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STRAFFANSVARET ETTER LIGNINGSLOVEN KAPITTEL 12 OG

É fundamental para o presente trabalho apresentar um breve histórico da região em que Passo Fundo está inserida, pois um dos objetivos centrais é esclarecer o processo de seleção da história e da memória (bem como suas relações) e como essa operação seletiva realizada por determinados grupos durante as comemorações de seu centenário contribui para a afirmação do imaginário da cidade como capital do planalto. Essa seleção dos lugares, dos sujeitos e acontecimentos, realizada entre 1900 e 1950 revela parte dos elementos que vão ser celebrados como a história oficial do município em 1957. A partir de uma revisão bibliográfica de uma historiografia recente e crítica, é possível perceber o que não figura como característica do imaginário atribuído à cidade naquele momento.

Nesse sentido, a história local pode ser percebida como ponto de partida para compreender as transformações que ocorriam no Rio Grande do Sul e no Brasil, pois uma cidade não se encontra isolada de um contexto histórico nacional e mesmo internacional. Por isso falar em "ocupação" do planalto, uma vez que Passo Fundo, enquanto vila, e depois município, apenas começa quando grupos de luso-brasileiros começam a chegar no norte do estado e fundar fazendas e postos avançados para dar assistência a novas rotas para passagem de tropas de animais nas primeiras década do século XIX. Chamado por muitos de "terra de ninguém" (SILVA; BARCELOS, 2009, p.63), o planalto rio-grandense foi considerado um espaço vazio entre o século XIX e o XX, o que justificava sua ocupação por europeus e seus descendentes.

No entanto, não se pode deixar de considerar que as populações indígenas, ou seja, os primeiros habitantes da região, construíram espacialidades e paisagens particulares, sobre as quais novos elementos e diferentes significados foram atribuídos a partir da introdução de elementos europeus, como, por exemplo, o gado, as missões jesuíticas e a ação dos bandeirantes e dos tropeiros. (SILVA, BARCELOS, 2009, p.63).

Desde o período colonial, diferentes interesses movimentaram a ação de variados grupos, como os jesuítas espanhóis que buscavam a evangelização das populações indígenas, dos portugueses com interesses econômicos e políticos na

ocupação daquelas terras. "Nesse contexto, a região dos Campos de Cima da Serra formou um bolsão, o qual foi tardiamente foco das intenções coloniais." (SILVA; BARCELOS, 2009, p.64). No território onde se encontra Passo Fundo, no planalto médio, também conhecido como Campos de Cima da Serra, os interesses que levaram a sua conquista eram variados: a abundante mão-de-obra indígena (caingangues e guaranis), os recursos naturais, como erva-mate e madeira, a posição estratégica, que era mais uma possibilidade de contato e comunicação entre o centro do país e o sul do continente e assegurar as fronteiras brasileiras no extremo sul do país. (KUJAWA, 1998, p.56).

Conforme Golin (2007, p.66) explica, a região onde se estabeleceu o povoado que viria a se tornar Passo Fundo combinou uma expansão, ou seja, "o deslocamento de população para o território indígena, repondo o modo de produzir e viver (no caso, as estâncias etc.)" e uma frente pioneira, "que igualmente transferiu à espacialidade indígena populações de alguma forma reconhecidas pelo Estado colonial ou brasileiro, porém tensionando uma nova sociabilidade [...]". Ainda acrescenta o autor: "são características da frente pioneira as grandes campanhas de usurpação caingangue/guarani promovidas pelos governos imperial e provincial." (GOLIN, 2007, p.66). Os caingangues, grupo que habitava a região do planalto médio rio-grandense quando chegaram os primeiros colonizadores luso-brasileiros, foram varridos junto com as matas que ocupavam e de onde tiravam seus sustento. (GOLIN, 2007, p.67).

Os caingangues que habitavam essa região resistiram a esse processo de expropriação de suas terras. Mas a política provincial, e posteriormente imperial, foi brutal e implacável. Termos como "amansamento" ou "faxinação", usados em documentos oficiais, ou expressões como "ordinários" e "indolentes", usadas por lideranças políticas e militares para classificar os caingangues (GOLIN, 2007, p.67-71), mascaravam a intenção de um verdadeiro genocídio. Xavier e Oliveira (1990b, p.77)8 descreve os "índios coroados" (caingangues) como uma "calamidade", "malfeitores sinistros" e "horda de celerados" que acabaram "trucidados sem piedade" por grupos armados em represália à sua resistência frente à ocupação de seu território. Depois disso, o governo provincial começou a empreender a "catequese destes selvícolas, aldeando-os em diferentes pontos da região." (XAVIER E OLIVEIRA, 1990b, p.78).

8 Obra publicada originalmente em 1908 pela Livraria do Globo, em Porto Alegre, com o título Annaes do

Passo Fundo assume "o ponto estratégico irradiador desse extermínio civilizante [...], que, de um pequeno reduto, desenvolveu-se como sede colonizadora e local de aldeamento." (GOLIN, 2007, p.72). Esse extermínio das populações nativas acompanhou o assentamento dos primeiros povoados na região do planalto médio sulino. Ramos (2006, p.443) aponta que ao longo do século XIX é que a "marcha das cidades foi se deslocando mais para o norte, subindo o planalto e ocupando espaços ainda disponíveis", que não haviam sido ocupados por europeus e seus descendentes. Para Souza (2000a, p.32), a partir do século XIX é que essa região começou a ser ocupada e o eixo de urbanização foi deslocado para a direção do norte, quando foram surgindo "Cruz Alta, Passo Fundo, Lagoa Vermelha e Palmeiras das Missões", que continham campos também propícios à criação de animais. Rückert (1997, p. 28) indica a presença de milicianos paulistas com seus escravos, nativos e caboclos no início do século XIX, embora refira-se à presença desses últimos já nos séculos XVII e XVIII:

Os caboclos encontram-se presentes nas matas e nos ervais desde o final dos séculos XVII e XVIII. Com atividades extrativistas nômades junto aos ervais, raramente se fixam, deslocando-se sistematicamente em busca de novos ervais. Como os milicianos ocupam grandes extensões de campo, os caboclos permanecem excluídos do acesso à terra. (RÜCKERT, 1997, p.28).

A palavra caboclo "denominou, ao longo do tempo, aquele trabalhador livre que viveu da natureza, da terra pública, e nela circulava, até 1850, em posse legal, a partir de quando foi enxotado legalmente por pretendentes mais poderosos." (MARTINI, 2006, p.155). Eram andarilhos nas terras devolutas, caçavam, pescavam, retiravam do solo seu sustento, eventualmente trabalhando em roças, na derrubada do mato e cuidando de rebanhos. "Caboclos, assim como a nomeação de grupos indígenas diversos (índios, bugres, mestiços), são generalizações dissolventes de identidades e diferenças entre sujeitos que partilhavam um mesmo espaço e condição." (MARTINI, 2006, p.155). Como destaca Avila (1996, p.72):

Se, em relação ao indígena, o principal pretexto para expropriação era o da necessidade de expulsar e mesmo eliminar os índios por serem "rebeldes" e negarem-se em submeter-se ao "branco civilizador", em relação ao caboclo o argumento básico era o de ser este um "intruso", sem título que o habilitasse à posse e usufruto das terras e matas.

Essa expropriação é tanto material, com indígenas e caboclos expulsos das terras que forneciam sua subsistência, como simbólica. "Na verdade os paulistas, na maioria

curitibanos, além das terras e dos cargos públicos, monopolizaram as páginas da História dos primeiros tempos da cidade e do município de Passo Fundo." (AVILA, 1996, p.75).9 Esse grupo é praticamente inexistente, com pouquíssimas menções, nas obras de cunho histórico-literário publicadas em homenagem ao centenário passo- fundense. Porém, foram sujeitos históricos que marcaram presença na região do planalto médio rio-grandense. A obra poética, O Puchirão do Gé Picaço, de Julio Simão (1925), tece uma narrativa sobre o modo de vida do caboclo do planalto, de uma forma idílica, em contraposição ao habitante da cidade, como se sua simplicidade e honestidade estivesse em contraste com a vida urbana, ou mesmo à margem dela. Martini (2006, p.157) indica que o espaço desse grupo entre fins do século XVIII e XIX foram as "florestas e ervais de Cruz Alta, Palmeira das Missões, Soledade, Passo Fundo e Campo Novo."

Os milicianos paulistas começaram a fixar as primeiras estâncias quando o tropeirismo (transporte de animais - mulas, gado, entre outros) tomou vulto. Desde o século XVII, eram transportados animais do sul do país para regiões mineradoras no centro, passando por Sorocaba em São Paulo. Essa atividade foi crescendo e, durante fins do XVIII e em início do XIX, novos caminhos foram abertos pelo planalto médio (antes disso, a maior parte das bestas eram levadas por caminhos litorâneos). Nesse contexto, Passo Fundo e outras vilas são estabelecidas. Havia, portanto, diferentes sujeitos envolvidos na ocupação dessa localidade do planalto. Os nativos, indígenas caingangues, reagiram à invasão do espaço e, por isso, vão sendo paulatinamente aldeados "a fim de não perturbarem a vida e o trabalho dos novos demandantes do território." (RÜCKERT, 1997, p.28).

Caboclos que dedicavam-se "à faina da coirama, abate do gado chucro para retirada de couro" que era negociado com mercadores itinerantes (além do couro tiravam carne para consumo próprio) e a extração da erva-mate também sofreram golpe com a ocupação do planalto (AVILA, 1996, p.35). Para Miranda e Machado (2005, p.19), os caingangues e os caboclos "reagiram à chegada no início do XIX, de tropeiros, militares, fazendeiros e imigrantes." Trabalhos de reconstituição histórica, que, em muitos casos, têm Xavier e Oliveira como uma referência, acabam "vinculados à

9 Foi ignorado, por exemplo, que a economia colonial camponesa se adaptou às condições naturais da

região, incorporando técnicas dos caboclos que já habitavam o planalto. Maestri (2010, p.131) menciona a prática da "coivara", que consistia na "abertura de clareiras na floresta através da utilização do fogo e da rotação de terras, até seu esgotamento." Técnica rudimentar, mas necessária devido à condição econômica disponível e ao relativo abandono de caboclos e dos primeiros colonos que se estabeleceram nas florestas do planalto.

valorização de determinados grupos étnicos-raciais", como os missionários jesuítas, luso-brasileiros e, posteriormente, os imigrantes alemães e italianos (DIEHL, et. al., 2001, p.84).

Com o tempo, muitos caboclos acabam abandonando seu estilo de vida nômade e passam a ser empregados nas fazendas ou mesmo nas pequenas vilas. Os escravos constituem a força de trabalho pesado nas vilas e fazendas que foram surgindo atreladas ao transporte de animais para a mineração. Zarth (2006, p.194) define as atividades dos escravos no interior das estâncias em três categorias: "roceiros, campeiros e domésticos." Os roceiros lavravam a terra, encarregados de trabalhos agrícolas, o campeiro realizava o trabalho pastoril, e o doméstico (em maioria mulheres) cuidavam da casa. Entre 1827-1828, estabeleceu-se no território que viria a ser Passo Fundo o miliciano Cabo Manoel José das Neves, "que solicitou e recebeu uma área de terras de quatro léguas quadradas, correspondente a 17.724 hectares" (MIRANDA; MACHADO, 2005, p.22), fundando uma fazenda pastoril. O lugar em que o Cabo Neves se estabeleceu daria origem a um pequeno povoado, usado por tropeiros e viajantes (BATISTELLA; KNACK, 2007, p.47) como paragem para descanso e abastecimento de mantimentos necessários para continuar a viagem rumo a São Paulo ou a outros centros comerciais.

Maestri (2010a, p.215-218) demonstra que o cativo africano foi introduzido no território sulino antes mesmo da fundação oficial da capitania, foi presença constante nas fazendas e estâncias pastoris e ignorado pelo que classifica como "historiografia tradicional", que construiu uma história onde o escravo ocupa função complementar no pastoreio. Em Passo Fundo, o Cabo Neves, quando estabeleceu sua fazenda, trouxe um contingente de escravos consigo (AVILA, 1996, p.51). Embora em determinados escritos de Xavier e Oliveira (1990b, p.83) os escravos sejam mencionados, seu papel na história da produção econômica do município é ignorado. Essas menções não atribuem grande importância ao cativo e nem exploram as formas de trabalho degradantes e violentas a que eram submetidos: "no Rio Grande do Sul, o passado escravista foi simplesmente negado." (MAESTRI, 2002, p.186).

De uma forma geral, o que é possível notar nessa construção historiográfica é o que Maestri (2002, p.192) chama de "mito da democracia pastoril", onde escravos, trabalhadores livres e até mesmo familiares de fazendeiros conviviam lado a lado. Dados estatísticos indicam um número considerável de escravos em Passo Fundo, como demonstram os dados do recenseamento populacional de 1859 mencionados por

Rückert (1997, p.88). De acordo com esse dados, o município possuía uma população total de 8 221, com 6 389 livres, 133 libertos e 1699 escravos. Boa parte desses escravos trabalham em fazendas que não seguem "os moldes tradicionais da província; trata-se de uma pecuária praticada em campo sujo, mesclada com o comércio de mulas dirigido para as feiras de Sorocaba, Itapetinga, etc." (RÜCKERT, 1997, p.89). Os cativos realizam as atividades descritas por Zarth, trabalhando como roceiros, campeiros e domésticos.

De acordo com Zarth (2006, p.190), a ocupação das terras do planalto e do norte do estado estava inserida em um projeto de distribuição de terras devolutas, associado com a imigração de colonos europeus a partir do início do século XIX. Moure (1980, p.94) e Maestri (2010, p.128) indicam que esses colonos, inicialmente, rentabilizaram terras imprestáveis ao latifúndio destinado à criação de gado, garantindo renda à economia da província através de impostos cobrados das pequenas propriedades. Essa ocupação da serra e do planalto, realizada nessa primeira leva por imigrantes alemães, também tinha como objetivo povoar essa parte do estado, levando os colonos ao confronto com índios e caboclos nativos, indesejáveis na ocupação do território. Ao promover o povoamento daquela região, também era construída uma linha de defesa contra possíveis invasões estrangeiras. Como resultado, proliferaram-se pequenas propriedades nessa região das florestas do planalto rio-grandense, permanecendo os campos do sul com uma ocupação baseada no grande latifúndio.

Ocorre que a "ocupação das terras florestais pelos colonos europeus retirou o espaço dos lavradores nacionais, que tinham nas matas uma alternativa de sobrevivência" no extrativismo e na agricultura de subsistência. (ZARTH, 2006, p.207). A promulgação da Lei de Terras de 1850 intensificou esse processo de expropriação das terras ocupadas por caboclos e nativos, levando a conflitos entre os colonos e esses grupos durante a década de 1860. Esse processo de ocupação acentuou a tendência na formação de latifúndios na região do planalto em torno do futuro município de Passo Fundo. (BATISTELLA; KNACK, 2007, p.51). Embora conflituoso, foi relativamente fácil expropriar as terras desses grupos de caboclos que viviam dispersos por todo o norte do estado:

Aos fazendeiros era fácil aumentar seus latifúndios fosse pelo apossamento, fosse por supostas compras de direitos de posse. Com o dinheiro e a influência de que dispunham, conseguiam "legalizar" a propriedade, inclusive quando ela estava ocupada por roceiros e ervateiros. Os juízes comissários de terras encarregados de medir e legitimar as posses e aquisições trabalha em

favor da oligarquia latifundiária. Alguns medem terras para si próprios e seus familiares. (AVILA, 1996, p.74).

Ortiz (2007, p.83) destaca que nesse processo de aquisição da posse da terra não havia necessidade de comprovar que os campos não eram habitados. Dessa forma, se consolidou a ocupação da terra na região de Passo Fundo e a formação de seu núcleo urbano. Entre fins de 1820 até a década de 1850, o povoado permanecia uma pequena vila, com grande parte de seu núcleo localizado entre o bairro Boqueirão, ao longo da Estrada das Tropas e a Rua do Comércio (futura Avenida Brasil). A economia passo- fundense era baseada no "comércio de exportação", especialmente de mulas, erva-mate e pedras preciosas. (AVILA, 1996, p.104). O trigo começava a ser cultivado nesse momento, porém, "tal como nas demais áreas do estado, a lavoura, aqui, ainda era inconsistente pela precariedade da técnica de cultivo, do crédito e da comercialização." (KALIL, et. al., 1998, p.47). Com base nessas atividades econômicas, o núcleo urbano se assentou e começou a se desenvolver. Após a emancipação, várias novas ruas são criadas, demonstrando o crescimento urbano da localidade.

Em 28 de janeiro de 1857, Passo Fundo emancipa-se de Cruz Alta e a 'Freguesia' passa à condição de "Vila de Nossa Senhora da Conceição do Passo Fundo". Em 7 de agosto, data em que se comemora a emancipação, tomam posse os primeiros vereadores, sendo eleito o primeiro presidente da Câmara Manoel José de Araújo. (MIRANDA; MACHADO, 2005, p.32).

Conforme Miranda e Machado (2005, p.34-35) indicam, ruas como a Moron, Uruguai, importantes vias da cidade, nasceram a partir da emancipação política. Outras foram prolongadas, com novos trechos abertos. A extensão do município abrangia uma vasta área, que forma hoje "os municípios de Soledade, Guaporé, Erechim, Carazinho, Getúlio Vargas e parte do município de encantado." (VERZELETTI, 1999, p.19). A Guerra do Paraguai, entre 1865-1870, prejudicou o desenvolvimento de Passo Fundo. "Em uma população de cerca de nove mil indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades foram recrutados 2.154 homens capazes de marchar para o campo de batalha." (AVILA, 1996, p.103). Passada a guerra, que afetou a força de trabalho e o crescimento da cidade naquele momento, a economia local começaa mostrar sinais de recuperação a partir de um novo fator de crescimento populacional (inicialmente imigração alemã e depois italiana) e da diversificação da economia. A madeira, anteriormente apenas explorada por luso-brasileiros para consumo próprio, na construção de suas casas, passa a ser comercializada, bem como se inicia a "engorda de suínos para banha, com base na

produção de milho e no aproveitamento de frutos silvestres abundantes, como o pinhão e o butiá." (AVILA, 1996, p.106).

Também ocorre uma retomada dos fluxos imigratórios, interrompidos, tanto em função da Guerra Farroupilha (1835-1845) como da Guerra do Paraguai. Moure (1980, p.96) e Kühn (2004) definem o período de 1840-1870 como segunda etapa da imigração alemã, caracterizada por uma expansão do comércio, pois a produção de excedentes agrícolas estimulou as trocas comerciais, "surgindo a figura do comerciante de origem de alemã, que passou a acumular as riquezas da produção colonial." (KÜHN, 2004, p.91). Logo esses comerciantes alemães passaram a acumular capital suficiente para investimentos em atividades industriais, como cervejarias, fábricas de calçados, olarias, curtumes, entre outras. (KÜHN, 2004, p.92). O principal meio de riqueza desses comerciantes era o controle dos meios de transporte, que permitia comprar produtos agrícolas por um preço baixo de pequenos produtores e revender o produto nos centros urbanos por um preço mais alto. A terceira fase da imigração alemã aprofunda esse processo, pois ocorre uma especialização da agricultura voltada ao comércio e à ampliação do mercado consumidor para o centro do país. (MOURE, 1980, p.96).

A partir de 1875 tem início o fluxo de imigração italiana no Rio Grande do Sul, intensificando-se mesmo a partir de 1876 e 1877, "com a vinda de três a quatro mil pessoas por ano à província." (CORREA; BUBLITZ, 2006, p.70). De acordo com Frozi e Mioranza (2009, p.69), a imigração italiana na região de abrangência de Passo Fundo ocorre entre 1892-1900, mas com migrações internas de italianos que já haviam chegado ao estado entre o período de 1880-1920. Avila (2001, p.21) indica que o maior afluxo de italianos para o município ocorreu com a instalação da estrada de ferro em 1898, uma linha que ligava o Rio Grande do Sul a São Paulo. Esses imigrantes se dedicaram a diferentes atividades, como olaria, construção civil e moinhos de trigo, milho e erva-mate. (FONSECA, 2007, p.124).

Porém, esse novo impulso de crescimento populacional e econômico é tolhido por uma nova guerra, a revolução de 189310, da qual só se recuperaria a partir da instalação da estrada de ferro em 1898, que impulsionou atividades agrícolas, industriais e atraiu novos moradores para o município e região. "A partir de Santa Maria a ferrovia

10 A revolução de 1893 envolveu o confronto entre dois partidos políticos, o Partido Federalista,

hegemônico até a proclamação da República, e o Partido Republicano Rio-grandense, que alcançou o poder com o novo regime. Em Passo Fundo, haviam duas lideranças importantes de cada lado, Prestes Guimarães, federalista, e Gervasio Lucas Annes, republicano. No município ocorreram importantes batalhas, em particular a batalha do pulador, que foi decisiva, pois a partir desse combate o conflito foi se encaminhando para o final, com a ascensão do PRR ao poder. (MIRANDA; MACHADO, 2005, p.44).

estendeu-se em direção ao norte, chegando a Cruz Alta em 1894 e a Passo Fundo em 1898. Em 1910 foi estabelecida a ligação com São Paulo." (JACOMELLI, 2011, p.23). Essa conexão, entre o centro do estado, Porto Alegre e São Paulo, impulsionou a economia, o crescimento populacional e urbano:

A década de 1910 pode ser considerada a Belle Époque tardia passo- fundense. É lembrada como a época em que a cidade encontrou a sua modernidade: as ruas se iluminaram com a substituição do lampião a querosene por lâmpadas elétricas; a rede telefônica encurta distâncias; a instalação do primeiro banco agiliza o comércio; o primeiro cinema encanta os habitantes, e, entre outros movimentos, a área urbana adquire uma nova paisagem com a construção de hotéis e a inauguração de uma prefeitura "nova", além da implantação dos trilhos, que a partir de então ligariam o Rio Grande do Sul, via Passo Fundo, com São Paulo e o resto do país. A Avenida Progresso, nomeada em 1913, incorporava o espírito daquela época. (MIRANDA; MACHADO, 2005, p.49).

As primeiras décadas do século XX são marcadas por essa modernização do espaço urbano que modifica o cotidiano dos munícipes, introduzindo novas formas de sociabilidade, acelerando a vida dos passo-fundenses. Essas transformações eram