Subitamente, na sequência da narrativa, chega um botânico alemão no barracão de Serafim, recomendado por aviadores do Pará. O alemão de Münster objetivava empreender pesquisas sobre as plantas canibais. Rangel descreve detalhes da aparelhagem trazida pelo cientista e de parte de seu percurso na vida científica. De longe, o goethiano é abordado assim: “Ah! Como seria feliz se resolvesse a questão delicada e fugidia que lhe escandecia de tanto sonho a alma de analista e de poeta...” (p. 306)
O pseudoagrimensor “doutor” Figueiredo interessava-se pela pesquisa do alemão. Escutava-o maravilhado. O alemão estava alheio à guerra acreana: “[...] quando, entretanto, as conquistas botânicas para que se armara paladino nos laboratórios e hortos de Westfália deixavam indiferente a todo esse mundo relapso, desordenado e precito de seringueiros.” (p. 307)
O ouvido atento de Figueiredo para o alemão recupera o longo período colonial em que o Brasil se traduzia pelos estudos e pelo discurso estrangeiro, que volta a ditar o verdadeiro alcance da realidade, agora amazônica, em pleno período das disputas pela borracha em escala internacional. E os sentidos dessa colonização estão de volta sob o signo da borracha, com um sistema produtivo semelhante ao do período colonial (WEINSTEIN, 1993, p. 16).
[54] O narrador coloca o leitor diante de dois valores para a floresta: um econômico, vindo dos seringais de Baraúna; outro, científico e poético, vindo da pesquisa do alemão. Em dado trecho, tem-se:
[...] Era uma tortura não poder dizer aos que o cercavam a sua felicidade, dá-la em compartilha aos outros... Uma mudez de brutos em torno dos prodígios descortinados nessa floresta, em que o agrimensor só via lucros de dinheiro, agressão, barreira e sepultura! [...] (p. 307-308)
A Amazônia sofre dupla exploração: a do primitismo da extração da borracha; e a da ciência interessada em explorar a floresta à exaustão, em busca do seu mais que anunciado paraíso perdido. E a literatura de Rangel explora as duas coisas simultaneamente, mas com o fito de historiar perspectivas daquela contemporaneidade.
Há um jogo de interesses representados na narrativa. Lado a lado, estão a ciência e a política de terras. Aparentemente, a ciência nada tem a ver com o espírito nacional, embora seja a todo momento reforçada como variável dentro do discurso narrativo. Por um lado, a ciência está entre os valores universais, com transmissão dos centros colonizadores para os colonizados. Por outro lado, carente de ciência e certezas, o agrimensor Figueiredo pouco se expressa sobre seu objeto de trabalho, ficando silenciado diante da verborragia do cientista alemão.
O “engenheiro” Figueiredo adentra assuntos socioeconômicos com o botânico alemão, a fim de colher suas impressões eurocêntricas, recebidas como tábua de salvação para o personagem e, talvez, para a alma brasileira do período. Embora longo o trecho, as observações do alemão merecem a transcrição:
– Para a civilização sul-americana falta o essencial, senhor, policiamento e justiça, resmungou o cientista. O policiamento virá com a telegrafia sem fio e com a ave que o homem pilotar. A justiça, o atributo magnífico da consciência dos povos maduros e fortes, quando virá? A borracha, base de “economia destrutiva” como chamou Brunhes tais indústrias de vândalos e vampiros, não me ilude
herr Figueiredo. Na Índia, ao fim de oitenta anos o fícus elástica extinguiu-se; no Congo, usinas que exploravam lianas caoutchouíferas tiveram que fechar as portas porque a fonte das essências florestais acabou por secar. A hevea brasilensis pode ser infinita, os produtores de substâncias rivais do látex da famosa euforbiácea, as hancórnias, os fícus, as balatas, as isonandras, certas uticácea estão se tornando incontáveis; e há de matá-los a todos um precipitado num cadinho... Pregoando o vencimento da síntese química, arregalava para o agrimensor os olhos papudos, que através dos óculos pareciam artificiais. (p. 309-310)
[55] A desordem dos países sul-americanos, em especial se analisada pela ótica da contenda entre Bolívia e Brasil, aparece sob o guidão do “policiamento” e da “justiça”. O problema de comunicação a ser resolvido pela telegrafia sem fio e, quem sabe, pela nascente aviação constitui uma das bases de uma nova civilização. Sobre a economia da borracha, o alemão prefere chamá-la de “economia destrutiva”. Para tanto, apoia-se na história decadente da exploração gomífera na Índia e no Congo.
De certa forma, naquele período de produção da narrativa, a borracha brasileira começa a apresentar sinais de esgotamento, ainda mais com a inauguração da plantação inglesa no sudeste asiático. A narrativa artificializa a discussão, pretendendo colocar as palavras como naturais dentro da fala do botânico. Porém, surgem como direta exposição didática e naturalista de Alberto Rangel, como se o personagem funcionasse como um alterego do escritor.
Márcio Souza (1977), em A expressão amazonense, cita pouco Alberto Rangel em sua crítica à literatura dos primeiros tempos da borracha. Mas, por vezes, o parceiro amazônico de Euclides da Cunha reproduz o que Souza denota como uma literatura que mais parecia “um agrupamento de palavras do que uma forma, mais vendaval de letras insignificantes do que um sentido.” (SOUZA, 1977, p. 109). Na verdade, não obstante a construção literária densa de Rangel, não se pode concordar totalmente com essa afirmativa de Márcio Souza.
Essa linguagem de “O marco de sangue” demonstra um nacionalismo que se constrói em alteridade, nas relações discursivas dos próprios personagens. Prevalece, é claro, a fala do alemão, como mais autorizada sobre a realidade amazônica, pretendendo dar contornos finais a uma aporia. O brasileiro por si mesmo configura-se como incapaz de compreender a complexidade da Amazônia e sua extensão política. A experiência científica do Velho Mundo não pode ser dispensada nesse processo de compreensão. A narrativa propõe isso e muito mais.
Nesse sentido, a língua literária escolhida por Alberto Rangel desperta outras tantas questões. Perpassa no discurso a marca de que o idioma pátrio não promove o nacionalismo. Estar no mundo, participar do jogo global, requer a apreensão da linguagem da ciência. O cientificismo pode alçar a intelectualidade brasileira para outro patamar das inteligências nacionais. É a língua franca da comunidade internacional. Apresentar-se como capacitado para dialogar em linguagem científica, mesmo sendo do terceiro mundo, sinaliza o lugar que se quer para o país na ordem mundial,
[56] especialmente valendo-se do interesse despertado pelo estrangeiro em relação à Amazônia. Em alguns momentos, arrisca-se dizer que Alberto Rangel não escreve para o público brasileiro, seu destinatário é Outro.
O breve comentário político do cientista, citado anteriormente, não se sustenta por muito tempo, pois sua ênfase são as plantas carnívoras. O assunto não lhe agradava. Desvia-se o olhar para a ciência, num processo de racionalização da natureza. O interesse e o desinteresse pela Amazônia estão emparelhados. E a combustão final das diversas dialéticas rangelianas entre local e universal, Amazônia e Brasil, literatura e ciência, adquire maior voltagem com a dialética entre nações amazônicas e sua disputa pelo ouro lácteo.