3.1.1. O caos
Na manhã do dia 11 de julho de 1917, um cortejo de quase 10.000 pessoas acompanhou o enterro do sapateiro Antonio Martinez, morto a tiro no dia anterior em um confronto com a polícia. Saindo do bairro do Brás, passaram pelas ruas do centro de São Paulo em silêncio rumo ao cemitério de Araçá. À medida que avançavam pela rua São Bento, Viaduto do Chá, Barão de Itapetininga, Praça da República, Rua Ipiranga e Avenida Municipal, o cortejo aumentava e assustava a população da cidade. Uma multidão nunca antes vista tomava as ruas. Em silêncio ou em gritos o efeito era o mesmo: era a temida visão da massa que enchia os olhos e prendia a respiração. Tropas policiais se posicionaram nas avenidas Paulista e Municipal para controlar a multidão. Eram 30 praças de cavalaria, mais 50 praças de segundo batalhão e 20 de infantaria com carabinas embainhadas. Outros ainda se posicionaram em frente às residências do Secretário de Justiça Eloy Chaves e dos industriais Crespi, Matarazzo e Gamba, temendo represálias aos industriais. Chegando corpo e cortejo, o sepultamento ocorreu em meio a discursos anarquistas inflamados contra os exploradores da miséria do povo e contra a polícia, acusada de ser
! )+! responsável pela morte de Antonio Martinez. Nada de confronto, ainda, mas choros e carabinas eram mais do que suficiente para marcar o clima de tensão que tomava São Paulo havia dias.183
Uma greve que começara como tantas outras assumia uma dimensão fora de qualquer previsão. No dia 9 de junho, um mês antes, os quase 2.000 trabalhadores do Cotonifício Crespi se indignaram com a nova resolução que prolongava o trabalho noturno e resolveram exigir de 15 a 20% de aumento. Com a negativa patronal, 400 trabalhadores de uma das seções entraram em greve e aumentaram o número de exigências, incluindo abolição das multas, abolição do trabalho noturno, regulamentação do trabalho feminino e do trabalho dos menores.184 Rodolfo Crespi foi totalmente intransigente: não apenas negou as exigências, mas paralisou totalmente a fábrica até segunda ordem.185 Após algumas tentativas de forçar individualmente os trabalhadores de volta à fábrica, apelou para a polícia e foi auxiliado pelo delegado Bandeira de Mello. Três grevistas foram presos, mas acabaram sendo soltos após reclamações dos demais junto ao delegado geral, Thyrso Martins. Se a intenção era dobrar os grevistas, esses conflitos acabaram por acirrar os ânimos e impedir qualquer negociação. Os dois lados permaneceram irredutíveis.
Alguns dias depois, foi a vez da Companhia de Indústrias Têxtil da Mooca.186 Talvez por já sentir o clima de tensão, a empresa negociou com os trabalhadores e concedeu o aumento e as melhorias exigidas. No começo de julho entraram em greve também os trabalhadores da Estamparia Ipiranga, mas, assim como a Companhia da Mooca, rapidamente foi negociada a volta às atividades.187 As duas vitórias incentivaram trabalhadores de outras fábricas e categorias a aderir e os que já estavam em greve a permanecer. Em questão de dias, greves pipocavam em !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
183 “Notícias diversas”. O Estado de São Paulo, 12 de julho de 1917.
184 Abolição do trabalho noturno pelas turmas diurnas. “Succedem-se as greves: os tecelões”. A Plebe, 30 de junho de 1917, p.2.!
185 Mesmo depois, no dia 28 de junho, quando chama os empregados para negociação, sua postura é clara no sentido de punir a greve: alguns benefícios econômicos poderiam ser concedidos, mas a demissão dos responsáveis pela greve era questão disciplinar imprescindível ao bom funcionamento da fabrica.!
186 “Succedem-se as greves: os tecelões”. A Plebe, 30 de junho de 1917, p.2.! 187 FAUSTO, Boris. Trabalho Urbano e Conflito Social, p.193.!
! )*! toda cidade. Na primeira semana de julho aderiram outros setores, como os marceneiros e os trabalhadores da Companhia Antártica de Bebidas. No dia 10 já haviam entrado em greve a fábrica Mariângela188, a Estamparia Matarazzo, a tecelagem São Simão, a fábrica de fósforos Fiat Lux, a fábrica de tecidos Penteado e a fábrica de parafusos Santa Rosa.189 No dia 11 já eram 54 fábricas que declaravam estar paralisadas, totalizando 20.000 operários.190
Na semana que foi do dia 9 até o dia 16 de julho a cidade de São Paulo viveu o caos. Os conflitos entre os grevistas e a polícia foram aumentando e junto com eles a tensão nas fábricas. O policiamento foi intensificado e algumas prisões ocorreram no bairro do Brás. O choque se tornava cada vez mais inevitável. Ainda no dia 9 de julho, nas imediações da fábrica têxtil Mariângela, um grupo de manifestantes destruiu uma carroça da Antártica, “espatifando todas as
caixas de cerveja, danificando-lhe em seguida com grande quantidade de tiros”.191 Os primeiros
tiros podem até ter sido dados contra uma carroça, mas foram o suficiente para liberar de vez o gatilho. Depois deste episódio, já não eram os grevistas que se intimidavam com a polícia, mas os policiais que se sentiam acuados. Os grevistas reclamaram a presença do delegado geral Thyrso Martins, que foi recebido com insultos. Em meio aos gritos teve início um tiroteio que feriu a bala o sapateiro Antonio Martinez.192 No dia seguinte, Thyrso Martins até publicou um boletim apelando para os “sentimentos ordeiros dos grevistas”, mas o pedido não teve o efeito calmante, a morte do jovem Martinez no dia 10 foi o estopim.193 Na descrição de Edgard Leuenroth, “após o !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
188 A fábrica Mariângela era propriedade da família Matarazzo.!
189 O Estado de São Paulo, dia 11 de julho de 1917.!
190 Dados de LOPREATO, Christina. O Espírito da Revolta, p.38. O jornal Estado de São Paulo afirmava serem 15.000 trabalhadores em 12 de julho. (Estado de São Paulo, dia 13 de julho de 1917.!
191 Fábrica de propriedade das Industrias Reunidas Francisco Matarazzo. O Estado de São Paulo, dia 10 de julho de 1917.!
192 “Noticias diversas”. O Estado de São Paulo, dia 11 de julho de 1917.!
193 “Noticias diversas”. O Estado de São Paulo, dia 11 de julho de 1917. Enquanto os grevistas acusavam a polícia pela morte de Martinez, o inquérito policial indicava que o calibre da bala que perfurou o estômago do sapateiro não era compatível com o das praças policiais que ali estavam. Em entrevista ao jornal Estado de São Paulo já no dia seguinte à morte de Martinez, os agentes Luiz Sarill e Nathanael Prado, responsáveis pela biópsia, afirmavam que: “o
! )"!
enterro uma multidão estaciona na Avenida Rangel Pestana e logo depois é assaltada uma carrocinha de pão. Essa ocorrência teve o efeito de chispa lançada ao rastilho de pólvora. Parece ter servido de exemplo e estímulo para que a mesma ação fosse praticada em muitas partes da cidade. Foi o que aconteceu com uma rapidez fulminante, como se um veículo de comunicação de excepcional capacidade pusesse em contato todo o elemento popular paulista. As fábricas e oficinas esvaziam-se, enquanto as ruas se povoam de multidões, movimentando-se
agitadas em todos os sentidos”.194
Segundo o Estado de São Paulo, até o dia de 12 de julho cerca de 15.000 trabalhadores estavam em greve. Pelos dados de Boris Fausto, entre 12 e 15 de julho o número salta para mais de 25.000 a 45.000 trabalhadores. E o alcance foi além: a greve virou uma revolta generalizada e a cidade um campo de batalha. A “massa inconsciente”, como se referia o jornal Estado de São Paulo à multidão, tomou conta do Brás e impedia a chegada de alimentos à zona central.195 Um ou outro conflito chegou até o centro da cidade e mesmo até a protegida Avenida Paulista, assustando sobremaneira os paulistanos.196
As fábricas eram apedrejadas, mesmo pelos funcionários que já haviam recebido o aumento salarial e as melhorias exigidas.197 O comércio foi fechado e na manhã do dia 12 o sistema de transporte foi totalmente paralisado em função dos ataques aos bondes.198 Também a !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
forma, é ao menos suspeita a rapidez com que chegaram a tais conclusões. O Estado de São Paulo, dia 12 de julho de 1917.!
194 O Estado de São Paulo, dia 27 de março de 1966. Apud FAUSTO, Boris. Trabalho Urbano e Conflito Social, p.195.!
195 “Noticias diversas: agitações operarias”. O Estado de São Paulo, dia 14 de julho de 1917.! 196 “Noticias diversas: agitações operarias”. O Estado de São Paulo, dia 13 de julho de 1917.!
197 Nota de O Estado de São Paulo, dia 23 de julho de 1917: “Um grupo de 200 grevistas andou a commeter
excessos, provocando a solidariedade dos operarios da fabrica de linhas, de uma fabrica de ferro esmaltado na rua Anna Nery, da fabrica Gamba e até da fábrica de tecidos de Nami Jafel, que ainda há poucos dias cedera a todas as pretenções de seus operarios”. Existia um discurso que colocava patrões e empregados numa relação paternalista,
justificando o trabalho e as multas como forma de educação. A relação afetiva dos funcionários com os estabelecimentos de trabalho, entretanto, não parecia ser aquela anunciada pelos patrões, como uma segunda casa, própria de sujeitos dignos e pacíficos. Neste sentido, ver CHAULHOUB, S. Trabalho, lar e botequim.!
! )#! iluminação pública foi prejudicada. Como aponta Fausto, a iluminação pública era o alvo preferido dos revoltosos, talvez pela preferência da massa ao anonimato. Postes de luz poderiam ser alvo predileto, mas os alimentos não ficavam atrás. A carestia que estava presente na vida diária dos trabalhadores retornava na greve como força motivadora. Nesta greve de julho, era hora de se vingar dos açambarcadores, que enviavam a “maior parte dos artigos de primeira
necessidade para alimentar a guerra na Europa”.199 Casas, padarias e armazéns eram
assaltados.200 Na invasão do Moinho Santista, foram levados mais de 600 sacos de farinha e o restante foi inutilizado.201 Na descrição de outro assalto, ainda, é possível ver a intensidade do conflito: “Pelo Largo da Concórdia, passava um carroção do Moinho Gamba, conduzindo
saccos de trigo. Apesar de estar aquelle largo cheio de praças da policia, a multidão avançou resoluta para o carroção, derrubando e espatifando os saccos de farinha. Appareceu logo um contingente da cavallaria que fez carga contra o povo. Houve então um conflicto, sendo o povo
dispersado”.202
A contrapartida da governo foi a mobilização militar. Tropas federais foram destacadas para auxiliar a Força Pública estadual e, por ordem do Ministro da Marinha, dois navios de guerra partiram para o porto de Santos, mostrando o descontrole da situação. Os logradouros públicos foram considerados privativos das forças armadas e todas as reuniões e meetings de qualquer natureza foram proibidas.203 “A avenida Rangel Pestana offerecia um aspecto verdadeiramente
militar”.204 No dia 10 de julho um boletim do delegado geral, Thyrso Martins, requeria a toda
população que mantivesse a calma e que os trabalhadores utilizassem os meios legais para
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199 “O porquê das Gréves”, A Plebe, dia 9 de julho de 1917, p.1.!
200 “Noticias diversas: agitações operarias”. O Estado de São Paulo, dia 13 de julho de 1917.! 201 “Noticias diversas: agitações operarias”. O Estado de São Paulo, dia 12 de julho de 1917.!
202 “Noticias diversas: agitações operarias”. O Estado de São Paulo, dia 13 de julho de 1917.! 203 LOPREATO, Christina. O Espírito da Revolta, p.53.!
! )$! reclamarem direitos, pois excessos não seriam permitidos.205 Nos dias seguintes, o tom das notas oficiais ficou ainda mais agressivo aos anarquistas, orientando a população a permanecer em casa e afirmando que seriam dispersados quaisquer “grupos de grevistas assaltantes”:
AO PUBLICO – Em vista da attitude francamente subversiva de alguns elementos exaltados que não recuaram diante da pratica de actos de violencia contra as pessoas e propriedades, previno a quem possa interessar que a Policia, serena, mas com energia, conterá dentro da ordem os que contra ella quizerem attentar. Aos que não quizerem attender aos constantes appellos á calma, caberá a responsabilidade das consequencias que possam resultar do desrespeito á lei. S.Paulo, 12 de julho de 1917.206
A greve, que inicialmente tinha o apoio da população paulista, começa a ser vista com outros olhos. Exemplo claro disso é a descrição feita pelo Estado de São Paulo. De defensor da causa operária, passou fazer ressalvas em favor da ordem pública:
A carestia, actualmente, entre nós, é terrível (...). Os preços de todos os generos mais necessarios duplicou, triplicou, quadriplicou (...). A adulteração dos alimentos, as explorações dos açambarcadores, os abusos nos mercados livres, a regulamentação das horas de trabalho dos menores, dos accidentes nas fabricas e oficinas. (...). São, pois, muito justas as queixas dos operarios.207
Já no dia seguinte:
O dia de hontem, em toda cidade, foi de franca anarchia (...). A causa dos operarios, em geral justa e sympathica, terá que ser sacrificada, pois tudo quanto se viu é deprimente e desolador. (...) Agitar, revolucionar e anarchisar de nada valem a quem reclama melhoria da situação. Ao contrário, é tornar o mal geral. (...). A policia mantinha-se numa calma absoluta, temendo, com certeza, as consequencias do primeiro acto de energia (...). Os amotinados abusavam da benevolência policial, mas o que é certo, é que toda gente sensata e ordeira reconhecia a necessidade de acabar com tal estado de coisas.208
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205 Publicado em “Noticias diversas: agitações operarias”. O Estado de São Paulo, 11 de julho de 1917.! 206 Publicado em “Noticias diversas: agitações operarias”. O Estado de São Paulo, 12 de julho de 1917.! 207 “Noticias diversas: os operarios”. O Estado de São Paulo, dia 12 de julho de 1917.!
208 “Noticias diversas: agitações operarias”. O Estado de São Paulo, 13 de julho de 1917. A mudança de postura em relação à greve fica ainda mais clara na descrição da morte de Antonio Martinez: “a desordem assumiu proporções
! )%! Os navios de guerra não chegaram a ser utilizados. Ainda assim o conflito foi grande, não foram apenas assaltos e depredações, mas “foi o rastilho de um espetáculo horrível, pois, volvidos
poucos minutos, sahiu prolongado tiroteio das janelas e dos telhados dos prédios altos naquelle local. A força cahiu sobre o povo, dando cargas para o chão (...), ficando feridas muitas pessoas,
sem poder se calcular o número”.209 E isso dos dois lados. Na descrição de A Plebe, “foram
verdadeiras batalhas entre o povo e a força armada. Foram tiroteios incessantes que os grevistas heroicamente sustentaram forçando a debandar, em completa desordem, numerosos contingentes da força publica. A cavallaria, sobretudo, teve seu quinhão. No Bom Retiro e Ponte Pequena os grevistas formaram verdadeiras barricadas de onde alvejavam, num fogo certeiro e vivo, os inconscientes e militarizados defensores do Estado e do capitalismo, principio e causa de sua
própria desgraça”.210
3.1.2. Tentando organizar o caos: o Comitê de Defesa Proletária e a Comissão de Jornalistas
Era preciso por um fim ao caos. Do lado dos trabalhadores, estava o Comitê de Defesa Proletária (CDP). Para tentar organizar as reivindicações dos grevistas, decidiu-se no dia 9 de !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
seria atingido, se, em consequencia de uma rasteira de um grevista, não cahisse ao chão, ficando ao abrigo das balas. Na queda, essa autoridade feriu-se bastante nos joelhos (grifo meu)” (“Noticias diversas: agitações
operarias”. O Estado de São Paulo, 10 de julho de 1917). No dia seguinte, relatando a morte de Martinez: “O
desventurado Martinez foi ferido por uma das muitas balas que os agitadores dirigiam aquelas autoridades proxima da qual esse moço permanecia, não tendo tomado parte no movimento grevista” (“Noticias diversas: agitações
operarias”. O Estado de São Paulo, 11 de julho de 1917). Boris Fausto afirma que a atuação do Estado poderia ser chamada de um conservadorismo ilustrado. Contrapondo-se ao Correio Paulistano, jornal oficial do Partido Republicano Paulista, o Estado marcaria uma distância com o poder (disputa entre concorrentes políticos, segundo Lopreato), se colocando muitas vezes a favor dos anarquistas e indesejáveis, como se verá no decorrer do trabalho. Todavia, a análise da greve do dia 13 de julho mostra que o jornal se mantém igualmente distante dos jornais libertários e dos jornais mais favoráveis aos trabalhadores, como é o jornal O Combate. Para Fausto, atuação de O Combate seria próxima da democracia radical. FAUSTO, Boris. Trabalho Urbano e Conflito Social.!
209 “Noticias diversas: agitações operarias”. O Estado de São Paulo, dia 13 de julho de 1917.!
! )&! julho pela criação de um Comitê, composto na maior parte por anarquistas já conhecidos por seu trabalho de agitação no meio operário. Eram eles Edgard Leuenroth, Luigi Damiani, Rodolfo Felipe, Francesco Cianci, Antonio Nalepinsky, José Sarmento Marques, Antonio Candeias Duarte, Florentino de Carvalho, Silvio Antonelli, Giuseppe Sgai e Theodoro Monicelli. Aliou também as ligas operárias de bairro, as corporações em greve e associações sociais e, mesmo com proibição de reuniões públicas, conseguiu reunir 3000 pessoas em um meeting na Praça da Sé.
No dia 12 de julho, o Comitê de Defesa Proletária publicou nos jornais as reivindicações decorrentes da reunião: liberdade para os detidos por causa da greve, respeito ao direito de associação, abolição do trabalho infantil, abolição do trabalho noturno para os menores e mulheres, aumento dos salários, pagamento pontual, jornada de 8 horas, acréscimo de horas extraordinárias e garantia do pleno emprego. Ainda, barateamento dos gêneros de primeira necessidade, fim da especulação, fim da adulteração dos alimentos e a redução do preço dos aluguéis.211 Na nota, afirmavam que todos os trabalhadores parariam definitivamente a menos que as reivindicações fossem satisfeitas.212 Polícia e governo já não nutriam simpatias pelos integrantes do Comitê, mas após a publicação o CDP ficou marcado como centro de agitação. Entretanto, naquela situação não havia escapatória, ao menos imediatamente era preciso negociar com os “líderes anarquistas”. Neste momento, o Comitê era o canal de acesso com os trabalhadores, o único capaz de conter a turba. Algo bem diferente do que seria divulgado algumas semanas depois, uma imagem do CDP como foco de agitação anarquista, o único responsável pela greve.
As reivindicações do Comitê de Defesa Proletária foram apresentadas a todos, patrões, governo e polícia. Governo e polícia se ofereceram para ajudar nas negociações, mas os grevistas !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
211 Divulgado em “Noticias diversas: agitações operarias”. O Estado de São Paulo, 12 de julho de 1917.!
212 São Paulo já vivia os momentos de tensão posteriores a morte de Martinez, mas se ainda restava alguma coisa em funcionamento, com a publicação das reivindicações a cidade parou de vez, era a greve geral declarada.
! )'! e o Comitê se negavam a esta intermediação. Thyrso Martins e o Secretário de Justiça, Eloy Chaves, chegaram a fazer algumas tentativas de conciliação, mas apesar de terem sido elogiados pela imprensa oficial, não foram bem sucedidos.213 O fato de afirmarem não poder ajudar muito em relação aos açambarcadores e ao preço dos aluguéis contribuiu para a recusa, mas o descrédito vinha de longe, desde há muito a polícia era vista como órgão defensor dos industriais. Por sugestão do diretor do jornal O Combate, uma comissão de jornalistas foi formada para servir de canal de comunicação entre grevistas, Comitê de Defesa Proletária e patrões. A Comissão de Imprensa foi formada por representantes de todos os jornais publicados na cidade: Correio Paulistano, Jornal do Commercio, Fanfulla, Diario Popular, O Combate, Piccolo, Capital, Nação, Diario Español e Estado de São Paulo.214 Juntamente a ela o Comitê de Defesa Proletária escolheu seis de seus membros para negociar diretamente com os industriais: Leuenroth, Damiani, Cianci, Candeias Duarte, Rodolpho Felipe e Monicelli. O governo deu garantias aos membros do Comitê para participar das negociações, mas isso não impediu que dois de seus membros fossem presos antes de começar a reunião, o que causou interrupção nos entendimentos e adiou a negociação.215 Os industriais escolheram seus representantes e o governo participava com o presidente do Estado, o Secretário de Justiça e Segurança Pública e o prefeito municipal.
Os jornalistas conseguiram o que o governo de São Paulo havia tentado sem sucesso. Por reunir jornais governistas e pró-operários, puderam assumir uma posição neutra, capaz de
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213 Nota do Secretário da Justiça publicada no dia 12 de julho: “O Dr. Eloy Chaves, Secretário de Justiça, reuniu
hoje em seu gabinete os principais industriais desta capital com os quais conversou sobre a gréve ultimamente declarada em várias fábricas. Depois de duas horas de conferencia s. exa. obteve de todos os presentes a promessa formal de examinarem as reclamações dos seus operarios. O dr. Secretario de Justiça procurou e procura ouvir as delegações dos operarios das varias fabricas afim de poder entender-se em definitivo com os industriais. É preciso, pois, que os operarios, com espírito calmo, apresentem, por delegação que escolherem, as reclamações que