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irmão brigam freqüentemente e que, em sua opinião o irmão tem ciúme de João e por essa razão o maltrata.

Na entrevista de anamnese, contou que João é o terceiro de três filhos e que não foi uma criança planejada pelo casal, uma vez que estavam construindo uma casa e a situação financeira era difícil. Contudo, foi a melhor gravidez que teve, não se lembrando de nenhum pensamento adverso em relação ao parto ou à criança.

João nasceu de parto cesariano, sem nenhuma intercorrência. A mãe desejava, durante a gravidez, que fosse uma menina e, mesmo fazendo duas ultra-sonografias, que não confirmaram seu desejo, só acreditou que era um menino após o nascimento. Quanto ao marido, não esboçou nenhuma reação inicial em relação à criança, embora hoje seja bastante apegado ao filho.

O garoto dormiu no quarto dos pais até os oito anos, e segundo a mãe, atrapalhava a relação do casal, mas ambos sabiam lidar com isso.

Foi amamentado por um mês, data a partir da qual foi introduzida a mamadeira, mantida até os nove meses. Aos quatro meses iniciou outro tipo

de alimentação e, aos nove meses já comia de tudo, tendo sempre se alimentado bem. Atualmente exagera na alimentação e é repreendido pela mãe, que não consegue contê-lo.

Tem sono agitado até hoje, falando bastante durante a noite.

De acordo com Marta, seu desenvolvimento psicomotor foi bastante precoce, andando por volta dos sete ou oito meses e falando na mesma época. Quando começou a falar trocava algumas letras, mas hoje fala corretamente.

O controle esfincteriano anal e vesical foi feito aos nove meses, segundo a mãe. Usou chupeta até um ano, sendo que, nessa época, Marta jogou-a fora, na frente do menino, que nunca mais a solicitou. Não refere tiques.

Disse que João faz amizades com facilidade, mas não as mantém. Gosta de liderar nas brincadeiras e não suporta quando outros assumem esta posição.

A mãe nega curiosidade sexual.

Quanto à escolaridade, João cursa a sexta série do ensino fundamental e a mãe não refere problemas escolares atuais, apenas certa dificuldade em matemática. Atribui essa dificuldade ao fato de ser preguiçoso, porém enfatiza sua inteligência e capacidade para aprender. Nega doenças anteriores, apesar de relatar vários acidentes: um, no qual cai de uma laje alta e bate a cabeça, outro, em que bate o rosto no guarda-chuva e perde quase totalmente a visão de um olho e um terceiro, em que é mordido por um cachorro. Nos três casos, a mãe considera que o garoto era muito agitado e que não se podia descuidar dele por nem um segundo, pois isso geralmente implicava um acidente.

Durante a entrevista sobre a religiosidade, Marta deixou claro que tivera uma infância difícil, no interior do Nordeste, com poucos recursos e pouco afeto. Foi possível notar que, mediante a isso ela cresceu com ressentimentos e foi adotando, ao longo da vida, atitudes censuráveis, segundo suas atuais crenças e conceitos. Até certo período de vida definiu- se como uma pessoa de pouca responsabilidade, que não se mostrava capaz de sensibilizar-se com o outro. Ao contrário, traçou um perfil de si própria como uma pessoa que busca a satisfação imediata de seus desejos, sem dar muita importância para os sentimentos dos outros ou para a dor que pode lhes causar. Entretanto, a partir do momento em que adotou a religião católica carismática, sua vida se modificou e ela passou a ser outra pessoa. Modificou seu comportamento, passou a se importar mais com os outros, a cuidar dos filhos e da própria família e adquiriu conceitos muito mais rígidos sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que é pecado e o que não é pecado. Nessa época, João tinha quatro anos e foi quando se iniciaram os sintomas que persistem até hoje.

Durante o processo de Psicodiagnóstico, Marta percebeu que, por seus comportamentos contribuía para que João se mantivesse infantilizado e regredido. Ficou claro, para ela, que tinha o desejo de que o menino continuasse criança, em virtude de suas crenças religiosas, atreladas a sua própria história de vida. Marta acredita que as crianças não pecam, não sofrem e são sempre abençoadas, ao passo que, com os adultos, ocorre o oposto.

Quando da visita domiciliar, foi possível perceber que João tem um funcionamento muito parecido ao de sua mãe, que procura denunciar aquilo

que não considera correto, independente do fato de que isso possa magoar as pessoas. A influência da religião, ou melhor, dos conceitos religiosos, na vida familiar, tornou-se algo concreto, manifesto por imagens e vela acesa diante delas, na sala da casa, local onde fui recebida. Também se delinearam com maior clareza o tratamento infantilizado dado por Marta a seu filho João e o desejo do filho de agradar-lhe, obter sua aprovação e, em conseqüência, seu amor.

Em contato com a escola, percebi que João apresenta dificuldades de aprendizagem e comportamento inadequado em sala de aula. Contudo, essa parece ser a realidade da escola e não uma questão exclusiva de João. Problemas sociais e o próprio sistema educacional do país parecem limitar as possibilidades de João e agravar suas dificuldades.

Nas sessões com João notei que, inicialmente, ele adotou um comportamento reservado que posteriormente é substituído por atitudes cordiais e cooperativas. Comunicou-se com facilidade, conhecia as regras de convívio social e, no contato comigo, mostrou-se capaz de tolerar a frustração, fato que, segundo sua mãe, não é freqüente em sua vida cotidiana.

João mostrou bom raciocínio verbal, e suas histórias foram sempre finalizadas de maneira satisfatória. Utilizou-se de um vocabulário razoavelmente amplo e foi bastante rápido na produção verbal.

Apesar disso, João parecia vivenciar suas experiências de forma bastante regredida, e o conteúdo de suas histórias não é o esperado para sua faixa etária. Parecia perceber a vida de forma fantasiosa, evidenciando pensamentos mágicos em relação à solução de problemas. Nesse sentido,

acaba se distanciando da realidade e criando um mundo fantasioso e não compartilhado, no qual se refugia em momentos de aflição, onde tudo dá certo.

Apresentou uma visão maniqueísta do mundo e das pessoas, ou seja, elas são ou totalmente boas ou totalmente ruins. Essas idéias pareciam estar vinculadas a conceitos religiosos rígidos e arraigados.

Esse modo de conceber a vida parecia impedi-lo de crescer, mantendo-o por um lado, paralisado e impossibilitado de acompanhar as atividades adequadas a sua idade, mas por outro, lado livre de qualquer culpa ou de qualquer possibilidade de cometer erros.

Demonstrou rivalizar com o irmão, tentando distanciá-lo da mãe, por sentir ciúme dessa relação.

Denotou forte ligação com a figura materna, sendo bastante dependente dela. Desse modo, é possível pensar que João manifeste dificuldade em crescer, já que crescer implica cometer erros e esses podem fazê-lo perder o amor de Deus e da figura materna, condenando-o a um triste destino.

A figura paterna é percebida como pouco atuante e submissa.

João obteve no teste de WISC um QI total pouco abaixo do esperado para a idade, ocorrendo o mesmo com os QIs verbal e execução, embora houvesse uma discrepância entre ambos, ou seja, teve seu melhor desempenho nas provas que exigem raciocínio verbal. Esse fato foi confirmado pelo QI obtido em comp. verbal, que se encontra dentro da faixa de normalidade. Do ponto de vista da organização perceptiva, apresentou um ligeiro déficit, embora revelasse boa atuação quando deve executar atividades que exijam atenção/concentração.

Os resultados obtidos nos subtestes foram heterogêneos.

No que se refere a provas verbais, João revelou capacidade para reter informações provenientes do meio ambiente, sendo capaz de abstrair e generalizar conceitos. Mostrou grande dificuldade para utilização de raciocínio lógico-numérico e apresentou também certa dificuldade de julgamento diante de situações práticas do cotidiano, sendo isso indicativo de comportamento dependente e imaturo. Apresentou boa capacidade de raciocínio verbal, conhecia a função dos objetos e possui vocabulário adequado.

Quanto a provas de execução, o garoto revelou relativa capacidade para perceber minúcias e detalhes essenciais num todo organizado, bem como para organizar o todo a partir das partes, mediante um modelo anteriormente organizado e interiorizado. Conseguiu um excelente desempenho ao exercer atividades que exijam atenção e concentração. Apresentou certa dificuldade quando deve formar o todo a partir das partes estabelecendo seqüência entre as mesmas. Seu desempenho foi insatisfatório para a idade, no que diz respeito à capacidade de análise e síntese e à coordenação viso-motora-fina, quando aliada à rapidez e à precisão. Apesar disso, conseguiu um excelente desempenho ao exercer atividades que exijam atenção/concentração.

Parece tratar-se de criança com bom potencial intelectual, mas com dificuldades afetivo-emocionais ligadas à relação com a figura materna, impedem seu pleno desenvolvimento.

Pelo exposto João será encaminhado para Processo de Psicoterapia. Acredito que o processo lhe será benéfico, fazendo com que amadureça e amplie sua capacidade no plano percepto-motor. Marta

também foi encaminhada a Psicoterapia para que possa trabalhar melhor suas experiências de vida e possa viver sua religiosidade de forma mais saudável, sem que essa precise ocupar o lugar de repressora de impulsos e desejos.

Marta não fez nenhuma interrupção enquanto eu lia o relatório, parecia atenta e balançava a cabeça com freqüência, em sinal de concordância. Após a leitura, perguntei-lhe se ela concordava com o que havia escrito ao que me respondeu afirmativamente, que estava “claro feito água”, e quis saber como eu tinha feito aquilo, como podia lembrar-me de tudo. Informei-a de que prestava atenção ao que ela falava e lembrei-a, de que, além disso, eu havia gravado as sessões.

Minha sensação era que Marta queria me dizer que nunca houvera alguém que a tivesse ouvido com tanta atenção e ela se mostrava surpresa por essa razão.

A sessão foi finalizada, desejei-lhe sorte e reforcei a idéia de que poderia telefonar-me, caso tivesse alguma dúvida em relação ao encaminhamento.