A definição deste indicador partiu da Avaliação da dimensão metodologia nos tempos formativos.
Retomando um pouco o que foi dito, a principal metodologia utilizada pelo Programa Residência Agrária é a Pedagogia da Alternância, onde intrínseco a esta surgiram as diversas atividades desenvolvidas no Tempo Universidade (comentadas anteriormente) e a Metodologia Analise Diagnóstico dos Sistemas Agrários (MADSA) que foi trabalhada no período de 2007 a 2009 no Tempo Comunidade. A MADSA surgiu na 3ª Turma e permaneceu até a 4ª Turma. Muitas dificuldades se apresentaram em relação a esta metodologia: prazos para cumprir etapas, exigência de tempos maiores para seu desenvolvimento, pouco conhecimento dos professores em relação ao método o que consequentemente comprometeu as orientações, necessidade de acompanhamento frequente por parte dos estudantes, frequentes visitas aos assentamentos. Em relação a isso a Gestora relatou que:
A Metodologia Analise Diagnóstico dos Sistemas Agrários tem a finalidade de instrumentalizar os passos metodológicos das pesquisas dos estudantes nos assentamentos. O processo de aplicação da metodologia ele foi compreendido por muitos estudantes e por outros não. O uso da metodologia é uma experiência muito rica e aqui no CCA nós temos pouquíssimas disciplinas que trabalham os alunos para atuarem com metodologias, temos cursos que nem atuam nessa perspectiva. Nós começamos a pensar que essa metodologia poderia ser um caminho para construir uma compreensão de construção de diagnósticos. Então seguindo os passos da metodologia no final você vai ter um diagnóstico dos assentamentos, e com esses diagnósticos nós vamos pensar a nossa forma de intervir nessas realidades. Esse era o grande sonho da gente, mas nós tivemos muitas dificuldades no processo. Por exemplo, nós não tivemos um debate constante entre professores e estudantes, nós percebemos no processo de que cada etapa poderia ter sido mais trabalhada (GESTORA 2).
Nesse sentido, para o sucesso no desenvolvimento de uma metodologia no PRA é preciso que se leve em consideração as dimensões citadas anteriormente relacionando as atividades ou passos metodológicos com o tempo em que cada estudante terá para realizar suas vivências nos assentamentos.
Diante das dificuldades, o Programa decidiu atuar nos assentamentos dando continuidade a Pedagogia da Alternância e buscando outras estratégias de atuação sem o uso da MADSA. A ideia é promover uma intervenção que tenha objetivos
comuns a MADSA, mas que não conserve o formato de cumprir etapas e que todos consigam desenvolver trabalhando em suas pesquisas conforme as exigências e tempo de cada realidade.
Sobre o entendimento da MADSA os estudantes apresentaram os seguintes depoimentos:
Na teoria dá para entender bem, as dificuldades surgem na hora de desenvolver em campo, pois exige conhecimentos amplos e experiência, principalmente para realizar um trabalho participativo. Muitos conhecimentos são necessários quando se tem real compromisso com os povos do campo (ESTUDANTE DA GRADUAÇÃO 5).
Eu tenho dificuldades de desenvolver apesar de compreender, e essa dificuldade é por que a metodologia exige muito tempo para ser desenvolvida, envolve também a questão do acompanhamento em cada etapa [...] A Desvantagem é que exige muito tempo para ser aplicada, então com a própria universidade exige muito do estudante, ele não pode ir com tanta frequência ao campo. A vantagem é que possibilita o estudante ter um olhar ampliado sobre a realidade complexa dos assentamentos, e favorece a aproximação com as comunidades por que traz os assentados para refletir junto aos estudantes a realidade de cada área e nesse sentido eles se veem, veem o seu lugar e ao final é possível discutir o potencial de cada área e quais políticas públicas devem ser pensadas para cada área (ESTUDANTE DO MESTRADO 1).
Em relação à realização das vivências, considerando a Pedagogia da Alternância foi comentado:
Em campo a concretização da metodologia acontece espontaneamente, basta iniciar a vivência para análises e o entendimento da realidade fluírem (ESTUDANTE DA GRADUAÇÃO 6).
Na Pedagogia da Alternância nem sempre é possível realizar o tempo comunidade, por questões de tempo (ESTUDANTE DA GRADUAÇÃO 7). A pedagogia da alternância eu entendo bem e acredito que o tempo comunidade é um tempo pra ouvir, pra olhar, pra conviver, pra vivenciar a realidade das famílias e que o tempo universidade é para refletir sobre a realidade vivenciada, sem isso essa metodologia não se configura como pedagogia da alternância, por isso os tempos tem que estar conectados, eles não podem ficar separados (ESTUDANTE DO MESTRADO 1).
O PRA tem trabalhado com a pedagogia da Alternância e a MADSA, mas os estudantes estão meio perdidos atualmente por que quando vão a campo não sabem o que devem fazer lá. Além disso, o tempo está se alargando muito para que os estudantes vão aos assentamentos, eles estão demorando muito para ir a campo. Eu vejo que a MADSA está deixando de ser uma metodologia do PRA, não tem agora uma metodologia definida para os estudantes trabalharem no Tempo Comunidade (ESTUDANTE DO MESTRADO 2).
Pra gente fazer alternância a gente tinha que ter bem definido o que fazer em cada tempo, a dificuldade é saber o que fazer na etapa da vivência (ESTUDANTE DA GRADUAÇÃO 1).
Analisando os relatos avaliou-se que alguns estudantes tem a demanda de ter metodologias definidas para desenvolver as atividades no Tempo Comunidades, apesar das dificuldades com a MADSA os estudantes demandam um método para a realização das vivências como retratado nas falas dos estudantes do Mestrado 2 e da Graduação 1.
Sobre a questão do método ou do saber o que fazer, as Gestoras comentaram:
Nós temos muita clareza das nossas atividades, a gente acredita que o estudante, ele vai estudar, vai aprofundar os conhecimentos dele aqui na universidade e depois ele vai lá para o campo vivenciar aquela realidade e vai refletir sobre ela, e ele vai dialogar com as pessoas para compreender melhor e vai fazendo esse exercício de pensar aquela realidade (GESTORA 2).
A gente trabalha com a Pedagogia da Alternância onde os estudantes tem um tempo de campo e um tempo na universidade que é o que a gente chama de Tempo Comunidade e Tempo Universidade, esses tempos são intrinsecamente ligados não dá para fazer um sem o outro e se um só deles for feito e outro não fica faltando alguma coisa. Por exemplo, o estudante vai para o campo faz a vivência e depois ele tem a oportunidade de socializar essa vivência, de criar artigos ou trabalhos científicos a partir disso, se ele não faz a vivência como vai fazer essas atividades que são feitas aqui na universidade no Tempo Universidade. Essa é uma forma de sistematizar a experiência que ele teve, eu considero que isso é um dos passos para a transformação por que eles também estão exercitando o poder de falar, de debater, de interagir com os outros, de problematizar as percepções que tiveram, por que a gente não quer somente um relatório escrito, a gente quer ver o aluno pensar sobre aquilo que ele viveu, sobre esse mundo que muitos ainda não conheciam que é o Campo, isso é muito importante para nós (GESTORA 1).
Nesse sentido, a Pedagogia da Alternância abre muitas possibilidades de aproximação da realidade de vida no campo, por isso a metodologia é importante quando se deseja alcançar outro modelo de educação, como está explicito nas falas seguintes:
Nós temos que garantir metodologias que garantam autonomia dos estudantes, que reconheça a educação do campo como algo pertinente ao nosso trabalho (GESTORA 1).
As metodologias desenvolvidas no Residência nos levam a conhecer e compreender o campo e o camponês em suas especificidades (ESTUDANTE DA GRADUAÇÃO 6).
Talvez a necessidade de ter um “método” a seguir, seja um reflexo da formação convencional. O “método” mencionado pelos estudantes foi compreendido
como passo a passo ou como um roteiro a ser cumprido. Apesar da autonomia que os estudantes demonstraram ter conquistado no Tempo Universidade o Tempo Comunidade não tem funcionado da mesma forma. Ressalta-se que as atividades desenvolvidas no Tempo Universidade são realizadas em equipe e esse pode ser um fator que tem favorecido o desempenho das atividades na universidade. Além disso, a fluidez das atividades no Tempo Universidade corresponde à facilidade no acesso ao PRA por estarem próximos de suas salas de aulas. Então, as atividades são realizadas entre uma aula e outra ou nos horários em que não estão acontecendo aulas.
Um limite percebido em relação à Pedagogia da Alternância está relacionado à dificuldade em encontrar datas para realizar as vivências:
Uma das dificuldades são as idas a campo por que o aluno dentro do Residência Agrária é também estudante de um Curso do CCA então ele tem que conciliar aulas, trabalhos, prova e viagens das próprias disciplinas às atividades do PRA. Nós temos duas grandes viagens no ano que são os dois períodos de férias, mas a gente incentiva as idas a campo nos feriados prolongados e nas férias pelo menos 10 dias consecutivos nos assentamentos (GESTORA 1).
Nesse sentido, avaliou-se que a metodologia escolhida pelo PRA envolve temas fundamentais para a formação o que leva o estudante a conhecer e respeitar as especificidades no campo, além de buscar uma aproximação com esta realidade o método oferece oportunidade de interação entre sujeitos. No entanto, o tempo tem sido uma questão que tem se apresentado como dificuldade de realizar plenamente as vivências durante as aulas o que pode ser compensado nas férias conforme a fala da Gestora 1.