• No results found

Fremsyn og fremtidstekningens tre pilarer

2.1 Teoretiske hovedperspektiver

2.1.1 Fremsyn og fremtidstekningens tre pilarer

Analisar a relação entre trabalho e tecnologia demanda uma perspectiva histórica. O antropólogo Ingold (2000), ao investigar o conceito de tecnologia, pondera que existem duas correntes dentro da antropologia que analisam de formas diferentes a relação entre tecnologia, sociedade e natureza. Para os antropólogos evolucionistas dos séculos XVIII e XIX, a relação entre esses termos estava associada ao grau de civilização de uma sociedade. Acreditavam, por exemplo, que sociedades que empregavam tecnologias mais complexas apresentavam mais controle sobre a natureza – que a tecnologia era uma força direcionadora do desenvolvimento social. A antropologia contemporânea (relativista) suspeita dessas afirmações. Considera que a sociedade dos caçadores e coletores era tecnologicamente simples; o mesmo não se pode dizer, porém, de sua organização social e cultural; os antropólogos contemporâneos acreditam que a simplicidade tecnológica não tem relação direta com aspectos da organização social e cultural de tais sociedades (INGOLD, 2000). Ambas as correntes, contudo, consideram a tecnologia como um fator dado, independente; e é exatamente esse aspecto, essa noção de que sociedade e tecnologia são externos um ao outro, que Ingold (2000) questiona.

Para o antropólogo, “não existe tal coisa como tecnologia nas sociedades pré-modernas” (INGOLD, 2000, p. 314, tradução nossa), isto é, o conceito de tecnologia que o Ocidente emprega atualmente procura estabelecer o controle da sociedade sobre a natureza, maximizando distâncias entre elas. Já as ferramentas e técnicas adotadas pelos caçadores e coletores visava minimizar a distância entre natureza e sociedade, trazer a natureza para dentro das relações sociais. O autor considera que quando se fala em técnica, os poderes humanos de percepção e ação são intrínsecos aos processos por meio dos quais as coisas são feitas. A técnica relaciona-se com habilidades de sujeitos humanos particulares. No caso de tecnologia, os poderes humanos de percepção e ação estão dissociados dos processos por meio dos quais as coisas são feitas; a tecnologia é um corpus de conhecimento generalizado, objetivo, visto que é capaz de aplicação prática. A técnica coloca o sujeito no centro da atividade; a tecnologia afirma a independência da produção da subjetividade humana. O

sujeito humano – como agente e como repositório de experiências – tem se deslocado do centro para a periferia do processo de trabalho.

Em síntese, Ingold (2000) propõe transcender a dicotomia natureza e sociedade, e a questão quanto a de que lado está a tecnologia. Considera que:

“O que temos na realidade são seres humanos, vivendo e trabalhando em ambientes que incluem outros humanos assim como uma variedade de agências e entidades não humanas. Por meio das suas experiências de relacionamento com esses vários componentes do ambiente, as pessoas se desenvolvem com atitudes e sensibilidades específicas, como portadores de técnicas. Reciprocamente, através do desenvolvimento de suas habilidades técnicas, as pessoas constituem ativamente seus ambientes. Mas, nesta inter-relação mutuamente constitutiva entre pessoas e ambiente não existe dicotomia absoluta entre componentes humanos e não humanos.” (INGOLD, 2000, p. 321, tradução nossa). Conforme a visão de Gama (1986), a relação entre trabalho e tecnologia, de fato, é relativamente recente. Para esse autor, “a técnica é tão antiga quanto o homem, ou o homem começa quando começa a técnica” (Ibid., p. 31); o mesmo não se pode dizer, porém, da tecnologia:

“... a tecnologia tem história mais recente: [...] A tecnologia moderna foi batizada, por inspiração grega, apenas no século XVIII. Christian Wolff, filósofo e matemático, seguidor de Leibniz, foi seu padrinho em meados daquele século. E no fim dele Johan Beckmann institucionaliza a disciplina tecnologia na Universidade de Göttingen.” (Ibid., p.31). Gama (1986) defende a tese de que a tecnologia moderna:

“... foi se constituindo a partir do século XVII, pari passu ao desenvolvimento do capitalismo e à substituição do modo de produção feudal/corporativo, e do sistema de transmissão do conhecimento apoiado na aprendizagem, pelo emprego do trabalho assalariado e o sistema escolarizado de transmissão do conhecimento.” (Ibid., p. 30). Segundo esse autor, resumidamente, “a tecnologia moderna é a ciência do trabalho produtivo” (Ibid., p. 185). É moderna porque se refere àquela que começa a ser conceituada no século XVIII e relacionada ao trabalho produtivo porque diz respeito ao trabalho em que está envolvido o capital, característico da economia capitalista. Definida como ciência, a

tecnologia teria em seu âmbito os três componentes do processo de trabalho a que se refere Marx (1980, p. 202):

“1) a atividade adequada a um fim, isto é o próprio trabalho; 2) a matéria a que se aplica o trabalho, o objeto de trabalho; 3) os meios de trabalho, o instrumental de trabalho.”

E, para Gama (1986), a tecnologia como ciência envolveria ainda um quarto elemento: a tecnologia básica ou praxiologia, que reúne um conjunto de disciplinas (por exemplo, a cibernética, a teoria da geral dos sistemas etc.) e técnicas que apoiam os outros componentes da tecnologia.

Mais recentemente, no que se refere a trabalho e tecnologias de informação e comunicação, as pesquisas de Zuboff (1988) e Orr (1996) retratam de forma exemplar as transformações observadas nesse contexto. Zuboff (1988) documentou os aparentes perigos e promessas da tecnologia computadorizada na vida organizacional, alertando que as tecnologias de informação representam escolhas: continuar a automação com o risco de comprometer a satisfação e a autoimagem dos trabalhadores ou dotar os trabalhadores de informação e poder para tomar decisões. Já Orr (1996) redirecionou a atenção dos pesquisadores para questões como a importância das histórias no trabalho e quanto elas contribuem para o aprendizado; como o trabalho molda a identidade dos trabalhadores; a importância da comunidade para o que as pessoas fazem nas organizações e o conhecimento que compartilham; a característica situacional dos julgamentos; a necessidade de improvisação por parte dos técnicos para realizarem seu trabalho; as diferentes concepções de trabalho de gerentes, engenheiros e técnicos; as contradições e fissuras múltiplas encontradas nas organizações; e o caráter disperso e heterogêneo do conhecimento organizacional. E, não menos importante, Orr demonstrou o valor de estudar as práticas de trabalho (TSOUKAS, 2006).

Na contemporaneidade, ao se estudar o trabalho é importante considerar o papel desempenhado pela tecnologia atual, principalmente o telefone móvel celular e o computador portátil, considerados parte das tecnologias móveis. Quando se utiliza a expressão “tecnologia móvel” neste estudo, estamos nos referindo a uma visão abrangente, como estudada por Saccol e Reinhard (2004).

Saccol e Reinhard (2004), no projeto que desenvolveram – que, entre outros objetivos, discute a definição dos diversos termos utilizados na literatura envolvida com as Tecnologias de Informação Móveis, Sem Fio e Ubíquas –, consideram que as definições sobre cada um desses tipos de Tecnologias de Informação, de modo geral, não são claras. Além disso, frequentemente as expressões Móvel (Mobile), Sem Fio (Wireless), Ubíquo (Ubiquitous) e Nômade (Nomadic), utilizadas para qualificar determinadas tecnologias, são tratadas como sinônimos, quando na verdade possuem características distintas.

Com base nos trabalhos de diversos autores, Saccol e Reinhard (2004) discutem as expressões: (i) tecnologias de informação móveis (mobile), isto é, um conjunto de dispositivos tecnológicos que proporcionam mobilidade por meio de portabilidade (por exemplo: dispositivos conectados ou não a uma rede como o computador portátil – denominado comumente como notebook ou laptop –; e o telefone móvel celular, convencional ou inteligente); (ii) tecnologias de informação sem fio (wireless), isto é, aquelas que envolvem o uso de dispositivos, portáteis ou não, conectados – a uma rede, por exemplo – por meio de

links de comunicação sem fio (como redes de telefonia celular, transmissão de dados via

satélite e o padrão de comunicação por rádiofrequência de curto alcance conhecido como

Bluetooth); (iii) tecnologias de informação ubíquas (ubiquitous), que envolvem dispositivos

diversos – computadores, sensores, redes sem fio etc. –, frequentemente invisíveis, que proporcionam comunicação entre si e outros dispositivos, todos espalhados por muitos e diversos locais; e, (iv) tecnologias de informação nômades (nomadic), isto é, aquelas que, interconectadas a elementos sociais e organizacionais, possibilitam a mobilidade física e social de serviços de comunicação e computação entre atores tanto dentro quanto fora das fronteiras organizacionais (SACCOL e REINHARD, 2004).

Neste estudo, em particular, a expressão resumida “tecnologia móvel” está associada a esse conjunto de tecnologias, já descritas, que oferecem à pessoa em movimento o suporte para realização de práticas de trabalho. Interessa particularmente a esta pesquisa o fato de que, de modo geral, tais objetos estão associados à prática cotidiana da comunicação e também ao acesso à Internet, cada vez mais presente na vida do indivíduo contemporâneo (SLEVIN, 2000).

É relevante mencionar também que, na contemporaneidade, outras tecnologias estão associadas à comunicação a distância, porém não envolvendo mobilidade. Por exemplo, a

teleconferência – forma de comunicação eletrônica que permite uma conversação simultânea entre duas ou mais pessoas em localidades diferentes, por telefone ou computadores em rede, envolvendo textos (conferência de dados), voz (audioconferência, ou conference call), e/ou imagem (videoconferência) (TURBAN, McLEAN e WETHERBE, 2004). Ou, outro exemplo, a tecnologia conhecida como telepresença – sistema de comunicação que permite aos interlocutores uma experiência face a face mediada, a partir do uso de recursos multimídia, de informática e telecomunicações. Essa última, ganha mais adeptos a cada dia (SAKR, 2010) e, para um jornalista entusiasta dessa tecnologia, a “telepresença substitui a viagem profissional” (SIQUEIRA, 2009).

Estudar trabalho e tecnologia na atualidade, contudo, demanda algumas outras reflexões relacionadas às próprias caracterizações desses termos. No que se refere à tecnologia, por exemplo, uma rápida consulta nos cadernos especiais dos jornais diários de grande circulação no Brasil, dedicados às TIC20, permite a constatação de que as tecnologias móveis, em especial o telefone móvel celular, estão entre os temas preferidos no discurso contemporâneo sobre tecnologia, em parceria com a Internet e os jogos eletrônicos. Ou, em outro exemplo, no estudo intitulado The Internet of Things21 (A Internet das Coisas, tradução nossa), é apresentada a iminência de uma nova era tecnológica, envolvendo uma “rede verdadeiramente ubíqua”, que proporciona conectividade “a qualquer hora, em qualquer lugar, por qualquer pessoa e qualquer coisa” (Ibid., p. 3), ilustrando também a relevância da tecnologia móvel no contexto global. Alguns autores (por exemplo, pesquisadores do programa de pesquisa “Virtual Society? The social science of electronic technologies”, descrito por Woolgar, 2002) questionam, porém, se realmente estamos diante de um mundo transformado pela tecnologia, chamado muitas vezes de “sociedade virtual”, “sociedade da informação”, “sociedade em rede” ou “sociedade global”. Nota-se que o discurso atual pode ser caracterizado, segundo Woolgar (2002), por (i) uma grandiloquência, um efeito que deriva da busca de respostas resumidas, sintéticas, para questões gerais, abrangentes, sobre as novas tecnologias; (ii) poucos indícios de como essas tecnologias são realmente usadas e experienciadas no cotidiano; e (iii) declarações marcadas pela certeza dos efeitos do desenvolvimento, adoção e uso das novas tecnologias.

20 Como o Caderno Link, do jornal O Estado de S. Paulo, e o Suplemento Informática, do jornal Folha de S.

Paulo.

21 Estudo elaborado pela International Telecommunication Union (ITU), agência para questões de tecnologia de

Este estudo procura não seguir esse caminho. Adota um olhar não determinista sobre tecnologia, como o que pode ser encontrado, por exemplo, em trabalhos no campo da filosofia da tecnologia – como o ensaio desenvolvido por Gerrie (2008), que analisa três metáforas que descrevem a influência intensa, mas não determinativa, que a tecnologia exerce sobre nossas vidas. Para o autor, existem características da prática tecnológica que sistematicamente evitam que aconteça um julgamento ético crítico de tal prática. Aquele que acredita que os vieses de tais características são fortes o suficiente para evitar a ocorrência de qualquer avaliação ética significativa, então essa pessoa é alguém que suporta a noção de determinismo tecnológico. Aquele que acredita, no entanto, que há algum espaço para uma ação antagônica, então essa pessoa suporta uma forma de teoria da dependência. Gerrie (2008) concentra-se no conceito de dependência tecnológica como visto por Marshall McLuhan, Herbert Marcuse e Jacques Ellul.

A explicação de Marcuse para o fenômeno da dependência tecnológica é a de que os incentivos poderosos do sistema industrial conspiram para prevenir ações que limitem a expansão do sistema; e, com relação às tecnologias individuais, os benefícios óbvios de tais tecnologias desencorajam o questionamento de seus danos menos óbvios. No centro da visão de Ellul sobre dependência está a ideia da tecnologia como religião, como culto. As pessoas “modernas” escandalizam-se com o pensamento de crítica à tecnologia e são facilmente intimidadas e conduzidas pelos “papas” da alta tecnologia. E, finalmente, para McLuhan, a prática tecnológica é tão evidente, incontestável e habitual na natureza que ela se torna, em essência, uma natureza segunda; e como todos os hábitos, as práticas tecnológicas podem nos distrair de outros tipos de atividade, tal como a reflexão ética (GERRIE, 2008)

Não só a reflexão do papel da tecnologia ao estudar trabalho na contemporaneidade, contudo, merece destaque. Faz-se necessária uma análise mais detalhada sobre as transformações recentes observadas do próprio contexto do trabalho. De modo geral, nota-se que o trabalho foi afetado pela transição de uma sociedade industrial para uma dita pós-industrial observada nas últimas décadas. Alguns dos efeitos dessa mudança são: redução do número de trabalhadores estáveis em fábricas; incremento do número de trabalhadores em serviços, muitos part-time e temporários; aumento do trabalho feminino; eliminação de alguns tipos de trabalho, e transformação de outros, pela introdução de computadores e outras tecnologias digitais; demanda por trabalhadores com habilidades interpessoais, que colaborem em equipes

de trabalho distribuídas e multifuncionais, e trabalhadores com perfil para tomar decisões (BARLEY e KUNDA, 2001; SENETT, 1998).

Lazzarato e Negri (2001) analisam esse cenário pós-industrial e observam que o modo de produção pós-fordista (como esses autores denominam) é, antes de tudo, uma ativação de diferentes modos de produção (“materiais” e “imateriais”). Uma das condições que está na base do desenvolvimento da sociedade pós-fordista é a transformação do trabalho em trabalho imaterial, que pode ser caracterizado como um trabalho vivo intelectualizado, uma forma de atividade produtiva abstrata ligada à subjetividade. A qualidade e a quantidade de trabalho são organizadas em torno de sua imaterialidade; o trabalho característico dessa sociedade – que envolve, por exemplo, controle, gestão da informação, capacidade de decisão – pede o investimento da subjetividade daquele que trabalha. Dentro dessa atividade de trabalho imaterial, “é sempre mais difícil distinguir o tempo de trabalho do tempo da produção ou do tempo livre”; para os autores, “encontramo-nos em tempo de vida global, na qual é quase impossível distinguir entre o tempo produtivo e o tempo de lazer” (Ibid., p. 30).

Dos estudos desenvolvidos por Lazzarato e Negri (2001) sobre o trabalho na contemporaneidade, destacam-se três aspectos: a relação do trabalho com informação e comunicação, com mobilidade e com o fato de a produção capitalista estender-se, envolvendo o “tempo de vida”. Para Lazzarato e Negri (2001), a empresa e a economia pós-industrial são fundadas sobre o tratamento da informação, particularmente informações relacionadas a vendas e relação com o consumidor. As organizações mobilizam “importantes estratégias de comunicação e de marketing para reaprender a informação (conhecer a tendência do mercado) e fazê-la circular (construir um mercado)” (Ibid., p. 44). E é o trabalho imaterial que ativa e organiza a relação produção/consumo, por meio do processo comunicativo. Os autores resumem desse modo o ciclo de produção do trabalho imaterial:

“Ao econômico não resta senão a possibilidade de gerir e regular a atividade do trabalho imaterial e de criar os dispositivos de controle e de criação do público/consumidor através do controle da tecnologia da comunicação e da informação e dos seus processos organizativos.” (Ibid., p. 52).

Lazzarato e Negri (2001) têm como hipótese que o processo de produção da comunicação tende a se tornar processo de valorização. E, na tentativa de apreender o processo de formação

da comunicação social e sua concepção como compreendido no econômico, no lugar de utilizar o modelo da produção material utilizam “um modelo que tenta dar conta das formas e dos conteúdos da produção dos ‘produtos ideológicos’: a ‘produção estética’ (autor / reprodução / recepção)” (Ibid., p. 48, aspas dos autores). Merece destaque para este estudo o fato de que o autor, como definido no modelo de Lazzarato e Negri (2001):

“[...] perde a sua dimensão individual e se transforma em um processo de produção organizado industrialmente (com divisão do trabalho, investimento, comando etc.); [...] O trabalho imaterial se constitui em formas imediatamente coletivas e não existe, por assim dizer, senão sob forma de rede e fluxo” (Ibid., p. 49-50).

Além disso, para Lazzarato e Negri (2001), a mais-valia deriva da produção e do controle dos fluxos, principalmente dos fluxos financeiros e comunicativos; é somente na conjunção dos diversos fluxos (de produção, circulação, consumo, desejo) que a mais-valia se torna visível. “O novo capitalismo se constitui sobre a potência dos fluxos, sobre os diferenciais de velocidade de sua circulação [...]” (Ibid., p. 58).

E um último aspecto dos estudos de Lazzarato e Negri (2001), relevante para este estudo, é a constatação que a produção capitalista:

“[...] estendeu-se da organização do ‘tempo de trabalho’ à organização do ‘tempo de vida’. E [...] são exatamente as atividades ‘culturais, relacionais, informacionais, cognitivas, educativas, ambientais’ e o ‘tempo liberado de trabalho’ que se tornam os ‘objetos’ e os ‘sujeitos’ das novas relações de exploração e de acumulação que a revolução da informação organiza”. (Ibid., p. 74-75, aspas dos autores).

Bendassolli (2006) também faz uma análise do trabalho no contexto pós-industrial. Para esse autor:

“O trabalho é um termo que se presta a inúmeras interpretações e um dos motivos é a pluralidade de dimensões da vida humana que ele abarca. Pode ser definido em termos políticos, econômicos, sociais, morais, ideológicos, psicológicos e filosóficos.” (BENDASSOLLI, 2006).

Segundo Bendassolli (2006), ocorreram mudanças no sentido e no valor social do trabalho nas sociedades pós-industriais em termos de sua centralidade econômica, moral, ideológica,

filosófica e contratual, fato que o autor denomina “desmontagem” da ontologia moderna do trabalho. Quatro conjuntos de ideias estão associados a essa desmontagem: crise do trabalho como fonte de valor econômico; crise da ética tradicional do trabalho; problemas relacionados com a questão do sentido do trabalho na definição do indivíduo e da identidade; e o esgarçamento do trabalho como contrato social.

A crise do trabalho como fonte de valor econômico refere-se à ideia de que nas sociedades ditas pós-industriais o valor não se produz apenas por meio do trabalho, mas também por meio do chamado “capital social”. No caso da crise da ética tradicional do trabalho, argumenta-se que o valor do trabalho na construção do caráter do indivíduo, o sentido espiritual elevado que possuía, está sendo destruído por forças modernas, como o valor crescente atribuído ao consumo, ao lazer etc. Com relação à questão do sentido do trabalho na definição da subjetividade humana, havia uma estreita associação entre trabalho e o que somos como seres humanos que foi problematizada; existem críticas ao conceito de alienação visto que não se observa hoje, com tanta frequência, o trabalho sendo considerado um elemento de elevada importância que justificaria a existência de uma experiência alienante em seu contexto. E, por fim, o enfraquecimento do trabalho como contrato social, caracterizado pelo modo como esse contrato está sendo desfeito em suas bases política, moral, psicológica e social; na ausência de garantias institucionais ao trabalho, resta ao indivíduo responsabilizar- se por sua própria vida profissional (BENDASSOLLI, 2006).

Do ponto de vista das pessoas, Bendassolli (2006) acredita que houve um enfraquecimento do vínculo essencial, ontológico, entre trabalho e identidade; e, como consequência, o trabalho passou a ser descrito por meio de cinco pequenas narrativas públicas acerca de seu sentido e valor, que o autor denomina ethos do trabalho: moral-disciplinar, romântico-expressivo, instrumental, consumista e gerencialista. Cada ethos defende “uma visão particular sobre o

que é e por que trabalhar e qual a influência disso sobre a construção da identidade” (Ibid., p.

199). Ainda segundo o autor, esses ethos coexistem, gerando ambiguidade, visto que há uma pluralidade de sentidos do trabalho; e, ao mesmo tempo, há também a possibilidade de focos de ansiedade e tensão por causa das sobreposições e divergências entre tais ethos.

Em síntese, este tópico retrata que a tecnologia, como predominantemente concebida na contemporaneidade, tem um forte vínculo com o pensamento moderno e com o trabalho no contexto da produção capitalista. Tanto a tecnologia quanto o trabalho, porém, são foco de

reflexões importantes na atualidade. Com relação à tecnologia, observa-se o aumento do interesse de pesquisadores por um olhar mais crítico sobre o tema; com relação ao trabalho, os aspectos relacionados a sua imaterialidade e pluralidade de sentidos ganham destaque.