho, da década de 50, do biólogo Ludwig von Bertalanffy que intencionava explicar todo fenômeno científico, tanto natural quanto social, por um modelo comum. Para esse pesquisador, fenômenos sociais e naturais formavam uma hierarquia: sociedades contêm grupos, grupos contêm indivíduos, indivíduos são compostos de órgãos, órgãos de células, células de moléculas e moléculas de átomos. Com o objetivo de generalizar todos esses fenômenos, o biólogo se referiu a cada um deles como um sistema e admitiu a existência de leis e princípios que podiam ser aplicados a qualquer tipo de sistema ou ainda a seus subsistemas (PRESTES MOTTA, 2001; HATCH e CUNLIFFE, 2006).
A teoria geral dos sistemas importou das ciências da vida a ideia de sistemas orgânicos e aplicou-a a análise gerencial e organizacional. De modo geral, diferentemente do pensamento gerencial clássico da primeira parte do século XX, que adota uma concepção mecânica e fechada de organização, os teóricos sistêmicos focam no relacionamento entre a organização e o ambiente e no relacionamento entre os elementos internos de cada organização. Eles enfatizam noções de adaptação, homeostase, entropia etc., alterando a visão espacial da gestão
até então vigente; a atenção dos pensadores sistêmicos concentra-se nos diferentes vínculos que unem os diversos componentes do sistema organizacional e as relações desse sistema com seu próprio ambiente (CHANLAT, 2006).
Como exemplo de pesquisas que tiveram como base a teoria geral dos sistemas, destaca-se neste estudo a abordagem sociotécnica de sistemas. Na década de 60, a preocupação com as dimensões humanas do trabalho levou ao desenvolvimento da teoria dos sistemas sociotécnicos, sendo o Instituto Tavistock de Relações Humanas, na Grã-Bretanha, um celeiro de tais ideias. Os estudos desenvolvidos por pesquisadores desse Instituto argumentavam que o comportamento humano e a tecnologia são interrelacionados – mudanças em um desses elementos afetam o outro –; e que os gestores deveriam desenvolver e manter o equilíbrio entre os sistemas social e técnico (HATCH e CUNLIFFE, 2006).
Um exemplo dos estudos desenvolvidos pelo Instituto são as pesquisas de Eric Trist e Ken Bamforth, que examinaram a influência da tecnologia na produtividade, motivação, moral e estresse do trabalhador, em um lugar particular de trabalho, uma mina de carvão, no início da década de 50. Os pesquisadores descrevem esses ambientes como, em sua maioria, perigosos e monótonos, e nos quais os trabalhadores tinham pouco contato entre si, trabalhavam de modo independente, seguindo a definição de engenheiros, e apresentavam alto grau de estresse, absenteísmo, rotatividade e baixa produtividade. Ao examinar a experiência de uma outra mina que adotou certo esquema de trabalho em grupo, os pesquisadores encontraram que embora os métodos de trabalho empregados pelos grupos não fossem tão eficientes quanto aqueles definidos pelos engenheiros, houve aumento da produtividade e da satisfação dos trabalhadores. Concluíram que, paradoxalmente, a sub-otimização técnica nesse segundo caso otimizou a performance dos sistemas social e técnico quando considerados conjuntamente (HATCH e CUNLIFFE, 2006).
Cultura, Simbolismo e Espaço
O movimento que atribui papel central à cultura e ao simbolismo seguiu duas correntes: uma gerencial, majoritariamente produzida por consultores e professores de escolas de negócio norte-americanos, que enfatizava o vínculo entre cultura e performance gerencial; e a segunda, antropológica, mais diversificada de acordo com a esfera geográfica, e que procurava compreender o que acontece na organização a partir das perspectivas cultural e simbólica (CHALAT, 2006). Esse último interesse fez surgir um movimento conhecido como
SCOS (Standing Conference on Organizational Symbolism), associado a uma conferência sobre simbolismo organizacional que recebe esse nome e que em 2010 está em sua 28ª edição. Tal movimento foi fundado por europeus, principalmente britânicos e escandinavos, e agrupa um grande número de pesquisadores de vários países interessados no estudo de mitos, rituais, cerimônias, discurso, arquitetura, estética, subjetividade etc. (CHANLAT, 2006; SCOS, 2010).
O espaço, na perspectiva que atribui papel central à cultura e ao simbolismo, é claramente e explicitamente presente como um fator na construção de identidades e significado no trabalho; e é também o objeto de projeções sociais e sonhos imaginários. Espaços são lugares de memória – incorporam significados históricos associados a tais locais – e produzem e estruturam relações sociais, assim como alimentam as imagens dos membros da organização e daqueles de fora. O espaço é também estético – beleza, graça, harmonia, são elementos da experiência organizacional de todo membro, assim como o feio, o sem graça e o não harmônico. Diferentemente dos trabalhos clássicos em gestão, tal pensamento enfatiza o universo significativo peculiar de cada organização; esse universo é uma plataforma para interpretar o comportamento observado e o espaço é um elemento dessa plataforma. Os espaços se tornam uma parte da linguagem organizacional e da ordem simbólica; a espacialidade entra no mundo da gestão como uma entidade dos sistemas de significado (CHANLAT, 2006).
Como exemplo de pesquisas que tiveram como base a perspectiva que atribui papel central à cultura e ao simbolismo, destaca-se neste estudo a antologia de Gagliardi (1990) sobre a natureza simbólica do espaço físico, que reúne trabalhos de diversos pesquisadores que participaram da terceira SCOS, realizada em Milão, Itália. Um dos temas da coleção de textos é o projeto de espaços físicos nas organizações – em que são explorados os processos por meio dos quais os espaços físicos corporativos são concebidos, construídos e investidos de significado. O artigo de Rosen, Orlikowski e Schmahmann (1990), por exemplo, explora o relacionamento entre o processo de trabalho em organizações burocratizadas e o espaço físico em que o trabalho é realizado pelas pessoas; sugerindo que o arranjo, e a disponibilização, do espaço físico é um aspecto constituinte do sistema de relações de produção burocratizadas, e incompreensível quando separado dele.
Um pensador em particular merece destaque neste texto por sua influência em estudos na perspectiva interpretativo-simbólica (Rosen, 1985; Czarniawska-Joerges e Jacobsson, 1995; Höpfl, 2002) e por sua visão particular de espaço. Trata-se de Erving Goffman, que tomou emprestado elementos da dramaturgia para explicar como indivíduos moldam suas realidades sociais.
Goffman (1985) parte do princípio que quando um indivíduo se apresenta diante de outros tem muitos motivos para procurar controlar a impressão que esses têm da situação, como em uma representação teatral. Utilizando a metáfora do teatro – principalmente atores e espaços – o autor apresenta algumas ideias, por exemplo: (i) há dois extremos de atores: aquele inteiramente compenetrado de seu próprio número (sincero) e aquele que não o está (cínico); (ii) o indivíduo é dividido em dois papéis fundamentais: ator, fabricante de impressões, que encena uma representação; e personagem, figura que a representação tem por finalidade evocar; (iii) a “equipe de representação” ou, abreviadamente, “equipe”, refere-se a qualquer grupo de indivíduos que cooperam na encenação de uma rotina particular; uma equipe é um grupo, mas não um grupo em relação a uma estrutura ou organização social, mas em relação a uma interação, ou série de interações, na qual é mantida a definição apropriada da situação; (iv) uma região é qualquer lugar que seja limitado de algum modo por barreiras à percepção; dada uma representação particular como ponto de referência, tem-se “região de fachada”, isto é, lugar em que a representação é executada; e “região de fundo”, ou “dos bastidores”, na qual os fatos suprimidos, fatos que poderiam desacreditar a impressão incentivada, aparecem; e (v) o “eu”, na visão de Goffman (1985), é um “cabide” no qual algo de uma construção colaborativa, envolvendo ator, plateia etc., foi pendurado temporariamente.
Outro texto de Goffman (1968), que também merece destaque neste estudo por sua visão particular de espaço, trata de estabelecimentos sociais – lugares em que atividades de um tipo particular são realizadas regularmente. Nesse trabalho, o autor discute os locais de realização de práticas que se afastam daquelas consideradas “normais”, “programadas”, isto é, práticas em que os membros da organização empregam meios não autorizados, e/ou obtêm resultados não autorizados, contornando premissas organizacionais sobre o que devem fazer e obter; e, portanto, o que devem ser. Para Goffman (1968), essas práticas servem, àquele que as realizam, de modos outros que os mais evidentes; parecem demonstrar que ele ou ela tem uma identidade distinta, uma individualidade, e uma autonomia individual além do entendimento da organização; têm por função colocar uma barreira entre a unidade individual e a social.
Tais práticas, se ocorrem, devem manter-se distantes dos “olhos e ouvidos do staff” (GOFFMAN, 1968, p. 229); e acontecem em locais livres, territórios grupais ou território pessoal, como denomina o autor, espaços em que os níveis comuns de vigilância e restrição estão reduzidos. No caso de hospitais para pacientes com problemas mentais, por exemplo, os locais livres são aqueles que o paciente compartilha o espaço com qualquer outro paciente; nos territórios grupais o paciente compartilha o espaço com alguns pacientes selecionados; e o território pessoal é o espaço privado, em que o indivíduo tem algum conforto, controle e direitos tácitos, que ele ou ela não compartilha com outros pacientes, exceto quando os convida (GOFFMAN, 1968). O autor cita como exemplo, entre vários, de prática que se afasta daquelas consideradas “normais” em hospitais para pacientes com problemas mentais, o ato de beber, ou o jogar pôquer, que acontece ocasionalmente em um local livre – à sombra das árvores atrás do prédio principal.
Estudos Críticos e Espaço
A corrente do pensamento gerencial crítico (conhecida como Estudos Críticos em Administração) incorpora atualmente a maioria dos trabalhos críticos no campo dos estudos sobre organização e gestão (ALCADIPANI e HASSARD, 2009). Trata-se de um campo diverso, e neste tópico escolheu-se expor algumas ideias relacionadas a espaço dos trabalhos críticos considerados anarquistas, marxistas, feministas, ecológicos e pós-modernos.
De modo geral, os Estudos Críticos em Administração discutem a visão – funcionalista e utilitária – que considera o espaço organizacional como sendo principalmente um espaço produtivo, funcional e social, cujas características principais de seu arranjo são baseadas na produção, divisão, controle, imposição e hierarquia. Para os anarquistas, a empresa capitalista é uma organização não democrática em que os interesses e desejos do indivíduo são esquecidos; por essa razão, os anarquistas suportam novas formas democráticas organizacionais (como sindicatos; cooperativas de crédito e outras; e comunidades socioeconômicas), novas estruturas que permitem o crescimento da democracia. A crítica marxista trouxe com seu pensamento outra visão do espaço organizacional: as empresas passaram a ser vistas como espaços de dominação, exploração e alienação. O movimento feminista considera que o espaço organizacional é locus de relacionamentos de poder entre os sexos; problematiza a perspectiva tradicional de organização como um espaço em que a questão de gênero não está presente. A crítica ecológica trouxe o ambiente como elemento de discussão, enfatizando a importância do ecossistema e a influência da atividade da empresa no
equilíbrio ambiental. O pensamento pós-moderno destaca a representação, reflexividade, escrita, différance, e descentralização do sujeito; as organizações tornam-se espaços textuais, sujeitas a diversas interpretações (CHANLAT, 2006).
Um pensador influente no que se refere à corrente crítica, a ser destacado neste estudo, é o filósofo francês Michel Foucault e sua noção de Panóptico. Foucault (2003), ao investigar a sociedade ocidental em que vivemos – que ele denomina sociedade disciplinar, panóptica –, comenta que a disciplina atua primeiramente na distribuição dos indivíduos no espaço. Uma das técnicas usadas para disciplinar é, por exemplo, “cercar”, isto é, definir locais heterogêneos a todos os outros e fechados em si mesmos, como colégios e quartéis. O autor argumenta, porém, que essa técnica “não é constante, nem indispensável, nem suficiente nos aparelhos disciplinares” (Ibid., p. 122); esses últimos trabalham em primeiro lugar com a localização dos indivíduos, com a divisão do espaço disciplinar em tantas parcelas quantos corpos existem a repartir. Isso porque se busca:
“[...] anular os efeitos das repartições indecisas, o desaparecimento descontrolado dos indivíduos, sua circulação difusa, sua coagulação inutilizável e perigosa; [...]. Importa estabelecer as presenças e as ausências, saber onde e como encontrar os indivíduos, instaurar as comunicações úteis, interromper as outras, poder a cada instante vigiar o comportamento de cada um, apreciá-lo, sancioná-lo, mediar as qualidades ou os méritos. Procedimento, portanto, para conhecer, dominar e utilizar. A disciplina organiza um espaço analítico.” (Ibid., 123).
Foucault (2003) sugere que no caso das fábricas, que aparecem no final do século XVIII, o princípio da localização se complica. Nessa situação, detalha o autor, observa-se a necessidade de distribuir os indivíduos em um espaço no qual se possa isolá-los e localizá-los; mas também articular essa distribuição sobre um aparelho de produção que tem suas exigências próprias. Esse objetivo é alcançado com a divisão do processo de produção.
Para Foucault (2003), as disciplinas, organizando as localizações dos indivíduos:
“[...] criam espaços complexos: ao mesmo tempo arquiteturais, funcionais e hierárquicos. São espaços que realizam a fixação e permitem a circulação; [...]. A primeira das grandes operações da disciplina é então a constituição de ‘quadros vivos’ que transformam as
multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas.” (Ibid. 126).
Como comentado anteriormente neste texto, um trabalho de Foucault muito citado quando se fala em espaço é "Of Other Spaces: Utopias and Heterotopias", originalmente publicado em 1967 (FOUCAULT, 2001). Especificamente no campo de estudos organizacionais, porém, são encontrados poucos textos em que esses “outros espaços” ou heterotopias são explorados; um exemplo de texto com referência a esses conceitos é o trabalho de Dobers e Strannegård (2004).
Em síntese, nota-se a partir do que foi relatado neste tópico que a diversidade do pensamento gerencial e organizacional produz diferentes representações de espaço. Enquanto em algumas perspectivas o espaço está implicitamente presente, como no caso da teoria geral dos sistemas, em outras, o espaço manifesta-se de modo mais explícito, como nas perspectivas que atribuem