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Em 2012, termina o único namoro que teve com uma menina da mesma idade. Ele foi apresentado para a família dela e depois começou a frequentar mais assiduamente a casa dele. Melissa queria morar junto e ele não gostou. Ela desejava ser “bancada” por ele, mas estava difícil até conseguir manter-se sozinho, que dirá sustentá-la. Joaquim não estava disposto a tamanho compromisso. Queria ter liberdade para fazer as coisas de homem, disse, sair aos finais de semana e não ficar preso em casa. Em uma oportunidade, foi a uma festa sem o consentimento dela, voltou bêbado às 2h junto com o irmão e duas meninas no carro. A

120 namorada fez um escândalo. Saiu da casa dele. Fez drama nas redes sociais. Depois de um tempo pediu para reatar. Ele não quis. Temeu que fosse o "golpe da barriga", expressão utilizada pelo próprio biografado. Dias depois a menina disse que estava grávida. Ele disse que era invenção. "Não gosto de mulher fiasquenta e ciumenta", finalizou. Depois disso, Joaquim preferiu ficar um tempo sem namorar. Acha que uma companheira agora vai atrasar a vida dele. Morar com mulher é muito estressante, mas também é bom. Para ele o relacionamento tem que ter novidades.

Quanto ao comportamento de Joaquim sob o prisma de uma questão de gênero, observa-se que pouco traz da descrição da literatura feminista sobre o comportamento típico masculino. Ele carrega consigo traços de um machismo arraigado, mas não desenvolve um sentimento de posse sobre a companheira em questão. Pelo contrário, repudia o comportamento ciumento da menina, o fato de querer fazer dele o provedor do lar e um desejo da ex-namorada de ter um filho com ele.

Machado (2001) encontra em suas pesquisas a referência de que a construção social do obsessivo masculino é socialmente legitimado nas relações amorosas, onde a necessidade de possuir alguém seria a prova extrema do amor completo. A autora explica que esta legitimidade foi construída ao longo da história onde os valores do masculino e do feminino dentro de uma relação conjugal (2001, p.12). Neste cenário, "a posição de provedor parece ser a contrapartida da fidelidade sexual feminina (MACHADO, 2001, p. 14). Isto significa parte importante da "honra masculina", lembrando ainda que a recíproca não integra este código de honra. Acrescido a isto, a paternidade que parece reforçar a função de provedor e complementar a almejada honra. Nenhum destes sentimentos parece refletir na biografia atual de Joaquim. Ele conta que quase todos os amigos próximos que conviveram no abrigo com ele já estão casados e com filhos. Ele deseja manter-se afastado desses ideais que Machado aponta como tipicamente masculinos.

Como dito anteriormente, há respingos deste "ideal masculino" em Joaquim. Isto é visto quando ele conta um episódio envolvendo a irmã. Ela, aos 14 anos, estava namorando um rapaz de 20, usuário de maconha. Conta que foi chamado pela tia, mãe de criação de Beatriz, para "dar um corretivo nela". Relata que foi até lá, conversou com a menina, mas que nada, além de dialogar, poderia fazer. Sabe que ser o irmão homem mais velho tem o seu peso, mas não encontra sentido e meios para exercer este poder simbólico. As hipóteses para este recuo na aplicação do poder não ficam bem claras durante a análise. Sobre este assunto, Machado discorre:

121 As categorias de masculinidade transitam, paradoxalmente, entre o homem "bicho danado", não domesticável, irresponsável, perigoso para as mulheres, porque não confiável, e, de outro, o "homem honrado", que, em nome da responsabilidade face à parentela em que se insere, tem o poder, e o dever de controlar suas mulheres (que inclui o uso de violência física, não só sobre afins quanto sobre consanguíneas) e de defender (incluindo o uso da força física) a "honra de suas mulheres", por definição deste conjunto de valores, conspurca a "honra masculina". (MACHADO, 2001, p. 16).

Mas há uma questão bastante peculiar em Joaquim, que é o seu comportamento homofóbico. Ele se mostrou bastante evidente no segundo encontro para a entrevista. Ao analisar o movimento pela janela do McDonald's da Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre, teceu diversos comentários preconceituosos, como na passagem abaixo:

J: seu froxo um viadinho assumido, mundo tá virado mesmo alha aí olha aqui não isso aí não é né, tu tem tu tem na tua família tu tem

E: homossexual? Não J: não tem?

E: que eu saiba não mas sempre pode ter né (((rindo)))

J: que viagem né meu tem que dá com um pedaço de pau no meio da cabeça e manda bota uma cueca de novo paro duas guria tri bonita do lado dele e ele viro a cara pro lado de lá e fez cara de nojo ainda (7) é tu viu isso, Pelo amor de deus né meu como pode (Transcrição: p. 59).

O pensamento de Joaquim se mostra condizente com o que constatou Welzer-Lang em seus estudos: "os homens que querem viver sexualidades não-heterocentradas são estigmatizados como não sendo homens normais, acusados de serem 'passivos', e ameaçados de serem associados a mulheres e tratados como elas" (2001, p. 468). Isto se explica, segundo o autor, por um duplo paradigma, onde de um lado está a superioridade masculina sobre as mulheres e de outro a normatização da sexualidade masculina segundo uma visão homofóbica que indica o que é ser um homem normal (WELZER-LANG, 2001, p. 468).

Se por um lado, Joaquim tem traços hiper carregados de homofobia, ao ponto de tocar neste assunto diversas vezes, mesmo fora do contexto, em suas divagações, por outro ele não carrega em si tão fortemente a visão da mulher como um ser inferior, como já foi apresentado em outros tópicos deste trabalho. Reside aí mais uma peculiaridade desta biografia.

A sensação que ele tem de passagem de tempo é bastante ampla. Mesmo sendo impossível cronologicamente, não condizente com o relato, sempre que vai contar do tempo que ficou abrigado na casa de alguém diz que ficou dois, três anos. Isto pode ser explicado pela intensa mudança na vida dele, que morou em muitos lugares diferentes.

Joaquim prefere passar longe da pena. Apesar de todas as circunstâncias traumáticas e delicadas pelas quais passou na vida, repete a frase:"a minha história não é triste, é só uma história complicada. Não guardo mágoas, só tenho recordações".

122 Biografia dele demonstra que tem dificuldade em terminar as coisas que começou. Apresenta uma vida cheia de despedidas e abandonos, desde quando nasceu e não conheceu o pai, nem o pai do irmão, depois quando a tia não ficou com ele, teve de trocar de abrigo, tentou morar com os tios mas também não foi aceito e depois quando foi adotado e não pode ficar na casa da mãe adotiva.

O fato é que este foi o primeiro passo, aos cinco anos, para que Joaquim ingressasse no que Fonseca (2002) chama de "circulação de crianças". A diferença é que, em vez de pular de casa em casa pela vizinhança e entre parentes, Joaquim migra de abrigo, retorna para a casa da tia, tenta morar com uma segunda tia, recebe abrigo de uma conhecida, depois da filha desta conhecida, até chegar na vida que tem hoje. O biografado também acumula mães, apesar de não se referir a elas por este nome.