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• O primeiro ponto a notar diz respeito à heterogeneidade dos alunos; os educadores são unânimes em afirmar que os alunos encontram-se em níveis muito diferenciados de progresso e capacidade intelectual. Era de se esperar porque o Projeto envolve pessoas que se enquadrariam em níveis que vão da 4a série à 8a série do Ensino Fundamental

• Outra unanimidade diz respeito ao baixo nível de leitura, escrita; no geral, os professores denunciaram muita dificuldade na compreensão de enunciados escritos por parte de alguns alunos, o que exige um tratamento diferenciado. Há muitos casos de alunos que não conseguem ler, escrever e/ou expressar-se verbalmente de forma lógica. Isto cobra dos educadores uma ação voltada para o letramento destas pessoas, ainda que não possa ser abandonado aquele aluno que se encontra num nível mais elevado.

• Esta heterogeneidade é atípica para se lidar numa sala de aula porque embora não possamos falar em homogeneidade em qualquer grau ou situação de ensino- aprendizagem, no Projovem esta variação é muito acentuada. Aqui está um dos pontos que cobra atitudes dos educadores que, em geral, eles não estão sabendo dar respostas. Poder-se-ía mesmo perguntar se tais respostas são possíveis...

• O grau de diferenciação acentuada resulta, pelo que observei, num certo nivelamento por baixo das matérias ensinadas, o que causa desconforto e desestimula alguns alunos que estão em nível de 7a ou 8a séries em termos de conteúdos formais de ensino. Na escola Maria Odinilra, por exemplo, um aluno afirmou: “eu tô achando o projovem um pouco fraco”. Eu interpelo perguntando qual é o problema mesmo e ele responde: “as matérias estão muita fracas.. os professores ensinam, mas a matéria, o conteúdo é muito fraco. Eu fazia Eja, quinta e sexta; parei pra vir pro projovem, mas eu achava que o projovem ia ser completamente diferente do que tá acontecendo em sala de aula; eu achava que ia ser uma coisa pra eu aprender mais, mas deixa que está me levando mais prá trás ainda. Eu estava num curso bom e entrei num que... a estatística que o governo fez... eu acho que ele enfeitou muito o projovem porque na televisão passava que o curso ia ter curso profissionalizante, ia ter diploma... mas até agora, já estamos em janeiro, não vou mentir não, já são dois meses de projovem e nada...”

• Nesta fala a contradição de se lecionar numa sala muito heterogênea e com um material que pinça alguns elementos de 5a a 8a série e os joga sem a devida continuidade, aparece cristalinamente. Veja que o aluno faz a comparação com a EJA, afirmando que nesta modalidade de ensino ele é mais desafiado. A subutilização dos potenciais daqueles alunos que estão, por assim dizer, acima da média da turma em termos de conteúdos escolares é uma questão a ser enfrentada sob pena de evasão ou de outros prejuízos para o próprio aluno. Há também que se analisar em termos de perdas que os alunos que estão migrando da EJA ou da Educação Regular para o Projovem — atraídos pela bolsa de cem reais — podem sofrer na sua formação escolar. Sem dúvida, a sobreposição de Educação Regular, EJA, Projovem onde apenas este oferece uma remuneração em dinheiro pode levar a uma migração muito grande de alunos para este programa e isto é um indicador de prejuízo na formação escolar destes alunos. Se com todos os vícios da educação regular, é difícil escolarizar estes jovens proporcionando a apropriação por parte deles dos conteúdos científicos e socioculturais médios necessários, imagine-se num programa com terminalidade definida, isto é, com um ano de duração.

• Em duas das escolas visitadas encontramos os educadores muito satisfeitos com o tipo de relação que foi possível construir juntamente com os alunos. Estes, ao

contrário do que se poderia esperar, são atenciosos e mostram-se amistosos na relação com os professores. Na Escola Godofredo de Castro alguns alunos acompanham professores na saída da escola até a parada de ônibus para dar-lhes proteção contra possíveis atos de violência. Nas Escolas São Rafael e Maria Gondim a relação é, no entanto, um pouco tensa. Há jovens claramente envolvidos com drogas e alguns que já praticaram algum ilícito e foram interpelados judicialmente. Em ambas as escolas professores já foram ameaçados, além de relatarem o comportamento de dois ou três alunos que tentam intimidar as professoras. Na Escola São Rafael há histórico de brigas e desavenças no interior das salas de aula e o atraso das bolsas piorou esta situação porque os alunos atribuem a culpa aos professores. Nesta Escola, os professores demonstravam certo medo nas suas falas.

2.2Avaliação da estrutura física da escola e materiais pedagógicos

• Das quatro escolas visitadas, apenas a Escola Maria Gondim, no Papicu, oferece más condições de funcionamento; as salas são pequenas e não há espaços internos suficientemente grandes para algumas atividades com muitas pessoas. A Escola situa-se numa travessa muito estreita e de acesso dificultado. As outras três escolas funcionam em prédios apropriados, com quadras amplas para esportes e outros eventos, bibliotecas, refeitórios e outras dependências.

• No geral, os educadores reclamam do material pedagógico: ora apontam o problema dos assuntos serem pinçados e não apresentarem seqüência lógica; ora denunciam que não há introdução ou contextualização dos assuntos tratados no livro, como por exemplo a matéria de Inglês que já inicia explorando o verbo To be; ora, falam ainda da linguagem usada que não seria apropriada para o nível médio em que se encontram as turmas. Falaram-me ainda que os conteúdos são superficiais e se se quer aprofundar alguma coisa, mormente nas ciência humanas, é preciso trazer de casa. Se se quer fazer um trabalho melhor, faz-se necessário a utilização de outros materiais, cópias, textos, etc. que são providenciados pelos próprios educadores e com seus próprios recursos.

• Os educadores reclamam que o tempo não é suficiente para desenvolver os conteúdos propostos em cada unidade do manual. Em verdade eles têm de se desdobrar enriquecendo o material, trazendo novas coisas, contextualizando e

tentando fazer os nexos entre os vários conteúdos pinçados em cada matéria e, com isto, o tempo é consumido. Há uma inadequação dos conteúdos propostos, do tempo para execução e da falta de materiais didático-pedagógicos.

• Na escola São Rafael, bem como na Maria Odinilra os professores do projovem têm livre acesso a vários materiais da Escola como fitas de vídeo, livros etc.

• Faltam cadernos, lápis, canetas, borracha para uso dos alunos. Isto foi denunciado como um dos mais sérios problemas que eles enfrentam porque maior parte dos alunos não tem nem pode comprar nenhum destes materiais.

• Quando pergunto sobre o material pedagógico para a Professora Lara que leciona Inglês na Escola São Rafael ela retruca: “sinceramente?” Respondo: sinceramente! E ela retoma a fala: “É... risos... tenho críticas. Exemplo a gente tá pegando alunos com um nível muito baixo; tem alunos aqui que são semi- analfabetos; na minha área de Inglês, começar a primeira unidade com o verbo

To be... o aluno pergunta: o que é verbo? Na primeira unidade tem uma cruzada

para a gente trabalhar os números... não dá pra trabalhar desta forma; tem que contextualizar, introduzir, preparar o aluno para cada assunto, trabalhar com dinâmicas...”. O Inglês deve ser aplicado à vida prática, por exemplo, à atividade do trabalho; tem que interdisciplinar com os arcos de ocupação; mas não é isto que acontece: o livro está preocupado com gramática; toda esta outra parte o professor tem que fazer por fora.

• Isto é uma demonstração de como os conteúdos estão pinçados no livro. Assim, para trabalhar adequadamente talvez seja necessário pensar no alargamento do tempo para cada unidade, para cada aula, bem como fornecer o apoio com materiais extra, textos, copiadoras etc. que não podem ser unicamente de competência do professor.

2.3 A relação com a diretoria da escola e a integração dos alunos do projovem com os alunos regulares

• Nas quatro escolas visitadas a relação com a direção da escola é muito boa. As diretoras colocam à disposição do projovem não apenas o espaço físico, mas outros materiais de biblioteca e multimeios (onde existem).

• Tanto na Escola Godofredo de Castro como na Maria Odinilra mantivemos contato com as diretoras e todas estavam satisfeitas com o projovem e demonstraram um espírito de colaboração recíproca. Na verdade elas vão além disponibilizando materiais e serviços que sequer estão acordados com a Prefeitura.

• A relação dos alunos regulares com os do projovem não deu para ser observada ainda porque quando o projeto começou as aulas da EJA estavam findando. Não houve ainda um espaço de tempo suficiente de convivência entre estes segmentos para que se possa avaliar sua integração. Entretanto, o coordenador do núcleo que funciona na Escola Godofredo de Castro salientou que estes alunos compõem a mesma comunidade e que não há nenhuma dificuldade nas suas relações recíprocas.

• Na escola São Rafael a diretora ofereceu, inclusive, alguns materiais da EJA como fitas etc., para serem utilizados pelos educadores do projovem.