A primeira sessão com João foi de observação lúdica e não havia, portanto, nenhum procedimento estruturado. A sala de atendimento continha somente uma mesa e duas cadeiras. A caixa lúdica estava sobre a mesa, encostada na parede. Dentro dela existiam brinquedos, como: bonecos da família, jogo de damas, varetas, quebra-cabeça, mico, bonecos da família, material gráfico, carrinhos, revólver, bola, massa para modelar, mobiliário de sala e quarto, panelas.
Ao buscar João na recepção me deparei com um garoto alto, forte, que aparentava mais que sua idade, doze anos. Tinha aparência descuidada.
Logo que João entrou na sala de atendimento eu me apresentei, defini dias e horários em que nos encontraríamos, certifiquei-me de que ele sabia quem eu era e o que fazia um psicólogo. Tratei então de alicerçar uma aliança entre nós, deixando claro que só seríamos bem sucedidos em nossa empreitada se ele achasse que isso era possível e se pudesse confiar em mim. João pareceu compreender o que eu dizia e senti que podia perguntar-lhe diretamente sobre a queixa trazida pela sua mãe.
João confirmou o que sua mãe havia dito, alegando não ter nenhuma percepção do que estava ocorrendo quando evacuava na roupa.
João: “É. Eu fico brincando e fazendo alguma coisa e não percebo. Não percebo mesmo.”
Marizilda: “Me explica João, me dá um exemplo de um dia que isto aconteceu.”
João: “Humm... Outro dia, eu tava jogando vídeogame e fiquei, aí minha mãe chegou e falou: ‘você fez, vai já pro banheiro’. Eu fui e tinha feito.”
João negou qualquer sensação ou percepção que fosse sugestiva, ou que lhe indicasse de algum modo que deveria ir ao banheiro.
Minha sensação era de que o menino podia falar sobre o assunto de forma aberta, em nenhum momento ele me pareceu constrangido ou intimidado frente às minhas perguntas ou da abordagem do assunto.
Após essas apresentações iniciais eu informei a João que faríamos atividades variadas durante o tempo em que estivéssemos juntos, e que naquele dia eu havia trazido uma caixa que continha brinquedos e que ele poderia usá-la como quisesse. João prontamente abriu a caixa. Na superfície havia um jogo de varetas, que ele pegou sem explorar o interior da caixa. A seguir, convidou-me para jogar e estabeleceu as regras do jogo, a meu pedido.
João: “Vamos jogar?”
Marizilda: “Vamos. Me diz como que se joga.”
João: “É assim, a gente joga os palitos e tem que tirar sem mexer o outro. Cada um vale um ponto, vamos ler.
(João começa a ler com alguma dificuldade).
“João: O verde vale cinco pontos, o vermelho 10, o amarelo 15, o azul 20 e o preto 50. Vamos jogar?”
Marizilda: “Vamos.”
João: “Quem joga os palito?” Marizilda: “Pode jogar.” ( João joga os palitos) João: “Quem começa”?
Marizilda: “Você quer começar?” João: “Vamos tirar par ou ímpar.” Marizilda: “Eu quero par.”
João: “Eu sou ímpar. Um, dois, três e já! Ímpar, eu ganhei.” (Risos)
Marizilda: “Começa.”
Minha expectativa era que João fosse se comportar como um garoto que quisesse ganhar a qualquer preço e, logo de início, eu percebi que, pelo menos ali,
isso não estava acontecendo. Dei-lhe a ele a oportunidade de jogar as varetas e ele aceitou. Quando novamente permiti que ele começasse o jogo, recuou, preferindo decidir isso por uma disputa.
Durante o jogo, João manteve-se atento e concentrado, acatou todas as regras por ele propostas, mostrando-me conhecer a lei e saber a maneira supostamente correta de se apresentar em situações desconhecidas. Entendi tal comportamento como uma forma cautelosa de se relacionar com os outros e de ser aceito.
João: “Eu mexi?”
Marizilda: “Eu não vi, acho que não.” João: “Humm..., agora mexi, é você.”
O jogo transcorreu normalmente, até que, em determinado momento, João alterou uma regra. Essa alteração, entretanto, era algo que favorecia a ambos, a ele e a mim.
João: “É melhor a gente fazer assim, quando mexe a gente tira o que mexeu.”
Marizilda: “Como é? O que a gente mexeu a gente tira?”
João: “É. Só falta pouco. Acabei, vamos contar, acho que você ganhou.” João mostrava uma competitividade socializada e um grande envolvimento com o jogo. Estava satisfeito com nossa disputa.
João manifestou grande dificuldade para contar os pontos e foi necessária minha interferência para que essa se realizasse a contento.
João: “Cento e quarenta e cinco, cento e ... cinqüenta e não, sessenta , tá certo?”
Marizilda: “São 165, o azul vale 20, né? João: “É. 175, 180, agora, 185...”
Marizilda: “Mas, o amarelo não vale 15?” João: “Vale.”
Marizilda: “Então não são 185?”
João: “Ah, é 195, 200, 205, acabou. Fiz 205, e você?
João manifestou dificuldade para fazer cálculos, para somar. Perguntei-me como seria isso na escola, já que estava aprendendo matérias mais complexas e não sabia efetuar corretamente as operações básicas.
João perdeu o jogo e me propôs recomeçarmos.
João: “Não falei? Você ganhou. Vamos jogar de novo?” Marizilda: “Vamos.”
João: “Agora você joga.” Marizilda: “Tá bom.” João: “Par.”
Marizilda: “Impar.”
João: “Seis, par, ganhei! Tudo o contrário da outra vez.”
Marizilda: “Acho que você quer dizer que desta vez você vai ganhar.” João: “Não sei, né?”
Marizilda: “Você não gostou de perder, mas não me pareceu que ficou bravo por causa disso.”
João: “Não fiquei mesmo, só fico com vontade de ganhar dessa vez. Agora tá difícil, acho que eu vou por baixo. Eh! Não deu, mexi.”
Marizilda: “Minha vez. Nossa tá difícil mesmo. Acho que eu vou tirar esse daqui, olhando aqui, ele parece estar solto. Ih! Não estava solto nada, errei.” João: “Agora eu.”
(Silêncio)
Marizilda: “Dessa vez você pegou muitos.” João: “Mas será que você ainda tem mais?” Marizilda: “Acho que não.”
João: “É, eu tenho o preto e ele vale mais, vale 50 né? Por isso que eu fiz aquela manobra pra tirar o preto. Quem tira o preto ganha.”
Marizilda: “Será que é sempre assim?”
João: “Sempre, sempre, não. Mas quem tem o preto quase sempre ganha. Mexi.”
Marizilda: “Agora ficou fácil pra mim, você tirou o que estava em cima. Fácil nada, olha o que eu fiz, mexi.”
João: “Ficou fácil pra mim agora, eh... igual você, mexi, é melhor a gente não falar que tá fácil, não dá certo.”
Marizilda: “Errei.”
João: “Vou acabar. Acabei.”
(Começamos a contar os pontos e novamente João demora e, demonstrando muita dificuldade começa a contar em voz alta)
João: “75, 80, não, 90, 95, 105, não, cento e ... 110, 15, 115, 120, cento e ... 130, não, 135, 150, não, 40, não, 50, 155, e ... quanto era mesmo?”
Marizilda: “155.”
João: “Ah! é 155, com mais 15... cento e ... 170, mais 20, cento e ... , 190, 195.”
Marizilda: “Acho que está errado João, você já tinha 190 com mais 15...” João: “Ah! É, 190 mais quinze, 200, 205, né?”
(Balanço a cabeça afirmativamente) João: “210, 220, 230, 240, 250, 260, 270...”
(João passa a contar os palitos verdes de dois em dois) João: “280, 290, 300, 310, 320, 330, 340, 340, e você?” Marizilda: “200, você ganhou.”
Toda essa seqüência confirmou a dificuldade de João para fazer cálculos, mas chamou-me a atenção o fato de João aceitar com tanta naturalidade a frustração da perda. Essa não era uma realidade compatível com aquela trazida pela mãe. Ao contrário, Marta havia dito que João não suportava perder e os fatos de ter poucos amigos e a grande dificuldade de mantê-los estavam relacionados a isso.
Eram duas as hipóteses para o assunto que eu compartilharia com a mãe, assim que possível: a primeira era que talvez João tivesse agido desse modo por não me conhecer bem, talvez tudo fosse diferente quando me conhecesse melhor. A segunda era o fato de que a competição, com garotos da mesma idade, pudesse trazer mais ameaça do que a competição com uma pessoa mais velha, como era meu caso. De qualquer maneira, o episódio mostrava que João era conhecedor de regras e capaz de se controlar e que, se não o fazia em algumas ocasiões, isso deveria estar relacionado ao ambiente em que vivia. A seguir, João pediu-me para jogar novamente, mas como isso não era possível por falta de tempo, sugeri a ele uma inversão no atendimento: se sua mãe estivesse de acordo, eu o atenderia na semana seguinte e postergaria o atendimento a ela.
João concordou e nos despedimos.