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No ensaio “Les lieux de mémoire” [Os lugares da memória], Pierre Nora (1997) define a memória num pensamento dialético em relação à história:

A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos, e, como tal, está em constante evolução, aberta à dialética da lembrança e da amnésia, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a

[33] todas as utilizações e manipulações, susceptível a longas latências e súbitas revitalizações. (NORA, 1997, p. 24, tradução nossa)

Essa noção de memória define o modo como a literatura revela-se como meio criativo de transmissão de recordações de um passado, como o do capítulo decisivo da história amazônica, que é o ciclo da borracha. Em matéria literária, o que Pierre Nora chama de “deformações sucessivas” pode ser entendido como os efeitos estéticos alcançados pelos narradores, como se verá nos ciclos ficcionais da borracha. A cada momento da história literária amazônica, pode-se, inclusive, perceber como o jogo da memória do ciclo gomífero se submete a período de “latência” e de “revitalização súbita”.

Em contraponto à memória, Pierre Nora traz possíveis (in)definições para a história: “A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta daquilo que já não existe mais. A memória é um fenômeno sempre atual, uma ligação com o eterno presente; a história, uma representação do passado.” (NORA, 1997, p. 25, tradução nossa). A par com a memória, a literatura, por mais que tenha feições de narrativa histórica, em sua densidade ficcional, transforma-se num fenômeno atual, com “uma ligação viva com o eterno presente”. Para Nora, a memória se enraíza no concreto, no espaço, na imagem, no gesto e no objeto. Nas análises literárias das obras do corpus, nota-se como os narradores não se prendem a uma pura representação do passado, mas se utilizam da memória com certa plasticidade, ligando o passado a um presente ou apontando para o porvir.

Em Memory in Culture, a teórica alemã Astrid Erll (2011) atribui certa onipresença à literatura como “medium” da memória cultural, em razão da inumerável quantidade de gêneros que cumprem o papel de media da memória. Erll lança uma pergunta central para a compreensão da literatura como veículo de memória: como a media literária distingue-se das media não literárias da memória?

A literatura é capaz, por sua própria natureza, de apropriar-se de outras formas simbólicas ou sistemas simbólicos, incluindo a história, o mito, a religião, a lei e a ciência (ERLL, 2011, p. 144). Essas manifestações simbólicas da memória são encontradas facilmente nas narrativas ficcionais com aparência históricas, como as realizadas sob o mote do ciclo da borracha. É enganoso, portanto, considerar as ficções da borracha como narrativas meramente históricas, documentais ou registros históricos.

[34] O trabalho estético de diferentes épocas literárias transpõe essa óptica para um posicionamento alinhado à estética da memória.

Astrid Erll (2011, p. 149) verifica algumas características da literatura que a diferenciam de outras mídias da memória. A literatura tem privilégios e restrições ficcionais. A repetição do mundo real no mundo ficcional torna-se um signo e adquire outros significados. De um modo geral, até na tentativa de um realismo “real” dos primeiros narradores positivistas do ciclo da borracha, como Alberto Rangel, Euclides da Cunha e Raimundo Morais, a ficção faz com que a realidade representada adquira novos rumos, o que nos leva a compreender duas Amazônias: uma real e outra ficcional, sendo que há interferências numa via de mão dupla. Pela ficção pode-se apontar para uma realidade além dela mesma, como reflexiona Erll a partir de Wolfgang Iser.

Para Erll, a literatura e a memória apresentam diversas similaridades evidentes. Entre outras, está a tendência a criar significados por meio da “narrativização”. Ademais, a literatura caracteriza-se por diferenças significativas em relação a outros sistemas simbólicos. Erll considera que, desde pelo menos o século 18, os textos literários estão equipados com privilégios e restrições; por consequência, dão contribuições específicas para a memória cultural.

O ato de lembrar ou rememorar é um processo criativo e construtivo, o que se configura como uma característica da memória em literatura. Nota-se, no entanto, que a seleção de elementos deve ser formada de maneira particular para tornar-se um “objeto de memória” (ERLL, 2011, p. 145). O objeto de memória desta tese possui suas conformações com o ciclo da borracha amazônico, mas também se estende para outros aspectos da história e da realidade amazônica e brasileira.

Erll destaca três intersecções entre literatura e memória: 1) a condensação, que é fundamental para a transmissão das ideias sobre o passado; 2) a narração, como “ubiquitous structure” para criação de significados; 3) o uso de “gêneros” como formatos culturalmente aceitos para representar eventos passados. Ao longo da tese, é inevitável a retomada e o desenvolvimento substancial dessas intersecções, para que se desvelem aspectos da memorialística da Amazônia via ciclo da borracha.

Pela perspectiva de Erll, a condensação seria a principal característica da literatura. Essa condensação deve-se à capacidade de efeitos criados pelas formas literárias (metáforas, alegorias, intertextualidade), para a estratificação de vários campos

[35] semânticos num pequeno espaço. Forma-se, por assim dizer, um verdadeiro palimpsesto. Complementando essa visão, Seligmann-Silva (2003, p. 70) identifica, tanto em Halbwachs quanto em Walter Benjamin, uma tendência em considerar a memória como re-presentação, porque se trata da “apresentação enquanto construção a partir do presente”. É o que, de certa forma, se analisa no corpus central desta tese, configurando as relações entre o tempo passado e o tempo de composição das narrativas.

Os escritores e seus narradores forjados para cada caso transformam-se em mnemones, como responsáveis por uma “memória viva”. Há um compromisso inevitável com uma memória, própria da função social parcialmente representada pelo escritor (LE GOFF, 1996, p. 437).

A categoria teórica da condensação vem sendo discutida desde a proposição de Freud em Interpretação dos sonhos (1900). De fato, na ars memoriae antiga e medieval, encontram-se rastros da ideia em torno da condensação. Mais recentemente, Aby Warburg, Maurice Halbwachs, E.R. Curtius, Pierre Nora, Jan Assmann se coadunam com essa formulação. (ERLL, 2011)

Erll evidencia como diferentes memórias possuem convergência dentro de um simples sítio de memória. Essa convergência ou condensação do ciclo da borracha realiza-se com diferentes perspectivas nas obras analisadas. De saída, pode-se perceber uma convergência “intraliterária”, dentro da própria obra; ou “interliterária”, nos contatos inevitáveis e produtivos existentes no dialogismo proporcionado pela leitura comparativa.

Como objeto de memória cultural, a obra literária necessita de uma recepção ativa e interpretação, como deixa entender Astrid Erll (2011, p. 146). É por isso que qualquer leitura simplista ou desarmada pode transformar o objeto de estudo desta tese em mero artigo de memória “estática”, quando, na verdade, sua construção memorialística e sua condensação pelo tempo apontam para sentidos políticos, históricos e sociais, abrangentes sobre a Amazônia, o que torna esse conjunto de memórias literárias em permanente interação, como num memorial amazônico.

Falando da intersecção da narração, é preciso ter em vista que toda memória consciente dos eventos passados e experiências vem acompanhada de estratégias presentes basicamente na narrativa literária (ERLL, 2011, p. 146). E o “mais narrativo”

[36] de todos os sistemas de memória individual é a “memória autobiográfica”. Dalcídio Jurandir, Cláudio de Araújo Lima e Milton Hatoum darão amostras dessa vertente memorialística nos ciclos ficcionais da borracha. Essas diferentes narrativas desvelam narradores de memórias ficcionais. A História cede, quase sempre, espaço para o memorialismo. Daí, não se optar aqui em discutir a metaficção historiográfica. O ciclo ficcional da borracha produziu mais do que “metaficções historiográficas”.

A principal função da narrativa na cultura é sua “orientação temporal” (Erll, 2011, p. 147). É a ligação do passado, do presente e do futuro. Isso pode ser percebido também na teoria de Ricouer sobre o tempo e a narrativa. Seria extramente exagerado coroar todas as obras analisadas nos capítulos subsequentes com essa “orientação temporal” de modo tridimensional (passado, presente e futuro), mas obras totalizadoras como as de Dalcídio e Márcio Souza dão a ver essa dimensão da narrativa memorial. Não é possível escapar do chavão de que a memorialização narrativa permite interpretações mil da história. Cabe ressaltar, como faz Erll, que a literatura não detém o privilégio da ficcionalização da memória; outros sistemas simbólicos fazem uso dessas estratégias de memória cultural.

Como decorrência da intersecção da narração, os gêneros literários, por sua vez, codificam eventos e experiências. Erll aponta para conceitos de teóricos como Jeffrey K. Olick (gêneros da memória), Hayden White (meta-history) e Northrop Frye (arquetípicas formas narrativas), com intuito de reflexionar sobre esse processo de codificação promovido pelos gêneros. Astrid Erll (2011, p. 147) explica que o esquema do gênero literário fica retido em nossa memória semântica. Os gêneros são heranças de uma imaginação histórica. Sem exagero, Erll afirma que a literatura representa o principal campo para circulação dos gêneros da memória.

Em O grau zero da escritura, Roland Barthes (1971) ensina que a narrativa, seja para o Romance, seja para a História, representa geralmente a escolha ou expressão de um momento histórico. É simples a colocação de Barthes, mas bastante frutífera para o que aqui se discutirá em torno das obras amazônicas do longo ciclo ficcional da borracha.

Cabe acrescentar que Barthes posiciona a perspectiva narrativa, mostrando que o “eu” costuma ser testemunha, enquanto o “ele” ator: “Por quê? O „ele‟ é uma convenção-tipo do romance; da mesma forma que o tempo narrativo assinala e realiza o

[37] fato romanesco; sem a terceira pessoa, há impotência para atingir o romance, ou vontade de destruí-lo. [...]” (BARTHES, 1971, p. 48).

Até aí, Barthes é bem didático, mas por vezes confuso. A insuficiência de suas ponderações teóricas parece entrar em crise quando assinala que o “eu”, por ser menos ambíguo, é menos romanesco. Milton Hatoum, por exemplo, mostra o contrário em suas realizações literárias, como Relato de um certo Oriente e na figura do narrador Nael de Dois Irmãos. Esses deslocamentos de perspectivas narrativas podem ser vistos nas obras selecionadas no que tange à memória.

No caso da história do ciclo da borracha, os subgêneros narrativos é que dão, em geral, os formatos e os significados sobre os capítulos dessa história amazônica. De modo sintético, no corpus desta tese, optou-se pela seleção de certa variedade de gêneros, além de temáticas, para fugir do monocórdio em que às vezes se detém os ciclos ficcionais da borracha.

Alberto Rangel contribui com o conto “O marco de sangue”, de Sombras n’água (1913), que dialoga com outras narrativas curtas de sua safra, bem como com ensaios de Euclides da Cunha; Raimundo Morais, com o romance-lenda Ressuscitados (1936), sendo lido nessa segunda dimensão e não como romance; de Dalcídio Jurandir, toma-se Belém do Grão-Pará (1960), um dos romances do roman fleuve criado para seu Ciclo do Extremo Norte; Cláudio de Araújo Lima contribui com Coronel de Barranco (1970), em que se estuda o caráter confessional da narrativa; em Márcio Souza de Mad Maria (1980), está-se diante do que habitualmente se considera como romance histórico; por fim, em Milton Hatoum, encontra-se ora romance, ora lenda, romance histórico, próprio da pluralidade das narrativas contemporâneas, em Dois irmãos (2000) e Órfãos do Eldorado (2008). É bem provável que, ora ou outra, encontrem-se nos capítulos diálogos com poetas da época, o que reforçaria ainda mais ou daria a ver ao leitor como os gêneros dão forma às memórias amazônicas da era da borracha.

Em A letra e a voz: a “literatura” medieval, Paul Zumthor considera a voz poética como memória: “A memória, por sua vez, é dupla: coletivamente, fonte de saber; para o indivíduo, aptidão de esgotá-la e enriquecê-la.” (ZUMTHOR, 1993, p. 139). Essa memória por meio da poesia traz um saber, um conhecimento. E a memória poética encarrega-se de reconstruí-lo.

[38] Durante a Idade Média, os autores de alguns tratados concebem a memória por meio de uma ideia da “presença real dos corpos”: “um laço, em particular, entre a memória e a vista, fundado sobre a função da imagem e de suas relações com a palavra.” (ZUMTHOR, 1993, p. 141). Mas é bom ressaltar que Zumthor considera a memória vocalizada dos bardos do medievo. Nesse período, há uma disputa entre a performance da voz poética e a escritura.

Nessa performance da voz, responsável pela memória poética, o conceito de movência refere-se ao domínio da variante:

[...] A amplitude da movência nos aparece então muito diferente, de gênero a gênero poético, até de texto a texto, e também de século a século. Todo texto registrado pela escritura, como o lemos, ocupou, pelo menos, um lugar preciso num conjunto de relações móveis e numa série de produções múltiplas, no corpo de um concerto de ecos recíprocos; uma intervocalidade, como a “intertextualidade” da qual se fala tanto há alguns anos e que considero aqui, em seu aspecto de troca de palavras e de convivência sonora [...] (ZUMTHOR, 1993, p. 144)

É significativo chegar à intervocalidade, intertextualidade, e propor, quem sabe, uma intermemorialidade, que serviria como matriz para verificação de aproveitamentos de memórias do ciclo da borracha. É forçoso reconhecer a multiplicidade de retomadas de memórias comuns compartilhadas pelos mais diversos escritores amazônicos, sem que mesmo saibam ou que, de modo natural, compõem a memória canônica do ciclo da borracha, como “no corpo de um concerto de ecos recíprocos”. A movência, segundo Zumthor, pressupõe criação contínua.

A interdiscursividade, demonstrada por Bakhtin (1988), pode-se definir como “heteroglossia”. A fratura ideológica do texto imiscui-se nessas vozes, bem como nas vozes epistemológicas. Não se pode perder de vista essa dimensão das perspectivas adotadas por um narrador. Erll (2011, p. 150) chama a atenção para o fato de que os trabalhos literários podem desvelar e justapor divergentes e contestadas memórias e criar “multiperspectividade mnemônica”.

A polivalência literária traduz, por vezes, a alta ambiguidade da memória reservada para as formas simbólicas da literatura. Simultaneamente, a literatura é capaz de produzir observações de primeira e segunda ordem, como se pudesse produzir a e refletir sobre a memória. Ela cria várias versões para o passado. Os trabalhos literários são “memória-produtiva” e “memória-reflexiva”.

[39] Em Tempo e narrativa (1994), Paul Ricouer introduz o modelo do “círculo de mimeses”, com as três manifestações da mimese. Erll aproveita esse modelo anotando o seguinte: 1) a “prefiguração” do texto literário pela memória cultural; 2) a configuração literária de novas narrativas memorialísticas; 3) e a refiguração como veículo de diferentes comunidades mnemônicas.

Na prefiguração, tem-se o que se pode chamar de “repertório textual”. A literatura pode referenciar a dimensão material da memória (historiografia, memoriais, filmes, discursos), dimensão social (datas comemorativas, diferentes comunidades mnemônicas), dimensão mental (valores, normas, estereótipos e outros esquemas de representação do passado).

No caso do ciclo ficcional amazônico, o repertório textual possui balizas históricas em múltiplas dimensões memorialísticas – por vezes, incontornáveis – e outras tantas variações, especialmente advindas das mudanças de rumos estéticos proporcionadas por diferentes momentos históricos do ciclo ficcional e do ciclo da borracha.

A transmutação desse repertório é notória nas representações do primeiro momento do ciclo da borracha, até a década de 1930, em que os processos e procedimentos narrativos pareciam condicionado a um conjunto de temas do ciclo, repetido à exaustão: sistema de trabalho, organização dos seringais, migrações nordestinas, exploração do trabalhador, dilema do desenvolvimento urbano das metrópoles amazônicas. Depois, essas representações tomam novos rumos, com o simbolismo inerente à decadência do ciclo (com Dalcídio Jurandir), a algumas perspectivas inaproveitadas (com Araújo Lima), ao espelhamento de grandes projetos nacionais (com Márcio Souza) e ao memorialismo estético (com Milton Hatoum).

O ciclo possui a capacidade de, a partir de um repertório de prefiguração, se ampliar ou se reverberar de modo considerável. Há, em tudo, uma visível interdiscursividade. Ao final, percebe-se como esse repertório, mesmo com o fim do ciclo histórico, continua em formação, alimentando o que se chama aqui de “memorial literário amazônico”.

Pela via da configuração, na realização literária, cada elemento possui seu lugar e adquire significado. Para Paul Ricouer, a passagem do paradigmático (“repertório textual”) para o sintagmático (“realização literária”) é a transição entre mimesis 1 e

[40] mimesis 2. Esse processo faz parte da atividade de configuração. Assim, é que a literatura não é simples re-presentação, mas sim criação de realidade.

Para Erll (2011, p. 154), o nível da configuração é a chave para o papel da literatura como mediador da memória cultural. Elementos da memória cultural, nesse processo de refiguração, adquirem novos arranjos e, por efeito, novas e diferentes narrativas da memória. Por isso que o memorial literário amazônico não cessa de estar aberto a novas experiências por meio da exploração do ciclo ficcional da borracha.

Na discussão sobre a configuração, pode-se adentrar nas estratégias envolvidas na performance narrativa: voz narrativa, perspectiva, focalização, cronotopo literário (combinação de espaço-tempo), metáforas (ERLL, 2011, p. 154).

A refiguração, isto é, a passagem da mimesis 2 para a mimesis 3, realiza-se por meio do leitor. É a intersecção entre o mundo do texto literário e o mundo do leitor. Nesta tese, os procedimentos adotados evidenciam, em grande parte, a refiguração por meio da crítica literária e historiografia. No caminho da refiguração, o leitor poderá atingir diferentes níveis desse medium da memória, passando pela estrutura narrativa, forma da história literária, sequência e significado de eventos, a relação da tridimensão temporal (passado, presente, futuro). A literatura, de modo amplo, pode ser encarada sob o ponto de vista de uma refiguração coletiva, em razão das leituras socialmente compartilhadas. A via da canonização, por exemplo, motiva o compartilhamento de leituras, além de promover a refiguração coletiva.

Sabe-se que, de modo geral, a literatura amazônica do ciclo da borracha, especialmente aquela pouco afeita ao contemporâneo ou esteticamente datada, ocupa posição bastante periférica no sistema canônico da literatura nacional. Assim, a refiguração pode ficar comprometida, em razão da pouca circulação dos elementos de prefiguração. Esta tese, em parte, com a retomada de elementos da memória cultural, pela via histórica, possibilita-se uma (re)leitura de obras que colaboram decisivamente ou refletem um sistema prefigurativo do ciclo da borracha, para a compreensão (talvez) totalizante de um ciclo ainda vivo na memória da literatura brasileira.

Astrid Erll trabalha com o conceito de “retórica da memória coletiva”, segundo o qual se descrevem os potenciais mnemônicos para a literatura transmitir um passado socialmente compartilhado. Nessa construção teórica, Erll considera a narratologia da memória cultural. Assim, encarrega-se de demonstrar modos mnemônicos presentes no

[41] texto literário: modo experiencial (a memória vivida) destaca a voz narrativa em primeira pessoa; modo monumental (o passado pertence ao mito); modo historicizante (historiografia).

Pode-se, ainda, desenvolver o pensamento memorial no sentido da contramemória, em que a ficção se contrapõe a uma memória pré-moldada ou padronizada por diversas representações unissonantes. O contraponto da memória pode- se vislumbrar nas narrativas escolhidas para esta tese sobre o sentido memorial da literatura amazônica com os ciclos ficcionais da borracha.

Examinar os diferentes passos do ciclo ficcional da borracha promove um exame teórico a respeito da memória, como experiência direta ou mediada na literatura amazônica das primeiras décadas do século 20, e da pós-memória – ou anamnesis –, quando se percebe uma guinada promovida por uma nova geração, que se poderia chamar de “filha” daquela história e que se vale de um cânone institucional ou mesmo familiar para ficcionalizar e historicizar os fatos envolvendo o ciclo da borracha novamente; em geral, a partir de uma nova perspectiva, às vezes com mais originalidade sob o ponto de vista da forma e da estrutura.

Parte dessa noção de pós-memória se desenvolve a partir do que propõe ou discute Marianne Hirsch (2012) a respeito do Holocausto da Segunda Guerra Mundial. Hisrch trabalha com a noção de que a pós-memória é uma transmissão vicária da memória. Beatriz Sarlo (2007) põe em xeque esse conceito de “pós-“, porque não