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1.5 Strategic analysis

1.5.5 Strategic directions

A pesquisa biográfica na sociologia teve início na década de 1920 pelos sociólogos da Escola de Chicago, como William Isaac Thomas e Florian Znaniecki, como uma alternativa à sociologia positivista. Depois disto, entra em colapso e só volta a ser utilizado novamente como campo de pesquisa da sociologia na década de 1980 (ROSENTHAL, 2014b).

São os conceitos da fenomenologia de Schutz, especialmente a teoria da relevância, apresentados anteriormente, que fundamentam o método criado por Schütze, já apresentado neste capítulo. Veremos agora de que forma a análise das narrativas biográficas do sociólogo alemão foi aprimorada por Gabriele Rosenthal, indicando o modo como trataremos o tema da orfandade por violência doméstica nesta pesquisa.

Ao buscar confrontar os sujeitos com hipóteses pré-estabelecidas, Schutz sugere que o sociólogo estaria se igualando ao senso comum. Este é um dos motivos pelos quais nas narrativas biográficas não são propostas hipóteses de pesquisa antes da conclusão da análise do caso. É a relevância do próprio entrevistado que norteará o trabalho, dando ao biografado o maior espaço possível para construir a situação (ROSENTHAL, 2014b, p. 20). A busca está na investigação do agir social na complexidade que é o cotidiano a partir do ponto de vista do ator, não do cientista social.

Os métodos de levantamento e também da análise devem permitir descobrir o modo como o indivíduo interpreta e produz seu mundo em processos interativos. Nesse contexto, não se trata apenas de chegar às perspectivas e aos estoques de conhecimento dos atores que lhe são conscientemente acessíveis, mas também de analisar o conhecimento implícito, a produção interativa de significados para além das intenções dos agentes (ROSENTHAL, 2014b, p. 22).

É este o exercício proposto no método aprimorado por Gabriele Rosenthal. As elucidações contidas na citação acima são também as razões pelas quais a análise dos dados trazidos pelo indivíduo pesquisado deve ser feita de uma maneira tão criteriosa e

49 sistematizada em cinco passos de investigação. Sobre isto, falaremos em detalhes no capítulo 4. Por ora, é necessário entender que toda análise é feita sobre um produto, fruto de uma entrevista biográfica. Tudo o que o entrevistado narra importa para o cientista social: seus interesses, suas vivências e o que aprendeu e também o que não aprendeu com elas, a gênese das suas perspectivas e a soma de suas experiências.

A abordagem de Rosenthal recupera muito do que havia sido formulado por Schütze, mas avança ao incorporar no processo de análise contribuições de outros autores. Um deles é Aaron Gurwitsch, com a análise do campo temático, e Ulrich Oevermann, com a sua hermenêutica objetiva sobreposta à proposta de sequencialidade no processo de análise dos dados e narrativas produzidas durante a entrevista (SANTOS; OLIVEIRA; SUSIN, 2014, p. 374).

Husserl, uma das principais influências de Alfred Schutz, é quem dá a principal deixa para validar a pesquisa empírica baseada em uma sociologia compreensiva. Conforme apontou Srubar, Husserl sugeriu que "se a sociologia é capaz de descrever a realidade social como algo que sempre tem estruturas de sentido, então estas estruturas devem ser investigadas" (SRUBAR, 1984, p. 178) e chama a atenção para o fato de que a base da constituição do sentido pode ser encontrada nas práticas diárias da realidade do mundo da vida (SRUBAR, 1984, p. 178). Este é um dos pontos que justifica o método de narrativa biográfica.

Marcos Fanton, no artigo Sujeito, sociedade e linguagem (2011), resume o teor da narração em cinco características. A primeira é temporal, pois trata-se da reapresentação de eventos passados com base na perspectiva atual. A segunda tem caráter social, levando em conta que a situação em que a entrevista ocorre é social e pode influenciar no que é dito pelo biografado, pois é direcionado a uma pessoa/entrevistadora específica. Ela também expressa, em terceiro lugar, os significados dados pelos indivíduos às suas experiências e a sua vida como um todo. A quarta característica é a subjetividade, pois é a expressão do indivíduo que tem uma biografia singular. Há que se considerar, por último, a influência da linguagem empregada no discurso, que é mais familiar e rotineira ao biografado (FANTON, 2011, p. 531).

Ciente disto, o método de entrevistas narrativas aqui utilizado está baseado em uma atividade rotineira, que pode ser praticada por qualquer um em maior ou menor intensidade, que é falar da própria vida e dos planos para o futuro. De forma a sistematizar esta narração, criou-se um método com etapas ordenadas cujo objetivo é buscar que o entrevistado sinta-se o

50 mais à vontade possível e estimulado a contar sua vida em detalhes, sem precisar de perguntas que interfiram, além da simples presença que pode ser intimidadora do entrevistador, com a subjetividade do entrevistado. É o próprio entrevistado quem constrói a sua trajetória por meio da produção de um trabalho biográfico espontâneo (FANTON, 2011, p. 532). Para que se obtenha amplas narrativas, a pergunta inicial do pesquisador para o informante deve ser o mais aberta possível, sem que o entrevistador se baseie em roteiros ou utilize outra linguagem que não aquela empregada pelo próprio entrevistado na hora em que for formular suas questões, com base somente naquilo expressado pelo biografado.

Com a pesquisa social interpretativa torna-se possível compreender não apenas o conteúdo manifesto, mas também o latente, ou seja, as entrelinhas oriundas do ator social somado ao saber implícito que acompanha os dois (ROSENTHAL, 2014b). Sobre esta subjetividade, faz-se necessário esclarecer que não se trata da compreensão dos aspectos psíquicos internos, próprios da psicanálise, mas dos significados que os próprios agentes dão às suas ações e à realidade social “a partir da apropriação de estoques de conhecimento social ao longo da socialização. Além da reconstrução desses estoques de saber — formados e constantemente modificados na socialização — e do significado conscientemente intencionado de uma ação” (ROSENTHAL, 2014b, p. 26).

A forma com que a pesquisa biográfica chega a questões e novos conceitos se distingue completamente da psicanálise, assim como a interpretação dos casos.

Ao contrário do diagnóstico do psicanalista, a pesquisa biográfica busca objetivamente investigar, a princípio, o processo permanente de desenvolvimento de determinados fenômenos — como o de uma doença — e, ainda, situá-los na biografia individual tomada integralmente, e em uma inter-relação constitutiva entre indivíduo e sociedade. O pesquisador busca evitar o quanto possível o uso de categorias patológicas e, ao invés disso, reconstruir a racionalidade inerente aos fenômenos. Outra diferença essencial consiste em que, nas análises biográficas, o objetivo é a reconstrução do significado de fenômenos individuais em seu contexto

de surgimento. O diagnóstico psicanalítico, ao contrário, tende mais à apreensão

seletiva de fenômenos de acordo com seus critérios teóricos, nos quais subsume, também, conceitos já construídos (ROSENTHAL, 2014, p. 221).

Na análise proposta por Rosenthal, é levada em consideração também a forma como entrevistador e entrevistado interagem, pois a diferença entre o conscientemente intencionado e o significado objetivo vale também para o agir e o conhecimento disponível ao pesquisador. Isto é importante porque o conhecimento implícito influencia na atividade do pesquisador e precisa ser objeto de reflexão e se tornar consciente por completo.

Durante a entrevista que será analisada nesta pesquisa, diversos exemplos ilustram o parágrafo acima. Questionador, Joaquim, o menino que teve a mãe morta em um contexto de violência doméstica, possivelmente pelo padrasto, quando tinha cinco anos, instigou a

51 pesquisadora a dar opinião sobre diversos assuntos em paralelo à narração da própria vida. Um dos momentos cruciais ocorre quando pede para a entrevistadora manifestar a sua visão sobre o uso de maconha, sendo ele um usuário da substância psicoativa. Cria-se aí uma situação embaraçosa. Algumas das vezes nem esperava a resposta. A entrevistadora tentava sorrir cordialmente para não desestimular o discurso de Joaquim. Nos mais incisivos, a pesquisadora tentava buscar as respostas mais neutras possíveis (como se isto fosse eficaz em uma conversa em que se é pego de surpresa a todo o momento).

J: Quando tu era adolescente tu feiz muita bagunça né E: Ah, isso todo mundo né? ((Rindo))

J: Viu ((Rindo)) agora ficou sem jeito, né ((Rindo))

Qualquer que seja a ação ou reação da pesquisadora pode gerar uma mudança no curso do que será dito dali para a frente. Joaquim pode omitir certos fatos para não desagradar ou pode lhe contar detalhes escabrosos da sua vivência como forma de provocação. O certo é que terá, este embate, influência no decorrer do discurso. Esta questão será retomada mais adiante, no capítulo seguinte, mas já é possível adiantar que depois deste diálogo é que a narrativa de Joaquim engrenou. É provável que tenha buscado um ponto para desestabilizar a entrevistadora e conversar em uma condição de "igualdade".

Voltando à importância do estudo do caso particular, que determina o método de narrativa biográfica, é ele que fornecerá uma descrição detalhada de como as relações concretas entre determinados fenômenos se formam. A abordagem narrativa biográfica de Rosenthal, segundo Hermílio Santos "permite a construção de tipologias de interpretações do mundo da vida" (2011, p. 14). Neste processo, a forma como os indivíduos manuseiam seu estoque de conhecimento, bem como lidam com o sistema de relevância e tipificação, são considerados.

Já vimos que mesmo que as atitudes sejam as mesmas, o que motiva as ações de cada um dos atores sociais diz respeito àquele ser humano específico. É por isto, então, que é preciso estudar os indivíduos para entender os seus motivos: são eles que dão forma à coletividade.

Toda a ação teria um objetivo futuro criado com base nas experiências do passado, tendo o presente como filtro: o que eu vivo, o que eu sou hoje. Este passado é movediço, se modifica conforme vão sendo dados significados a ele. Não importa, portanto, que o que se acredita hoje seja mentira ou uma fantasia, pode ter sido a forma utilizada para lidar com aquele pretérito (SCHUTZ, 1972). O que você toma como verdade é a maneira que te leva a agir. Esta questão fica clara na análise feita por Schutz (1955) da obra de Cervantes. Dom

52 Quixote age muito mais calcado na fantasia que ele crê ser verídica do que amparado na realidade de fato, criando seus “sub-universos”.

Para detalhar a forma como a teoria de Alfred Schutz sustenta a metodologia aprimorada por Gabriele Rosenthal, o presente capítulo trouxe um apanhado da literatura do autor. Ao listar as vertentes que se utilizam de narrativas também possibilitou-se entender em que contexto o método de Fritz Schütze, desenvolvido por Rosenthal, surge como abordagem metodológica.

Feito isso, no capítulo seguinte o objetivo é detalhar os passos do método de narrativas biográficas utilizando exemplos da biografia estudada no presente trabalho, para que se consiga sinalizar de que maneira é vivenciada a orfandade pela morte da mãe em contexto de violência doméstica, possivelmente assassinada pelo parceiro.

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