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Fonte: Disponível em: < http://www.ecunico.com.br/eisohomem/daniel/barbaros_invasoes.jpg> Acesso em: 23

novembro 2008.

Os visigodos contribuíram também para a constituição da gênese da sociedade medieval portuguesa: uma sociedade tripartida, formada por um clero (rico e poderoso), uma nobreza (proprietária e militar) e uma população (servos e libertos) governada pela Igreja. Com as chamadas invasões bárbaras ruíram os quadros administrativos do Estado sobrevivendo apenas a organização eclesiástica devido à conversão do rei visigodo Recaredo (586-601) à fé católica. Até aquele momento houve o embate entre fé ariana27 dos vencedores e a fé católica dos vencidos. Segundo Henrique da Gama Barros28, o apoio eclesiástico aos visigodos constituiu um dos feitos mais relevantes da história peninsular, pois a conversão do rei visigodo Recaredo ao catolicismo assinalou o início da preponderância do clero no governo civil da sociedade. Por sua vez, Herculano29 destacou este início triunfante do poder

27Arianismo – Doutrina religiosa do séc. IV fundada pelo Presbítero alexandrino Arius que negava a divindade suprema de Jesus Cristo, ou seja, não acreditavam que a figura de Jesus confundia-se com a de Deus. Os arianos acreditavam que Jesus era uma figura intermediária entre Deus e a humanidade. Fonte: Encyclopædia Britannica. Encyclopædia Britannica 2009 Student and Home Edition. Arianism. Chicago: Encyclopædia Britannica, 2009. 28 BARROS, H. da G. op. cit., v. 1., p.207. Ver também: HERCULANO, A. op. cit., Livro VI, Tomo VII, p.101. 29 HERCULANO, A. op. cit., Tomo VI, Livro VII. p.102

espiritual, sobretudo, a influência moral do clero que tendia mais a romanizar os costumes dos godos do que a alterar as conseqüências materiais da conquista.

Deste modo, o clero das paróquias30 representou durante muito tempo a única estrutura organizada com a qual a população mantinha contato. Segundo a teoria de Alberto Sampaio31, as paróquias substituíram as vilas32 romanas em sua função administrativa e o controle moral das comunidades passou do dominus (senhor) ao pároco, “após a queda visigótica, o abade tornou-se o centro de gravidade desses pequenos núcleos de população; não os deixando desunir, foi transformando pouco a pouco a antiga unidade agrária (Vila) na nova freguesia”33. Esta evolução está presente na origem da palavra “freguesia, termo que gradativamente foi designando novas unidades de povoamento e vizinhança: o trabalhador da vila romana era um servo ou um colono, na organização eclesiástica era um filho: filli ecclesiae, de onde veio o

filigrês e depois freguês”.34 Convém ressaltar, segundo Herculano, 35 que a designação fiéis ou leaes (fideles), aparece no código visigótico, como uma rede social ou

clientela “quaisquer pessoas livres, quer simples homens de guerra, quer revestidos de alguma dignidade publica retribuída por meio da concessão de benefícios”.36

As freguesias37 agrupavam-se em dioceses38 e os párocos subordinados aos bispos. Nos séculos IV e V d.C., a territorialidade não se firmava como um atributo definidor da paróquia. “Esta era na essência uma comunidade de fiéis adstritos a determinada igreja e ainda não propriamente uma circunscrição geográfica explícita”39. Além da autoridade moral sobre os fiéis e da grande força econômica, o clero tinha poder decisivo. Os concílios elaboravam leis que regiam questões internas da Igreja, bem

30Paróquia – O radical grego oikos (sinônimo de templo, habitação, lugar) originou o termo paroikos (vizinho, estrangeiro), de onde derivam os vocábulos latinos parochu e parochianu (respectivamente pároco e paroquiano). Daquele termo teve origem paroikía (conjunto de vizinhos ou de lugares), em cuja filiação radica a terminologia paróquia, que no latim, e mesmo ainda no português do século XIX, se ortografava ‘parochia’. A palavra ‘parochia’ começou a usar-se no século V na periferia rural de Roma e de outras cidades, aplicadas aos locais consagrados ao culto religioso. Mas a sinonímia como equivalente de Diocese mante-se-ia pelos tempos e ainda no século XII se utilizava nos textos a palavra ‘parochia’ em sentido diocesano. In: SANTOS, José António. As freguesias: história e

actualidade. Oeiras: Celta Editora, 1995. p.4-5.

31 SAMPAIO, Alberto. As vilas do Norte de Portugal. 2. ed., Lisboa: Veja, s.d. 32Vila – Antiga unidade agrária romana.

33 SAMPAIO, A. op. cit., p.140. 34 SARAIVA, J. H. op. cit., p.31. 35

HERCULANO, A. op. cit., Livro VI, Tomo VII, p.106. 36 Idem.

37Freguesia – Antes de se divulgar como uma semântica de caráter territorial teve um sentido sócio-institucional. Paróquias e freguesias tiveram seu uso difundido com o mesmo significado a partir dos tempos da fundação de Portugal. In: SANTOS, José Antonio. As freguesias: história e actualidade. Oeiras: Celta Editora, 1995. p.4-5. 38Diocese – Adveio da palavra grega dioikhesis, no sentido originário de governo ou administração de uma casa ou de um templo, posteriormente foi empregada para efeitos diversos com o significado equivalente a governo de uma determinada circunscrição territorial subordinada a um bispo. In: SANTOS, José António. As freguesias: história e

actualidade. Oeiras: Celta Editora, 1995, p.4-5.

como da administração geral, conforme princípio geral da época: “os reis não deviam julgar quaisquer causas crimes ou cíveis sem o concurso dos ministros de Deus.”40 Herculano retratou a larga influência clerical nos assuntos espiritual e temporal, segundo o autor, “pela Igreja o caminho das honras, da riqueza e do poder abria-se aos homens da raça vencida e o episcopado representava o primeiro papel e os bispos nas cidades não só eram os chefes do sacerdócio, mas também intervinham no sistema judicial e administrativo”.41 A Igreja representou a ‘unidade’ numa sociedade marcada pela diversidade, regulando a vida elaborando símbolos para o poder temporal e secular. “Da menor das aldeias, com sua igreja paroquial, à maior das cidades, com sua catedral, suas numerosas igrejas, seus mosteiros e santuários, a Igreja estava visivelmente presente em todas as comunidades: suas torres eram o primeiro objeto que o viajante divisava no horizonte e sua cruz era o último símbolo levantado diante dos olhos do agonizante”.42

Em síntese, pode-se afirmar que o poder clerical (Figura 7) passou indestrutível ao lado do arianismo gótico e resistiu ao embate com o islamismo e mais uma vez afirmou sua soberania quando do advento da formação das monarquias portuguesa e castelana. Um recorte temporal, pois não é o nosso objetivo descrever a história da Igreja na Península Ibérica.